Mostrando postagens com marcador #democracia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #democracia. Mostrar todas as postagens

sábado, 15 de agosto de 2015

Uma democracia com grupos de extermínio. Em Osasco somente? Não. Por todo o país

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Segue um exemplo (entre muitos outros) por Unidade da Federação. Boa parte das notícias é de 2015.

ACRE. "Agentes penitenciários denunciam ação de grupo de extermínio". http://bit.ly/…/…/agentes-penitenciarios-denunciam-acao.html (2015)
ALAGOAS. "Integrante de grupo de extermínio chefiou Guarda Municipal". http://tnh1.ne10.uol.com.br/…/pilar-integrante-de-grupo-de-… (2015)
AMAPÁ. "Prisão de comerciantes revela existência de grupo de extermínio de assaltantes". http://g1.globo.com/…/prisao-de-comerciantes-revel…/2670032/ (2013)
AMAZONAS. "Grupo de extermínio liderado por policial militar reformado é preso". http://acritica.uol.com.br/…/Manaus-Amazonas-Amazonia-exter… (2015)
BAHIA. "Jovens negros na mira de grupos de extermínio". http://apublica.org/…/jovens-negros-na-mira-de-grupos-de-e…/ (2013)
CEARÁ. "Há grupo de extermínio dentro da PM do Ceará". http://blog.opovo.com.br/…/capitao-wagner-ha-grupo-de-exte…/ (2012)
DISTRITO FEDERAL. "Polícia do DF investiga participação de PMs em morte de três jovens". http://g1.globo.com/…/policia-do-df-investiga-participacao-… (2012)
ESPÍRITO SANTO. "Polícia investiga volta da Le Cocq". http://www.folhavitoria.com.br/…/policia-investiga-volta-d…/ (2015)
GOIÁS. "Rodrigo Janot vai acompanhar investigações de grupos de extermínio". http://www.correiobraziliense.com.br/…/rodrigo-janot-vai-ac… (2015)
MARANHÃO. "Quilombolas denunciam grupos de extermínio". http://www.palmares.gov.br/?p=12334 (2011)
MATO GROSSO. "Polícia também investiga grupo de extermínio em Sinop; Sete são baleados em menos de uma hora". http://www.hipernoticias.com.br/…/policia-tambem-inve…/47165 (11 de agosto de 2015)
MATO GROSSO DO SUL. "Coronel da PM suspeito de mortes é vereador". http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/8/24/cotidiano/30.html (1997)
MINAS GERAIS. "PM eleito vereador é preso suspeito de chefiar grupo de extermínio". http://g1.globo.com/…/pm-eleito-vereador-e-preso-suspeito-d… (2013)
PARÁ. "PMs são acusados de facilitar trabalho de grupo de extermínio no Pará". http://www1.folha.uol.com.br/…/1618241-pms-sao-acusados-de-… (2015)
PARAÍBA. "Grupo de extermínio intimida Júri na Paraíba". http://colunaesplanada.blogosfera.uol.com.br/…/caso-manoel…/ (2014)
PARANÁ. "PMs de Curitiba são presos suspeitos de formar grupo de extermínio". http://g1.globo.com/…/pms-de-curitiba-sao-presos-suspeitos-… (2014)
PERNAMBUCO. "Três PMs são presos por integrar grupo de extermínio no Sertão de PE". http://g1.globo.com/…/tres-pms-sao-presos-por-integrar-grup… (2015)
PIAUÍ. "Grupo de extermínio pode estar agindo em Teresina e envolvido na morte de Eduardo Oliveira". http://www.meionorte.com/…/grupo-de-exterminio-pode-estar-a… (2015)
RIO DE JANEIRO. "Grupo de extermínio era financiado por centrais de 'gatonet', diz PF". http://g1.globo.com/…/grupo-de-exterminio-era-financiado-po… (2010)
RIO GRANDE DO NORTE. "Dezessete policiais são presos suspeitos de grupo de extermínio no RN". http://noticias.r7.com/…/dezessete-policiais-sao-presos-sus… (2013)
RIO GRANDE DO SUL. "Júri de ex-PM acusado de integrar grupo de extermínio em Alvorada é cancelado". http://wp.clicrbs.com.br/casodepoli…/…/grupo-de-exterminio/… (2015)
RONDÔNIA. "Latifúndio contrata PMs para exterminar camponeses". http://www.anovademocracia.com.br/…/2726-rondonia-latifundi…
RORAIMA. "Grupo de extermínio pode ser autor das últimas mortes em Boa Vista". http://www.fatoreal.blog.br/…/assassinatos-em-rr-grupo-de-…/ (2013)
SANTA CATARINA. "Polícia prende grupo de extermínio que atuava em Chopinzinho". (No Paraná. Mas também em Santa Catarina.) http://www.diariodosudoeste.com.br/…/policia-prend…/1346548/ (2015)
SÃO PAULO. "Em cada batalhão da PM tem um grupo de extermínio". http://racismoambiental.net.br/…/em-cada-batalhao-da-pm-te…/ (2012)
SERGIPE. "PF prende 11 suspeitos de integrar grupos de extermínio". http://noticias.uol.com.br/…/pf-prende-11-suspeitos-de-inte… (2015)
TOCANTINS. "Delegado que investigou grupo de extermínio de Grurupi é exonerado". http://www.t1noticias.com.br/…/delegado-que-investig…/46803/ (2013)

