Esquerda modista não está nem aí para novo Amarildo
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Quem
lamentará o destino do frentista João Paulo? Ele está desaparecido
desde o dia 30 de setembro. Câmeras registram o momento em que três
policiais militares de Fortaleza o colocam na viatura. Nunca mais foi
visto.
O caso é similar ao do pedreiro Amarildo, no Rio.
Amarildo Dias de Souza, morador da Rocinha, foi detido na porta de sua
casa, em julho de 2013, para ser levado à sede da Unidade de Polícia
Pacificadora. Sumiu.
João Paulo de Sousa Rodrigues possuía um
sobrenome – Sousa – idêntico ao de Amarildo. Este, Souza. Com “z”. Mas
sem que seu sequestro pelo próprio Estado tenha gerado alguma comoção.
Mesmo tendo sido noticiado pelo Jornal Nacional:
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/10/tres-policias-suspeitos-sao-presos-por-desaparecimento-de-frentista-no-ceara.html
Por anos pensamos e escrevemos que a falta de notícias nos
principais veículos de comunicação era um problema central na
perpetuação de nossa desigualdade. “Ah, se todo mundo soubesse...” Mas e
quando um caso importante vira notícia no principal jornal da Globo e
passa despercebido?
O título deste artigo se refere à
indiferença específica da esquerda modista. Essa Esquerda Amarildo
Guarani Kaiowá, com suas indignações sazonais, seu culto a ondas
meméticas de suposta conscientização e comiseração coletiva. Esquerda
movida a arroubos. Modinha. Engraçadinha.
Claro que o
desaparecimento de um cidadão sob as asas do Estado não deveria ser um
tema apenas daqueles que se consideram de esquerda. Qualquer um com um
mínimo de noção democrática deveria estar perplexo. (Imaginem se o filho
de um governador tivesse sido sequestrado.)
Longe disso: João
Paulo continua invisível. Se nem aqueles mais acostumados a denunciar a
violência policial, ou os mais cientes de que há um genocídio da
juventude pobre (e negra), dão a ele alguma atenção, o que esperar dos
demais? Apenas shows adicionais de despolitização.
A não ser que
a foto de João Paulo se torne um meme. Ou quando ela ganhe gradações
cromáticas, quando for veiculada sua foto como criança. Quando criarem
uma hashtag muito legal. #cadêJoãoPaulo #ondeestáJoãoPaulo
#somostodosfrentistas
Ou os manifestantes de 2013 apenas surfaram na imagem de Amarildo?
Outra
pergunta: o que o governador Camilo Santana (PT) tem a dizer sobre o
desaparecimento do frentista? (Desta vez não foi a polícia do Cabral.
Nem a do Pezão. Já tivemos Copa e o governador pertence ao Partido dos
Trabalhadores.)
Algo está muito invertido neste país. É mais
fácil vermos uma pichação racista no banheiro de uma universidade
paulistana ser replicada – divulgando a mensagem do racista – do que
indagações sobre o desaparecimento de um jovem. Que nem sabemos se ainda
está vivo.
João Paulo morreu de antemão. Simbolicamente.
Duplamente sequestrado, em plena democracia (essa espécie de democracia
do entretenimento), por policiais cearenses e por nossa insustentável
frivolidade.
LEIA MAIS:
Uma democracia com grupos de extermínio. Em Osasco somente? Não. Por todo o país
TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
jornalismo, geografia, literatura, cinema. Utopia, resistência. 'Indignem-se!' (Stéphane Hessel). 'Nem tudo é sórdido' (Ernesto Sabato - 1911-2011)
Mostrando postagens com marcador #violenciapolicial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #violenciapolicial. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Como os jornalistas devem cobrir a política de extermínio?
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Acabo de ver o Profissão Repórter de ontem, sobre chacina em Osasco/Barueri. Após recomendações. Infelizmente, porém, constato que Caco Barcellos - um jornalista que respeitamos - desta vez errou na mão. Conseguiu uma boa notícia: houve outra chacina na região, uma semana antes dessa que teve repercussão nacional. Mas a reportagem resvala em um sensacionalismo que não é próprio do repórter. http://g1.globo.com/…/osasco-teve-serie-de-assassinatos-dia…
Os primeiros 25 minutos têm muito sangue, exploração excessiva da dor dos parentes. Há momentos que poderiam estar naqueles pseudojornais (Band, Record) do fim de tarde. Chega a ser constrangedor ver um dos melhores jornalistas do país permitir uma edição como essa, meio que na linha aqui-e-agora. Essa superficialidade é agravada pela característica do próprio programa, onde os repórteres também se tornam personagens. Não era o caso.
Há um problema metodológico na abordagem. Sim, jornalismo também tem método. Ou pelo menos deveria. E o problema é que a notícia não estava somente na exploração dos cenários do crime, onde nem sempre as pessoas se sentem à vontade para falar o que gostariam. Lembremos que estamos falando de grupos de extermínio. Quem nas periferias pode dizer tudo o que pensa?
A notícia está na perspectiva histórica. No fato de crimes como esse se sucederem ao longo do tempo, sem punição adequada. E sem comoção nacional. Está no fato de que teremos outros episódios similares. Está na cobrança do poder público pela falta de apuração, e pela participação central de policiais nos crimes. A dor dos parentes e a história dos mortos deveria compor uma história maior - se queremos mesmo respeitar essa dor e essas biografias.
A Câmara acabou de ter uma CPI do Extermínio da Juventude Negra. Com recomendações ao poder público. Por que não repercuti-la? Tempo para apuração, havia. Em 2006 tivemos uma CPI do Extermínio no Nordeste. Muito pouco, se pensarmos que os grupos de extermínio agem - como mostrei no sábado - em todas as Unidades da Federação: http://alceucastilho.blogspot.com.br/…/uma-democracia-com-g…. Cabe aos jornalistas amplificar e contextualizar esse tipo de informação.
A Globo tem estrutura para isso. E um jornalismo (apesar de tudo) melhor que o das concorrentes. Caco Barcellos é exatamente um dos caras mais indicados para a tarefa. Mas, desta vez, não fez jus à carreira brilhante. Parece acomodado. Não há coragem, Caco, em expor litros de sangue na calçada. Você sabe disso. E sim em colocar em evidência a participação de policiais civis e militares num pacote de crimes (não se trata apenas de vingança) que resultam nas execuções.
Faltou ouvir especialistas em segurança pública. E em execuções. Faltou ouvir o governo estadual. Faltou ouvir as Mães de Maio. Faltou convidar a turma da Ponte Jornalismo, que entende do assunto. A pena de morte instantânea está institucionalizada no Brasil. E convida os jornalistas brasileiros a uma cobertura mais sistemática, com a mencionada perspectiva histórica. Menos choro e menos vela, e mais jornalismo analítico, investigativo. Menos show, mais ousadia.
A escravidão foi supostamente abolida em 1888. Os tataranetos dos escravos continuam a ser regularmente executados. E precisamos de novas abolições: da tortura, do extermínio, da violência policial. Que é movida não só por desejos tresloucados de vingança, mas também por interesses econômicos. Pelo crime organizado - aquele com farda e distintivo. Sem a participação responsável e corajosa de jornalistas, nada feito. Seguiremos sendo cúmplices.
LEIA MAIS:
Uma democracia com grupos de extermínio. Em Osasco somente? Não. Por todo o país
TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Acabo de ver o Profissão Repórter de ontem, sobre chacina em Osasco/Barueri. Após recomendações. Infelizmente, porém, constato que Caco Barcellos - um jornalista que respeitamos - desta vez errou na mão. Conseguiu uma boa notícia: houve outra chacina na região, uma semana antes dessa que teve repercussão nacional. Mas a reportagem resvala em um sensacionalismo que não é próprio do repórter. http://g1.globo.com/…/osasco-teve-serie-de-assassinatos-dia…
Os primeiros 25 minutos têm muito sangue, exploração excessiva da dor dos parentes. Há momentos que poderiam estar naqueles pseudojornais (Band, Record) do fim de tarde. Chega a ser constrangedor ver um dos melhores jornalistas do país permitir uma edição como essa, meio que na linha aqui-e-agora. Essa superficialidade é agravada pela característica do próprio programa, onde os repórteres também se tornam personagens. Não era o caso.
Há um problema metodológico na abordagem. Sim, jornalismo também tem método. Ou pelo menos deveria. E o problema é que a notícia não estava somente na exploração dos cenários do crime, onde nem sempre as pessoas se sentem à vontade para falar o que gostariam. Lembremos que estamos falando de grupos de extermínio. Quem nas periferias pode dizer tudo o que pensa?
A notícia está na perspectiva histórica. No fato de crimes como esse se sucederem ao longo do tempo, sem punição adequada. E sem comoção nacional. Está no fato de que teremos outros episódios similares. Está na cobrança do poder público pela falta de apuração, e pela participação central de policiais nos crimes. A dor dos parentes e a história dos mortos deveria compor uma história maior - se queremos mesmo respeitar essa dor e essas biografias.
A Câmara acabou de ter uma CPI do Extermínio da Juventude Negra. Com recomendações ao poder público. Por que não repercuti-la? Tempo para apuração, havia. Em 2006 tivemos uma CPI do Extermínio no Nordeste. Muito pouco, se pensarmos que os grupos de extermínio agem - como mostrei no sábado - em todas as Unidades da Federação: http://alceucastilho.blogspot.com.br/…/uma-democracia-com-g…. Cabe aos jornalistas amplificar e contextualizar esse tipo de informação.
A Globo tem estrutura para isso. E um jornalismo (apesar de tudo) melhor que o das concorrentes. Caco Barcellos é exatamente um dos caras mais indicados para a tarefa. Mas, desta vez, não fez jus à carreira brilhante. Parece acomodado. Não há coragem, Caco, em expor litros de sangue na calçada. Você sabe disso. E sim em colocar em evidência a participação de policiais civis e militares num pacote de crimes (não se trata apenas de vingança) que resultam nas execuções.
Faltou ouvir especialistas em segurança pública. E em execuções. Faltou ouvir o governo estadual. Faltou ouvir as Mães de Maio. Faltou convidar a turma da Ponte Jornalismo, que entende do assunto. A pena de morte instantânea está institucionalizada no Brasil. E convida os jornalistas brasileiros a uma cobertura mais sistemática, com a mencionada perspectiva histórica. Menos choro e menos vela, e mais jornalismo analítico, investigativo. Menos show, mais ousadia.
A escravidão foi supostamente abolida em 1888. Os tataranetos dos escravos continuam a ser regularmente executados. E precisamos de novas abolições: da tortura, do extermínio, da violência policial. Que é movida não só por desejos tresloucados de vingança, mas também por interesses econômicos. Pelo crime organizado - aquele com farda e distintivo. Sem a participação responsável e corajosa de jornalistas, nada feito. Seguiremos sendo cúmplices.
LEIA MAIS:
Uma democracia com grupos de extermínio. Em Osasco somente? Não. Por todo o país
TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
sábado, 15 de agosto de 2015
Uma democracia com grupos de extermínio. Em Osasco somente? Não. Por todo o país
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Segue um exemplo (entre muitos outros) por Unidade da Federação. Boa parte das notícias é de 2015.
TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Segue um exemplo (entre muitos outros) por Unidade da Federação. Boa parte das notícias é de 2015.
ACRE. "Agentes penitenciários denunciam ação de grupo de extermínio". http://bit.ly/…/…/agentes-penitenciarios-denunciam-acao.html (2015)
ALAGOAS. "Integrante de grupo de extermínio chefiou Guarda Municipal". http://tnh1.ne10.uol.com.br/…/pilar-integrante-de-grupo-de-… (2015)
AMAPÁ. "Prisão de comerciantes revela existência de grupo de extermínio de assaltantes". http://g1.globo.com/…/prisao-de-comerciantes-revel…/2670032/ (2013)
AMAZONAS. "Grupo de extermínio liderado por policial militar reformado é preso". http://acritica.uol.com.br/…/Manaus-Amazonas-Amazonia-exter… (2015)
BAHIA. "Jovens negros na mira de grupos de extermínio". http://apublica.org/…/jovens-negros-na-mira-de-grupos-de-e…/ (2013)
CEARÁ. "Há grupo de extermínio dentro da PM do Ceará". http://blog.opovo.com.br/…/capitao-wagner-ha-grupo-de-exte…/ (2012)
DISTRITO FEDERAL. "Polícia do DF investiga participação de PMs em morte de três jovens". http://g1.globo.com/…/policia-do-df-investiga-participacao-… (2012)
ESPÍRITO SANTO. "Polícia investiga volta da Le Cocq". http://www.folhavitoria.com.br/…/policia-investiga-volta-d…/ (2015)
GOIÁS. "Rodrigo Janot vai acompanhar investigações de grupos de extermínio". http://www.correiobraziliense.com.br/…/rodrigo-janot-vai-ac… (2015)
MARANHÃO. "Quilombolas denunciam grupos de extermínio". http://www.palmares.gov.br/?p=12334 (2011)
MATO GROSSO. "Polícia também investiga grupo de extermínio em Sinop; Sete são baleados em menos de uma hora". http://www.hipernoticias.com.br/…/policia-tambem-inve…/47165 (11 de agosto de 2015)
MATO GROSSO DO SUL. "Coronel da PM suspeito de mortes é vereador". http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/8/24/cotidiano/30.html (1997)
MINAS GERAIS. "PM eleito vereador é preso suspeito de chefiar grupo de extermínio". http://g1.globo.com/…/pm-eleito-vereador-e-preso-suspeito-d… (2013)
PARÁ. "PMs são acusados de facilitar trabalho de grupo de extermínio no Pará". http://www1.folha.uol.com.br/…/1618241-pms-sao-acusados-de-… (2015)
PARAÍBA. "Grupo de extermínio intimida Júri na Paraíba". http://colunaesplanada.blogosfera.uol.com.br/…/caso-manoel…/ (2014)
PARANÁ. "PMs de Curitiba são presos suspeitos de formar grupo de extermínio". http://g1.globo.com/…/pms-de-curitiba-sao-presos-suspeitos-… (2014)
PERNAMBUCO. "Três PMs são presos por integrar grupo de extermínio no Sertão de PE". http://g1.globo.com/…/tres-pms-sao-presos-por-integrar-grup… (2015)
PIAUÍ. "Grupo de extermínio pode estar agindo em Teresina e envolvido na morte de Eduardo Oliveira". http://www.meionorte.com/…/grupo-de-exterminio-pode-estar-a… (2015)
RIO DE JANEIRO. "Grupo de extermínio era financiado por centrais de 'gatonet', diz PF". http://g1.globo.com/…/grupo-de-exterminio-era-financiado-po… (2010)
RIO GRANDE DO NORTE. "Dezessete policiais são presos suspeitos de grupo de extermínio no RN". http://noticias.r7.com/…/dezessete-policiais-sao-presos-sus… (2013)
RIO GRANDE DO SUL. "Júri de ex-PM acusado de integrar grupo de extermínio em Alvorada é cancelado". http://wp.clicrbs.com.br/casodepoli…/…/grupo-de-exterminio/… (2015)
RONDÔNIA. "Latifúndio contrata PMs para exterminar camponeses". http://www.anovademocracia.com.br/…/2726-rondonia-latifundi…
RORAIMA. "Grupo de extermínio pode ser autor das últimas mortes em Boa Vista". http://www.fatoreal.blog.br/…/assassinatos-em-rr-grupo-de-…/ (2013)
SANTA CATARINA. "Polícia prende grupo de extermínio que atuava em Chopinzinho". (No Paraná. Mas também em Santa Catarina.) http://www.diariodosudoeste.com.br/…/policia-prend…/1346548/ (2015)
SÃO PAULO. "Em cada batalhão da PM tem um grupo de extermínio". http://racismoambiental.net.br/…/em-cada-batalhao-da-pm-te…/ (2012)
SERGIPE. "PF prende 11 suspeitos de integrar grupos de extermínio". http://noticias.uol.com.br/…/pf-prende-11-suspeitos-de-inte… (2015)
TOCANTINS. "Delegado que investigou grupo de extermínio de Grurupi é exonerado". http://www.t1noticias.com.br/…/delegado-que-investig…/46803/ (2013)
***
Dica: abra os links e veja nas chamadas as motivações. As redes. Não seja ingênuo. Não estamos numa luta entre mocinhos e bandidos. O crime organizado também usa farda. Ou distintivo.
