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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Grávida está entre 12 estudantes presos na USP
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
Uma estudante grávida, Paula, está entre as seis mulheres e seis homens presos na manhã deste domingo, na Cidade Universitária, durante reintegração de posse de parte do bloco G, no Conjunto Residencial da USP (Crusp). O prédio estava ocupado pelos alunos desde maio de 2010. Sem assistência específica, ela foi carregada por membros da Tropa de Choque para o ônibus da polícia e, na delegacia, passou mal, diante da cela inundada por urina e fezes.
 
A estudante de cursinho vestibular está com seis meses e meio de gravidez. Ela já tinha sido retirada durante o despejo de ocupantes do antigo espaço do DCE-Livre, em janeiro. Na época os estudantes divulgaram uma foto de um portão sobre seus ombros, que ficaram machucados. Neste domingo, ela foi levada carregada - em uma cadeira, por quatro membros da Tropa de Choque - para o ônibus. Um vídeo mostrou esse momento - mas em apenas um dia saiu do ar, no YouTube.
 
O major Marcel Lacerda Soffner, porta-voz da Polícia Militar, disse inicialmente que “provavelmente” ela não era estudante da USP. Depois foi mais categórico: afirmou que ela não estuda na universidade. De fato, ela não estuda na graduação - é companheira de um ocupante da Moradia Retomada, estudante de Física.
 

Ao chegar na cela, inundada de água, urina e fezes, Paula começou a passar mal. Segue o relato da estudante Aline Camoles, que estava no local:
 

- Ela entrou na cela e começou a ter ânsia de vômito, que passou. Algum tempo depois começou a ficar com pressão baixa. Arrumamos um plástico (a sacola do lanche) para ela sentar no chão, sem se molhar, perto da porta. Era o único local que tinha entrada de algum ar fresco. Ela foi ficando pálida e mole, parecia que ia desmaiar.
 

Nesse momento as estudantes começaram a gritar:
 

- Não adiantou por algum tempo, gritamos mais e mais, batemos a garrafa de refrigerante contra o ferro da cela, para fazer barulho. Só depois de um tempo veio um tal César, dizendo que ali não era a casa da mãe joana, para a gente parar de gritar. Falamos que eles seriam responsabilizados caso acontecesse algo com a Paula. Ela pôde sair da cela para o hospital por conta da presença da advogada.
 

OCUPAÇÃO RETOMADA

Segundo Soffner, 3 entre os 12 estudantes detidos não são estudantes da USP. Uma jovem de 16 anos foi presa - sem que alguém percebesse que ela tinha direitos específicos. O blog também apurou que pelo menos uma das pessoas presas, do Sul, estava de passagem exatamente nestes dias, durante o carnaval, hospedada no apartamento do amigo – também preso.
 
Os estudantes foram levados ao 14º Distrito Policial, em Pinheiros. O porta-voz da PM definiu a desocupação, iniciada por volta das 6 horas, como “pacífica”. Desde as 4h50, pelo menos, os policiais estavam no local, bloqueando as entradas para o bloco. Soffner informou que 100 policiais militares participaram da operação.
 
A polícia cumpriu um mandado expedido na sexta-feira pela juíza Ana Paula Sampaio de Queiroz Bandeira Lins, da 4ª Vara de Fazenda Pública. O autor do pedido de reintegração de posse é a USP. Os reús, a Associação dos Moradores do Crusp “e outros”. Leia aqui o motivo de Ana Paula ter tomado a decisão logo antes do feriado.
 
Moradores do terceiro andar do bloco F mostraram balas de borracha que, contam, foram atiradas pelos policiais. Vídeos registram os estilhaços. Os estudantes protestavam contra a reintegração – mas estavam impedidos de acessar o bloco G. O porta-voz da PM não quis entrar em detalhes sobre o conflito. Disse que tudo foi registrado em vídeo e será apurado.
 
Os seis estudantes expulsos da USP, em dezembro, estão entre as pessoas que ocuparam o bloco G, em maio de 2010. O local era conhecido como Moradia Retomada. Uma das primeiras providências da USP, durante a manhã de hoje, enquanto as entradas para o local eram lacradas, foi a de apagar as inscrições feitas pelos estudantes, com o nome “Moradia Retomada”.
 