***
Dica: abra os links e veja nas chamadas as motivações. As redes. Não seja ingênuo. Não estamos numa luta entre mocinhos e bandidos. O crime organizado também usa farda. Ou distintivo.

Pergunta: por que esse não é um tema prioritário da imprensa? Com cobertura sistemática, e não ocasional? Editoriais, artigos indignadíssimos, cobrança diária? Por que tamanha distração?

Consideração: se você pactua com tudo isso (de posts na internet a selfies ingênuas), meu amigo, saiba que essa gente mata qualquer um. Se liga. Osasco é aqui. Brasil.


TWITTER:
@blogOutroBrasil

NO FACEBOOK:

Outro Brasil

domingo, 2 de novembro de 2014

O fascismo emergente não é apenas um espasmo exótico

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

A esquerda precisa admitir que é assustador o número de pessoas na rua nessas manifestações de extrema direita, a pedir intervenção militar e o impeachment de uma presidente reeleita há apenas uma semana. Assim como é assustador o número de pessoas que compartilham as fotos e as ideias desses fascistas. Não é apenas mais uma brincadeirinha de ignorantes, meus caros. Eles estão se levando a sério. E arrebatando incautos. A partir da soma das viúvas da ditadura com o sentimento antipetista mais radical, despolitizado e primário.

Os dilmistas mais empedernidos também precisam admitir que ajudaram a chocar esse ovo da serpente, ao radicalizarem contra Marina Silva, permitindo a ressurreição do tucanato - com o substrato de direita inerente à volta do Fla-Flu entre PT e PSDB. Isso significa fazer um mea culpa imediato, emergencial, e cobrar atitudes sensatas daqueles que foram eleitos. Vocês que se precipitaram tanto são também responsáveis por esse... por esse clima.

O Ricardo Mendonça, jornalista da Folha, observou no Twitter que o PSDB precisa ser rápido e se distanciar dessa corja de golpistas. Em respeito à sua história. Mas não é o que parece estar acontecendo. Em Brasília havia um carro de som de um deputado do PSDB, Izalci. Os tucanos começaram a abrigar a bancada da bala. E alimentam o pseudonoticiário de revistas inescrupulosas, como IstoÉ e Veja. Buliram com a credibilidade.

Onde estão os democratas? Por que estão tão calados? Em São Paulo, o deputado eleito Eduardo Bolsonaro (PSC), eleito com os votos de Marco Feliciano, discursou e falou que, caso seu pai fosse candidato, teria "fuzilado" Dilma Rousseff. Ora, é preciso haver reação imediata. Processo nele. E em qualquer liderança que coloque em risco a democracia. Em caso de incitação ao crime, mais do que isso.

SILÊNCIO E HISTÓRIA

Será mesmo o silêncio a a melhor estratégia? A história da humanidade é a história de ditaduras e teocracias, de democracias extremamente imperfeitas e apenas eventuais. Na América Latina, em história recente, tivemos golpe em Honduras, no Paraguai (apoiado por nossa mídia estúpida), quase tivemos na Venezuela (comemorado por essa mesma imprensa venal). E a história do Brasil não é a mais abonadora a respeito.