Pergunta: por que esse não é um tema prioritário da imprensa? Com cobertura sistemática, e não ocasional? Editoriais, artigos indignadíssimos, cobrança diária? Por que tamanha distração?
Consideração: se você pactua com tudo isso (de posts na internet a selfies ingênuas), meu amigo, saiba que essa gente mata qualquer um. Se liga. Osasco é aqui. Brasil.
ALAGOAS. "Integrante de grupo de extermínio chefiou Guarda Municipal". http://tnh1.ne10.uol.com.br/…/pilar-integrante-de-grupo-de-… (2015)
AMAPÁ. "Prisão de comerciantes revela existência de grupo de extermínio de assaltantes". http://g1.globo.com/…/prisao-de-comerciantes-revel…/2670032/ (2013)
AMAZONAS. "Grupo de extermínio liderado por policial militar reformado é preso". http://acritica.uol.com.br/…/Manaus-Amazonas-Amazonia-exter… (2015)
BAHIA. "Jovens negros na mira de grupos de extermínio". http://apublica.org/…/jovens-negros-na-mira-de-grupos-de-e…/ (2013)
CEARÁ. "Há grupo de extermínio dentro da PM do Ceará". http://blog.opovo.com.br/…/capitao-wagner-ha-grupo-de-exte…/ (2012)
DISTRITO FEDERAL. "Polícia do DF investiga participação de PMs em morte de três jovens". http://g1.globo.com/…/policia-do-df-investiga-participacao-… (2012)
ESPÍRITO SANTO. "Polícia investiga volta da Le Cocq". http://www.folhavitoria.com.br/…/policia-investiga-volta-d…/ (2015)
GOIÁS. "Rodrigo Janot vai acompanhar investigações de grupos de extermínio". http://www.correiobraziliense.com.br/…/rodrigo-janot-vai-ac… (2015)
MARANHÃO. "Quilombolas denunciam grupos de extermínio". http://www.palmares.gov.br/?p=12334 (2011)
MATO GROSSO. "Polícia também investiga grupo de extermínio em Sinop; Sete são baleados em menos de uma hora". http://www.hipernoticias.com.br/…/policia-tambem-inve…/47165 (11 de agosto de 2015)
MATO GROSSO DO SUL. "Coronel da PM suspeito de mortes é vereador". http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/8/24/cotidiano/30.html (1997)
MINAS GERAIS. "PM eleito vereador é preso suspeito de chefiar grupo de extermínio". http://g1.globo.com/…/pm-eleito-vereador-e-preso-suspeito-d… (2013)
PARÁ. "PMs são acusados de facilitar trabalho de grupo de extermínio no Pará". http://www1.folha.uol.com.br/…/1618241-pms-sao-acusados-de-… (2015)
PARAÍBA. "Grupo de extermínio intimida Júri na Paraíba". http://colunaesplanada.blogosfera.uol.com.br/…/caso-manoel…/ (2014)
PARANÁ. "PMs de Curitiba são presos suspeitos de formar grupo de extermínio". http://g1.globo.com/…/pms-de-curitiba-sao-presos-suspeitos-… (2014)
PERNAMBUCO. "Três PMs são presos por integrar grupo de extermínio no Sertão de PE". http://g1.globo.com/…/tres-pms-sao-presos-por-integrar-grup… (2015)
PIAUÍ. "Grupo de extermínio pode estar agindo em Teresina e envolvido na morte de Eduardo Oliveira". http://www.meionorte.com/…/grupo-de-exterminio-pode-estar-a… (2015)
RIO DE JANEIRO. "Grupo de extermínio era financiado por centrais de 'gatonet', diz PF". http://g1.globo.com/…/grupo-de-exterminio-era-financiado-po… (2010)
RIO GRANDE DO NORTE. "Dezessete policiais são presos suspeitos de grupo de extermínio no RN". http://noticias.r7.com/…/dezessete-policiais-sao-presos-sus… (2013)
RIO GRANDE DO SUL. "Júri de ex-PM acusado de integrar grupo de extermínio em Alvorada é cancelado". http://wp.clicrbs.com.br/casodepoli…/…/grupo-de-exterminio/… (2015)
RONDÔNIA. "Latifúndio contrata PMs para exterminar camponeses". http://www.anovademocracia.com.br/…/2726-rondonia-latifundi…
RORAIMA. "Grupo de extermínio pode ser autor das últimas mortes em Boa Vista". http://www.fatoreal.blog.br/…/assassinatos-em-rr-grupo-de-…/ (2013)
SANTA CATARINA. "Polícia prende grupo de extermínio que atuava em Chopinzinho". (No Paraná. Mas também em Santa Catarina.) http://www.diariodosudoeste.com.br/…/policia-prend…/1346548/ (2015)
SÃO PAULO. "Em cada batalhão da PM tem um grupo de extermínio". http://racismoambiental.net.br/…/em-cada-batalhao-da-pm-te…/ (2012)
SERGIPE. "PF prende 11 suspeitos de integrar grupos de extermínio". http://noticias.uol.com.br/…/pf-prende-11-suspeitos-de-inte… (2015)
TOCANTINS. "Delegado que investigou grupo de extermínio de Grurupi é exonerado". http://www.t1noticias.com.br/…/delegado-que-investig…/46803/ (2013)
***
Dica: abra os links e veja nas chamadas as motivações. As redes. Não seja ingênuo. Não estamos numa luta entre mocinhos e bandidos. O crime organizado também usa farda. Ou distintivo.
Pergunta: por que esse não é um tema prioritário da imprensa? Com cobertura sistemática, e não ocasional? Editoriais, artigos indignadíssimos, cobrança diária? Por que tamanha distração?
Consideração: se você pactua com tudo isso (de posts na internet a selfies ingênuas), meu amigo, saiba que essa gente mata qualquer um. Se liga. Osasco é aqui. Brasil.
TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Quem matou MC Daleste? (Uma reflexão sobre polícia, cultura, periferias e violência.)
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Uma estrela do funk, MC Daleste, morreu baleada durante show em Campinas, no sábado. Enquanto falava de um enquadro policial. Ou seja, de uma batida ostensiva, de um baculejo, tão comum nas periferias. Aquelas abordagens truculentas que atingem os mais pobres, preferencialmente os negros. Marcados diariamente pela humilhação e pela ameaça.
Cortemos agora para uma música do MC Daleste, "Apologia". Sobre a rotina de um assaltante: Frase-chave: "Fala pra nois quem é o poder/ matar os polícia é a nossa meta".
Leio no Correio da Bahia que, em um dos posts sobre a morte do músico no Facebook, alguém comemora sua morte e transcreve um trecho dessa letra. O comentário tinha recebido 200 "curtidas". Como? Duzentas pessoas comemoraram a execução do artista por ele ter escrito música contra a polícia? (E nem estamos aqui a falar dos outros milhares de bárbaros que comemoraram a morte porque ele era funkeiro.)
Basta ler os comentários nessa página da música, no portal Terra, para ver mais gente celebrando o que consideram uma vingança. Por exemplo: “Um tiro foi pouco, esse tá lá no inferno vendo milhares rindo da morte dele”. Ou então: “Eu vou ser policial. Quer matar polícia? Se fudeu, peba. Bandido bom é bandido morto”. E assim por diante.
Isso significa que foi alguém ligado à polícia, ou dela um defensor cego, que efetuou o disparo? Não é possível afirmar isso. Pode até ter sido alguém se aproveitando desse contexto, para disfarçar um crime comum. Pode ter sido qualquer assassino, qualquer covarde. Mas é possível afirmar – e lamentar – que a hipótese de ação de um grupo de extermínio seja perfeitamente verossímil.
(Os jornais cariocas, curiosamente, exploraram mais o detalhe do enquadro policial, instantes antes de MC Daleste ser baleado, que os paulistas.)
Não se trata aqui – e muito longe disso - de defender esta ou aquela letra. Será sempre injustificável, numa sociedade minimamente sadia, a defesa de crime contra a vida. Se dissesse isso numa entrevista (e um jornalista sério perguntaria a ele se concordava com a letra), seria processado. Numa letra? Um tema para pessoas especializadas, juristas. Mas também para sociólogos.
O fato é que, mesmo sendo considerada uma apologia ao crime, a solução mais absurda para defensores da vida de policiais (e todos os defensores de direitos humanos o são) seria a execução do letrista. Solução paradoxal, inclusive, por se tratar de outro crime. Que só gerará mais violência. Mas a realidade das periferias é assim: absurda e violentíssima.
Existe pena de morte em São Paulo? E com a assinatura de policiais? Claro que existe. E não só em SP: vide a recente chacina na Maré, no Rio, minimizada pela imprensa brasileira. (Leiam Eliane Brum: “Também somos o chumbo das balas”.) O jornalista Caco Barcelllos denunciou os grupos de extermínio lá atrás, no livro “Rota 66” - e mesmo assim foi hostilizado, durante os protestos de junho, por manifestantes desinformados.
O caso de MC Daleste é a primeira execução de um letrista revoltado com a polícia? Não, não é o primeiro caso. Vejamos este título do R7, de 2012: “Sobe para seis o número de funkeiros mortos na Baixada Santista”. Estamos diante de um extermínio específico?
Curiosamente, leio que MC Daleste estava preferindo o "funk ostentação", que deixou de lado letras sociais para dar lugar a temas como grifes, roupas de marca, carros de luxo, bebidas, dinheiro e mulheres. Aos 20 anos, estava ganhando muito dinheiro.
Talvez o músico optasse por nem falar mais do cotidiano humilhante na periferia? Talvez. Mas também isso fica agora apenas como hipótese. O fato é que, ao menos durante os shows, ele ainda cantava as músicas de protesto.
Há cinco anos, na Folha de S. Paulo, o apresentador Luciano Huck (distraído em relação a crimes ambientais) ocupou espaço para reclamar de um roubo. Levaram seu Rolex. O escritor Ferréz escreveu um texto ficcional, onde o narrador (o assaltante) dizia que, no fim das contas, todos saíram ganhando: “O assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio”.
Ferréz foi processado. E ficou abalado com a reação judicial a uma peça de ficção. Achou que, com esse recurso, sua liberdade de expressão seria preservada. Longe disso.
Esses episódios, somados, entre fatos e possibilidades, mostram que a fronteira entre ficção e realidade (em uma civilização, desejável) não existe em São Paulo. Nem aos olhos da Justiça, nem nas ruas.
A cultura de massas, obviamente, reflete a cultura vivida. Se esta é composta por assaltantes, traficantes, e por uma polícia covarde e assassina, como fugir disso? Terão os artistas da periferia de falar apenas de roupas de marca e mulheres?
Hoje se matará porque um músico fez apologia a algum crime. O que já será um sintoma de nossa barbárie intrínseca, disfarçada de defesa da legalidade. Amanhã se matará por qualquer letra. Por um músico denunciar – legitimamente – um baculejo. Ou a humilhação, a opressão, a desigualdade. É como dizia John Lennon (branco e rico), baleado em 1980: “Do jeito que as coisas vão, eles vão me crucificar”.
Crucificar artistas é mais fácil que discutir e combater a violência.
E por isso assusta o silêncio dos jornalistas e dos músicos em relação a MC Daleste. Ou à morte sistemática de funkeiros. O silêncio de todos aqueles músicos (brancos e negros) que lutaram contra a ditadura. Dos jornalistas que veem colegas serem mortos ou exilados por fazer reportagens sobre violência policial.