O porta-voz da PM disse, em rápida entrevista coletiva às 9 horas, que o prédio já foi entregue juridicamente à USP. E que os estudantes foram fazer exame de corpo de delito, “para comprovar que não houve violência”. “Houve resistência normal, legítima, resistência passiva”, afirmou.
 
Pouco depois ele informou ao repórter da Globo que os estudantes responderão por resistência e por dano ao patrimônio público. “A polícia vai se manter aqui para monitorar a reintegração”, afirmou. Leia mais aqui sobre a entrevista com o porta-voz.
 
O estudante William Santana Santos, morador do Crusp, falou em nome dos estudantes. Disse que os estudantes pediram diálogo com a Coseas (a coordenadoria de Assistência Social da USP) para que não houvesse a desocupação.
 
O delegado Noel Rodrigues, do 14º DP, não quis falar sobre o caso. Disse que só falaria depois do almoço.

ESTUDANTES X PM

A Cidade Universitária vive desde outubro conflitos diretos entre estudantes e Polícia Militar. Em outubro, alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) reagiram à detenção de três estudantes que portavam uma pequena quantidade de maconha no estacionamento da história.
 
Em seguida estudantes ocuparam um prédio da administração da FFLCH. Uma semana depois, a reitoria da USP. No início de novembro houve reintegração de posse da reitoria, com centenas de policiais e a prisão de 73 pessoas – a maior parte alunos da USP. Uma estudante conta ter sido torturada.
 
Diante da desocupação da reitoria, os estudantes decidiram entrar em greve, progressivamente esvaziada durante os dois últimos meses - mas oficialmente prevista até a próxima assembleia geral, no início de março. Entre as reivindicações dos alunos estão a saída do reitor João Grandino Rodas e o fim do convênio entre a USP e a própria PM.
 
Em janeiro, um vídeo mostrou o estudante Nicolas Menezes Barreto sendo agredido por um sargento da PM, durante a desocupação do antigo DCE-Livre. Ele acusou a polícia de racismo. “PM me escolheu porque eu era o único negro”, disse ele ao blog Outro Brasil.
 
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pinheirinho, 22 de janeiro
“Moradores gritavam, horrorizados”, diz autor da foto que correu o mundo

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

A foto com duas mães correndo, bebês no colo, tornou-se um símbolo do que aconteceu no domingo, em São José dos Campos (SP). A imagem mostra fogo ao fundo, durante a reintegração de posse do terreno do especulador Naji Nahas. O autor da foto, Roosevelt Cássio, conta ao blog Outro Brasil como fez a imagem, divulgada pela agência Reuters.

Ele diz que já conhecia bem o Pinheirinho. Conta que chegou a morar lá, por quatro meses, para documentar o bairro. E que não foram moradores de lá que praticaram atos de vandalismo, como mostrou, em sua avaliação, uma imprensa “inflamada”.



Confira a entrevista:


Outro Brasil - Qual o contexto e local exato da foto? Você estava com outros fotógrafos e cinegrafistas, com policiais ao lado?
Roosevelt Cássio - Sim. Por volta de 6 horas do domingo a Tropa de Choque arrebentou o portão principal e entrou no acampamento. Eu e um cinegrafista da Vanguarda, filiada da Globo, entramos ao lado dos policiais. Sofremos uma certa retaliação, mas não chegamos a ser expulsos. Imediatamente começamos a fotografar os fatos: a tropa entrando e os moradores saindo gritando e correndo horrorizados com a presença ostensiva dos policiais. Algumas mulheres saíam correndo com seus filhos no colo, enquanto os policiais avançavam, batendo seus escudos e cassetetes, fazendo muito barulho.

Como foi o momento exato da foto, do clique? Deu tempo de calcular a composição, o registro da expressão das mães ou você trabalhou mais na base da intuição?
Acho que tem um pouco de tudo… Mas consegui manter a cabeça fria e controlar a adrenalina pra poder contar o que estava ocorrendo através das imagens.Trabalhei com a câmera sem ligar o motor drive, pois estava com pouca bateria. Fiz, em cinco minutos,cerca de 20 clicks. Acabei aproveitando quase todos. Mas essa foto, particularmente, tinha uma certa emoção e mostrava o que realmente estava acontecendo naquele momento. O fato de eu trabalhar com fotojornalismo há algum tempo me ajudou muito a ficar calmo nessa hora.