Por que, então, agirmos como avestruzes, como se não estivesse acontecendo nada? O que exatamente garantiria um estado permanente de democracia em nosso país, além de nossos vastos e bem intencionados desejos? Nossas "honradas e sólidas" instituições? Mas quais, exatamente? Essa Justiça e esse Congresso de decisões casuísticas, de indignações oportunistas, movidas pelas pautas da mencionada imprensa golpista?



Vale lembrar que, durante os protestos de 2013 em São Paulo, sindicalistas, sem-terra e outros manifestantes ficaram acuados em plena Avenida Paulista por uma horda de fascistas. Estes saíram quebrando bandeiras vermelhas, ou que não fossem do Brasil. Houve ameaças e agressões. Os manifestantes de esquerda ficaram isolados, fizeram um cordão. Por incrível que pareça, black blocs foram os responsáveis por não ter havido uma tragédia - ao protegerem os movimentos institucionalizados. Pouca gente percebeu os sinais. E as eleições acabaram colocando mais lenha na fogueira.

REPENSANDO A AGENDA

Sou crítico de políticas apenas reativas. Acho que a esquerda se moveu demais, nos últimos tempos, em torno de Felicianos e quetais, ajudando a promovê-los, e com dificuldades imensas de emplacar os próprios temas, as próprias reivindicações. Da mesma forma que considero um erro se mover apenas em função do que os ruralistas aprontam no Congresso, de forma a se conquistar apenas (quando muito) a retirada de bodes na sala. Correndo atrás do prejuízo.

Sim, acho que deveríamos estar promovendo as discussões de longo prazo (vítimas de sucessivas tentativas de assassinato durante esse último debate eleitoral emburrecedor). Como a questão agrária, o modelo de consumo, o modelo de mobilidade urbana, de ocupação do território, as causas primeiras da violência. A questão ambiental, mãe da crise hídrica. Não deveríamos esquecer dos indígenas, de todos os povos tradicionais que seguem sendo vítimas desse modelo econômico suicida.

Mas este é um momento de admitir que falhamos em tudo isso. Erramos. Fracassamos. (Lembro-me aqui da ideia do "pacto entre derrotados", do Ernesto Sabato.) E, portanto, precisamos, ainda que em paralelo com as discussões listadas acima, colocar de vez em pauta essa explosão de obscurantismo, esses lobões e lobófilos lombrosianos, esses discursos do ódio, essa defesa abjeta da tortura, do golpe, da morte, a morte do sistema, a morte como sistema.


TWITTER:
@blogOutroBrasil

NO FACEBOOK:

Outro Brasil

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Caso Yoani Sánchez mostra crise e agonia do discurso político racional

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Imagens. Sons estridentes. E não textos. Pelo menos não textos longos, com começo, meio e fim, discursivos, espírito persuasivo. A celeuma em torno da vinda da cubana Yoani Sánchez exibe um problema que extrapola a posição política (pró ou contra) em relação a Cuba, ou em relação à dissidente. Em vez de argumentação, tivemos cartazes, dinheiro sendo chacoalhado. Em vez de ponderação, gritos, exasperação. Do outro lado, mitificação, preguiça de contextualizar, vontade de reduzir a história de Cuba a duas ou três frases.

Como o debate em torno de Yoani ganhou contornos radicais (para não dizer histéricos), devo avisar que não estou a falar somente da cubana. Mas da crise do discurso político no Brasil. E também daquele discurso no campo progressista, da utopia, não somente aquela tarefa cômoda dos conservadores. Para defender o regime cubano, alguns militantes não admitiram sequer a possibilidade de um debate em contornos clássicos com a blogueira. Simplesmente não a admitiram como interlocutora.

Isso tem ocorrido à exaustão no cenário político brasileiro. Há algo contra o novo partido de Marina Silva, a Rede? Nada de se preocupar com o discurso da ambientalista, como aquele exposto no Roda-Viva de segunda-feira. É preciso desconstruí-la com rótulos, com generalizações – inclusive a de que fala demais. Seus pensamentos são espremidos em algum ponto de uma espécie de catálogo da desautorização, um kit já pronto para reduzir qualquer oponente. Uma tecla F5 (ou F7, F9) que facilite tudo, que dispense o exercício do convencimento.