Parece que estão achando que não é com eles.
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Uma estrela do funk, MC Daleste, morreu baleada durante show em Campinas, no sábado. Enquanto falava de um enquadro policial. Ou seja, de uma batida ostensiva, de um baculejo, tão comum nas periferias. Aquelas abordagens truculentas que atingem os mais pobres, preferencialmente os negros. Marcados diariamente pela humilhação e pela ameaça.
Cortemos agora para uma música do MC Daleste, "Apologia". Sobre a rotina de um assaltante: Frase-chave: "Fala pra nois quem é o poder/ matar os polícia é a nossa meta".
Leio no Correio da Bahia que, em um dos posts sobre a morte do músico no Facebook, alguém comemora sua morte e transcreve um trecho dessa letra. O comentário tinha recebido 200 "curtidas". Como? Duzentas pessoas comemoraram a execução do artista por ele ter escrito música contra a polícia? (E nem estamos aqui a falar dos outros milhares de bárbaros que comemoraram a morte porque ele era funkeiro.)
Basta ler os comentários nessa página da música, no portal Terra, para ver mais gente celebrando o que consideram uma vingança. Por exemplo: “Um tiro foi pouco, esse tá lá no inferno vendo milhares rindo da morte dele”. Ou então: “Eu vou ser policial. Quer matar polícia? Se fudeu, peba. Bandido bom é bandido morto”. E assim por diante.
Isso significa que foi alguém ligado à polícia, ou dela um defensor cego, que efetuou o disparo? Não é possível afirmar isso. Pode até ter sido alguém se aproveitando desse contexto, para disfarçar um crime comum. Pode ter sido qualquer assassino, qualquer covarde. Mas é possível afirmar – e lamentar – que a hipótese de ação de um grupo de extermínio seja perfeitamente verossímil.
(Os jornais cariocas, curiosamente, exploraram mais o detalhe do enquadro policial, instantes antes de MC Daleste ser baleado, que os paulistas.)
Não se trata aqui – e muito longe disso - de defender esta ou aquela letra. Será sempre injustificável, numa sociedade minimamente sadia, a defesa de crime contra a vida. Se dissesse isso numa entrevista (e um jornalista sério perguntaria a ele se concordava com a letra), seria processado. Numa letra? Um tema para pessoas especializadas, juristas. Mas também para sociólogos.
O fato é que, mesmo sendo considerada uma apologia ao crime, a solução mais absurda para defensores da vida de policiais (e todos os defensores de direitos humanos o são) seria a execução do letrista. Solução paradoxal, inclusive, por se tratar de outro crime. Que só gerará mais violência. Mas a realidade das periferias é assim: absurda e violentíssima.
Existe pena de morte em São Paulo? E com a assinatura de policiais? Claro que existe. E não só em SP: vide a recente chacina na Maré, no Rio, minimizada pela imprensa brasileira. (Leiam Eliane Brum: “Também somos o chumbo das balas”.) O jornalista Caco Barcelllos denunciou os grupos de extermínio lá atrás, no livro “Rota 66” - e mesmo assim foi hostilizado, durante os protestos de junho, por manifestantes desinformados.
O caso de MC Daleste é a primeira execução de um letrista revoltado com a polícia? Não, não é o primeiro caso. Vejamos este título do R7, de 2012: “Sobe para seis o número de funkeiros mortos na Baixada Santista”. Estamos diante de um extermínio específico?
Curiosamente, leio que MC Daleste estava preferindo o "funk ostentação", que deixou de lado letras sociais para dar lugar a temas como grifes, roupas de marca, carros de luxo, bebidas, dinheiro e mulheres. Aos 20 anos, estava ganhando muito dinheiro.
Talvez o músico optasse por nem falar mais do cotidiano humilhante na periferia? Talvez. Mas também isso fica agora apenas como hipótese. O fato é que, ao menos durante os shows, ele ainda cantava as músicas de protesto.
Há cinco anos, na Folha de S. Paulo, o apresentador Luciano Huck (distraído em relação a crimes ambientais) ocupou espaço para reclamar de um roubo. Levaram seu Rolex. O escritor Ferréz escreveu um texto ficcional, onde o narrador (o assaltante) dizia que, no fim das contas, todos saíram ganhando: “O assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio”.
Ferréz foi processado. E ficou abalado com a reação judicial a uma peça de ficção. Achou que, com esse recurso, sua liberdade de expressão seria preservada. Longe disso.
Esses episódios, somados, entre fatos e possibilidades, mostram que a fronteira entre ficção e realidade (em uma civilização, desejável) não existe em São Paulo. Nem aos olhos da Justiça, nem nas ruas.
A cultura de massas, obviamente, reflete a cultura vivida. Se esta é composta por assaltantes, traficantes, e por uma polícia covarde e assassina, como fugir disso? Terão os artistas da periferia de falar apenas de roupas de marca e mulheres?
Hoje se matará porque um músico fez apologia a algum crime. O que já será um sintoma de nossa barbárie intrínseca, disfarçada de defesa da legalidade. Amanhã se matará por qualquer letra. Por um músico denunciar – legitimamente – um baculejo. Ou a humilhação, a opressão, a desigualdade. É como dizia John Lennon (branco e rico), baleado em 1980: “Do jeito que as coisas vão, eles vão me crucificar”.
Crucificar artistas é mais fácil que discutir e combater a violência.
E por isso assusta o silêncio dos jornalistas e dos músicos em relação a MC Daleste. Ou à morte sistemática de funkeiros. O silêncio de todos aqueles músicos (brancos e negros) que lutaram contra a ditadura. Dos jornalistas que veem colegas serem mortos ou exilados por fazer reportagens sobre violência policial.
Parece que estão achando que não é com eles.
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Seis presas na USP
relatam racismo, sexismo e violências policiais
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Entre os 12 presos ontem na Cidade Universitária, seis são mulheres. As seis deram entrevista ao blog e relatam como foi o domingo de carnaval. São histórias de violência policial, de provocações, racismo e sexismo. Os depoimentos coincidem nos detalhes: celas em condições sub-humanas, exame humilhante no IML, tratamento diferente dado à estudante negra, ausência de Conselheiro Tutelar para amparar a adolescente de 16 anos.
Confrontados com as instruções da juíza Ana Paula Sampaio de Queiroz Bandeira Lins, os relatos indicam que a USP e as polícias pouco cumpriram o que fora recomendado: assistência social, garantia de incolumidade de todos os envolvidos, reforço policial com “máxima cautela”. Mostram, também, as condições sórdidas das celas do 14º Distrito Policial, em Pinheiros.
Três das seis estudantes não cursam graduação na USP. É uma situação diferente dos seis homens presos, todos estudantes da universidade. Uma delas é do Rio Grande do Sul, outra faz cursinho popular, a outra está no ensino médio. Duas (a gaúcha e a menor) estavam de passagem pela Moradia Retomada, desocupada ontem de manhã, por cerca de 200 policiais.
Vejamos quem é e o que aconteceu com cada uma delas:
INGRID
Ingrid Lidyane Santos Silva tem 20 anos e cursa Letras na USP. Considera-se vítima de racismo. Ao prestar depoimento no 14º Distrito Policial, afirmou que não teria nada a declarar. Isso se repetia a cada pergunta. Todos os demais presos fizeram isso. No seu caso, porém, ao se recusar a dar o endereço, ouviu o seguinte: “Então a gente vai colocar que é moradora de rua”. Em seguida perguntaram sobre instrução. “Se não quer falar, vamos colocar que é analfabeta”.
Ingrid aponta diversas hostilidades praticadas por policiais. “Vocês vão se foder na presença do juiz”, ouviu, diante da recusa em prestar depoimento. Durante o exame de corpo de delito, no Instituto Médico Legal, ela se sentiu abusada ao tirar toda a roupa. Ouvira das presas na reitoria, em novembro, que o exame fora tranquilo, feito por uma médica. Mas era um médico e ele as obrigou a tirar tudo. "Vira de frente, vira de trás", pedia ele.
ELIETE
Eliete Ribeiro Floripo tem 27 anos. É de Cachoeirinha (RS). Em férias, passou duas semanas com um amigo, na Moradia Retomada, e está voltando nesta segunda-feira para o Sul, onde estuda História. Para ela, houve “humilhação o tempo inteiro, para mostrar quem é que manda”.
Ela conta que a cela onde ficaram estava alagada – um misto de água, urina e fezes. Não havia espaço seco para todas ficarem sentadas. A solução era revezarem. Diante da situação da privada, elas pediram providências. Jogaram creolina. “Era difícil respirar”, diz.
A gaúcha define a situação como “tortura psicológica”. Ela conta que Paula começou a ficar pálida, passar mal. Todas gritaram, até que ela fosse retirada – de lá Paula saiu para ser atendida no Hospital das Clínicas, mas voltou à delegacia.
PAULA
Paula está com seis meses e meio de gravidez. Ela tem 21 anos. Aguarda resultado do vestibular. Vivia na Moradia Retomada com o companheiro, estudante da Física. Um vídeo mostra os policiais carregando-a pela Cidade Universitária, atê o ônibus. Todos os depoimentos coincidem ao dizer que ela foi “jogada” no ônibus que as levou à delegacia.
A estudante conta que foi levada à força enquanto lia o mandado de reintegração de posse. Não a deixaram acabar. Estava sentada no chão e disseram: “Ou você vai por bem ou vai à força”. Foi arrastada para uma cadeira e dessa forma carregada até o ônibus, por quatro policiais.
Todos dizem que policiais disseram a ela, durante a desocupação, que não tinha o direito de falar nada, pois não era estudante da USP. “Não acho que esteja errado eu morar com meu companheiro”, afirma.
A MENOR
O Estatuto da Criança e do Adolescente não permite que se publique o nome da adolescente, de 165 anos, presa ontem na USP. Ariel de Castro Alves, da OAB, diz que houve vários crimes: abuso de autoridade, privação ilegal de liberdade, submissão a constrangimento. Veja aqui o que diz o especialista.
A adolescente deu azar: dormia apenas aquela noite em São Paulo. Ela é de Nova Odessa, no interior paulista. Conta que entregou documento ainda na sala da Moradia Retomada, mas só na delegacia, indo para a cela, souberam – por ela mesma - que é menor. Mesmo assim ficou mais de três horas presa numa cela. Leia aqui o relato completo.
Durante o depoimento ao delegado, ela conta que, após pergunta sobre o que estava fazendo na Moradia Retomada, ouviu o seguinte comentário: “Fiquei sabendo que um deles é namoradinho seu...”
ROSI
Estudante de Filosofia na USP, Rosi (ela não gosta de divulgar o sobrenome) foi uma das presas durante a desocupação da reitoria, em novembro – quando centenas de policiais prenderam 73 pessoas. Foi ela quem contou ter sido torturada durante a operação, em plena reitoria. Leia aqui seu relato.
Em frente da delegacia, ela contou que foi agredida, mas não entrou em detalhes. As demais presas contam que ela foi agredida dentro do ônibus. Pediu uma máquina de volta a um policial, que a teria xingado de “vaca suja”.
"Uma coisa foi não saiu da minha cabeça", relata Rosi. "Foi quando o médico no IML pediu pra gente baixar a calcinha, a ameaça que, se não tirássemos a roupa, ele não ia fazer o 'exame' e, assim, voltaríamos para a cadeia. E, principalmente, a forma asquerosa que ele olhou pra o corpo despido da Eliete, a primeira a ser 'examinada'."
ALINE
Aline Dias é um dos personagens mais presentes nos últimos episódios da USP. Em novembro, foi presa durante a reintegração de posse da reitoria. Em dezembro, expulsa da Universidade de São Paulo, exatamente por ter sido, segundo a reitoria, uma das líderes da ocupação do bloco conhecido como Moradia Retomada – objeto, ontem, da reintegração de posse.
Estudante de Artes Cênicas na USP, ela foi a primeira a se recusar a sair da Moradia Retomada, quando todos souberam que iam ser presos – e não liberados, como havia sido dito. Conta que foi chamada pelo nome pelo comandante da operação. Ela gravou tudo com uma câmera de mão. "Mas os policiais me agrediram e apagaram todos os arquivos", diz.
Na delegacia, ao perguntar para qual sala estavam indo, um policial respondeu: "Para Auschwitz". "Quem estava fora ouviu os policiais dizendo que se pudessem matavam todos os 12", afirma.
LEIA MAIS:
"Disseram que estavam nos levando para Auschwitz", conta Aline Camoles
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Entre os 12 presos ontem na Cidade Universitária, seis são mulheres. As seis deram entrevista ao blog e relatam como foi o domingo de carnaval. São histórias de violência policial, de provocações, racismo e sexismo. Os depoimentos coincidem nos detalhes: celas em condições sub-humanas, exame humilhante no IML, tratamento diferente dado à estudante negra, ausência de Conselheiro Tutelar para amparar a adolescente de 16 anos.
Confrontados com as instruções da juíza Ana Paula Sampaio de Queiroz Bandeira Lins, os relatos indicam que a USP e as polícias pouco cumpriram o que fora recomendado: assistência social, garantia de incolumidade de todos os envolvidos, reforço policial com “máxima cautela”. Mostram, também, as condições sórdidas das celas do 14º Distrito Policial, em Pinheiros.
Três das seis estudantes não cursam graduação na USP. É uma situação diferente dos seis homens presos, todos estudantes da universidade. Uma delas é do Rio Grande do Sul, outra faz cursinho popular, a outra está no ensino médio. Duas (a gaúcha e a menor) estavam de passagem pela Moradia Retomada, desocupada ontem de manhã, por cerca de 200 policiais.