Você percebeu imediatamente que tinha feito uma imagem histórica?
Não, na hora não percebi, mas sabia que tinha feito uma foto muito boa. Só depois de algumas horas do envio da foto que o editor da agência (Reuters) me ligou, dizendo que ela estava correndo pelo mundo. E que era uma imagem forte!

Sente-se incomodado por ver sua imagem repercutida sem os créditos?
Sem dúvida isso me incomoda e acho que posso falar por outros colegas. O crédito é obrigatório por lei, mas aqui no Brasil, como outras coisas, essa lei também não funciona.

Inscreverá a foto em prêmios de Fotografia e de Fotojornalismo?
Ainda não sei, talvez. Ainda estou muito envolvido com essa cobertura e com o Pinheirinho.

O PINHEIRINHO

Você conhecia bem o local antes de fazer a foto?
Conheço bem o local, fiz um projeto fotográfico em 2004. Fiquei o ano todo documentando a vida daquela comunidade, e passei efetivamente morando com eles por quatro meses.

Tem alguma posição política definida em relação à ocupação do terreno? Seja partidária, seja a favor ou contra os moradores?
Essa realmente é uma pergunta  relativa e muito difícil, e de acordo com meu envolvimento com aquela comunidade, prefiro não opinar, pois seria parcial da minha parte.

O que achou da reintegração de posse?
Foi muito difícil para ambos os lados, policiais e moradores. E até para os jornalistas: cheguei a ver alguns fortemente emocionados com os fatos. Mas sobretudo para os moradores, que realmente acreditavam que aquela área ia mesmo ser regularizada.

O que você viu, como fotógrafo, que considera não ter repercutido como deveria na imprensa?
Acho que, de um modo geral, houve uma certa "inflamação" da imprensa nessa cobertura que tomou proporção internacional, em relação ao fatos. Um exemplo claro foi que, ao meu ver, quem protestou, fez vandalismo e até atos de terrorismo não foram os moradores do Pinheirinho, e sim uma mistura de moradores vizinhos e outros elementos indignados com o acontecimento e a presença em massa da polícia.

O FOTÓGRAFO

Qual sua experiência profissional? Formação, quantos anos de trabalho, onde já trabalhou?

Sou formado em design, fiz dezenas de cursos de fotografia e até um curso de fotojornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo.Trabalho nessa área faz um 15 anos. Trabalhei por cinco anos na Folha de São Paulo e no jornal Vale Paraibano. Atualmente trabalho como free-lancer, fazendo trabalhos para diversos veículos e agência de notícias, entre elas Reuters e Associated Press.

Quais as fotos que mais repercutiram antes dessa?
Tive algumas fotos premiadas, mas a que mais repercutiu foi a classificada para o prêmio nacional Senai de Fotojornalismo. Uma foto feita para o caderno de indústria do Vale Paraibano, em uma matéria sobre reciclagem.

Como a foto repercutiu profissionalmente? Alguém já o procurou para outros trabalhos?
A repercussão foi bem positiva, mas devo continuar seguindo como freela mesmo. Estou também trabalhando com uma produtora de filmes, fazendo trabalho de direção de fotografia, e me toma muito tempo.

LEIA MAIS:
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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Rosi conta como foi torturada na USP

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Rosi não estava na reitoria naquela madrugada. Uma semana após a ocupação do prédio da Cidade Universitária pelos estudantes, ela cedera a barraca para um casal de amigos que visitava a ocupação. Dormiu no conjunto residencial dos estudantes, o Crusp, a poucos metros da reitoria. Mas isso não a impediu de ser presa, após uma decisão judicial que determinou a reintegração de posse do prédio.

