Grandes Patifes da Literatura (IV) –
João Romão
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O cortiço de Aluísio Azevedo é filho do cortiço de Émile Zola. Quem o diz é o crítico Antonio Cândido, em “O Discurso e a Cidade”. Azevedo escreveu sua grande obra – para Cândido, as demais são medíocres – em 1890. Doze anos depois de “A Taberna”, de Zola (1878). Por isso nada de “transposição direta da natureza”, avisa o crítico, como pretendia o naturalismo. Personagens e situações de “O Cortiço” são diretamente inspirados em personagens de “L’Assommoir”.
Mais de 120 anos depois, a obra de Azevedo se afirma como um clássico. Um dos livros que grudaram na lista de leituras obrigatórias da Fuvest, ele se mantém como referência para se pensar a questão urbana. A visão higienista embutida na obra está aí ainda, em São Paulo e no Brasil (da Favela do Moinho à Cracolândia, dos morros do Rio a milhares de iniciativas governamentais em cidades médias e grandes), para quem quiser ver.
Mas uma obra-prima sempre permite leituras diversas. Este item da série “Grandes Patifes da Literatura” foi sugerido pelo jornalista Haroldo Ceravolo Sereza. Especialista em literatura, e da boa, ele não titubeou quando instado a sugerir um grande patife: “João Romão”.
O protagonista do "Cortiço", de fato, vai além de Zola e do próprio naturalismo. É exatamente João Romão que marca a diferença central em relação ao livro de Zola. As duas obras são sobre trabalhadores “amontoados numa habitação coletiva”, como diz Cândido. Mas, como mostra o crítico, Zola não associou a vida do trabalhador à presença direta do explorador econômico – como faz Azevedo.
No livro do francês há apenas a figura do senhorio, “que cobra aluguéis nos momentos difíceis”. Em Aluísio Azevedo essa presença do explorador econômico “se torna o eixo da narrativa”. Para Cândido, a originalidade do livro está na coexistência íntima do explorado e do explorador. Isso só era possível, diz, porque o país era à época “economicamente semicolonial”.
Romão é um capitalista obsessivo, mas sem grandes refinamentos. Ele mesmo se vê de modo um tanto torpe. Diante dos vizinhos de origem nobre, envergonha-se – mas compensa essa percepção acumulando mais capital.
Em meio a esse processo, o leitor do século 21 tende a ficar particularmente chocado com o modo como Romão vê e trata Bertoleza – candidata, como a Madalena de Paulo Honório, à lista de mulheres mais humilhadas da literatura brasileira.
O País acabava de se livrar da escravidão. “Sou negra, sim, mas tenho sentimentos”, diz Bertoleza a Romão, ao saber que ele planeja se livrar dela. Azevedo escreve as últimas palavras de sua obra como se mantivesse a frase adversativa, de forma invertida (e crítica): “Bertoleza tem sentimentos, mas é negra”.
Ao contrário de Paulo Honório, um tanto direto demais, Romão mostra nessa sequência final que também pode ser dissimulado.
A sequência é um dos finais mais conhecidos da literatura brasileira:
“ - Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce, chegando ao armazém.
Um homem alto, com ar de estróina, adiantou-se e entregou-lhe uma folha de papel.
João Romão, um pouco trêmulo, abriu-a defronte dos olhos e leu-a demoradamente. Um silêncio formou-se em torno dele; os caixeiros pararam em meio do serviço, intimados por aquela cena em que entrava a polícia.
- Está aqui com efeito... disse afinal o negociante. Pensei que fosse livre... - É minha escrava, afirmou o outro. Quer entregar-me? - Mas imediatamente. - Onde está ela?
- Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar...
O sujeito fez sinal aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e encaminharam-se todos para o interior da casa. Botelho, à frente deles, ensinava-lhes o caminho. João Romão ia atrás, pálido, com as mãos cruzadas nas costas.
Atravessaram o armazém, depois de um pequeno corredor que dava para um pátio calçado, chegaram finalmente à cozinha. Bertoleza, que havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cócoras no chão, escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando viu parar defronte dela aquele grupo sinistro.
Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande perigo compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre; adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro.
Seu primeiro impulso foi de fugir. Mal, porém, circunvagou os olhos em torno de si, procurando escapula, o senhor adiantou-se dela e segurou-lhe o ombro.
- É esta! Disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a segui-los. - Prendam-na! É escrava minha!
A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.
Os policiais, vendo que ela não se despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto, e antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado”.
LEIA MAIS:
Grandes Patifes da Literatura (I) – Fernando Vidal Olmos
Grandes Patifes da Literatura (II) – Juan Pablo Castel
Grandes Patifes da Literatura (I) – Paulo Honório
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domingo, 15 de janeiro de 2012
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Alceu Castilho, jornalista.
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domingo, 8 de janeiro de 2012
Grandes Patifes da Literatura (III) -
Paulo Honório
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Depois de dois personagens da literatura argentina (Fernando Vidal Olmos e Juan Pablo Castel, ambos de Ernesto Sabato), inauguro com Paulo Honório a literatura brasileira nesta série sobre patifes.
Assim como Olmos e Castel, o protagonista de “São Bernardo” (1934) narra sua paranoia em primeira pessoa. Como Castel, o pintor de “O Túnel” (1948), mergulha nos ciúmes. “Boa em demasia”, Madalena é uma das mulheres mais humilhadas da literatura brasileira. (Como tal, parece ironia ela ser uma professora.)
Uma diferença em relação a Sabato é que as ficções de Graciliano Ramos têm um lado político mais acentuado - em meio ao mesmo existencialismo. Paulo Honório representa os proprietários de terra – e também o capital. Para ele Casimiro Lopes (o jagunço) é uma propriedade, Madalena é uma propriedade. Todos são extensões das terras de São Bernardo - obtidas de Padilha "sem remorsos".
Em artigo para a Revista Universitária do Audiovisual, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Henrique Dias Soares de Barros aplica especificamente a Paulo Honório o conceito de "homem subterrâneo", desenvolvido pelo crítico Antonio Cândido em relação à obra de Graciliano como um todo. O nome vem da obra (existencialista) de Dostoievski, também conhecida como "Homem do Subsolo".
Graciliano era leitor de Dostoievski. Cândido identifica nesses "homens subterrâneos" um conflito entre um ser social, "ligado à necessidade de ajustar-se a certas normas convencionais para sobreviver", e um ser profundo, "revoltado contra elas, inadaptado, vendo a marca da contingência e fragilidade em tudo e em si mesmo".
Reproduzo abaixo o capítulo dezenove: um momento especial (poético e de grande profundeza psicológica) dentro de uma das obras-chave de nossa literatura. Aqui Paulo Honório ganha contornos humanos – mas em meio ao delírio. “Encolerizo-me e enterneço-me”, diz ele.
Não se pode perder de vista a condição de patrão de Paulo Honório. Nem ele mesmo a perde, como neste trecho sobre Mestre Caetano: "Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar".
Paulo, Fernando e Juan bem poderiam também estar numa coletânea sobre literatura e saúde mental. “Não quero luz”, diz ele a Maria das Dores. A descrição de Paulo Honório de suas violências - como no caso dos dois argentinos – se desenrola em sua alma "agreste" em meio a um profundo tormento:
SÃO BERNARDO, CAPÍTULO DEZENOVE
Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.
E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.
Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as idéias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.
Emoções indefiníveis me agitam - inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.
Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão.
Lá fora os sapos arengavam, o vento gemia, as árvores do pomar tornavam-se massas negras.
- Casimiro! Casimiro Lopes estava no jardim, acocorado ao pé da janela, vigiando.
- Casimiro! A figura de Casimiro Lopes aparece à janela, os sapos gritam, o vento sacode as árvores, apenas visíveis na treva. Maria das Dores entra e vai abrir o comutador. Detenho-a: não quero luz.