Vejamos quem é e o que aconteceu com cada uma delas:
INGRID
Ingrid Lidyane Santos Silva tem 20 anos e cursa Letras na USP. Considera-se vítima de racismo. Ao prestar depoimento no 14º Distrito Policial, afirmou que não teria nada a declarar. Isso se repetia a cada pergunta. Todos os demais presos fizeram isso. No seu caso, porém, ao se recusar a dar o endereço, ouviu o seguinte: “Então a gente vai colocar que é moradora de rua”. Em seguida perguntaram sobre instrução. “Se não quer falar, vamos colocar que é analfabeta”.
Ingrid aponta diversas hostilidades praticadas por policiais. “Vocês vão se foder na presença do juiz”, ouviu, diante da recusa em prestar depoimento. Durante o exame de corpo de delito, no Instituto Médico Legal, ela se sentiu abusada ao tirar toda a roupa. Ouvira das presas na reitoria, em novembro, que o exame fora tranquilo, feito por uma médica. Mas era um médico e ele as obrigou a tirar tudo. "Vira de frente, vira de trás", pedia ele.
ELIETE
Eliete Ribeiro Floripo tem 27 anos. É de Cachoeirinha (RS). Em férias, passou duas semanas com um amigo, na Moradia Retomada, e está voltando nesta segunda-feira para o Sul, onde estuda História. Para ela, houve “humilhação o tempo inteiro, para mostrar quem é que manda”.
Ela conta que a cela onde ficaram estava alagada – um misto de água, urina e fezes. Não havia espaço seco para todas ficarem sentadas. A solução era revezarem. Diante da situação da privada, elas pediram providências. Jogaram creolina. “Era difícil respirar”, diz.
A gaúcha define a situação como “tortura psicológica”. Ela conta que Paula começou a ficar pálida, passar mal. Todas gritaram, até que ela fosse retirada – de lá Paula saiu para ser atendida no Hospital das Clínicas, mas voltou à delegacia.
PAULA
Paula está com seis meses e meio de gravidez. Ela tem 21 anos. Aguarda resultado do vestibular. Vivia na Moradia Retomada com o companheiro, estudante da Física. Um vídeo mostra os policiais carregando-a pela Cidade Universitária, atê o ônibus. Todos os depoimentos coincidem ao dizer que ela foi “jogada” no ônibus que as levou à delegacia.
A estudante conta que foi levada à força enquanto lia o mandado de reintegração de posse. Não a deixaram acabar. Estava sentada no chão e disseram: “Ou você vai por bem ou vai à força”. Foi arrastada para uma cadeira e dessa forma carregada até o ônibus, por quatro policiais.
Todos dizem que policiais disseram a ela, durante a desocupação, que não tinha o direito de falar nada, pois não era estudante da USP. “Não acho que esteja errado eu morar com meu companheiro”, afirma.
A MENOR
O Estatuto da Criança e do Adolescente não permite que se publique o nome da adolescente, de 165 anos, presa ontem na USP. Ariel de Castro Alves, da OAB, diz que houve vários crimes: abuso de autoridade, privação ilegal de liberdade, submissão a constrangimento. Veja aqui o que diz o especialista.
A adolescente deu azar: dormia apenas aquela noite em São Paulo. Ela é de Nova Odessa, no interior paulista. Conta que entregou documento ainda na sala da Moradia Retomada, mas só na delegacia, indo para a cela, souberam – por ela mesma - que é menor. Mesmo assim ficou mais de três horas presa numa cela. Leia aqui o relato completo.
Durante o depoimento ao delegado, ela conta que, após pergunta sobre o que estava fazendo na Moradia Retomada, ouviu o seguinte comentário: “Fiquei sabendo que um deles é namoradinho seu...”
ROSI
Estudante de Filosofia na USP, Rosi (ela não gosta de divulgar o sobrenome) foi uma das presas durante a desocupação da reitoria, em novembro – quando centenas de policiais prenderam 73 pessoas. Foi ela quem contou ter sido torturada durante a operação, em plena reitoria. Leia aqui seu relato.
Em frente da delegacia, ela contou que foi agredida, mas não entrou em detalhes. As demais presas contam que ela foi agredida dentro do ônibus. Pediu uma máquina de volta a um policial, que a teria xingado de “vaca suja”.
"Uma coisa foi não saiu da minha cabeça", relata Rosi. "Foi quando o médico no IML pediu pra gente baixar a calcinha, a ameaça que, se não tirássemos a roupa, ele não ia fazer o 'exame' e, assim, voltaríamos para a cadeia. E, principalmente, a forma asquerosa que ele olhou pra o corpo despido da Eliete, a primeira a ser 'examinada'."
ALINE
Aline Dias é um dos personagens mais presentes nos últimos episódios da USP. Em novembro, foi presa durante a reintegração de posse da reitoria. Em dezembro, expulsa da Universidade de São Paulo, exatamente por ter sido, segundo a reitoria, uma das líderes da ocupação do bloco conhecido como Moradia Retomada – objeto, ontem, da reintegração de posse.
Estudante de Artes Cênicas na USP, ela foi a primeira a se recusar a sair da Moradia Retomada, quando todos souberam que iam ser presos – e não liberados, como havia sido dito. Conta que foi chamada pelo nome pelo comandante da operação. Ela gravou tudo com uma câmera de mão. "Mas os policiais me agrediram e apagaram todos os arquivos", diz.
Na delegacia, ao perguntar para qual sala estavam indo, um policial respondeu: "Para Auschwitz". "Quem estava fora ouviu os policiais dizendo que se pudessem matavam todos os 12", afirma.
LEIA MAIS:
"Disseram que estavam nos levando para Auschwitz", conta Aline Camoles
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Indignados com Pinheirinho vão protestar contra
despejo de indígenas na Bahia?
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Quarenta famílias Tupinambá foram despejadas
ontem em Olivença, na Bahia. O jornal Brasil de Fato relatou
violência da Polícia Federal: 30 agentes, armados, forçaram a
desocupação das casas. Assim como em São José dos Campos, os
moradores não esperavam a reintegração de posse: baseavam-se em
uma decisão do Superior Tribunal de Justiça. Embora os fatos sejam idênticos aos da Ocupação
Pinheirinho, a esta altura destruída e queimada em São José dos
Campos, não geram a mesma indignação e repercussão midiática.
Por quê?
Uma parcela de indignados no Brasil é
seletivamente partidária. Bufa, grita, espuma, se contorce – mas
somente se as violações de direitos humanos forem protagonizadas por
tucanos. Brutalidade policial em São Paulo? ONU neles! Brutalidade
policial no Piauí, em Pernambuco ou Sergipe? Moita.
Agem da mesma forma os indignados contra a
corrupção. Hoje eles estão no campo da oposição ao governo
federal. Bufam, gritam, espumam, se contorcem – mas somente se os
desvios e bandalheiras forem protagonizados por petistas e seus
aliados. Casos similares envolvendo membros do PSDB, do DEM? Moita.
Cada um desses grupos tem uma mídia específica,
em uma espécie de concerto da indignação seletiva. De um lado, o
que os governistas chamam de PIG – o Partido da Imprensa Golpista.
Segundo eles, a grande imprensa faz qualquer coisa para atingir Dilma
Rousseff ou Lula.
Do outro lado entrincheira-se boa parte da mídia
alternativa: blogueiros “progressistas” cuja principal
preocupação parece ser a de atingir os tucanos e seus aliados – e
o PIG.
Cada vez acredito menos na existência do PIG.
Acredito, sim, na existência de uma imprensa graúda que reverbera
(como a polícia, como o Judiciário) os interesses dos poderosos. O
despejo na Bahia mostra isso com clareza: não seria de interesse do
PIG, por exemplo, divulgar enfaticamente um despejo de indígenas
pelo governo Dilma?
Não divulga porque está imbuído do ensejo de
defender com garras o direito à propriedade. Este, muito mais que o
direito à vida e outros direitos humanos elementares, flutua acima
de simpatias partidárias – que, sim, existem.
Por outro lado, cada vez acredito mais na
existência do PAG. O Partido da Agenda Governista, o anti-PIG, uma
imprensa chapa-branca, servil aos humores lulopetistas. Não de uma
forma absoluta, como ele mesmo proclama em relação ao PIG, mas com
uma capilaridade e uma força suficientes para gerar ondas de
indignação – quando esta for conveniente.
É claro que há nuances em todo esse processo.
Não é inexorável que a grande imprensa vá ser indigna em relação
a violações de direitos. A cobertura sensível que a Record faz do
Pinheirinho é um exemplo disso. Outro, a oposição, na própria
Rede Globo, da abordagem humana do Bom Dia, Brasil em relação às
famílias despejadas em São José dos Campos, em contraponto com a
criminalização imposta pelo Jornal Nacional e Fantástico.
Da mesma forma há uma imprensa realmente
alternativa. O Brasil de Fato divulgou atentamente o despejo na
Bahia. Por ele ficamos sabendo que Vanderlei, um indígena de cerca
de 50 anos, entoou o canto Tupinambá dentro de uma viatura da PF.
Foi retirado do carro e colocado na chuva, de joelhos, com as mãos
para trás. Soubemos também de agressões, contra os mesmos
Tupinambá, em 2009 e em 2010.
O saldo desse problema é que o país está
cindido. Salvo uma turma de fanáticos que ainda acredita no que lê
na revista Veja, há poucos brasileiros instruídos que se pautam
apenas pelo canto da grande imprensa. Por outro lado, a imprensa
alternativa não é livre como deveria ser. A soma de seus esforços
pulverizados aparece apenas aqui e ali, quando governistas e
independentes participam do mesmo coro – como aconteceu no caso
Pinheirinho.
Não se trata apenas da necessidade de garimpar jornalismo independente, dos dois lados da força. Trata-se, infelizmente, de garimpar indignação genuína – de preocupação sistemática e coerente com a vida e os direitos fundamentais de todos os brasileiros.
Alfabetizados em cidadania não podem ter apenas o
PT ou o PSDB como “inimigo”. E sim a tortura, os abusos
policiais, as agressões contra povos indígenas, camponeses,
sem-teto, moradores de rua, dependentes químicos, estudantes. Parece
elementar – mas não é o que está acontecendo no Brasil hoje,
fevereiro de 2012.Não se trata apenas da necessidade de garimpar jornalismo independente, dos dois lados da força. Trata-se, infelizmente, de garimpar indignação genuína – de preocupação sistemática e coerente com a vida e os direitos fundamentais de todos os brasileiros.
LEIA MAIS:
500 anos depois: a violação sistemática de direitos indígenas
Cobertura da Globo no Pinheirinho é o debate Lula x Collor do século 21
NO TWITTER:
Publicado por
Alceu Castilho, jornalista.
en
09:30
4
comentarios
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Etiquetas:
#despejos,
#direitoshumanos,
#grandeimprensa,
#imprensa,
#imprensalternativa,
#olivenca,
#petistas,
#povosindigenas,
#reintegracao,
#tucanos,
#tupinamba,
#violenciapolicial
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Violência de “esquerda” contribui para a ofensiva autoritária em São Paulo
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Motivos para indignação em São Paulo não faltam. Um vídeo exibido pela Record mostra que, em São José dos Campos, é necessário muito boa vontade para continuar chamando de “democracia” um regime que destrói – com velocidade incrível – casas de moradores com móveis inteiros. Onde os policiais agem a serviço de interesses privados, e não somente durante a reintegração de posse. E onde jornalistas só podem fazer seus registros acompanhados dos mesmos policiais.
O protesto veemente contra esses abusos é justo, necessário – e urgente. Mas está sendo parcialmente sabotado por militantes autoritários. Eles se proclamam de “esquerda”; na prática, contudo, fortalecem os comandantes da violência de Estado. Em alguns casos ainda é possível ter esperança de que, com o tempo, os mais impetuosos passem a fazer os movimentos legítimos; em outros, os rebeldes têm igualmente uma matriz violenta e bem poderiam estar do outro lado – atirando gases e agredindo a população.
Ontem pela manhã, aniversário de São Paulo, um repórter do Estadão flagrou um rapaz, de rabinho de cavalo, esvaziando os pneus do prefeito Gilberto Kassab (PSD). O ato, em si, isoladamente, não teria o máximo de gravidade. Poderia, com algum esforço ideológico, passar por alguma tática (mais ou menos ilegítima) de questionamento de uma autoridade, de desobediência civil. O problema maior está na reação do rapaz – e no comportamento violento de outros presentes.
É que o repórter foi simplesmente agredido pelo sujeito. Apenas porque o gravava. “Sou da imprensa, sou da imprensa”, repetia ingenuamente Felipe Frazão – como se aquele homem fosse se importar com isso. Rabinho-de-Cavalo partiu para cima do jornalista com frieza, sabendo muito bem o que fazia. Com ódio. Veja aqui o vídeo. Como se estivesse ali fazendo algum protesto legítimo contra a linha editorial da família Mesquita, dona do jornal, ou o modelo brasileiro de comunicação de massa. Uma repórter da Globo também foi ameaçada.
A questão é que Rabinho-de-Cavalo não se importava com aquele trabalhador, aquele profissional de imprensa. Igualmente “proletário”, conforme o jargão marxista. Apenas mais uma vítima da mais-valia, deveria saber o rapaz. Por desinteligência, por confusão ideológica? Para mim, por possuir uma matriz violenta. Como outros que estavam ali, a protestar contra o Kassab e a violência institucionalizada nas últimas semanas pela prefeitura e pelo governo estadual. Uma minoria entre os manifestantes? Sim, uma minoria – capaz de atrapalhar a causa justa de todos os demais.
Na semana passada (antes, portanto, da reintegração de posse em São José dos Campos) li em um fórum de discussões na internet algo que me deixou estarrecido. Um militante da LER-QI (Liga Estratégia Revolucionária) defendia com todas as letras o seguinte: que os médicos na região do Pinheirinho, durante o iminente conflito entre moradores e PM, não deveriam atender os policiais. Entenderam? Um policial ferido. Você é médico. Vê o homem no chão, pode salvar a vida dele. Mas não faz nada. Pois o rapaz não só teve essa ideia absurda, como a concatenou e escreveu, num grupo fechado do Facebook.