A estudante de 25 anos, nascida no Paraná, foi uma das 73 pessoas detidas por um aparato de 400 policiais – da Tropa de Choque e da Cavalaria (PM), do Grupo de Operações Especiais (GOE) e do Grupo de Ações Táticas Especiais. Era o dia 6 de novembro, quase manhã de terça-feira. Profissionais de imprensa, informados da ação, acompanhavam a movimentação policial antes mesmo de os estudantes perceberem o cerco ao prédio.

Vários helicópteros (só um da PM) sobrevoavam o local. Rosi acordou assustada com o barulho e com a luz. A janela de seu quarto estava iluminada, mas ainda estava escuro. Ela desceu e foi ao prédio da reitoria. “Lá embaixo, os PMs impediam as pessoas de sair, inclusive as que tinham que ir trabalhar”, conta a estudante de Filosofia – hoje no terceiro ano da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Humanas, a FFLCH.

O Crusp também foi atacado. A polícia jogou uma bomba de gás lacrimogêneo (o que pode ser visto neste vídeo) nos corredores da moradia estudantil e reprimiu repórteres do Jornal do Campus, o jornal-laboratório do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Uma repórter tentou registrar imagens, mas não teve a mesma liberdade que veículos da grande imprensa.

- Chegando próximo à reitoria, eu comecei a tirar fotos em frente do cordão de isolamento da polícia, para registrar o que acontecia. Havia barulho de coisas sendo jogadas, quebradas. Nisso apareceu um policial por trás de mim, apontando uma arma de grosso calibre. Eu fiquei paralisada. Na minha frente estava o cordão de isolamento. Atrás, um cara armado.

Exatamente esse policial se aproximou de Rosi, pegou em seus braços, disse a ela que estava detida e a mandou deitar no chão.

- Chegaram mais dois PMs, que já me jogaram no chão para me imobilizar. Comecei a gritar, já que eu não estava lá dentro e eles não tinham justificativa legal para me deter. Eu só estava filmando! Foi quando um deles falou: “É melhor levá-la pra dentro”.

DENTRO DO PRÉDIO

A estudante (de 1m 59 e 60 kg) conta que, na delegacia, falaram que ela foi presa por ter tentado entrar na reitoria. “Como eu vou entrar em um lugar cheio de polícia, passando pelo cordão de isolamento?”, questiona.

Rosi foi levada para a frente da reitoria - arrastada. Ela conta que os policiais quebraram o vidro e entraram. Era uma sala escura. Não havia nenhum aluno. Só policiais. Homens. “Alguns estavam mascarados”, conta, “com pano embaixo do capacete”.

- Lá, me colocaram de pé e me mandaram deitar no chão. Como eu não fiz imediatamente o que me pediram, porque eu estava em estado de choque, eles chutaram minha perna, que ficou roxa.

Após levar o chute na perna, Rosi foi atirada ao chão, de bruços.

- Quando me jogaram no chão, um homem sentou nas minhas pernas, próximo ao meu bumbum. Outros dois sentaram no meu tronco, pressionando meu corpo no chão com o joelho. Havia vários policiais em volta, fazendo uma roda. É que, como eles estavam ao lado do vidro, se alguém estivesse passando por ali poderia ver.

A única visão que a estudante tinha era das botas. A sala estava toda escura. Ela calcula que havia uns 12 homens ali, “todos para imobilizar uma mulher”. Falaram a ela que iam levá-la presa e botaram um lacre em suas mãos. “Também pegaram minha câmera, roubaram o cartão de memória e a quebraram”. Eram aqueles lacres de plástico, com buraquinhos. “Provavelmente não tinham algemas para prender todo mundo”.

A TÉCNICA DO “PORCO”

A partir daí começou um período marcado pelo que ela chama de “requintes de tortura”. Os relatos chocaram os advogados que estão cuidando do caso:

- Nesse momento os policiais apertaram meu pescoço e taparam minha boca e meu nariz. Sou asmática. Quase desmaiei. Eles são sádicos, riam de mim, falavam que eu não ia sair dali. Eu gritava de dor e batia as mãos no chão, e eles falavam: “Você está pedindo arrego?”.

Ela pensava que ia morrer. “Em vários momentos achei que fosse morrer, principalmente por falta de ar, asfixiada. Que iam alegar que eu morri no meio do movimento. Eles não pouparam esforços. Era um clima de criar terrorismo”.