Essa mesma lógica imediatista e exacerbada vale para grupos dos mais diversos espectros políticos. Ler um livro ou mesmo um artigo até o fim está se tornando um fardo. Ninguém leu o blog da cubana. Não leram e não gostaram. Como ela pagou a viagem? Basta acusar, insinuar, fazer uma lista de perguntas no Facebook – e pronto. Não carece ouvir a sua versão. E eventualmente, se fantasiosa ou distorcida, rebatê-la com calma, discernimento. É preciso cada vez mais chutar, demolir. Com palavras triunfalistas, como se fosse uma oposicionista cubana o obstáculo a ser superado no mundo, e não o tom farsesco (pois excludente) de todas as nossas democracias.

No campo oposto não há muita diferença. A própria cubana (muito longe de ser uma intelectual) classificou de “terroristas” os militantes estridentes e pouco educados que a hostilizaram no Brasil. Defensores dos governos tucanos, líderes evangélicos ou políticos ruralistas pouco se importam em ponderar, admitir alguma chance de que os discursos contrários tenham elementos contundentes, baseados em fatos ou evidências. Não há vontade de convergir, nem de admitir a hipótese de que o outro lado tenha alguma razão. É como se todos estivessem na zona de conforto. Um megadesfile dos teimosos.

Essa crise, por suposto, não é só brasileira. Líderes políticos de todo o mundo baseiam-se na imagem. Na repetição e perpetuação de algum estereótipo. E não na inquietação, na renovação constante de conceitos. Do exibicionista Silvio Berlusconi ao discreto José Mujica, todos se tornam reféns desse mundo das aparências. Nem o simpático presidente uruguaio (bem articulado) se salva dessa lógica. Não necessariamente por ele, mas pela falta de disposição de seus defensores para desenvolver melhor suas ideias. Comemora-se não necessariamente o que ele tem de melhor – apenas esta ou aquela política com a qual concordemos. Não seu outro estilo de vida, sua proposta de desaceleração. (Uma slow politics em contraponto a esse fast food eleitoral).
 

O venezuelano Hugo Chávez é até bem discursivo, prolixo. Fidel Castro também era. Mas seus seguidores já não querem mais ouvir ou ler nem aquilo com o qual concordem. Cito os exemplos mais à esquerda (ainda que uma esquerda censora, no caso de Fidel) por sua maior tradição em invocar discursos racionais contra a barbárie. Mas é claro que a direita é pródiga nesse sentido, como no caso de Berlusconi, ou de Paulo Maluf. Este político paulista responde o que quer, e não o que se pergunta – em método recomendado pelas assessorias de imagem brasileiras. “Não tenho conta no exterior”, repete ele. Não se trata só de Maluf: todos seguem acreditando nos próprios disparates.

A lógica da intolerância também se manifesta tematicamente: da posição em relação ao aborto ou a redução da maioridade penal, de uma discussão sobre futebol  à regulação dos meios de comunicação. Ninguém escuta nada, de nenhum lado da ponte. Filmes? “Eu vi este, aquele, aquele outro, aquele acolá. E você?” “Então, eu estava revendo um filme dos anos 50 e pensando que...” “Ah, legal, eu vi também mais outro filme, mais outro, mais outro... “ E ninguém desenvolve nada, ninguém costura nada.

As redes sociais, como ponto de encontro de protestos, têm radicalizado essa tendência performática e efêmera, hostil ao debate de fato, ao debate construtivo, que aponte novas possibilidades. Quem tem posição política diferente das turbas, na internet, logo se percebe como um náufrago.
Basta ver o sucesso de fotos e “memes”, em comparação com os textos longos. Detalhe: não estou a falar apenas de pessoas de formação cultural tímida. Mas de legiões de universitários, de gente que até já leu dúzias de volumes sisudos e com lógica ferrenha.

No momento em que discordamos de algo ou alguém, em meio a esse deserto de racionalidade, devemos estar preparados. Algum franco-atirador logo buscará alguma coisa em nossa biografia: uma espinha (uma palavra mal colocada), um cabelo despenteado (um apoio político questionável), uma roupa fora de seu tempo (uma frase fora do contexto).  E seremos catalogados. Seja como “reacionários”, seja como “baderneiros”. Detectada alguma discordância, não terão dúvida: ao ataque. De preferência em turma. E, em vez de alguns milênios de história, filosofia, literatura, cinema (ou de uma biografia digna e coerente), melhor apertar a tecla F5.