OS DIREITOS DO BUMERANGUE
Direitos humanos? Ao menos em suas noções elementares? Mas quem disse que todos os revolucionários se importam com direitos humanos? A história da ditadura brasileira, quando contada pelos verdugos, oferece esse telhado-de-vidro gigantesco para as esquerdas: quem ainda acredita que todas elas, necessariamente, queriam de volta a democracia? Não há dúvida que muitos queriam apenas outro regime autoritário – o que não tira, diga-se, o heroísmo da resistência coletiva aos opressores.
No ápice da crise na USP, no fim do ano, eu conversava com uma militante de esquerda, indignada (justamente) contra os desmandos do reitor João Grandino Rodas e as violências policiais – não somente na Cidade Universitária. Em determinado momento, porém, surgiu o assunto da União Soviética. Ela defendia o regime soviético. Até aí poderia ser por desinformação, pensei. Eu e outro colega na roda questionamos: mas e os milhões de camponeses assassinados pelo regime? A resposta justificava o genocídio: “Estavam desafiando as decisões do proletariado”.
Falar de fascismo de esquerda pode soar contraditório. Em senso estrito, de fato, não é o termo preciso. Mas que outras palavras identificam movimentos de massa, em onda, que desafiam liberdades individuais, ou ignoram direitos de minorias? Notem que estas minorias, num eventual regime comandado pelas massas, podem significar os antigos espoliadores – empresários cínicos, políticos corruptos, autoritários etc. Aqueles militantes mandarão essas pessoas para o paredão? Em nome da “democracia”?
Um dos lemas do fascismo italiano era a expressão “me ne frego”. Traduções: não me importa, “I don’t give a damn”, eu não estou nem aí. Essa expressão é tão localizada assim no tempo e no espaço? Na Itália da primeira metade do século? Ou sintetiza posturas – de direita e de esquerda – em toda a nossa sociedade? Macunaíma não disse a mesma coisa com outras palavras? Isto para não ser repetitivo com Jarbas Passarinho e os escrúpulos de consciência enviados “às favas”.
O curioso é que esses militantes violentos julgam-se muito mais espertos do que são. Na prática, a força excessiva que eles usam nos protestos acaba sendo facilmente utilizada pelos governos, como se estes fossem judocas que revertessem a força dos adversários. As investidas sem estratégia tornam bem mais fácil o jogo de conquista da opinião pública (pela imprensa mencionada anteriormente) pelos cínicos de plantão.
Notem que não estou falando aqui de desobediência civil, nem questionando resistências legítimas a violências institucionais. O cientista político Carlos Novaes explicou em plena TV Cultura que os moradores do Pinheirinho estavam certos, naquele contexto, em resistir à lei.
Estou falando de táticas tresloucadas de militantes voluntariosos. Às vezes eles são (ou parecem) muito bem intencionados e compartilham de algumas de nossas indignações. Proclamam-se justos e heroicos - numa proporção, segundo eles mesmos, imensamente superior à de qualquer interlocutor "alienado" e infinitamente passivo. Mas a maior qualidade de alguns deles está a de serem perfeitos atiradores de bumerangue.
LEIA MAIS:
Pinheirinho, Brasil: onde foi que enterraram nossos escrúpulos?
Sobre imprensa, estudantes e tortura
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Motivos para indignação em São Paulo não faltam. Um vídeo exibido pela Record mostra que, em São José dos Campos, é necessário muito boa vontade para continuar chamando de “democracia” um regime que destrói – com velocidade incrível – casas de moradores com móveis inteiros. Onde os policiais agem a serviço de interesses privados, e não somente durante a reintegração de posse. E onde jornalistas só podem fazer seus registros acompanhados dos mesmos policiais.
O protesto veemente contra esses abusos é justo, necessário – e urgente. Mas está sendo parcialmente sabotado por militantes autoritários. Eles se proclamam de “esquerda”; na prática, contudo, fortalecem os comandantes da violência de Estado. Em alguns casos ainda é possível ter esperança de que, com o tempo, os mais impetuosos passem a fazer os movimentos legítimos; em outros, os rebeldes têm igualmente uma matriz violenta e bem poderiam estar do outro lado – atirando gases e agredindo a população.
Ontem pela manhã, aniversário de São Paulo, um repórter do Estadão flagrou um rapaz, de rabinho de cavalo, esvaziando os pneus do prefeito Gilberto Kassab (PSD). O ato, em si, isoladamente, não teria o máximo de gravidade. Poderia, com algum esforço ideológico, passar por alguma tática (mais ou menos ilegítima) de questionamento de uma autoridade, de desobediência civil. O problema maior está na reação do rapaz – e no comportamento violento de outros presentes.
É que o repórter foi simplesmente agredido pelo sujeito. Apenas porque o gravava. “Sou da imprensa, sou da imprensa”, repetia ingenuamente Felipe Frazão – como se aquele homem fosse se importar com isso. Rabinho-de-Cavalo partiu para cima do jornalista com frieza, sabendo muito bem o que fazia. Com ódio. Veja aqui o vídeo. Como se estivesse ali fazendo algum protesto legítimo contra a linha editorial da família Mesquita, dona do jornal, ou o modelo brasileiro de comunicação de massa. Uma repórter da Globo também foi ameaçada.
A questão é que Rabinho-de-Cavalo não se importava com aquele trabalhador, aquele profissional de imprensa. Igualmente “proletário”, conforme o jargão marxista. Apenas mais uma vítima da mais-valia, deveria saber o rapaz. Por desinteligência, por confusão ideológica? Para mim, por possuir uma matriz violenta. Como outros que estavam ali, a protestar contra o Kassab e a violência institucionalizada nas últimas semanas pela prefeitura e pelo governo estadual. Uma minoria entre os manifestantes? Sim, uma minoria – capaz de atrapalhar a causa justa de todos os demais.
Na semana passada (antes, portanto, da reintegração de posse em São José dos Campos) li em um fórum de discussões na internet algo que me deixou estarrecido. Um militante da LER-QI (Liga Estratégia Revolucionária) defendia com todas as letras o seguinte: que os médicos na região do Pinheirinho, durante o iminente conflito entre moradores e PM, não deveriam atender os policiais. Entenderam? Um policial ferido. Você é médico. Vê o homem no chão, pode salvar a vida dele. Mas não faz nada. Pois o rapaz não só teve essa ideia absurda, como a concatenou e escreveu, num grupo fechado do Facebook.
OS DIREITOS DO BUMERANGUE
Direitos humanos? Ao menos em suas noções elementares? Mas quem disse que todos os revolucionários se importam com direitos humanos? A história da ditadura brasileira, quando contada pelos verdugos, oferece esse telhado-de-vidro gigantesco para as esquerdas: quem ainda acredita que todas elas, necessariamente, queriam de volta a democracia? Não há dúvida que muitos queriam apenas outro regime autoritário – o que não tira, diga-se, o heroísmo da resistência coletiva aos opressores.
No ápice da crise na USP, no fim do ano, eu conversava com uma militante de esquerda, indignada (justamente) contra os desmandos do reitor João Grandino Rodas e as violências policiais – não somente na Cidade Universitária. Em determinado momento, porém, surgiu o assunto da União Soviética. Ela defendia o regime soviético. Até aí poderia ser por desinformação, pensei. Eu e outro colega na roda questionamos: mas e os milhões de camponeses assassinados pelo regime? A resposta justificava o genocídio: “Estavam desafiando as decisões do proletariado”.
Falar de fascismo de esquerda pode soar contraditório. Em senso estrito, de fato, não é o termo preciso. Mas que outras palavras identificam movimentos de massa, em onda, que desafiam liberdades individuais, ou ignoram direitos de minorias? Notem que estas minorias, num eventual regime comandado pelas massas, podem significar os antigos espoliadores – empresários cínicos, políticos corruptos, autoritários etc. Aqueles militantes mandarão essas pessoas para o paredão? Em nome da “democracia”?
Um dos lemas do fascismo italiano era a expressão “me ne frego”. Traduções: não me importa, “I don’t give a damn”, eu não estou nem aí. Essa expressão é tão localizada assim no tempo e no espaço? Na Itália da primeira metade do século? Ou sintetiza posturas – de direita e de esquerda – em toda a nossa sociedade? Macunaíma não disse a mesma coisa com outras palavras? Isto para não ser repetitivo com Jarbas Passarinho e os escrúpulos de consciência enviados “às favas”.
O curioso é que esses militantes violentos julgam-se muito mais espertos do que são. Na prática, a força excessiva que eles usam nos protestos acaba sendo facilmente utilizada pelos governos, como se estes fossem judocas que revertessem a força dos adversários. As investidas sem estratégia tornam bem mais fácil o jogo de conquista da opinião pública (pela imprensa mencionada anteriormente) pelos cínicos de plantão.
Notem que não estou falando aqui de desobediência civil, nem questionando resistências legítimas a violências institucionais. O cientista político Carlos Novaes explicou em plena TV Cultura que os moradores do Pinheirinho estavam certos, naquele contexto, em resistir à lei.
Estou falando de táticas tresloucadas de militantes voluntariosos. Às vezes eles são (ou parecem) muito bem intencionados e compartilham de algumas de nossas indignações. Proclamam-se justos e heroicos - numa proporção, segundo eles mesmos, imensamente superior à de qualquer interlocutor "alienado" e infinitamente passivo. Mas a maior qualidade de alguns deles está a de serem perfeitos atiradores de bumerangue.
LEIA MAIS:
Pinheirinho, Brasil: onde foi que enterraram nossos escrúpulos?
Sobre imprensa, estudantes e tortura
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
Publicado por
Alceu Castilho, jornalista.
en
11:00
1 comentarios
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Etiquetas:
#direitoshumanos,
#ditadura,
#esquerda,
#imprensa,
#militantes,
#pinheirinho,
#protestos,
#revolucao,
#sp458anos,
#violenciapolicial
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Cobertura da Globo no Pinheirinho é o debate Lula x Collor do século 21
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
É a manipulação jornalística do século. Seu protagonista, a Rede Globo. O tema, a Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. Vítimas: as 2 mil famílias despejadas pela polícia – mulheres, crianças e idosos na mira de balas (não somente de borracha), retiradas com violência de suas casas, atiradas em alojamentos sem infra-estrutura. Um arsenal de violações de direitos humanos, naturalizado pela principal emissora do país.
Cabe assinalar que não sou dos que costumam demonizar a priori a Rede Globo. Considero-a melhor que as demais emissoras – à exceção das educativas. Elogiei várias vezes, nos últimos meses, pelo Twitter, coberturas feitas pelo Fantástico, que tem sido um raro espaço (em toda a imprensa brasileira) para reportagens investigativas. Foi pelo repórter Eduardo Faustino que ficamos sabendo de esquema de fraude nas bombas de combustíveis, que vimos com detalhes a venda – ilegal - de terras do Incra.
Mais uma concessão à Globo? Não sou dos que consideram o Big Brother Brasil o último lixo da televisão brasileira. Vejo na reação anual contra ele uma indignação de verão, metonímica, cíclica, confortável, uma cortina de fumaça em relação a programas muito piores e mais nocivos; programas, em várias emissoras, que estimulam as violências, as mencionadas violações de direitos humanos etc.
Feitas as ressalvas, mostremos por que a Globo constrange a democracia com sua cobertura da reintegração de posse em São José dos Campos.
Primeiro foi o Fantástico. Um professor de Jornalismo em São Paulo, Francisco Bicudo, resumiu da seguinte forma a cobertura do programa dominical: “Pinheirinho = fábrica de traficantes”. De fato, a emissora elegeu como tema central a imagem de três barracos que seriam a “cracolândia” local. Os termos relacionados ao tráfico foram determinantes para se contar a história daquele povo – até então desconhecida pela maior parte da população brasileira. A edição servia para justificar a brutalidade estatal.
Não havia ali nem sombra da isenção proclamada pela emissora. E isso foi comprovado na manhã seguinte, no Bom Dia, Brasil. O jornal matutino fez uma cobertura digna da desocupação. Com as mesmas imagens e entrevistas exibidas pelo Fantástico, conseguiu mostrar o drama dos moradores. Sem criminalizá-los. A apresentadora Carla Vilhena chegou a fazer algo que quase ninguém na grande imprensa faz: questionou a utilização da palavra “invadida” para definir a área.
Aqui cabe explicar que “invasão” e “ocupação” são palavras opostas para o mesmo fenômeno. Movimentos de sem-teto e sem-terra (e não somente eles) utilizam, em todo o mundo, esse recurso político. Chamam de “ocupação”. É um recurso considerado legítimo por muita gente que está longe de ser “bandida" – ou mesmo revolucionária. Alinhada aos proprietários de terra, a grande imprensa usa a palavra “invasão”. E somente ela. Por que não usa as duas? Porque não é isenta.
A MÁGICA DAS EDIÇÕES
Carla Vilhena e os editores do Bom Dia, Brasil mostraram que, na própria Rede Globo, não se enxerga um fato da mesma forma. É elementar no jornalismo. O matutino, aliás, enfatizou que se tratava de uma massa falida do especulador Naji Nahas - um personagem que o restante da imprensa está fazendo questão de esquecer no episódio. Nahas nunca pagou IPTU à prefeitura de São José dos Campos. Mas o telespectador não sabe disso. A escolha de determinados temas (e imagens, frases, palavras) chama-se “edição”.
Mas teria acontecido algo entre o Fantástico e o Bom Dia, Brasil? Nas redes sociais houve uma reação imediata contra a emissora. Deploramos imediatamente a abordagem sórdida do Fantástico – desumana, cínica, abjeta. E comemoramos uma abordagem mais serena durante a manhã. Algo ainda longe de questionar os excessos policiais e as escolhas da “justiça” brasileira (que não tem a mesma disposição para retirar empresas e famílias ricas de áreas “invadidas”).