Rosi não conseguiu falar nada. E, mesmo assim:

- Um deles pegou na minha nuca, bateu várias vezes minha cabeça no chão, na parte do couro cabeludo, para não deixar hematoma. Eu tentava respirar e não conseguia. Aí mordi a mão do PM que tapava minha boca e nariz. Quando fiz isso, eles me falaram: “Ah, então você quer conhecer o porco, você conhece o porco?”.

O porco era uma espécie de bolacha de plástico, um material muito resistente que enfiaram em sua boca. Era um objeto achatado, conta com detalhes a estudante, que a impedia de falar e de respirar pela boca. “Um típico instrumento de tortura, até porque eu tenho dificuldade de respirar pelo nariz”.

Ela ficou com o tal “porco” na boca enquanto eles recomendavam: “É melhor ficar quieta, senão vai ser pior”. Enquanto isso, puxavam sem cessar seu braço para trás, ao mesmo tempo em que pressionavam ainda mais seu corpo contra o chão.

- Pensei que não havia mais ninguém lá dentro, que todo mundo já havia sido retirado e que iam fazer o que quisessem comigo. Depois eu soube que tinha uma sala ao lado, onde as meninas ouviram tudo o que aconteceu ali, elas são testemunhas. Onde eu estava não tinha uma mulher, ninguém.

Após vários minutos nessa situação, prenderam Rosi com um lacre, com as mãos pra trás. Apertaram muito forte e a levantaram do chão - pelos cabelos. Somente então retiraram o “porco” de sua boca e a levaram pra outro lugar, mais iluminado.

NA MIRA DA IMPRENSA

A iluminação revelaria as marcas da tortura. Com dor no braço, viu que ele estava roxo. E reclamou de dor. Ela faria muito mais tarde o exame de corpo de delito, obrigatório para os 73 estudantes detidos – somente 21 horas após a reintegração de posse.

- Os PMs me arrastaram para um corredor iluminado. Reclamei que meu braço doía muito. Eles olharam e falaram que realmente estava muito apertado. Pegaram uma faca enorme, pediram pra eu ficar quieta, para não cortarem meu braço, e cortaram o lacre.

Nesse momento começava outra luta de Rosi: contra a indiferença de imprensa que cobria os eventos na USP. Os dias anteriores tinham sido marcados por conflitos entre os estudantes e repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Havia provocações de ambos os lados. Do lado da imprensa, a ofensa recorrente era a de que todos eram “maconheiros”. Os estudantes criticavam a imprensa “burguesa”, vendida – e nada independente.

- Nisso passou um repórter da Globo, o primeiro a chegar no local. Ele fez toda a cobertura da desocupação. Quando eu o vi achei que era minha salvação: comecei a gritar e falar o que estava acontecendo. Ele me olhou com o maior desprezo e passou direto. Estava mais preocupado em filmar a reitoria!

A estudante diz que a emissora fez um acordo de exclusividade com os policiais. “Não foi à toa que a Rede Globo foi a emissora que mais atacou o movimento”, teoriza.

Mesmo assim, conta ela, alguns cinegrafistas filmaram algumas cenas que lhe servem de provas. As imagens do Jornal Nacional mostram-na reclamando da mão machucada. “Mas não me colocaram falando o que tinha acontecido, a violência contra mim eles não colocaram”, reclama.

Diante da indiferença dos repórteres, um policial ainda falou para ela: “Viu, não adianta nada você reclamar!” E ordenou: “De pé. Fica de pé!”.

- Eu não conseguia ficar de pé, mas eles queriam que eu ficasse. Um PM pegou o cassetete e apertou contra a minha garganta pra eu ficar em pé, junto à parede. Minha garganta desde então está inflamada e estou rouca.

A CHEGADA DA POLICIAL

Foi quando chegou uma policial, loira. A estudante diz que pode identificá-la no processo. Até porque eram 25 mulheres presas entre 400 policiais – mas apenas três policiais mulheres. E, entre essas três, aquela era a única loira.