Retórica? Tempo para amadurecer a argumentação, respirar fundo, um copo d'água entre um raciocínio e outro? Nuances, concessões, tréplicas, referências filosóficas, algum repertório literário ou cinematográfico, metáforas elaboradas? Tudo isso passa a ser desnecessário. “Militantes” de todos os espectros possíveis estão a postos para reduzir tudo a um grunhido. Cibernético ou nas ruas, não importa. Mas um grunhido à Edward Munch: expressionista, performático. Um resmungo intolerante.

NO TWITTER:
@blogOutroBrasil


NO FACEBOOK:

Outro Brasil

sábado, 7 de abril de 2012

Sobre democracia, Mafalda e a escolha – por PT e PSDB - do 2º colocado na lista

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) escolheu o segundo mais votado entre promotores e procuradores para chefiar o Ministério Público. O procurador Márcio Rosa teve 838 votos, menos que os 894 de Felipe Locke, mas foi o escolhido. A atitude foi criticada: não ocorria desde o governo de Mário Covas (1930-2001), igualmente tucano.

No Twitter, o deputado federal Ricardo Berzoini (PT-SP) chamou Alckmin de “antidemocrático”. O tucano Andrea Matarazzo, ex-secretário do prefeito Gilberto Kassab (PSD), respondeu: “Jaques Wagner escolheu o terceiro da lista. Tarso Genro, o segundo”.

É verdade. Em junho de 2011, o governador Tarso Genro (PT) escolheu o segundo colocado numa lista para a vaga de desembargador do Tribunal de Justiça. O contemplado foi Francesco Conti. Ele teve 22 votos, contra 23 votos de Fábio Sbardelotto e 18 votos de Alceu Schoeller.

E Jacques Wagner? Em março de 2010, uma mulher foi a mais votada para o cargo de Procurador-Geral de Justiça da Bahia. Norma Angélica Cavalcanti recebera 287 votos; Olímpio Campinho Júnior, 229 votos. Mas o governador petista preferiu Wellington Silva, que teve 140 votos.

A escolha do atual reitor da USP, João Grandino Rodas, também foi marcada por essa polêmica. Em 2009, Rodas foi o segundo colocado no colégio eleitoral, com 104 votos. Glaucius Oliva, hoje presidente do CNPq, teve 161 votos. Mas o então governador José Serra (PSDB) escolheu Rodas – cuja gestão está longe de ser uma unanimidade.

Temos, então, nessa amostra, três casos do PSDB e dois do PT. Cinco governadores diferentes ignoraram as votações – indiretas – e optaram por seus preferidos. E são apenas alguns exemplos. A democracia está em jogo, como pensam Berzoini e os estudantes da USP?

Nessas horas é difícil não pensar naquela charge de Quino, com Mafalda, onde a argentina lê no dicionário a definição de democracia: “Governo em que o povo exerce a soberania”.
Nos três quadrinhos seguintes Mafalda não consegue parar de rir. Quino não insere mais nenhuma palavra na tirinha. O humor é universal.


A escolha dos primeiros colocados na lista seria, sim, bem-vinda. Para o simulacro de democracia em que vivemos. As votações para os cargos na USP, no Ministério Público e no Tribunal de Justiça são todas indiretas. Não havia nada que impedisse Alckmin, Covas, Serra, Genro e Wagner de eleger o segundo e o terceiro colocados.


Em 2009, perguntei ao deputado José Eduardo Cardozo (PT) o que achava do caso Rodas. Ele foi objetivo: não condenava a indicação, por José Serra, do segundo colocado. Pois estava previsto na lei.

E o PT também poderia se valer desse recurso. Hoje Cardozo é o ministro da Justiça. Ele é anti-democrático?

Na definição atual de democracia, nenhum desses cinco políticos foi anti-democrático.

Eles estão seguindo as normas de nossa democracia representativa – no Brasil, particularmente excludente, à mercê de humores políticos, conchavos e decisões nem sempre muito republicanas.

Na visão de Mafalda, eles são uns pândegos.