A Rede Globo teria recuado? Optado por uma cobertura mais equilibrada - e humana - com medo de perder audiência? Que nada. À noite, viria ele – o Jornal Nacional.
Estamos a falar do programa que, em 1989, tornou-se uma referência negativa na televisão brasileira. A edição manipulada do último debate entre Lula e Collor, a poucos dias da eleição, foi admitida recentemente por um dos chefes do Jornalismo à época, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni:
Sim, o Jornal Nacional abandonou a teoria embutida na edição do Fantástico, aquela do Pinheirinho como um local de tráfico. Mas a trocou pela imagem dos vândalos. Imagens de pessoas furtando uma loja foram exibidas logo no início da edição. Ou seja: além de “invasores”, os moradores do Pinheirinho seriam “vândalos”. E, apesar dos esforços da equipe do Bom Dia Brasil, ninguém desmentiu a imagem anterior, a dos “traficantes”.
Ou seja: estamos diante de um verdadeiro e monumental estelionato jornalístico. Digno de ser estudado nas Faculdades de Comunicação. Com um agravante em relação ao debate entre Lula e Collor: naquela ocasião houve um exagero do bom desempenho de Collor no debate; e um exagero do mau desempenho (que existiu) de Lula, muito nervoso naquele dia. Em outras palavras: a Globo mais aumentou do que inventou.
O que está acontecendo esta semana, portanto, de São José dos Campos para o Brasil, é a construção calculada de uma imagem coletiva: em vez de milhares de famílias vítimas de casuísmo (judiciário) e violência (policial), aqueles brasileiros são apresentados como “invasores vândalos e traficantes”. Alguns jornalistas, particularmente desprovidos de ética e caráter, instalados em revistas de circulação nacional, já propagam com prazer repugnante essa distorção.
Desta forma, os meios de comunicação cumprem com eficácia seu papel de jagunços da desigualdade. Se a polícia (a mando do Executivo e do Judiciário) aperta seus gatilhos e humilha in loco, os latifundiários da comunicação e seus jornalistas amestrados atacam e agridem, de longe, famílias inteiras de brasileiros. É a Tropa de Choque Midiática, a aplicar rasteiras e pontapés virtuais na dignidade das vítimas. Suas armas são algumas palavras e alguns botões.
PS: a reportagem desta terça-feira do Bom Dia, Brasil, da mesma Rede Globo, é mais uma vez equilibrada. Expõe, sim, a posição da polícia e do governador. Mas põe ênfase no destino dos moradores - que são chamados de "ocupantes", não invasores. Carla Vilhena diz que muita coisa poderia ter sido feita, já que a ocupação data de 2004. Mas o programa não tem a mesma audiência do Fantástico e do Jornal Nacional.
LEIA MAIS:
"Moradores gritavam, horrorizados", diz autor da foto que correu o mundo
Pinheirinho, Brasil: onde foi que enterraram nossos escrúpulos?
Mídia ignora madrugada histórica em São José dos Campos
Globo mostra “limpeza na Cracolândia” e legitima higienismo de Kassab
Eliane Brum, o Explorador Sexual e o Pauteiro Indiferente
Sobre as ameaças e quilombolas e sem-teto - e sobre indiferença e imprensa
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
É a manipulação jornalística do século. Seu protagonista, a Rede Globo. O tema, a Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. Vítimas: as 2 mil famílias despejadas pela polícia – mulheres, crianças e idosos na mira de balas (não somente de borracha), retiradas com violência de suas casas, atiradas em alojamentos sem infra-estrutura. Um arsenal de violações de direitos humanos, naturalizado pela principal emissora do país.
Cabe assinalar que não sou dos que costumam demonizar a priori a Rede Globo. Considero-a melhor que as demais emissoras – à exceção das educativas. Elogiei várias vezes, nos últimos meses, pelo Twitter, coberturas feitas pelo Fantástico, que tem sido um raro espaço (em toda a imprensa brasileira) para reportagens investigativas. Foi pelo repórter Eduardo Faustino que ficamos sabendo de esquema de fraude nas bombas de combustíveis, que vimos com detalhes a venda – ilegal - de terras do Incra.
Mais uma concessão à Globo? Não sou dos que consideram o Big Brother Brasil o último lixo da televisão brasileira. Vejo na reação anual contra ele uma indignação de verão, metonímica, cíclica, confortável, uma cortina de fumaça em relação a programas muito piores e mais nocivos; programas, em várias emissoras, que estimulam as violências, as mencionadas violações de direitos humanos etc.
Feitas as ressalvas, mostremos por que a Globo constrange a democracia com sua cobertura da reintegração de posse em São José dos Campos.
Primeiro foi o Fantástico. Um professor de Jornalismo em São Paulo, Francisco Bicudo, resumiu da seguinte forma a cobertura do programa dominical: “Pinheirinho = fábrica de traficantes”. De fato, a emissora elegeu como tema central a imagem de três barracos que seriam a “cracolândia” local. Os termos relacionados ao tráfico foram determinantes para se contar a história daquele povo – até então desconhecida pela maior parte da população brasileira. A edição servia para justificar a brutalidade estatal.
Não havia ali nem sombra da isenção proclamada pela emissora. E isso foi comprovado na manhã seguinte, no Bom Dia, Brasil. O jornal matutino fez uma cobertura digna da desocupação. Com as mesmas imagens e entrevistas exibidas pelo Fantástico, conseguiu mostrar o drama dos moradores. Sem criminalizá-los. A apresentadora Carla Vilhena chegou a fazer algo que quase ninguém na grande imprensa faz: questionou a utilização da palavra “invadida” para definir a área.
Aqui cabe explicar que “invasão” e “ocupação” são palavras opostas para o mesmo fenômeno. Movimentos de sem-teto e sem-terra (e não somente eles) utilizam, em todo o mundo, esse recurso político. Chamam de “ocupação”. É um recurso considerado legítimo por muita gente que está longe de ser “bandida" – ou mesmo revolucionária. Alinhada aos proprietários de terra, a grande imprensa usa a palavra “invasão”. E somente ela. Por que não usa as duas? Porque não é isenta.
A MÁGICA DAS EDIÇÕES
Carla Vilhena e os editores do Bom Dia, Brasil mostraram que, na própria Rede Globo, não se enxerga um fato da mesma forma. É elementar no jornalismo. O matutino, aliás, enfatizou que se tratava de uma massa falida do especulador Naji Nahas - um personagem que o restante da imprensa está fazendo questão de esquecer no episódio. Nahas nunca pagou IPTU à prefeitura de São José dos Campos. Mas o telespectador não sabe disso. A escolha de determinados temas (e imagens, frases, palavras) chama-se “edição”.
Mas teria acontecido algo entre o Fantástico e o Bom Dia, Brasil? Nas redes sociais houve uma reação imediata contra a emissora. Deploramos imediatamente a abordagem sórdida do Fantástico – desumana, cínica, abjeta. E comemoramos uma abordagem mais serena durante a manhã. Algo ainda longe de questionar os excessos policiais e as escolhas da “justiça” brasileira (que não tem a mesma disposição para retirar empresas e famílias ricas de áreas “invadidas”).
A Rede Globo teria recuado? Optado por uma cobertura mais equilibrada - e humana - com medo de perder audiência? Que nada. À noite, viria ele – o Jornal Nacional.
Estamos a falar do programa que, em 1989, tornou-se uma referência negativa na televisão brasileira. A edição manipulada do último debate entre Lula e Collor, a poucos dias da eleição, foi admitida recentemente por um dos chefes do Jornalismo à época, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni:
Sim, o Jornal Nacional abandonou a teoria embutida na edição do Fantástico, aquela do Pinheirinho como um local de tráfico. Mas a trocou pela imagem dos vândalos. Imagens de pessoas furtando uma loja foram exibidas logo no início da edição. Ou seja: além de “invasores”, os moradores do Pinheirinho seriam “vândalos”. E, apesar dos esforços da equipe do Bom Dia Brasil, ninguém desmentiu a imagem anterior, a dos “traficantes”.
Ou seja: estamos diante de um verdadeiro e monumental estelionato jornalístico. Digno de ser estudado nas Faculdades de Comunicação. Com um agravante em relação ao debate entre Lula e Collor: naquela ocasião houve um exagero do bom desempenho de Collor no debate; e um exagero do mau desempenho (que existiu) de Lula, muito nervoso naquele dia. Em outras palavras: a Globo mais aumentou do que inventou.
O que está acontecendo esta semana, portanto, de São José dos Campos para o Brasil, é a construção calculada de uma imagem coletiva: em vez de milhares de famílias vítimas de casuísmo (judiciário) e violência (policial), aqueles brasileiros são apresentados como “invasores vândalos e traficantes”. Alguns jornalistas, particularmente desprovidos de ética e caráter, instalados em revistas de circulação nacional, já propagam com prazer repugnante essa distorção.
Desta forma, os meios de comunicação cumprem com eficácia seu papel de jagunços da desigualdade. Se a polícia (a mando do Executivo e do Judiciário) aperta seus gatilhos e humilha in loco, os latifundiários da comunicação e seus jornalistas amestrados atacam e agridem, de longe, famílias inteiras de brasileiros. É a Tropa de Choque Midiática, a aplicar rasteiras e pontapés virtuais na dignidade das vítimas. Suas armas são algumas palavras e alguns botões.
PS: a reportagem desta terça-feira do Bom Dia, Brasil, da mesma Rede Globo, é mais uma vez equilibrada. Expõe, sim, a posição da polícia e do governador. Mas põe ênfase no destino dos moradores - que são chamados de "ocupantes", não invasores. Carla Vilhena diz que muita coisa poderia ter sido feita, já que a ocupação data de 2004. Mas o programa não tem a mesma audiência do Fantástico e do Jornal Nacional.
LEIA MAIS:
"Moradores gritavam, horrorizados", diz autor da foto que correu o mundo
Pinheirinho, Brasil: onde foi que enterraram nossos escrúpulos?
Mídia ignora madrugada histórica em São José dos Campos
Globo mostra “limpeza na Cracolândia” e legitima higienismo de Kassab
Eliane Brum, o Explorador Sexual e o Pauteiro Indiferente
Sobre as ameaças e quilombolas e sem-teto - e sobre indiferença e imprensa
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
Publicado por
Alceu Castilho, jornalista.
en
09:36
4
comentarios
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Etiquetas:
#bomdiabrasil,
#collor,
#debate1989,
#fantastico,
#imprensa,
#jornalnacional,
#justica,
#lula,
#manipulacao,
#massmedia,
#ocupacao,
#pinheirinho,
#redeglobo,
#saojosedoscampos,
#violenciapolicial
domingo, 22 de janeiro de 2012
Líder do MTST é um dos presos – e espancados – em São José dos Campos
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Um dos coordenadores nacionais do MTST, Guilherme Boulos, foi preso por volta das 16h30, neste domingo, durante a operação policial de reintegração de posse na Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. Levou chutes, pontapés, cotoveladas e golpes de cassetete, antes de ser detido pela Guarda Civil Metropolitana.
As informações oficiais, durante a tarde, davam conta de 15 pessoas presas. Não havia informações sobre lideranças. Boulos foi o porta-voz do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) durante ato no dia 8 de dezembro, em São Paulo. Era ele quem coordenava as falas, no vão livre do Masp e no carro de som, na Avenida Paulista.
Naquele dia os trabalhadores informaram sobre a iminência do que chamaram de “conflito do século” em São José dos Campos. Leia aqui o relato do que eles previram sobre a reintegração de posse. Os sem-teto fizeram, dias depois, uma reunião com o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, responsável pela interlocução do governo Dilma com movimentos sociais. Não houve solução para o caso.
Boulos foi também um dos representantes dos manifestantes (MTST, Must, MST e Fábrica Ocupada Flaskô, entre outros) em reunião com uma representante do governo federal, no gabinete localizado na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta. Leia aqui o relato do que aconteceu naquele dia, quando os manifestantes ocuparam o prédio do Banco do Brasil – que cede ao governo federal um andar para seu escritório em São Paulo.
Os moradores da Ocupação Pinheirinho organizam-se no Must (Movimento Urbano dos Sem-Teto). Durante esse ato no Masp e na Paulista estavam em peso – eram centenas de pessoas, somente do Must. Somaram-se aos militantes do MTST, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), da Fábrica Ocupada Flaskô e a apoiadores do movimento – como estudantes em greve da USP.
As fontes que relataram ao blog Outro Brasil a prisão e espancamento de Boulos descreveram também um “bairro sitiado” em São José dos Campos: o Campo dos Alemães. Segundo esses trabalhadores, os policiais estão agredindo as pessoas “a torto e a direitos”. Crianças, mulheres e idosos estão sendo agredidas com bombas de gás e balas de borracha. Um adolescente foi perseguido e espancado.
LEIA MAIS:
Sem-teto temem conflito do século em São José dos Campos
A madame na calçada e os sem-teto na Paulista
Mídia ignora madrugada histórica em São José dos Campos
“Cinicolândia” ajuda a entender o que acontece em São José dos Campos
“Eles estão certos em resistir à lei”, diz Carlos Novaes
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Um dos coordenadores nacionais do MTST, Guilherme Boulos, foi preso por volta das 16h30, neste domingo, durante a operação policial de reintegração de posse na Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. Levou chutes, pontapés, cotoveladas e golpes de cassetete, antes de ser detido pela Guarda Civil Metropolitana.
As informações oficiais, durante a tarde, davam conta de 15 pessoas presas. Não havia informações sobre lideranças. Boulos foi o porta-voz do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) durante ato no dia 8 de dezembro, em São Paulo. Era ele quem coordenava as falas, no vão livre do Masp e no carro de som, na Avenida Paulista.
Naquele dia os trabalhadores informaram sobre a iminência do que chamaram de “conflito do século” em São José dos Campos. Leia aqui o relato do que eles previram sobre a reintegração de posse. Os sem-teto fizeram, dias depois, uma reunião com o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, responsável pela interlocução do governo Dilma com movimentos sociais. Não houve solução para o caso.