- Achei que ela fosse ter o mínimo de sensibilidade. Aí aproveitei para falar para o PM: “Você vai me bater de novo?”. Nisso ela chegou, tirou ele de lá e falou: “Ele não pode te bater, mas eu sou mulher e posso”. Pegou na minha blusa e me jogou duas vezes contra a parede. Reagi com o cotovelo e ela saiu.

Mas os policiais continuaram por ali.

- Eles continuaram em volta de mim. Essa loira veio em seguida com minha máquina dentro da caixinha. Pensei: “Olha, que gentileza”. Mas estava quebrada e sem o cartão. A policial ainda me falou: “Se você colaborar eu vou te levar junto das meninas, senão você vai ficar aqui com os meninos, viu?”.

‘SÓ UMA LOUCA GRITANDO”

Rosi foi levada para a sala, onde as demais 24 mulheres detidas estavam sentadas no chão, com vários policiais no recinto. Eles tapavam o vidro com escudos para que, do lado de fora, não pudessem vê-las. A quantidade de policiais era maior do que a de detidas.

Nesse momento a estudante ficou sabendo que, minutos antes, diante de seus gritos, os policiais diziam o seguinte às suas colegas, atemorizadas: “Não se preocupem com os gritos, é procedimento normal”. Outro policial deu uma explicação diferente: “Não é nada, só uma louca que entrou gritando”.

Pelo relato de suas colegas, Rosi ficou cerca de 30 minutos sozinha com o grupo de PMs – sem testemunhas diretas, sob a tutela do Estado.

- Ficamos horas nessa sala e começaram a me ligar. Eu atendi e disse que estava lá dentro. Contei que estava passando mal, que precisava da minha bombinha. Só nesse momento eles acreditaram que eu tinha asma. Vinte minutos depois trouxeram minha bombinha, que meu namorado levou. Depois me mandaram desligar o celular e ficamos incomunicáveis.

A estudante conta que havia vários policiais militares sem farda, à paisana, filmando os rostos de todos. “Todos eles estavam sem identificação, dentro e fora da reitoria”, afirma. Elas reclamaram desse detalhe, mas a policial loira perguntou: “O que você entende de Polícia Militar pra saber o que PM pode ou não pode?”.

“VOCÊ ESTAVA LÁ, VOCÊ ME AGREDIU”

No 91º Distrito Policial, na Vila Leopoldina, Rosi foi atendida por uma delegada.

- Tentei falar para ela o que aconteceu comigo, dizendo que eu nem estava na reitoria naquele momento. Ela me disse que o questionário partia do pressuposto de que eu estava lá dentro, e que não havia uma lacuna onde ela pudesse relatar o que queria falar.

Então a estudante resolveu ficar em silêncio - declarar somente em juízo. Quando saiu da delegacia deparou-se com um policial gordinho, de olhos azuis. Como algumas meninas estavam fumando, ele queria colocá-las logo dentro do ônibus.

- Questionamos isso e ele me disse: “É pra você acatar, que você conhece minha força”. Eu não aguentei e disse: “Então você estava lá, seu filho da puta, você me agrediu”. Depois disso ele desapareceu. Não o vi mais.

Orientada pelo advogado, Rosi diz que tentou registrar a agressão em um boletim de ocorrência, mas a delegada teria se negado a registrar. “E ela teve a pachorra de dizer depois, em entrevista, que nenhum estudante alegou ter sido agredido”.

Sobre o motivo do protesto político na reitoria, a estudante rejeita a ideia de que os estudantes estavam ali somente para defender o direito de fumar maconha:

- O que defendemos é o direito de ter uma universidade de fato pública e aberta, para que as pessoas não tenham suas bolsas revistadas ou apenas pelo fato de serem, por exemplo, negras. E policia na universidade põe em risco o direito mais elementar numa democracia, que é o de ir vir.

MEDO E INDIGNAÇÃO

A estudante ainda tem medo.

- Achei que ia sair incólume, mas tenho tido sonhos com polícia todas as noites. Nem que sejam breves. Eles me batendo, como remake, eles me parando, eu sendo revistada, amigos meus sendo abordados e eu assistindo. Vou tentar marcar uma psicóloga.