NO TWITTER:

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Uso de bala de borracha não é algo universal, mostra Eric Hobsbawm

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Invoco o historiador Eric Hobsbawm para mostrar que o emprego de bala de borracha para controlar massas não é algo universal. Nesta segunda-feira, em Salvador, mais um manifestante ficou ferido - no rosto - diante da banalização, pelas polícias brasileiras, do uso desse recurso. Mas muitos países não utilizam nem esse nem outros métodos violentos de repressão.

Hobsbawn fala do assunto em seu livro “Globalização, Terrorismo e Democracia” (Companhia das Letras, 2007). Em um capítulo chamado A ordem pública em uma era de violência, ele discorre sobre o aumento das forças policiais no mundo – e sobre o aumento do emprego da força.

É nesse ponto que ele diz que os especialistas em controle de massas dispõem hoje de quatro tipos principais de instrumentos para enfrentar manifestações “violentas”:
  • químicos (como o gás lacrimogêneo);
  • cinéticos (armas de dispersão, balas de borracha);
  • jatos de água;
  • tecnologias de atordoamento.
O historiador faz, então, uma lista de países para ilustrar as variações entre o que chama de enfoque tradicional e o “moderno” no campo real do controle de massas:

- A Noruega não emprega nenhum dos quatro; Finlândia, Holanda, Índia e Itália, apenas um, a saber, do tipo químico. Dinamarca, Irlanda, Rússia, Espanha, Canadá e Austrália usam dois; a Bélgica e os pesos pesados Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e mais a pequena Áustria têm os quatro tipos prontos para a ação.

Vale ressaltar que ele está se referindo a manifestações “violentas”. E não a manifestações pacíficas, democráticas – que as polícias brasileiras já se acostumaram igualmente a reprimir, das mais diversas formas.

Não estamos ainda nem falando do uso indevido do recurso: balas de borracha apontadas para o peito, para o rosto, para os olhos, oferecendo riscos diversos para os manifestantes.

O fato é que se naturaliza, com isso, uma expressão institucional da barbárie. Como a guilhotina, como a escravidão, as balas de borracha poderiam ser simplesmente abolidas. Mas, no Brasil, parecem ser o primeiro recurso, uma espécie de fetiche das forças de segurança.

UM DIA NA FEBEM

Uma vez, repórter do Estadão, fui num domingo cobrir o dia seguinte de uma rebelião na Febem Imigrantes. Alguns adolescentes tinham fugido na noite anterior. Houve mortos. As mães e demais parentes (quase todos mulheres) formavam uma fila, em busca de notícias dos internos. Estavam em ordem – a fila, diga-se de passagem, era infinitamente mais ordeira que filas feitas pelas classes média e alta em São Paulo.

Embora as mulheres estivessem quietas, um caminhão da Tropa de Choque passava provocando-as. Os policiais queriam briga. De fato, dali a alguns minutos, enquanto entrevistava algumas pessoas, vi os PMs atirando a esmo. Também fiquei na mira das armas. Várias pessoas ficaram feridas. No dia seguinte, emplaquei a manchete do caderno Cidades: “Tropa de choque atira em parentes em frente da Febem”.

Parecia-me a abordagem honesta. A notícia da fuga já fora explorada pelas televisões. Eu quis testemunhar, como repórter, o que vi, in loco.

No dia seguinte, porém, tomei bronca do editor. Ele alegou que eu fora “parcial”. Pois as TVs mostraram que alguém jogara uma pedra no caminhão. Retruquei que isso não justificava balas atiradas a esmo em mulheres, idosas, crianças. Que poderiam localizar a pessoa que atirara aquela – aquela única – pedra. Disse também que, se quisessem se basear no relato da televisão, não era necessário enviar repórter.

Minha sensação foi a de que eu convenci o editor. Mas ele não podia admitir, pois a bronca nitidamente viera da direção do jornal.

É que, de longe, sem convivermos com as pessoas que são vítimas desse tipo de violência estatal, fica muito mais fácil dizer que tudo aquilo é normal. Não é – e pobre da sociedade que acha que sim.