Boulos foi também um dos representantes dos manifestantes (MTST, Must, MST e Fábrica Ocupada Flaskô, entre outros) em reunião com uma representante do governo federal, no gabinete localizado na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta. Leia aqui o relato do que aconteceu naquele dia, quando os manifestantes ocuparam o prédio do Banco do Brasil – que cede ao governo federal um andar para seu escritório em São Paulo.
Os moradores da Ocupação Pinheirinho organizam-se no Must (Movimento Urbano dos Sem-Teto). Durante esse ato no Masp e na Paulista estavam em peso – eram centenas de pessoas, somente do Must. Somaram-se aos militantes do MTST, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), da Fábrica Ocupada Flaskô e a apoiadores do movimento – como estudantes em greve da USP.
As fontes que relataram ao blog Outro Brasil a prisão e espancamento de Boulos descreveram também um “bairro sitiado” em São José dos Campos: o Campo dos Alemães. Segundo esses trabalhadores, os policiais estão agredindo as pessoas “a torto e a direitos”. Crianças, mulheres e idosos estão sendo agredidas com bombas de gás e balas de borracha. Um adolescente foi perseguido e espancado.
LEIA MAIS:
Sem-teto temem conflito do século em São José dos Campos
A madame na calçada e os sem-teto na Paulista
Mídia ignora madrugada histórica em São José dos Campos
“Cinicolândia” ajuda a entender o que acontece em São José dos Campos
“Eles estão certos em resistir à lei”, diz Carlos Novaes
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
“Democracia de braços cruzados” permite policiais sem identificação
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O sargento André Luiz Ferreira tornou-se o bode expiatório do governo paulista ao protagonizar, na segunda-feira, a série de agressões ao estudante Nicolas Menezes Barreto, da USP, na Cidade Universitária. Em um dos momentos mais curiosos do vídeo gravado por estudantes o policial cruza os braços, para esconder a identificação em seu uniforme.
Diante da solicitação feita por uma estudante, ele pergunta: “Por que você quer ver meu nome?” E completa, em tom choroso: “Não quero mostrar meu nome”.
Em entrevista à Rádio Brasil Atual, a desembargadora Kenarik Boujikian Felippe ensina: “É uma obrigação. Todo funcionário público tem que se identificar, não somente o policial militar”. Ela é do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e faz parte da Associação Juízes para Democracia. “Esse é um grave problema que temos na área de segurança”, afirma Kenarik. “Eles têm de ter uma papeleta no bolso com seu nome, até para se identificar a autoria dos abusos.”
O caso do sargento na Cidade Universitária não é isolado. Desde o início da crise recente na USP policiais vêm sendo flagrados sem identificação. Isso ocorreu no dia 27 de outubro, quando policiais tentaram prender três estudantes que portavam maconha, no estacionamento da Faculdade de Filosofia. Ocorreu durante a reintegração de posse da reitoria, no dia 8 de novembro, quando a estudante Rosi (aluna de Filosofia na USP) foi torturada por PMs.
Em todos esses casos a identificação fora arrancada do uniforme – ou lá nunca estiveram. O sargento André fez apenas uma tentativa mais curiosa (folclórica até, cruzando os braços e fazendo um muxoxo) de ocultar seu nome.
Mas vamos além, lembrando de casos que entraram na história do País.
Um deles, o massacre de Corumbiara, em 1995, em Rondônia. Pelo menos dez camponeses foram mortos por policiais militares – que chegaram a atirar a esmo. Dois PMs morreram. O caso teve requintes de crueldade – execuções, uma criança de 7 anos baleada, um trabalhador obrigado a comer os miolos dos amigos. E os policiais estavam identificados? Não estavam. Fotos dos sem-terra mostram policiais encapuzados, ao lado de jagunços.
Outro caso emblemático é o massacre do Carandiru, a antiga Casa de Detenção de São Paulo. Nada menos que 325 policiais militares entraram no Pavilhão 9, em 1992, sem suas insígnias e outros sinais de identificação. Entre os 325 policiais, 68 foram acusados pelo massacre. Detalhe: as provas do processo mostraram que não houve confronto armado com os presos. A maioria foi executada dentro de suas celas.
É nesse contexto que precisamos analisar os braços cruzados do sargento André. Ele estava particularmente descontrolado na USP e será julgado pela sua agressão a Nicolas e a outros estudantes. Mas o caso está longe de ser excepcional. No dia a dia dos brasileiros nem sempre há uma câmera registrando os abusos policiais. E a “distração” deles é recorrente.
Não se trata, como vimos, de uma decisão individual – “eu não quero mostrar meu nome”. E sim de uma condição mínima para o funcionamento de uma democracia.
O francês Stéphane Hessel, líder da resistência contra os nazistas e um dos autores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, lançou no ano passado, aos 93 anos, um livro onde conclama os jovens a seguir resistindo às opressões. O nome do livro é: “Indignem-se!”
Para que os direitos dos brasileiros (de ir e vir, direito à manifestação) sejam garantidos, a exclamação precisa ser completada com outro verbo, dirigido aos policiais de plantão: “Identifiquem-se!”
São eles que precisam mostrar a carteirinha.
LEIA MAIS:
Vídeos mostram PMs agredindo estudantes na Cidade Universitária
“PM me escolheu porque eu era o único negro”, diz estudante agredido na USP
Estudante protesta contra Alckmin na Grande SP, toma batida e é fichado
Rosi conta como foi torturada na USP
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O sargento André Luiz Ferreira tornou-se o bode expiatório do governo paulista ao protagonizar, na segunda-feira, a série de agressões ao estudante Nicolas Menezes Barreto, da USP, na Cidade Universitária. Em um dos momentos mais curiosos do vídeo gravado por estudantes o policial cruza os braços, para esconder a identificação em seu uniforme.
Diante da solicitação feita por uma estudante, ele pergunta: “Por que você quer ver meu nome?” E completa, em tom choroso: “Não quero mostrar meu nome”.
Em entrevista à Rádio Brasil Atual, a desembargadora Kenarik Boujikian Felippe ensina: “É uma obrigação. Todo funcionário público tem que se identificar, não somente o policial militar”. Ela é do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e faz parte da Associação Juízes para Democracia. “Esse é um grave problema que temos na área de segurança”, afirma Kenarik. “Eles têm de ter uma papeleta no bolso com seu nome, até para se identificar a autoria dos abusos.”
O caso do sargento na Cidade Universitária não é isolado. Desde o início da crise recente na USP policiais vêm sendo flagrados sem identificação. Isso ocorreu no dia 27 de outubro, quando policiais tentaram prender três estudantes que portavam maconha, no estacionamento da Faculdade de Filosofia. Ocorreu durante a reintegração de posse da reitoria, no dia 8 de novembro, quando a estudante Rosi (aluna de Filosofia na USP) foi torturada por PMs.
Em todos esses casos a identificação fora arrancada do uniforme – ou lá nunca estiveram. O sargento André fez apenas uma tentativa mais curiosa (folclórica até, cruzando os braços e fazendo um muxoxo) de ocultar seu nome.
Mas vamos além, lembrando de casos que entraram na história do País.
Um deles, o massacre de Corumbiara, em 1995, em Rondônia. Pelo menos dez camponeses foram mortos por policiais militares – que chegaram a atirar a esmo. Dois PMs morreram. O caso teve requintes de crueldade – execuções, uma criança de 7 anos baleada, um trabalhador obrigado a comer os miolos dos amigos. E os policiais estavam identificados? Não estavam. Fotos dos sem-terra mostram policiais encapuzados, ao lado de jagunços.
Outro caso emblemático é o massacre do Carandiru, a antiga Casa de Detenção de São Paulo. Nada menos que 325 policiais militares entraram no Pavilhão 9, em 1992, sem suas insígnias e outros sinais de identificação. Entre os 325 policiais, 68 foram acusados pelo massacre. Detalhe: as provas do processo mostraram que não houve confronto armado com os presos. A maioria foi executada dentro de suas celas.
É nesse contexto que precisamos analisar os braços cruzados do sargento André. Ele estava particularmente descontrolado na USP e será julgado pela sua agressão a Nicolas e a outros estudantes. Mas o caso está longe de ser excepcional. No dia a dia dos brasileiros nem sempre há uma câmera registrando os abusos policiais. E a “distração” deles é recorrente.
Não se trata, como vimos, de uma decisão individual – “eu não quero mostrar meu nome”. E sim de uma condição mínima para o funcionamento de uma democracia.
O francês Stéphane Hessel, líder da resistência contra os nazistas e um dos autores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, lançou no ano passado, aos 93 anos, um livro onde conclama os jovens a seguir resistindo às opressões. O nome do livro é: “Indignem-se!”
Para que os direitos dos brasileiros (de ir e vir, direito à manifestação) sejam garantidos, a exclamação precisa ser completada com outro verbo, dirigido aos policiais de plantão: “Identifiquem-se!”
São eles que precisam mostrar a carteirinha.
LEIA MAIS:
Vídeos mostram PMs agredindo estudantes na Cidade Universitária
“PM me escolheu porque eu era o único negro”, diz estudante agredido na USP
Estudante protesta contra Alckmin na Grande SP, toma batida e é fichado
Rosi conta como foi torturada na USP
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
Publicado por
Alceu Castilho, jornalista.
en
15:32
0
comentarios
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Etiquetas:
#carandiru,
#corumbiara,
#identificacao,
#movimentoestudantil,
#pm,
#policia,
#radiobrasilatual,
#TJSP,
#tortura,
#usp,
#violenciapolicial
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Padre Julio relata agressão de policiais a cinegrafista na Cracolândia
O padre Julio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, publicou nesta terça-feira, em seu perfil no Facebook, relato de ameaças feitas por policiais a ele e aos moradores de rua, na região central de São Paulo.
A denúncia ocorre um dia antes de audiência na Câmara Municipal sobre as operações policiais na região da Luz, nesta quarta-feira, às 15 horas.
Confira o primeiro post de Lancelotti:
- No fim da tarde estava na Cracolândia conversando com os irmãos de rua, em frente da Igreja Batista Cristolândia, quando um carro da policia parou e a policial abriu a porta. Quando me viu, fechou. Os que estavam na calçada perceberam e se manifestaram. O carro que tinha partido voltou e acionou outras viaturas.
No segundo post o padre relata a agressão de um policial a um cinegrafista da TVT, emissora ligada ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC:
- Em poucos minutos estávamos cercados de dezenas de policiais militares, que paralisaram a rua e, com armas nas mãos, nos intimidaram. Um deles agrediu o cinegrafista da TVT que a tudo filmava. Diante deles, abri o documento da Defensoria Publica e avisei do abuso de poder.
O terceiro post reafirma as armas apontadas para eles:
- Depois de um tempo de conversa e tantas armas apontadas para nós, tudo filmado pela TVT, liberaram a rua que ficou paralisada. Os irmãos correram para dentro da Igreja Batista e, mais uma vez, a Polícia mostrou sem receio o que significa sufoco, dor e sofrimento.
Nos comentários seguintes Lancelotti analisa a entrada da Rota na Cracolândia, conforme notícia publicada pela Folha de S. Paulo. Ele sintetizou essa entrada da tropa de elite com a expressão “política de extermínio”.
- Rota entra em operação na Cracolândia. Só não entram em operação os CAPs 24 horas, os consultórios de rua e ações de atendimento de saúde mental e serviço social. A Rota vai atrás dos traficantes ou vai exterminar os dependentes?
No post seguinte ele invoca o respeito ao Estado de Direito:
- É de assustar o rumo que as coisas estão tomando: nenhum sentido ético e humano, nenhum gesto humanitário, dureza e violência no limite da loucura e do rompimento do Estado de Direito.
A reunião emergencial na Câmara, nesta quarta-feira, será sobre o Plano de Ação Integrada Centro Legal - o que inclui as denúncias de violência e tortura.
É uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal (Comissão Extraordinária de Direitos Humanos, Cidadania, Segurança Pública e Relações Internacionais) e da Assembleia Legislativa (Comissão de Direitos da Pessoa Humana, da Cidadania, da Participação em Questões Sociais).
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
LEIA MAIS:
"Viaturas passam em cima da perna das pessoas na Cracolândia"
Cracolândia: “dor e sofrimento”, tortura, insultos e limpeza socialSobre a identificação policial - ou "a democracia de braços cruzados"
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:Outro Brasil
O padre Julio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, publicou nesta terça-feira, em seu perfil no Facebook, relato de ameaças feitas por policiais a ele e aos moradores de rua, na região central de São Paulo.
A denúncia ocorre um dia antes de audiência na Câmara Municipal sobre as operações policiais na região da Luz, nesta quarta-feira, às 15 horas.
Confira o primeiro post de Lancelotti:
- No fim da tarde estava na Cracolândia conversando com os irmãos de rua, em frente da Igreja Batista Cristolândia, quando um carro da policia parou e a policial abriu a porta. Quando me viu, fechou. Os que estavam na calçada perceberam e se manifestaram. O carro que tinha partido voltou e acionou outras viaturas.
No segundo post o padre relata a agressão de um policial a um cinegrafista da TVT, emissora ligada ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC:
- Em poucos minutos estávamos cercados de dezenas de policiais militares, que paralisaram a rua e, com armas nas mãos, nos intimidaram. Um deles agrediu o cinegrafista da TVT que a tudo filmava. Diante deles, abri o documento da Defensoria Publica e avisei do abuso de poder.
O terceiro post reafirma as armas apontadas para eles:
- Depois de um tempo de conversa e tantas armas apontadas para nós, tudo filmado pela TVT, liberaram a rua que ficou paralisada. Os irmãos correram para dentro da Igreja Batista e, mais uma vez, a Polícia mostrou sem receio o que significa sufoco, dor e sofrimento.
Nos comentários seguintes Lancelotti analisa a entrada da Rota na Cracolândia, conforme notícia publicada pela Folha de S. Paulo. Ele sintetizou essa entrada da tropa de elite com a expressão “política de extermínio”.
- Rota entra em operação na Cracolândia. Só não entram em operação os CAPs 24 horas, os consultórios de rua e ações de atendimento de saúde mental e serviço social. A Rota vai atrás dos traficantes ou vai exterminar os dependentes?
No post seguinte ele invoca o respeito ao Estado de Direito:
- É de assustar o rumo que as coisas estão tomando: nenhum sentido ético e humano, nenhum gesto humanitário, dureza e violência no limite da loucura e do rompimento do Estado de Direito.
A reunião emergencial na Câmara, nesta quarta-feira, será sobre o Plano de Ação Integrada Centro Legal - o que inclui as denúncias de violência e tortura.
É uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal (Comissão Extraordinária de Direitos Humanos, Cidadania, Segurança Pública e Relações Internacionais) e da Assembleia Legislativa (Comissão de Direitos da Pessoa Humana, da Cidadania, da Participação em Questões Sociais).
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
LEIA MAIS:
"Viaturas passam em cima da perna das pessoas na Cracolândia"
Cracolândia: “dor e sofrimento”, tortura, insultos e limpeza socialSobre a identificação policial - ou "a democracia de braços cruzados"
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:Outro Brasil
Portais transformam vítima de agressão na USP em “suposto” estudante
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O portal UOL divulgou a notícia da agressão ao aluno de Ciências da Natureza da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) com o seguinte título, no meio da tarde de ontem: “Vídeo mostra policial militar agredindo suposto estudante da USP”.
“Suposto”. Por enquanto guardemos esta palavra. “Suposto estudante”. O que ela significa, nesse caso?
Por ora avancemos. Pois outro portal de notícias importante, o G1 (de um dos grupos, ao lado da Folha de S. Paulo, que controla o UOL), seguiu na mesma linha ao definir Nicolas Menezes Barreto - sem nomeá-lo - como “um homem”. Ou um “jovem”. Os termos foram utilizados no texto, no título e na outra chamada principal da notícia.
Entre os três grandes formadores de opinião, foi o portal Estadão o mais preciso. Chamou Nicolas - vejam só - pelo nome e sobrenome. E o classificou como ele é – um estudante.
Tivessem os jornalistas olhado para a carteirinha que ele exibiu às câmeras, e feito uma apuração básica, todos os leitores saberiam que Nicolas era mesmo Nicolas - e também músico. Os que conseguiram entrevistá-lo sabemos ainda que ele é professor de Ciências na rede municipal – e de sua renda depende também sua família.
Ao definirem Nicolas como um “suposto” estudante, os portais de notícias embarcaram numa grande teoria da conspiração montada na reitoria da USP, numa espetacular paranoia do reitor João Grandino Rodas – o mesmo que se revelou tão pouco rígido, nas investigações da Comissão de Mortos e Desaparecidos, em relação a punir torturadores.
Por essa teoria bancada pela reitoria, os ocupantes da antiga sede do DCE Livre, onde Nicolas foi espancado e teve uma arma apontada para si, não eram... não eram estudantes. Eram apenas “supostos” estudantes. “Homens”, “rapazes”, sem vínculo com a Cidade Universitária.
Aqui precisa ficar claro que caberia exatamente a esse detalhe (a condição de não estudantes) a função de tornar legítima qualquer tensão adicional na USP, nestes primeiros dias do ano. Isto, claro, aos olhos punitivos de Rodas - e da polícia truculenta do governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Estamos aqui falando também de uma complacência da sociedade com certas violências. Pois não lemos diariamente na internet legiões de paulistas defendendo uns “corretivos” em estudantes que ousam fazer outras coisas que não estudar - como política estudantil? Uma palmadinha aqui, uma torturazinha ali – mas longe das câmeras, por favor!
Alguém pode até ter pensado: “De quem foi essa ideia de se comportar de forma tão destemperada, sabendo que estavam sendo filmados?”
Mas voltemos aos "supostos". No Estadão, lemos que os ocupantes do Centro de Vivência – um espaço em disputa entre estudantes e reitoria - eram, todos eles, “punks”. Sim, punks ocupando um prédio da USP. Isto foi escrito no jornal no dia 5 de janeiro. Mais precisamente, “um grupo de punks anarquistas e antifascistas” – conforme reportagem assinada por dois jornalistas do grupo.
AS PERIGOSAS BITUCAS
Esses punks estariam lá no lugar de estudantes, que, segundo o jornal, saíram de lá no ano passado. O relato chega a apontar no chão “bitucas de cigarro jogadas pelo chão e uma ampola de cocaína”. Como as bitucas ainda não são um problema de segurança pública, parece-me que a descrição preocupa-se com existência de... “drogados”. Drogados! Mais até do que os “maconheiros” que os postantes de internet tanto adoram associar à USP. E, portanto, qualquer semelhança com a repressão na Cracolândia terá sido mera coincidência?
Todo o texto do Estadão estava nesse contexto – de descrever aqueles homens como usurpadores do espaço universitário. E a reportagem foi publicada quando? Na quinta-feira, dia 5. Ou seja, ela precedeu em um dia (exatamente em um dia) a primeira desocupação do Centro de Vivência, o DCE Ocupado. Precisamente na sexta-feira a Guarda Universitária lá esteve. E com truculência – comparável à da polícia de Alckmin.
Uma das fotos divulgadas pelos estudantes mostra (entre várias pessoas que, sim, estudam na USP) uma gestante tentando sair do local – sem conseguir. Ela é estudante de Matemática na USP. E negra. O portão de ferro, baixado pelos guardas, machucou suas costas.
A pergunta ingênua que nos fica é: a sociedade paulistana – essa que se mostra tão complacente com “corretivos” - se importaria com umas pancadas a mais ou a menos em “punks”? “Drogados”? “Homens” não vinculados a uma instituição de ensino universitário - e não os seus futuros professores, geógrafos, filósofos etc?
Infelizmente eu imagino que não - diante do vasto analfabetismo social em relação a direitos humanos. Claro, estamos aqui no terreno das suposições. O que teria acontecido se um sargento truculento tivesse batido num punk – e não num estudante. Mas ao menos isto me ajuda a voltar à palavra “suposto” – como quis o UOL.
Terá sido por coincidência, então, que esse sargento escolheu (entre várias pessoas presentes), para enfrentar, não o corinthiano bem nutrido ao lado, não a bela moça que estava por ali? Não. O valente sargento mapeou o local e escolheu o rastafari. Um suposto estranho no ninho: um jovem homem negro.
E foi lá desferir suas bordoadas em Nicolas, o franzino. Diante da evidência de que ele era – e é – estudante da USP, o policial conseguiu ficar ainda mais transtornado do que já estava. Começou a andar de lá para cá. A turma de policiais militares na Cidade Universitária seguiu à mercê de seu comando instável. Ele sabia que falhara em sua missão.
No meio da tarde de ontem, a cúpula da Polícia Militar foi rápida: puniu o sargento. Tirou-o imediatamente das ruas. Não, a Secretaria de Segurança Pública não se importou em investigar os mandantes (mas quem são mesmo eles nas ações do governo estadual, não é mesmo) da operação. Não se importou com a farsa bancada por João Rodas. Não questionou os jornais que legitimaram a invasão do DCE Ocupado - sem mandado judicial.
Sobrou para André, o sargento frenético.
LEIA MAIS:
“PM me escolheu porque eu era o único negro”, diz o estudante agredido na USP
Vídeos mostram PM agredindo estudantes na Cidade Universitária
Rosi conta como foi torturada na USP
Sobre imprensa, estudantes e tortura
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O portal UOL divulgou a notícia da agressão ao aluno de Ciências da Natureza da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) com o seguinte título, no meio da tarde de ontem: “Vídeo mostra policial militar agredindo suposto estudante da USP”.
“Suposto”. Por enquanto guardemos esta palavra. “Suposto estudante”. O que ela significa, nesse caso?
Por ora avancemos. Pois outro portal de notícias importante, o G1 (de um dos grupos, ao lado da Folha de S. Paulo, que controla o UOL), seguiu na mesma linha ao definir Nicolas Menezes Barreto - sem nomeá-lo - como “um homem”. Ou um “jovem”. Os termos foram utilizados no texto, no título e na outra chamada principal da notícia.
Entre os três grandes formadores de opinião, foi o portal Estadão o mais preciso. Chamou Nicolas - vejam só - pelo nome e sobrenome. E o classificou como ele é – um estudante.
Tivessem os jornalistas olhado para a carteirinha que ele exibiu às câmeras, e feito uma apuração básica, todos os leitores saberiam que Nicolas era mesmo Nicolas - e também músico. Os que conseguiram entrevistá-lo sabemos ainda que ele é professor de Ciências na rede municipal – e de sua renda depende também sua família.
Ao definirem Nicolas como um “suposto” estudante, os portais de notícias embarcaram numa grande teoria da conspiração montada na reitoria da USP, numa espetacular paranoia do reitor João Grandino Rodas – o mesmo que se revelou tão pouco rígido, nas investigações da Comissão de Mortos e Desaparecidos, em relação a punir torturadores.
Por essa teoria bancada pela reitoria, os ocupantes da antiga sede do DCE Livre, onde Nicolas foi espancado e teve uma arma apontada para si, não eram... não eram estudantes. Eram apenas “supostos” estudantes. “Homens”, “rapazes”, sem vínculo com a Cidade Universitária.
Aqui precisa ficar claro que caberia exatamente a esse detalhe (a condição de não estudantes) a função de tornar legítima qualquer tensão adicional na USP, nestes primeiros dias do ano. Isto, claro, aos olhos punitivos de Rodas - e da polícia truculenta do governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Estamos aqui falando também de uma complacência da sociedade com certas violências. Pois não lemos diariamente na internet legiões de paulistas defendendo uns “corretivos” em estudantes que ousam fazer outras coisas que não estudar - como política estudantil? Uma palmadinha aqui, uma torturazinha ali – mas longe das câmeras, por favor!
Alguém pode até ter pensado: “De quem foi essa ideia de se comportar de forma tão destemperada, sabendo que estavam sendo filmados?”
Mas voltemos aos "supostos". No Estadão, lemos que os ocupantes do Centro de Vivência – um espaço em disputa entre estudantes e reitoria - eram, todos eles, “punks”. Sim, punks ocupando um prédio da USP. Isto foi escrito no jornal no dia 5 de janeiro. Mais precisamente, “um grupo de punks anarquistas e antifascistas” – conforme reportagem assinada por dois jornalistas do grupo.
AS PERIGOSAS BITUCAS
Esses punks estariam lá no lugar de estudantes, que, segundo o jornal, saíram de lá no ano passado. O relato chega a apontar no chão “bitucas de cigarro jogadas pelo chão e uma ampola de cocaína”. Como as bitucas ainda não são um problema de segurança pública, parece-me que a descrição preocupa-se com existência de... “drogados”. Drogados! Mais até do que os “maconheiros” que os postantes de internet tanto adoram associar à USP. E, portanto, qualquer semelhança com a repressão na Cracolândia terá sido mera coincidência?
Todo o texto do Estadão estava nesse contexto – de descrever aqueles homens como usurpadores do espaço universitário. E a reportagem foi publicada quando? Na quinta-feira, dia 5. Ou seja, ela precedeu em um dia (exatamente em um dia) a primeira desocupação do Centro de Vivência, o DCE Ocupado. Precisamente na sexta-feira a Guarda Universitária lá esteve. E com truculência – comparável à da polícia de Alckmin.
Uma das fotos divulgadas pelos estudantes mostra (entre várias pessoas que, sim, estudam na USP) uma gestante tentando sair do local – sem conseguir. Ela é estudante de Matemática na USP. E negra. O portão de ferro, baixado pelos guardas, machucou suas costas.
A pergunta ingênua que nos fica é: a sociedade paulistana – essa que se mostra tão complacente com “corretivos” - se importaria com umas pancadas a mais ou a menos em “punks”? “Drogados”? “Homens” não vinculados a uma instituição de ensino universitário - e não os seus futuros professores, geógrafos, filósofos etc?
Infelizmente eu imagino que não - diante do vasto analfabetismo social em relação a direitos humanos. Claro, estamos aqui no terreno das suposições. O que teria acontecido se um sargento truculento tivesse batido num punk – e não num estudante. Mas ao menos isto me ajuda a voltar à palavra “suposto” – como quis o UOL.
Terá sido por coincidência, então, que esse sargento escolheu (entre várias pessoas presentes), para enfrentar, não o corinthiano bem nutrido ao lado, não a bela moça que estava por ali? Não. O valente sargento mapeou o local e escolheu o rastafari. Um suposto estranho no ninho: um jovem homem negro.
E foi lá desferir suas bordoadas em Nicolas, o franzino. Diante da evidência de que ele era – e é – estudante da USP, o policial conseguiu ficar ainda mais transtornado do que já estava. Começou a andar de lá para cá. A turma de policiais militares na Cidade Universitária seguiu à mercê de seu comando instável. Ele sabia que falhara em sua missão.
No meio da tarde de ontem, a cúpula da Polícia Militar foi rápida: puniu o sargento. Tirou-o imediatamente das ruas. Não, a Secretaria de Segurança Pública não se importou em investigar os mandantes (mas quem são mesmo eles nas ações do governo estadual, não é mesmo) da operação. Não se importou com a farsa bancada por João Rodas. Não questionou os jornais que legitimaram a invasão do DCE Ocupado - sem mandado judicial.
Sobrou para André, o sargento frenético.
LEIA MAIS:
“PM me escolheu porque eu era o único negro”, diz o estudante agredido na USP
Vídeos mostram PM agredindo estudantes na Cidade Universitária
Rosi conta como foi torturada na USP
Sobre imprensa, estudantes e tortura
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
Assinar:
Postagens (Atom)