Ela diz que alguma coisa mudou em sua vida. Na USP, mudou até o jeito de andar. “Agora ando assustada, olhando para os lados. Não ando mais sozinha pelo campus. E as pessoas ficam olhando”. Por isso prefere ficar em casa. “Penso que pode ser um deles, que podem me reconhecer. Você acaba ficando com mania de perseguição”.

Rosi já trabalhou como babá, monitora escolar, bóia-fria, frentista de posto de gasolina, em fábricas, em telemarketing, no comércio. Hoje, é professora na rede pública estadual. Dá aulas de filosofia para crianças. “Quando eu voltei para a escola as crianças  falaram: ‘Eba, a professora foi solta!’”.

Ela nasceu no Sul. É filha de militante político (do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST). Morou em acampamentos, durante a infância, e isso lhe soava algo natural. Chegou à USP porque lhe parecia um lugar livre, “onde os jovens podiam pensar livremente”. “Era tudo engano”, diz.

Quando seu pai ficou sabendo do que aconteceu, queria levá-la de volta para o interior paranaense. “E lá eles tinham as notícias da Rede Globo e da Bandeirantes, que trataram a gente como criminosos”, conta. “Mas ele sabe como é isso”. No Crusp, ganhou a presença constante de seus companheiros de militância, de seu namorado e amigos.


Rosi diz que sempre tive uma veia crítica. “Não sou xiita ou radical, apenas uma estudante que se indigna, que quer uma universidade que não seja só para ela. A USP pra mim foi um sonho, e eu queria que outras pessoas pudessem compartilhar isso”.

Militante do grupo trotskista Práxis - Socialismo ou Barbárie, ela considera-se “uma indignada”, que gosta de estudar, de fazer política e de morar no Crusp. Está mais resguardada, para não ser presa, mas já voltou a militar – nesta segunda-feira, compareceu à audiência pública sobre o tema na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

- Espero que eu não seja jubilada e possa prestar concurso para dar aula como professora efetiva. Não cometi nenhum crime, foram eles os criminosos, desejo não sofrer nenhuma represália, principalmente da própria universidade.

Ela reconhece que seu caso pode ajudar na luta de mulheres que sofrem violência. “Sem dúvida foi um abuso diante da minha condição de mulher. Se fosse um homem não seriam tão enfáticos”.

Mas não quer se considerar uma vítima, individualmente. “É todo um movimento”, define. “Não foi em vão. Ainda bem que o movimento está vivo e dando uma resposta a tudo o que aconteceu. Assim ganho força para falar”.

DIANTE DA IMPRENSA – PARTE 2

Duas semanas após a prisão em massa na reitoria, no dia 22, os estudantes da USP realizaram um ato no vão livre do Masp. Era uma “aula pública de democracia”, em resposta ao governador Geraldo Alckmin – para quem os estudantes é que deveriam ter aulas de democracia.

Em sua fala, Rosi tomou o microfone para protestar – com veemência - contra a mídia “podre" que, segundo ela, ignorou seu caso. “Eles não quiseram publicar minhas denúncias de tortura”, bradava. Ela diz que expôs o que a mídia não quis saber o que de fato aconteceu na USP - mas sim caluniar o movimento e seus participantes.


Minutos após eu a procurei. Ela estava com seu namorado, calma, ambos abraçados, escutando os demais discursos. Apresentei-me e demonstrei interesse em publicar toda a história – conforme o seu relato. Peguei seu telefone e marcamos a entrevista.

Eu não fui o primeiro. Dias antes, Rosi dera entrevista a um repórter da Folha de S. Paulo. A transcrição do depoimento – gravado - foi a base do relato publicado na agência Carta Maior e (com vários adendos exclusivos) nesta entrevista.

Durante o depoimento à Folha, ela chorou. Foi o mais difícil. Agora está mais calma – e mais confiante por eu ser, além de jornalista, estudante da USP. Tanto que permitiu publicar seu nome - na Carta Maior, apareceu como Nadya.

A reportagem da Folha, porém, nunca foi publicada. “Seria importante sair num jornal de grande circulação. Mas não quiseram”.

Era contra a linha editorial.


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