O tique-taque do relógio diminui, os grilos começam a cantar. E Madalena surge no lado de lá da mesa. Digo baixinho: - Madalena! A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos. Estou encostado à mesa, as mãos cruzadas. Os objetos fundiram-se, e não enxergo sequer a toalha branca.
- Madalena...
A voz de Madalena continua a acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande algum dinheiro a Mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritação é diferente das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura estar uma pessoa ao mesmo tempo zangada e tranquila. Mas estou assim. Irritado contra quem? Contra Mestre Caetano. Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar. Mandrião! A toalha reaparece, mas não sei se é esta toalha sobre que tenho as mãos cruzadas ou a que estava aqui há cinco anos.
Rumor do vento, dos sapos, dos grilos. A porta do escritório abre-se de manso, os passos de Seu Ribeiro afastam-se. Uma coruja pia na torre da igreja. Terá realmente piado a coruja? Será a mesma que piava há dois anos? Talvez seja até o mesmo pio daquele tempo.
Agora Seu Ribeiro está conversando com Dona Glória no salão. Esqueço que eles me deixaram e que esta casa está quase deserta.
- Casimiro! Penso que chamei Casimiro Lopes. A cabeça dele, com o chapéu de couro de sertanejo, assoma de quando em quando à janela, mas ignoro se a visão que me dá é atual ou remota.
Agitam-se em mim sentimentos inconciliáveis: encolerizo-me e enterneço-me; bato na mesa e tenho vontade de chorar.
Aparentemente estou sossegado: as mãos continuam cruzadas sobre a toalha e os dedos parecem de pedra. Entretanto ameaço Madalena com o punho. Esquisito.
Distingo no ramerrão da fazenda as mais insignificantes minudências. Maria das Dores, na cozinha, dá lições ao papagaio. Tubarão rosna acolá no jardim. O gado muge no estábulo.
O salão fica longe: para irmos lá temos de atravessar um corredor comprido. Apesar disso a palestra de Seu Ribeiro e Dona Glória é bastante clara. A dificuldade seria reproduzir o que eles dizem. É preciso admitir que estão conversando sem palavras.
Padilha assobia no alpendre. Onde andará Padilha? Se eu convencesse Madalena de que ela não tem razão ... Se lhe explicasse que é necessário vivermos em paz...
Não me entende. Não nos entendemos.
O que vai acontecer será muito diferente do que esperamos. Absurdo.
Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.
Repito que tudo isso continua a azucrinar-me. O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me.
LEIA MAIS:
Grandes Patifes da Literatura (I) – Fernando Vidal Olmos
Grandes Patifes da Literatura (II) – Juan Pablo Castel
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por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Depois de dois personagens da literatura argentina (Fernando Vidal Olmos e Juan Pablo Castel, ambos de Ernesto Sabato), inauguro com Paulo Honório a literatura brasileira nesta série sobre patifes.
Assim como Olmos e Castel, o protagonista de “São Bernardo” (1934) narra sua paranoia em primeira pessoa. Como Castel, o pintor de “O Túnel” (1948), mergulha nos ciúmes. “Boa em demasia”, Madalena é uma das mulheres mais humilhadas da literatura brasileira. (Como tal, parece ironia ela ser uma professora.)
Uma diferença em relação a Sabato é que as ficções de Graciliano Ramos têm um lado político mais acentuado - em meio ao mesmo existencialismo. Paulo Honório representa os proprietários de terra – e também o capital. Para ele Casimiro Lopes (o jagunço) é uma propriedade, Madalena é uma propriedade. Todos são extensões das terras de São Bernardo - obtidas de Padilha "sem remorsos".
Em artigo para a Revista Universitária do Audiovisual, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Henrique Dias Soares de Barros aplica especificamente a Paulo Honório o conceito de "homem subterrâneo", desenvolvido pelo crítico Antonio Cândido em relação à obra de Graciliano como um todo. O nome vem da obra (existencialista) de Dostoievski, também conhecida como "Homem do Subsolo".
Graciliano era leitor de Dostoievski. Cândido identifica nesses "homens subterrâneos" um conflito entre um ser social, "ligado à necessidade de ajustar-se a certas normas convencionais para sobreviver", e um ser profundo, "revoltado contra elas, inadaptado, vendo a marca da contingência e fragilidade em tudo e em si mesmo".
Reproduzo abaixo o capítulo dezenove: um momento especial (poético e de grande profundeza psicológica) dentro de uma das obras-chave de nossa literatura. Aqui Paulo Honório ganha contornos humanos – mas em meio ao delírio. “Encolerizo-me e enterneço-me”, diz ele.
Não se pode perder de vista a condição de patrão de Paulo Honório. Nem ele mesmo a perde, como neste trecho sobre Mestre Caetano: "Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar".
Paulo, Fernando e Juan bem poderiam também estar numa coletânea sobre literatura e saúde mental. “Não quero luz”, diz ele a Maria das Dores. A descrição de Paulo Honório de suas violências - como no caso dos dois argentinos – se desenrola em sua alma "agreste" em meio a um profundo tormento:
SÃO BERNARDO, CAPÍTULO DEZENOVE
Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.
E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.
Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as idéias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.
Emoções indefiníveis me agitam - inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.
Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão.
Lá fora os sapos arengavam, o vento gemia, as árvores do pomar tornavam-se massas negras.
- Casimiro! Casimiro Lopes estava no jardim, acocorado ao pé da janela, vigiando.
- Casimiro! A figura de Casimiro Lopes aparece à janela, os sapos gritam, o vento sacode as árvores, apenas visíveis na treva. Maria das Dores entra e vai abrir o comutador. Detenho-a: não quero luz.
O tique-taque do relógio diminui, os grilos começam a cantar. E Madalena surge no lado de lá da mesa. Digo baixinho: - Madalena! A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos. Estou encostado à mesa, as mãos cruzadas. Os objetos fundiram-se, e não enxergo sequer a toalha branca.
- Madalena...
A voz de Madalena continua a acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande algum dinheiro a Mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritação é diferente das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura estar uma pessoa ao mesmo tempo zangada e tranquila. Mas estou assim. Irritado contra quem? Contra Mestre Caetano. Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar. Mandrião! A toalha reaparece, mas não sei se é esta toalha sobre que tenho as mãos cruzadas ou a que estava aqui há cinco anos.
Rumor do vento, dos sapos, dos grilos. A porta do escritório abre-se de manso, os passos de Seu Ribeiro afastam-se. Uma coruja pia na torre da igreja. Terá realmente piado a coruja? Será a mesma que piava há dois anos? Talvez seja até o mesmo pio daquele tempo.
Agora Seu Ribeiro está conversando com Dona Glória no salão. Esqueço que eles me deixaram e que esta casa está quase deserta.
- Casimiro! Penso que chamei Casimiro Lopes. A cabeça dele, com o chapéu de couro de sertanejo, assoma de quando em quando à janela, mas ignoro se a visão que me dá é atual ou remota.
Agitam-se em mim sentimentos inconciliáveis: encolerizo-me e enterneço-me; bato na mesa e tenho vontade de chorar.
Aparentemente estou sossegado: as mãos continuam cruzadas sobre a toalha e os dedos parecem de pedra. Entretanto ameaço Madalena com o punho. Esquisito.
Distingo no ramerrão da fazenda as mais insignificantes minudências. Maria das Dores, na cozinha, dá lições ao papagaio. Tubarão rosna acolá no jardim. O gado muge no estábulo.
O salão fica longe: para irmos lá temos de atravessar um corredor comprido. Apesar disso a palestra de Seu Ribeiro e Dona Glória é bastante clara. A dificuldade seria reproduzir o que eles dizem. É preciso admitir que estão conversando sem palavras.
Padilha assobia no alpendre. Onde andará Padilha? Se eu convencesse Madalena de que ela não tem razão ... Se lhe explicasse que é necessário vivermos em paz...
Não me entende. Não nos entendemos.
O que vai acontecer será muito diferente do que esperamos. Absurdo.
Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.
Repito que tudo isso continua a azucrinar-me. O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me.
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