NO TWITTER:
NO FACEBOOK:

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A batalha (virtual) de Belo Monte – parte III

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Em meio ao debate quase binário na internet sobre a usina de Belo Monte, e aos vídeos de propaganda a favor ou contra o projeto, conforme mostramos na parte I e na parte II, um caso específico chama a atenção: o projeto “BeloMonte- anúncio de uma Guerra", da companhia Cinedelia. Em poucos dias as cenas de divulgação de um filme ainda irrealizado motivaram rapidamente uma mobilização. Motivo? A finalização do filme – contrário a Belo Monte - estava ameaçada. Por falta de dinheiro.

Os produtores resolveram fazer a coleta pela própria internet. O resultado, na manhã desta quarta-feira, era o seguinte: por meio de doações de 3.005 pessoas, o valor de R$ 114.000 para a fase final da obra já tinha sido ultrapassado, a 15 dias do fim da campanha de arrecadação. Essas 3 mil pessoas doaram R$ 121.763, suficiente também para a disponibilização do filme - pela internet.

A arrecadação continua, pois esse dinheiro não é suficiente para levar o filme às salas de cinema “do Brasil e do mundo”, segundo os organizadores. “Portanto, quanto mais dinheiro conseguimos juntar, maiores as chances de o filme ter impacto real na sociedade”.

A opção política dos produtores é clara: “Escolhemos o financiamento coletivo, pois, mais do que um filme, queremos fazer disso um ato político da sociedade, uma luta pelo acesso à informação e pelo direito de participar das decisões do país”, afirmou Digo Castello, que coordena a arrecadação.

É exatamente por esse motivo que destaco este caso em post específico. Pois é disso que se trata – de direito à informação. E não de qualquer conjunto arremedado de informações chinfrins (para utilizar o adjetivo preferido de Graciliano Ramos), mas de informações substanciosas, capazes de promover um debate mais encorpado - nacional e internacional - sobre o assunto.

As imagens iniciais do filme sugerem essa qualidade. O diretor André D’Elia gravou 120 horas de película, com 87 entrevistas feitas em três expedições ao Xingu. Documentou cinco protestos. O triângulo São Paulo-Brasília-Altamira foi o escolhido para as gravações: poder econômico, poder político e a população a ser atingida.

UM BRINDE À CULTURA

Até escrevermos este texto, 986 pessoas tinham doado R$ 10,00 cada. O nome delas vai aparecer nos créditos do filme. Outras 910 pessoas doaram R$ 30,00 – terão o nome nos créditos e acesso antecipado à obra – na ocasião do lançamento, na própria internet.
 As 187 pessoas que doaram R$ 80,00 cada terão tudo isso mais um acesso a fotos exclusivas feitas por André D’Elia no Xingu. Outros 117 apoiadores terão ainda direito a um vídeo exclusivo sobre os índios do Xingu.

Doze pessoas decidiram ainda ganhar um pôster – e doaram R$ 500,00 cada. Outras oito doaram mais de R$ 1.200,00, e levarão uma obra de arte produzida pelos grafiteiros Crânio e Mundano, com temática da floresta. Somente as duas últimas opções, de R$ 5.000 e R$ 15.000, não motivaram doações.

O diretor André D’Elia define o filme como “sério e investigativo, sem medo”. “Somos totalmente independentes, não temos rabo preso com ninguém”, afirma, no vídeo de divulgação. A realidade das comunidades indígenas e os problemas sociais decorrentes do projeto são abordados. “Altamira não pode ser transformada num cabaré da usina”, diz um dos moradores. Pelas imagens, eles ganham cara, voz, coração - deixam de ser apenas estatísticas.

Estamos aqui diante de um fenômeno que pode se tornar uma tendência. Assim como muitos brasileiros têm-se reunido para contratar diretamente shows de seus artistas preferidos, outros optaram, neste caso (seguindo a lógica do coletivo Catarse), por apoiar um filme com uma determinada temática – e uma causa. A opção é ao mesmo tempo cultural e política, portanto. O impacto disso transcenderá, em muitíssimas milhas, as fronteiras de Altamira.

No próximo post tentarei fazer uma reflexão sobre esse “debate virtual” em torno de Belo Monte – a partir destas três postagens iniciais. E o quanto ele aponta determinadas dificuldades (e tendências) no debate político brasileiro.O caminho ainda é longo para podermos definir todo o processo como, efetivamente, "democracia".

LEIA MAIS: