Mostrando postagens com marcador #indigenas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #indigenas. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de dezembro de 2013

Deputado ruralista defende "cacete" em indígenas

A fala do deputado Giovanni Queiroz (PDT-BA) na quarta-feira não pode passar despercebida. Em audiência pública promovida pelos ruralistas, ele ensinou a "dar um cacete" em indígenas. Conforme relato de Luisa Molina no Diário Liberdade: "O Gatilho da ofensiva ruralista".

Segue trecho:

- Aplausos e expressões de satisfação rondaram o auditório quando o deputado Giovanni Queiroz (PDT-PA), ao falar de como "lidaram" com "o problema indígena" no seu estado com violência. "Ninguém mais contrata advogado. Entrou hoje [indígena na terra], sai na madrugada do dia seguinte. Sai debaixo de cacete". Ele prossegue, aconselhando outros a contratarem empresas de segurança: "4 horas da manhã você aborda o pessoal [que entrou na terra], chega o cravo no primeiro que reclamar, dá-lhe um cacete, bota em cima de um caminhão e manda devolver".

Em 2010, o deputado latifundiário declarou R$ 10 milhões. Vejamos os três itens mais significativos:

-> Área Rural 4.356 Ha - Municipio De Pau Darco R$ 6.000.000,00

-> Área Rural 1.840 Ha Em Rio Maria R$ 2.000.000,00

-> 1.900 Cabeças De Gado R$ 1.500.000,00

Valor total dos bens declarados: R$ 10.421.200,00

Em 1998 ele possuía R$ 2,3 milhões. As duas fazendas já estavam lá, com valores menores, mas também significativos em relação ao total: R$ 1,2 milhão e R$ 555 mil.

Segundo o site A República dos Ruralistas, ele teve uma campanha eleitoral tímida, de R$ 487.750,00 em doações diretas, feitas por empresas do ramo sucroalcooleiro, frigoríficos e uma mineradora. Entre elas a a Cosan S/A Açúcar e Álcool, a Agropastoril do Araguaia Ltda, o Frigorífico Rio Maria Ltda e a Mineração Buritirama S/A.


Alceu Luís Castilho (@alceucastilho) 


TWITTER:
@blogOutroBrasil

NO FACEBOOK:

Outro Brasil



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Defesa de ruralistas por petista indica contradição histórica

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

O jornal Valor Econômico publicou nesta sexta-feira uma reportagem sobre bancada ruralista. Mais especificamente sobre o apoio dos ruralistas à candidatura de Henrique Eduardo Alves (PMDB) à presidência da Câmara. Até aí, nada de novo. Oligarquias apoiando um oligarca. No pé da matéria, porém, aparece uma afirmação que considero histórica em relação ao desenho das esquerdas partidárias no Brasil: um deputado petista em franca defesa de teses ruralistas.

Ele é o deputado federal Geraldo Simões, um defensor dos produtores de cacau. Não se trata apenas da defesa do setor específico, como ele tem feito no Congresso. Mas de todo um pacote ruralista, em sintonia total com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Da qual ele faz parte, como mostra o texto do Valor:

- Único petista a atuar no comando da FPA - é vice-presidente regional do Nordeste -, o deputado Geraldo Simões (BA), ex-secretário de Agricultura do governador Jaques Wagner, confirma haver preconceito do PT em relação aos ruralistas. "Isso decorre da nossa formação e ligação com a reforma agrária, agricultura familiar e sindicatos de trabalhadores rurais", afirma.

Mas defende que isso seja mudado. "É um preconceito que precisa ser removido. Estabelecemos relações com banqueiros, multinacionais, construtoras, qual o problema não estabelecer relação com esse setor, que é responsável por um terço do PIB. O PT deve fazer a revisão em relação a agricultura como um todo."

Também se coloca como favorável ao debate sobre a PEC das terras indígenas. "A Funai não pode ter esse poder absoluto, de desapropriar com base em um laudo complexo de uma antropóloga. Se o Congresso pode afastar presidente da República, por que não pode determinar o que é ou não é terra indígena?", conclui.


Simões não é o primeiro ruralista do PT. No livro “Partido da Terra – como os políticos conquistam o território brasileiro” (Editora Contexto, 2012), mostro que o partido possui vários latifundiários. Especialmente entre os prefeitos, mas também no Congresso, como o senador Delcídio Amaral (PT-MS). As contradições também são expostas, como a posição dúbia em relação ao Código Florestal.

Mesmo assim a defesa explícita de teses ruralistas, pelo deputado Geraldo Simões, pode ser considerada um marco histórico. A não ser que seja desmentida por outras lideranças. Sim, o governo federal (desde Lula) não tem sido o principal fiador de causas indígenas ou quilombolas. Mas acena para os dois lados: uma regularização de reservas aqui, uma repressão acolá.

Apoio à PEC ruralista contra a Funai e terras indígenas, porém, mais do que avança o sinal em relação às bandeiras históricas do partido. Lembremos que o PT surgiu também em um contexto onde a reforma agrária era uma grande causa. Até hoje o MST resiste em ser oposição, por conta do melhor diálogo que os movimentos sociais têm com Lula e os petistas – o que implica, em tese, menos repressão no campo.

Em Xapuri, no Acre, nos anos 80, um vereador do PT ganharia fama nacional. Ele foi candidato a deputado, em dobradinha com uma seringueira chamada Marina Silva. Seu nome, Chico Mendes.

No sul do Pará, o padre Josimo Tavares fazia igualmente campanha para o Partido dos Trabalhadores. Era atacado também por isso pelos latifundiários, refratários a uma Igreja influenciada pela Teologia da Libertação. Comissão Pastoral da Terra (CPT) e PT eram nomes confundidos no campo.

Padre Josimo foi assassinado em 1986. Chico Mendes, em 1988. Ambos vítimas da luta pela terra – como centenas de camponeses no Brasil, em plena era democrática.

Diante desse quadro ficam algumas dúvidas em relação à estratégia do deputado petista. Ele é voz isolada ou representa um setor crescente no partido? Eles estão apenas em busca de apoio à “governabilidade” ou já visam um eleitorado ruralista? Este já não estaria representado pelos partidos de direita?

Simões será desmentido ou teremos uma nova era? Dilma Rousseff, que cogita nomear a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) para um ministério, concorda com o deputado? O PT está do lado da reforma agrária ou do agronegócio?

TWITTER:
@blogOutroBrasil

NO FACEBOOK:
Outro Brasil

sábado, 10 de novembro de 2012

Otavio Frias Filho precisa contar ao Brasil que defende os ruralistas
 

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 

A Folha de S. Paulo deste sábado e a Veja desta semana repercutem uma pesquisa do Datafolha sobre hábitos indígenas. O título do jornal é absurdo, para quem tenha aprendido rudimentos de antropologia: “Índios estão integrados ao modo de vida urbano, afirma pesquisa”.
 

Ao lado, pelo menos, a Folha destaca uma frase do Conselho Indigenista Missionário (Cimi): “Isso não significa um conflito cultural. Não é o fato de adquirir uma TV ou portar um celular que fará alguém ser menos indígena”.

O jornal que se proclama democrático por ter aderido à campanha das Diretas Já, nos anos 80, precisa explicitar à sociedade brasileira que defende os ruralistas. Tanto quanto o Estadão ou a Veja. Sem posar de isento.

A pesquisa sobre indígenas foi encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Ela é presidida pela senadora Kátia Abreu (PSD-TO), que tem uma coluna semanal no jornal. Com direito a artigos extras, em campanha sistemática contra os territórios indígenas.
 

Um desses artigos foi escrito um dia depois da prisão do pecuarista Assuero Veronez, seu vice na CNA, acusado de participar de uma rede de exploração sexual de adolescentes. Veronez foi libertado por um desembargador que, por sua vez, já foi acusado de se apropriar de terras do Incra. A imprensa, porém, não divulgou essa informação.


O JORNAL E A SENADORA
 

Mas a relação dos donos da Folha com os ruralistas não é apenas ideológica. Um jornal do Tocantins publicou este ano a seguinte notícia, sobre visita de Otavio Frias Filho, diretor editorial e diretor de redação da Folha, ao parque do Jalapão. Ele estava acompanhado da senadora:
 


A origem do império Folha (que também tem participação no UOL e no Valor Econômico) é ruralista. Octavio Frias de Oliveira, o pai, era granjeiro, antes de adquirir a empresa Folha da Manhã S.A. Vejamos o que escreveu a respeito o jornalista Paulo Nogueira, há dois anos:
 

- Na biografia semioficial de Octavio Frias de Oliveira, está publicado um episódio revelador. Nabantino, o antigo dono da Folha, estava desencantado (...) Decidiu vender o jornal. Um amigo comum de Nabantino e Frias sugeriu que ele comprasse. “Dinheiro você já tem da granja”, ele disse. “O jornal vai dar prestígio a você.”

Nenhuma notícia que contrarie os amigos pessoais de Frias é publicada na Folha. Quem trabalhou lá diz que Frias Filho, após a morte do pai, é mais realista que o rei nesse sentido – em homenagem à memória do fundador do jornal. O mesmo não valeria para pecuaristas?
 

O Senado realizou em 2011 duas sessões de homenagens ao grupo: à Folha de S. Paulo e a Octavio Frias de Oliveira. Doze senadores discursaram na segunda sessão, em março – sob a presidência do ruralista José Sarney (PMDB-AP). Um ministro do STF também participou: o ruralista Gilmar Mendes.

Um desses parlamentares era a senadora Kátia Abreu. Ela disse no plenário que a Folha “agita, incomoda, provoca”. Segue um trecho:


- Infelizmente, este meu depoimento corre o risco de ser arguido de suspeição. Na verdade, não tenho apenas admiração pela presença testemunhal da Folha na vida brasileira. Vou além. Devo confessar minha condição de leitora diária do jornal (...) Também sou eventual colaboradora da sua corajosa terceira página, onde debatem os que têm algo a dizer sobre os temas em discussão no País, e que é aberto até aos que discordam do próprio jornal e o acusam de parcialidade. Além disso, com frequência, sou citada por minhas opiniões, intervenções nos trabalhos do Congresso Nacional e posições em defesa dos produtores rurais (...) Pois bem, mesmo quando as posições críticas do noticiário que me envolvem são adversas – o que é natural e nem sempre agradável, pois, às vezes, injustas –, nunca me senti desrespeitada, nem me foi negado espaço na Folha para explicações ou versões que me pareceram indispensáveis.


A TERRA E OS LATIFUNDIÁRIOS
 

Após a CPI da Terra, em 2005, o deputado federal João Alfredo (PSOL-CE) publicou um relatório que deveria ser o oficial. Por uma manobra dos ruralistas, entre eles o presidente da CPI, Álvaro Dias (PSDB-PA), o documento tornou-se um relatório paralelo. Eles aprovaram um texto que classificava as ocupações de terra como “atividade terrorista”.
 

A professora Regina Bruno escreveu o posfácio desse relatório paralelo, que virou livro. Em certo momento ela pergunta quais as razões de tanto poder e apego dos grandes proprietários de terra. “A resposta dela é longa”, conto no livro Partido da Terra (Editora Contexto, 2012). Mas vale destacar um trecho em que ela identifica uma “infinidade de pessoas, grupos e categorias sociais de proprietários de terra”:
 

- São os banqueiros-proprietários de terra, os empresários-proprietários de terra; os homens do agronegócio-proprietários de terra; os donos dos meios de comunicação-proprietários de terra, os comerciantes-proprietários. E, mesmo os não-proprietários, em seu modo de ser, são grandes proprietários por “apoio aos meus”, como costumam declarar na mídia.
 

Esses donos dos meios de comunicação precisam dizer com todas as letras quais interesses defendem, em relação à reforma agrária, à questão indígena, aos impactos das decisões dos ruralistas no meio ambiente.
 

Otavio Frias Filho, defensor da democracia, poderia encabeçar esse movimento.
 

TWITTER:
@blogOutroBrasil
 

NO FACEBOOK:

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Cimi aponta atropelamento sistemático de líderes indígenas no MS
 
O secretário-adjunto do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Busato, denunciou na manhã desta segunda-feira, em audiência no Senado, o atropelamento sistemático de lideranças indígenas no Mato Grosso do Sul.

Ele contou que morreu ontem um cacique, atropelado na semana passada, quando andava de bicicleta. Conhecido como Zezinho, ele chegou a participar da Cúpula dos Povos, no Rio de Janeiro, durante a Rio+20. Segundo o site do Cimi, era líder de uma organização guarani, do acampamento Laranjeira Nhanderu, em Rio Brilhante. Estava na UTI em Dourados (MS).
 
Busato também relatou a morte de três filhos de uma mesma liderança, Damiana, guerreira Kaiowá Guarani do tekohá Apyka'i. Na semana passada, dois desses filhos foram atropelados na rodovia que passa pelo acampamento, em Dourados. “Um deles pelo funcionário da usina de cana”, afirmou, na audiência da Comissão de Direitos Humanos, transmitida pela TV Senado.
 
Esse funcionário estava de moto. Segundo o secretário-adjunto do Cimi, já teria tentado atear fogo com óleo diesel nos barracos – entre eles o de Agnaldo, um dos filhos atropelados. Os dois filhos de Damiana, Agnaldo Cari de Souza e Wagner Freitas, foram enterrados ao lado do filho atropelado em 2011, Sidnei. Wagner morreu na hora, no dia 25 de junho. O marido de Damiana, Hilário, também foi morto por atropelamento.
 
Segundo o Cimi, atropelamentos ocorrem também em outros estados. Mas o caso mais grave é o do Mato Grosso do Sul. “Essa situação é potencializada pela demora dos procedimentos de regularização das terras indígenas", afirma Busato.
 
Egon Heck, coordenador regional do Cimi no Mato Grosso do Sul, escreveu ontem artigo sobre os atropelamentos, antes da morte de Zezinho. “Os indígenas são mortos nas estradas que nem cachorro, que se mata e fica aí jogado", escreveu, baseado em relato de indígenas. “Isso em função da impunidade total em que ficam os responsáveis por essas mortes. Em geral, os causadores fogem sem prestar socorro e sequer são identificados”.
 
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
 
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
 

NO FACEBOOK:

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Dom Tomás Balduíno: “Governo do Pará vendia terras no mapa”

Dom Tomás Balduíno recebe neste dia 15 de junho, da Universidade Federal de Goiás, o título de Doutor Honoris Causa. Em 2006, pela Agência Repórter Social, fiz com ele uma longa entrevista, em Brasilia. Quase seis anos depois, com o bispo emérito prestes a completar 90 anos, ela se mantém atual. Na época eu a publiquei com o seguinte título: “Aldo Rebelo é quem deveria estar na Papuda”. Isto após o ministro, então presidente da Câmara dos Deputados, mandar prender centenas de sem-teto, do MLST, que estavam no gramado do Congresso. O MLST perdera o controle de um ato e dezenas de sus integrantes invadiram a Câmara. Foi a senha para a prisão em massa (os sem-teto passaram a noite no Ginásio Nilson Nelson) e para um massacre dos meios de comunicação – um dos temas tratados por Balduíno na entrevista. O título atual se refere a um trecho em que ele detalha como o governo paraense vendia as terras, nos anos 60, por mapas aéreos. Sem se importar se ali havia índios. Segue o texto como foi publicado em 2006:
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
Em entrevista sobre o País e sobre sua vida, o líder da Comissão Pastoral da Terra falou (antes de Lula) de uma nova Constituinte, de uma “guinada para a direita” e desejou a prisão de Aldo Rebelo
 
BRASÍLIA - No dia 23 de julho, durante o Encontro Nacional dos Povos do Campo, Dom Tomás Balduíno concedeu uma longa entrevista à Agência Repórter Social. Por sua importância histórica, ela é reproduzida aqui na íntegra. O coordenador da Comissão Pastoral da Terra fala de conjuntura, mas percorre em sua fala centenas de quilômetros de uma história fundiária violenta. E faz projeções nada otimistas em relação ao futuro do País, que estaria sofrendo uma “guinada para a direita”, “pela pressão dos meios de comunicação”. Ele defendeu uma nova Constituinte antes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva falar disso, com repercussão bastante negativa. Motivo: o Congresso elege as elites, conforme o que o sociólogo Chico de Oliveira chamou de “fila dos idiotas”. Dom Tomás não deixa pedra sobre pedra. Sobre o episódio do MLST, disparou: “Aldo Rebelo é quem deveria estar no presídio da Papuda”.
 
Repórter Social - Passado algum tempo do episódio do MLST no Congresso dá para avaliar melhor os efeitos. Quais são? Os povos do campo saíram perdendo com isso?
Dom Tomás Balduíno -
Do ponto de vista da mídia, sim. É mais um motivo de criminalização. A mídia, representando o interesse dos grupos econômicos do país, sempre viu com maus olhos as organizações do campo, ancoradas na terra, mas com uma projeção política bem ampla, na linha da mudança. No governo passado, de Fernando Henrique Cardoso, era quem representava a oposição. Nem era o PT, eram as organizações do campo. E atualmente, se considerando nas mesmas trincheiras do Lula, eles são os que mais reivindicam insatisfação, decepção com o andamento da reforma agrária. Mantendo a mesma linha crítica, com relação ao conjunto da instituição. Então isso é mal visto. A tal ponto que a reforma agrária, pela força da mídia, começa a virar tabu, ou coisa proibida, como era antes.

 
Repórter Social - O senhor observa um fenômeno de retrocesso em relação à idéia de reforma agrária?
Dom Tomás -
Sim. E muitas vezes o poder público se vale disso para se retrair no apoio às reivindicações de assentamento, de aprimoramento das instituições como Incra, a serviço da reforma agrária, etc. Agora, do lado dos trabalhadores, eu acho que com esse evento na Câmara houve uma tomada de consciência, não só de questionar alguns do poder legislativo, com o gesto de indignação, mas um questionamento que se aprofunda. Em outras palavras, em vez de questionar as peças do xadrez, hoje se questiona o próprio tabuleiro. É o Congresso que precisa de uma reformulação. Porque se acontece tanta distorção, tanto escândalo como nós percebemos, não é só um problema de maus elementos que estão ali. É a própria estrutura que favorece isso. Afinal de contas, o Congresso que hoje temos é fruto de uma Constituição feita pelos próprios congressistas.

 
Repórter Social - Como a CPT vê, por exemplo, o caso dos sanguessugas? Deputados em escala, altíssima, 20% dos deputados sendo acusados de corrupção envolvendo verba para ambulâncias?
Dom Tomás
- A Comissão Pastoral da Terra vê um pouco nessa linha de ir além da incriminação desses 20% do Congresso. É a própria estrutura que favorece isso. Afinal uma estrutura distante do povo, auto-suficiente, onde predomina a impunidade, onde a impunidade é uma questão de honra. Analisando de novo o gesto do MLST, é um gesto que vai ao encontro não só de deputados, mas da própria instituição parlamentar, que merece ser revista a fundo. Não só uma reforma política, mas uma reforma constitucional. Uma nova Constituinte. Uma Constituinte que não seja feita por eles. Porque eles foram guindados à Constituinte, eles sendo congressistas, pela imposição do Sarney, na Constituição de 1988. Não foram os cidadãos comuns, eleitos constituintes, que foram votar a Constituição e depois voltaram para casa. Foram os próprios congressistas, do Senado e da Câmara, que foram promovidos a constituintes.

 
Repórter Social - Dom Tomás, não sei se estou distraído demais com a imprensa, mas não tinha ouvido o senhor falar disso ainda. Da necessidade de uma nova Constituinte, a partir até desses episódios...
Dom Tomás -
Hoje se fala muito de reforma. É uma conquista: reforma política. Todo mundo fala em reforma política. Os partidos, o próprio funcionamento do Congresso. Suponha a reforma política. Quem fará? Os deputados. Quer dizer, mais uma vez vão legislar em própria causa. E como superar esse impasse? Só mesmo com a criação de um organismo externo à Câmara. A reforma política é necessária, mas criada pelos deputados? Sob a medida deles?

 
Repórter Social - Que tipo de órgão seria?
Dom Tomás -
Não se fala do judiciário ter um controle externo? Com autoridade de poucos brasileiros para acompanhar o desempenho do Judiciário? Ou é o próprio Judiciário que se julga? Atualmente é assim. Então ter um Conselho. O Congresso precisa ter um órgão sério. Mas se hoje vamos propor a criação de um órgão externo ao Congresso, passará pela aprovação ou não aprovação dos próprios deputados.

 
Repórter Social - O argumento contrário será o de que os movimentos sociais, a igreja, estão querendo usurpar o sagrado direito do cidadão comum, que é manifestado pelo voto, “eles não são representantes da maioria do povo brasileiro, mas de determinados grupos”. Como o senhor responderia a isso?
Dom Tomás -
Que atualmente a fila de votos, que o Chico de Oliveira chama de a fila dos idiotas, é só eleger o cara. Depois de ele eleito, ele faz o que quiser do mandato dele. Qual é a força dessa fila? Esse é um problema muito sério. Acaba promovendo alguém como delegado do poder que é do povo, mas dono absoluto dessa delegacia. É nesse sentido que essa atribuição acaba sendo prejudicial ao próprio povo que esperava votar, que só faz isso, votar. Depois não acompanha, não tem instrumento de acompanhamento. Não se trata, portanto, de uma pressão desta ou aquela sociedade, ou igreja, ou de movimentos sociais. Não se trata disso. É um raciocínio transparente. Creio que nós estamos aí numa espécie de círculo vicioso. Toda reforma passa pelas mãos daqueles que mais precisam ser reformados. Eles se tornam a última palavra...
 
Repórter Social - Um moto-perpétuo... E quem poderia compor esse Conselho?
Dom Tomás - Suponho uma discussão. Porque esse Conselho deve ser em caso de eleição. E suponho uma discussão do tipo da Constituinte, que cria o instrumento do legislativo, do executivo e do judiciário e cria o controle externo. Então, a gente pode refletir como é que seria esse conselho. Mas a sua constituição passaria por alguma manifestação popular, do tipo Constituinte.

 
Repórter Social - Seria um poder moderador?
Dom Tomás -
Você não ouviu falar do Conselho do Judiciário?

 
Repórter Social - Mas pelo que estou entendendo seria algo relativo aos três poderes.
Dom Tomás -
Isso é uma necessidade. A forma concreta de chegar lá, precisa de reflexão, discussão, dentro de toda a sociedade brasileira. Senão vira um instrumento a mais, que pode cair nos mesmos vícios.

 
Repórter Social - Quem, além do senhor, tem discutido nesses termos?
Dom Tomás -
Essa discussão do controle externo do Judiciário é mais ampla que a CPT. Agora, essa discussão sobre a proposta de uma possível Constituinte veio a propósito destas eleições. O eleitor está diante de poucas alternativas.

 
Aqui se encerrou a primeira parte da entrevista, antes o início do Encontro Nacional dos Povos do Campo. Durante sua fala, Dom Thomas Balduíno fez várias citações bíblicas, ausentes durante a entrevista. Toda a parte seguinte foi feita no caminho para o almoço, no Minas Tênis Clube de Brasília, na fila e na mesa, diante do prato com arroz, feijão, frango e salada.
 
Repórter Social - Quem mais está pensando ou parecido com o senhor em relação a isso?
Dom Tomás - Isso precisaria fazer um levantamento. Sei que não estou só. Porque a própria Constituição de 88, que nós consideramos insatisfatória pelos motivos que eu mostrei, já foi deturpada na linha de anular as conquistas dos trabalhadores, do pessoal da terra, no sentido da flexibilização. Isso entrando como emenda na Constituição. Somando a Constituição desde os tempos de Fernando Henrique Cardoso, as emendas constitucionais, todas elas são no sentido de um retrocesso. Como corrigir isso? Se for confiar ao próprio pessoal que institucionalmente é encarregado de mexer na Constituição, dentro daqueles critérios da proporção numérica, são homens e mulheres que vão legislar em causa própria. Além disso, esses que estão lá dentro, pelo processo mesmo de formação do Congresso, do próprio time do Executivo, da presidência aos governadores e prefeituras, tudo isso obedece ao critério de uma maioria que representa a minoria. Lhe explico: o detentor do poder é o povo. Os que representam o povo no Congresso podemos distinguir entre um grupo majoritário que representa a minoria do povo, que são as elites, e um grupo minoritário que representa o resto do povo, a massa do povo. Então esta é a conseqüência de uma distorção na própria estrutura que leva a prover os diversos cargos do Congresso.
 
Repórter Social - ...
Dom Tomás - Eu não respondi à sua pergunta, você queria saber quem mais? Acho que há muito que acham que não seria a hora da mudança na Constituição. Porque os congressistas não estão à altura de votar a causa do povo. Porém, eu respondo o seguinte: a Constituinte não leva em conta o time que está compondo o Congresso. Não mexe neles, não caça o poder deles, porém cria uma nova Constituição a partir dos legítimos representantes do povo, que são eleitos em vista da própria Constituição. Um outro mundo, outro universo.
 
Repórter Social - Mas não há risco de um retrocesso? Em 1988 o clima era mais favorável às causas sociais do que hoje, não? Mesmo entre as elites...
Dom Tomás -
Eu diria que hoje há um avanço na sociedade brasileira em termos das organizações populares. Cresceram. Não havia isso em 88. A própria reforma agrária ficou mais na mão da bancada ruralista, do Centrão, porque do lado da representação dos trabalhadores rurais havia apenas a Contag. Não havia esse leque imenso de organizações populares, ou das mulheres, dos quilombolas, dos povos indígenas. E nasceram. Essas organizações são do final dos 70 e início dos 80. E isso muda muito a perspectiva numa hora de uma proposta de nova Constituinte.

 
Aqui Dom Tomás fala da possibilidade de uma “guinada para a direita” no país, pela “pressão dos meios de comunicação”. Ainda estamos na fila do almoço no Minas Tênis e a conversa interessa as pessoas mais próximas, que apenas ouvem.
 
Repórter Social - Que país o senhor vislumbra para uma nova geração, para os próximos 25 anos, pelo andar da carruagem? Se nada mudar o que vai acontecer? Vai ter mais conflito, mortes, radicalização?
Dom Tomás
- Há uma tendência que a gente nota, dentro do país, devido à pressão dos meios de comunicação, de uma guinada para a direita. É a figura do país norte-americano. Uma direitona. Tanto republicanos como democratas é a mesma coisa. Às vezes temo que isso no Brasil avance. No sentido de novas gerações sem compromisso nenhum com o social, e o povo em geral levado ao consumismo pelos meios de comunicação social. De maneira que... Isso para falar do grosso da população. Esses, por exemplo, que são beneficiados pelo programa Bolsa-Família, que estão optando por Lula, é gente em geral que não têm a mesma consciência de luta que têm estes grupos aqui. Pessoal de luta, de organização popular, deve estar reduzido à minoria. Porém, há imprevistos. Do tipo do fenômeno que levou Lula ao poder. Quem esperava que acontecesse o fenômeno Evo Morales na Bolívia? São coisas assim. Pode ser que esse povo sofrido, que talvez esteja apático diante da política e queira ter só a sua bolsa, o seu pecúlio mensal, numa hora de uma proposta ele abre os olhos. De repente. Pode suceder isso. Acredito que é um pessoal que vem sendo ameaçado pelos políticos oportunistas, mas que de repente pode abrir os olhos para outra perspectiva. E, o que é importante, forma maioria. Aqui nós temos em termos de oposição numérica, uma minoria de direita, com muito poder de penetração, por causa dos meios de comunicação social, dos recursos, do dinheiro, e uma grande maioria que é um potencial de mudança.

 
Repórter Social - O centro virou direita ou é direita?
Dom Tomás -
É direita. Em si é direita. Esquerda, no sentido de abertura, participação... O que distingue um do outro? É a elitização, a privatização, é a questão da ordem a favor dos grupos privilegiados, ao passo que a esquerda é toda forma de promoção a partir de baixo. De dar a voz e a vez aos mais pobres, aos mais sofridos.

 
De volta ao MLST, Dom Tomás dispara: “Aldo Rebelo é quem deveria estar preso na Papuda”.
 
Repórter Social - Queria que o senhor falasse da prisão do pessoal do MLST. O cara que deu bengalada no Zé Dirceu foi solto no mesmo dia. Eles não. O que significa isso?
Dom Tomás - É uma questão mesmo de uma desconfiança dos detentores do poder com relação aos representantes do povo. Essa prisão, primeiro foi uma prisão em massa, de quase 400 pessoas, pais de família, gente de paz, gente de trabalho honesto, jogados na Papuda. Quem fez isso, quem teve a idéia de fazer essa prisão, merecia estar na prisão.
 
Repórter Social - Foi o presidente da Câmara, aliás o deputado comunista Aldo Rebelo.
Dom Tomás -
Merecia estar lá dentro. Lá dentro da prisão. Porque é representante de uma elite que tem esse título de esquerda. Que é mais um título de glória, mais uma estrela para brilhar na lapela.
 
Repórter Social - O senhor está dizendo uma coisa muito grave aqui, Dom Tomás. Que o Aldo Rebelo deveria estar na Papuda?
Dom Tomás - É. Deveria estar. Ao invés desses que ele mandou para lá.
 
A resposta oficial da assessoria do presidente da Câmara foi a seguinte: "A assessoria de imprensa da Câmara dos Deputados reafirma que os militantes do Movimento de Libertação dos Sem-Terra já chegaram à Câmara de forma violenta, sem dar espaço ao diálogo, forçando a entrada de uma das portarias da Casa. Reafirma também que o presidente Aldo Rebelo mantém suas convicções no processo de diálogo com as forças sociais e as portas da instituição abertas a todas as manifestações pacíficas. O próprio Dom Tomás Balduíno e outros movimentos ligados à luta pela terra já foram recebidos diversas vezes pelo Presidente.”
 
A entrevista segue falando de violência no campo:
 
Repórter Social - O relator Valente, da plataforma Dhesc, relatou aqui no Fórum Nacional dos Povos do Campo casos escabrosos, por exemplo da Brigada Militar gaúcha roubando merenda, provocando até sexualmente as mulheres do MST. Ou o de um morto sendo despejado. Ele chamou isso de “um Brasil sem pé nem cabeça”. O senhor recebe na CPT denúncias desse tipo, regularmente?
Dom Tomás -
A CPT faz anualmente o Caderno de Conflitos. Que só não entra área indígena, que é feita pelo Cimi. Você percebe isso. Por exemplo a situação dos mortos da cana: eles morrem de cãibra, porque são obrigados a competir com as máquinas. Ou competem com as máquinas, cortando 16 toneladas, ou são postos na rua. E eles fazem tudo para poder garantir o emprego, porque é o dinheiro que mandam para a família de origem, de onde vêm, que é o semi-árido de Minas, do Nordeste, do Piauí, Maranhão. Nesse Caderno de Conflitos tudo vai nessa linha. Os conflitos existem não porque os trabalhadores rurais criam caso, porque agridem ou porque estão roubando fazendas, roubando gado. È porque o sistema os considera como bandidos, em vez de considerá-los como cidadãos que estão participando honestamente da construção da pátria.

 
Repórter Social - Ele citou o caso do Judiciário, até o de um ministro, Francisco Falcão, que ele chamou de “vendilhão”. Qual o papel do Judiciário nisso tudo?
Dom Tomás -
Teve um caso, por exemplo, do Supremo ter determinado o despejo de todo um grupo indígena, da tarefa, favorecendo um casal, que se intitula proprietário da terra. Tá bem. Olhando lá os textos de direito da propriedade, o juiz pode determinar o que ele quiser em favor do proprietário. Somente a Constituição abriu um outro veio, mais importante que o do direito da propriedade, que é a dimensão social da propriedade, a função social da propriedade. Comparando as duas coisas, o que define afinal de contas o direito da propriedade não é o direito absoluto, mas o respeito às condições do social. E você comparando, por exemplo, um casal que tem filhos, pretenso detentor de uma área onde os povos indígenas estão há anos, olhando sobre o ângulo social, prevalece a força, o direito?

 
A entrevista começa a tomar um rumo mais centrado na figura de Dom Tomás. Ele fala do jogo político na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
 
Repórter Social - Dom Tomás, o senhor está com quantos anos?
Dom Tomás -
Oitenta e três.

 
Repórter Social - O senhor está radicalizando seu discurso nos últimos meses? Está mais indignado?
Dom Tomás
- Acho que não, é a mesma coisa.

 
Repórter Social - Em termos de CNBB, como está o jogo político interno? Vocês lançaram este ano um texto ecumênico a partir da Carta da Terra, de 1980, mas não foi assinado pela CNBB.
Dom Tomás
- A correlação de forças dentro da CNBB não aponta na linha de assumir um documento daqueles, polêmico. Ele assume uma posição dura contra o agronegócio, se posiciona contra a transposição do São Francisco, a favor das ocupações... Justifica até com apoio daquele documento da Santa Sé. Não é aconselhável um documento desses ser assumido pela Conferência Episcopal. Por causa da diversidade de posturas dos bispos que estão aí. Talvez no ano 80 o episcopado tivesse mais coesão, mais uniformidade. Hoje não tem. Era inicialmente proposto para ser assumido. Foi a própria CNBB que pediu para a CPT atualizar o documento. Mas uma vez feita a atualização, com diversas assessorias, o pessoal sentiu que não... Como é que ele sai? Sai como um documento de bispos. Isso é tradicional na Igreja. Desde o tempo dos apóstolos e dos diáconos que há essa tradição de um bispo, por exemplo sozinho, tomar uma posição, com a responsabilidade problema, em relação a tal ou qual problema. Da mesma forma ele se unir com outro grupo ou outros grupo para fazer um pronunciamento. Fazendo assim, ele não está criticando o colégio, está talvez reconhecendo que talvez fosse forçar muito um colégio a adotar as posições dele.

 
Repórter Social - A Pastoral da Terra está tendo o apoio necessário da Conferência, em termos de recursos. Ninguém quer derrubar o senhor?
Dom Tomás -
É polêmico também. Tem bispos que não aceitam a CPT, que proíbem a Romaria da Terra. Não é um posicionamento geral da CNBB. A gente tem de entender duas coisas. Primeiro, a própria instituição, que aprova os documentos. E os membros da mesma CNBB, que são bispos, cada um com sua posição, sua ideologia. Gerar um consenso para um documento é uma coisa mais restrita. Você vai votar sobre o processo eleitoral. Quando muito entra contra a corrupção. Em qualquer entidade é assim. Se você alarga está sujeito a um efeito de média. A CNBB é mais uma força moral. A última palavra é do bispo diocesano. E isso é sustentado pelo direito canônico. Em outras palavras, a CNBB não é uma superdiocese, com poder sobre... Para muita gente parece que é um organismo acima do bispo diocesano. Não é. Ela decide por força moral. E funciona.

 
Dom Tomás volta a falar da direita e do governo Lula. Diz que se ele não tivesse adotado uma postura conciliadora poderíamos ter tido um golpe.
 
Repórter Social - Voltando um pouco: quando o senhor fala que teme o crescimento da direita no país, haveria uma tendência a uma radicalização, como na Venezuela? E o que aconteceria com um governo de direita?
Dom Tomás
- Acho que a sua comparação não é feliz. Porque na Venezuela o governo Chávez estaria mais perto dos movimentos sociais do que da elite. A elite que é contra ele, não os movimentos sociais.

 
Repórter Social - Mas me referia à radicalização, no caso da Venezuela.
Dom Tomás -
A radicalização, sim. Entendo. Aí é questão do futuro. Muito difícil você... Vamos tomar o exemplo do Lula. Se, em vez de seguir o caminho que preferiu seguir, que ele chama de governabilidade, seguisse a expectativa popular que ensejou a vitória dele, poderia haver um processo de radicalização. Sob que forma? Na forma de conspiração, de propostas de impeachment, e em último caso de golpe. Isso é que é radicalizar.

 
Repórter Social - Deixa eu ver se entendi: se o governo Lula fosse menos conciliador, inclusive com as elites, poderia ter desembocado num contexto de golpe?
Dom Tomás -
Eu acredito que o Lula não sofreu o impeachment porque ele concedeu tudo à elite financeira. O pessoal deixou assim: bom, mas a gente não está perdendo com ele, então por que derrubá-lo? Você não sente isso?

 
Repórter Social - Eu acho que tem a ver com a reação popular. O termômetro é o apoio ao governo e as próprias pesquisas sobre reeleição. Quanto menos apoio popular...
Dom Tomás -
Isso é um fator de ponderação, o apoio popular. Mas os elementos que levaram a cair ministros, deputados, presidentes de partido, poderiam ter acontecido no caso dele. Isso foi falado isoladamente, não foi uma proposta consolidada contra o Lula.
 
O assunto passa a ser as eleições e o quadro político em um segundo governo. Estamos no almoço e Dom Tomás fala ainda mais pausadamente, mas sem se incomodar em continuar dando a entrevista.
 
Repórter Social - Pensando neste evento. Já num período eleitoral, o que dá para sair daqui? O presidente do Incra propôs acordo em relação ao segundo governo. O senhor acha que dá para sair algo nesse sentido?
Dom Tomás -
Falando realisticamente: o Lula está eleito. As pesquisas já mostram ser difícil essa inversão. O encontro vai tentar mais consenso entre os companheiros. O Rolf falou disso, da união entre as diversas organizações. O encontro não vai descobrir a pólvora. Vai unir. A grande proposta é essa. O consenso é um pouco geral. Há um consenso em torno das propostas.

 
Repórter Social - O senhor falou da reeleição praticamente. Mas nos governos estaduais a oposição deve vencer. O PT tem mais chances somente no Acre e Piauí. Os governadores têm o poder de polícia, inclusive sobre os sem-terra – a gente falou aqui da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Mesmo admitindo um governo Lula que não reprima movimentos, a gente não fica com um país ambíguo no que se refere à relação com direitos dos trabalhadores? Ou seja: a direita não vai se utilizar desses governadores para bater nos trabalhadores?
 
Dom Tomás - Há um fenômeno que é novo, está sendo cultivado, divulgado, que é o da própria sociedade civil. Os governadores são um poder. Provinciano, mas é um poder. Todo mundo disse: agora é Lula, então vem a reforma agrária. Só que a questão, depois de 30 anos de caminhada, é o povo ter de criar um instrumento adequado à vida democrática. Esse fracasso tem um lado positivo, de abertura de horizontes, que é na linha de fortalecer a sociedade civil. Falam do Evo Morales. Quanto mais o povo distante, mais a elite criola ia fazer as coisas dela. Derrubaram o presidente. Na Venezuela evitaram o golpe. Eu faço a mesma leitura que você faz: os governadores não vão ser mais aqueles amiguinhos. Porque a estrutura que nós estamos aí é a que gera esse tipo de governador.
 
Repórter Social - Detalhe: governadores com chances efetivas de serem presidentes da República em 2010...
Dom Tomás -
Esse é um elemento complicador, que muda o cenário daquele que era antes. E acho positivo isso, que uma decepção com o fracasso como este realizado pelo governo Lula acaba permitindo a emergência da organização popular. Nem tudo no país é governo. Nem tudo vem do céu do Palácio do Planalto. Veja a força que exerceram os coronéis, os Sarney, Antonio Carlos Magalhães...

 
A entrevista segue para o seu final partindo para a biografia de Dom Thomas. Após quase duas horas de entrevista, ele fala da morte, dos que caíram na luta no campo. Um pouco de história do Brasil a partir da narrativa do líder da Pastoral da Terra.
 
Repórter Social - Aos 83 anos, o senhor viveu a juventude, adolescência, durante o Estado Novo. Boa parte da história do Brasil. Isso que o senhor fala de mobilização da sociedade civil é a principal novidade na sua trajetória de observador do país?
Dom Tomás -
Já houve mobilizações interessantes. Tivemos as Diretas Já...

 
Repórter Social - Essa, pontual.
Dom Tomás -
Pontual. E talvez fracassada, né? Terminado o fervor da mobilização... Eu participei lá em São Paulo. Quase me mataram. A massa de milhões mata qualquer um, se você quer atravessar...

 
Repórter Social - Quais foram os momentos mais tensos que o senhor viveu? Durante as ditaduras?
Dom Tomás -
O momento mais tenso foi na estrada das organizações do campo, em Goiás. O governo militar estava por trás, mas era sobretudo a tensão com os latifundiários, porque na Diocese de Goiás foi um ponto de partida de alguns movimentos nacionais contra o custo de vida, movimentos por exemplo campanha nacional pela reforma agrária, nasceu lá, com o apoio do Betinho, depois ficou mais próximo lá do Ibase. A coisa acirrou nas sucessivas ocupações de terra.

 
Repórter Social - De que anos o senhor está falando?
Dom Tomás -
Estou falando dos anos 80, início dos 90. Foi o momento mais duro. Porque essas organizações se apoiavam muito nas dioceses. Elas tinham referência até como local de reunião. Não eram autônomas, todas as dioceses, mas aproveitavam o espaço para fazer suas articulações. Chamavam assessores de onde eles queriam, livremente. O engraçado é que houve um... Vou contar um exemplo. Houve um encontro de trabalhadores na minha casa, porque lá era um centro diocesano de pastoral, com alojamento, com salões. Na hora assim do almoço dos trabalhadores rurais estavam reunidos e eles disseram: nós estávamos reunidos e não convidamos o senhor. O que o senhor diz? Eu disse: fico feliz de vocês poderem caminhar com suas próprias pernas, pensar com sua cabeça e caminhar com as pernas. A tensão ia esbarrar ali, porque a Diocese dava apoio a eles. O apoio da forma mais adequada, permitindo a eles o protagonismo. Não criamos movimentos de igreja para o campo. Nós abrimos espaços para o povo do campo ser sujeito, autor e destinatário de sua própria caminhada. Diziam inclusive que era o bispo que ordenava as ocupações. Não acreditavam que aquele peão pudesse ter cabeça para articular uma ocupação, envolvendo os diversos atores. Gente que achava que era somente pau-mandado, na condição de trabalhador doente que só fazia aquilo. A culpa recaía sobre o bispo. Então explicar as coisas a cada um, a gente deixava pra lá, não se incomodava com isso. Contanto que na realidade eles sejam os protagonistas, e não agentes de pastoral, Contag, seres muito iluminados. A minha experiência vem de longe. Antes de ir para a diocese de Goiás fui missionário em Conceição do Araguaia. De 1954 até 1967. Trabalhei em áreas indígenas, para isso estudei, fiz aqui pós-graduação em antropologia e linguística na UnB, cheguei a falar a língua de um deles.

 
Repórter Social - Qual língua?
Dom Tomás -
Xicrin. Do grupo bacajá, Kayapó. Mas lá a gente já começou a encontrar a contradição da terra. Os posseiros. Porque lá o governo não se incomodava em dar títulos de terra, desde que o pessoal requeresse. Começou a dar para os ricos do sul. Mas havia inúmeros posseiros, que começaram a ser incomodados pelos novos donos da terra, que chegavam com o documento. O governo do Pará vendia a terra no mapa, o mapa de aerofotometria. Sem saber se lá tinha índio, tinha... Aí o conflito vinha quando o dono chegava e falava: olha aqui o meu documento. Isso aconteceu em Santa Terezinha, fundada pelos velhos missionários dominicanos franceses, tinha igreja, escola, casa das irmãs, o povoado foi se formando. O comércio, e as casas de família. Um belo dia chegou lá um cara de São Paulo, dono da empresa chamada Codeara, reuniu o povo e falou: vocês têm várias coisas que acho que são de vocês – igreja, escola, posto de saúde, suas casas, comércio. Vocês podem pegar isso e levar para onde vocês quiserem. A terra, que está embaixo disso, é minha.Você imagina... E quando era indígena... E o governo estadual, como você diz, mandava a polícia.

 
Repórter Social - Isso foi em que ano?
Dom Tomás - Deve ter sido em 1969, 1970.
 
Repórter Social - Ontem a dona Dijé, líder de quebradoras de coco no Maranhão, contou caso similar, no Conselho Federal de Psicologia, relativo à sua comunidade quilombola, queimaram todas as casas... Uma empresa japonesa.
Dom Tomás - É o mesmo processo. Acho que o instinto mal, mesmo, ignora quem está lá. E é um dinheiro que não vai para os cofres públicos. Vai para a corrupção. Pois o Estado tem o poder de venda, dá as escrituras públicas, mas a realidade a terra não é totalmente do Estado, é terra de posseiros, de povos indígenas, que tem direitos imemoriais. O resultado é a briga, o conflito. Isso para dizer que comecei no noviciado nesse clima, antes de vir para a Diocese de Goiás, onde fui arcebispo por 31 anos. Agora, como a gente disse, a polícia é formada ali mesmo. De vez em quando me chamavam para dar uma aula no quartel deles. Eles me conheciam, iam tomar bênção. É quem a gente encontrava nos despejos. Quando você via se aproximando o carrinho da gente, o pessoal ficava que nem marimbondo: olha ali, polícia, fazendo o cerco. Falavam: Dom Tomás... Você vê: ao mesmo tempo a tensão e a possibilidade de um papo, de um diálogo, sobretudo no nível da força policial. O que eu tinha medo, sobretudo em relação aos agentes de pastoral, era dos jagunços. Eu não tinha medo da polícia. Nunca tive. Nem do exército. Sabia que tinha vários agentes me acompanhando. Havia essa possibilidade de levar um diálogo com o dono da terra, ou então com o comando, a gente até combinava com a polícia, ‘não faça esse despejo agora, espera mais um pouco, você não vai perder emprego por causa disso’, aí dava tempo da negociação chegar. Todas as vezes o resultado das ocupações foram assentamentos.
 
Repórter Social - O senhor foi a muitos velórios de trabalhadores rurais?
Dom Tomás -
Fui a muito velório de trabalhador rural, de padre assassinado...

 
Repórter Social - Quantos?
Dom Tomás -
Não contei, mas teve dois mais presentes na minha memória. O padre Rodolfo Lunkenbein (morto em 15 de julho de 1976), padre João Bosco Burnier, assassinado em Ribeirão Cascalheiro (11 de outubro de 1976), padre Josimo (Tavares, assassinado em 1986, no Maranhão).

 
Repórter Social - Em que ano?
Dom Tomás -
76. Agora completaram 30 anos. É engraçado o episódio do Rodolfo. Entrou um jornalista aí, na história. Depois dele sepultado, do velório, eu estava na minha mesa de trabalho, o telefone toca. Um jornalista de Brasília me chama. Dom Tomás, no dia 20 de julho de 1976 onde é que o senhor estava? Eu peguei a agenda e falei: fui para o velório do padre Rodolfo, estava lá. Inclusive fui pilotando o aviãozinho. Mas ele falou: eu queria saber onde o senhor devia estar. O senhor devia ter cancelado um compromisso para ir lá. Eu vi na agenda que tinha que estar numa paróquia, encerrando a festa de um padroeiro. Aí ele falou: estou informado, por que ele tinha acesso a órgãos de segurança, que estava preparada sua morte naquele dia. (Ri.) Então eu digo sempre: o Rodolfo me salvou... Porque indo para o velório dele eu escapei.

 
Repórter Social - O senhor era de chorar com esses episódios?
Dom Tomás -
Não. A gente tem uma espiritualidade diante... Até fiz um estudo sobre isso: sobre a morte. A morte nas comunidades eclesiais de base. E a morte na filial. Nessa romaria dos mártires o pessoal celebra praticamente a vida, não a morte. Porque há um culto da morte na igreja católica herdado de outras religiões, que não católicos, mas que a Igreja assimilou como culto dos mortos. Esse é triste, esse é luto. Nas comunidades eclesiais de base, é claro que o pessoal não deseja a morte, nem quer que morram os companheiros, transformam isso em bandeira de vida e de luta.

 
Repórter Social - Eu acabei de entrevistar a Elenira Mendes, que tinha 4 anos no dia do assassinato. Chico fez dedicatórias a ela, dizendo que ela teria de seguir a luta. Agora, com 22 anos, efetivamente está assumindo a causa...
Dom Tomás -
Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, ele declara explicitamente que se ele morrer a morte dele será motivo de ressurreição do povo de El Salvador. Ele ressuscitará na vida do povo de El Salvador. Então a consciência que o pessoal de Anapu tem a respeito da morte de Dorothy é que fortaleceu: sentiram o apoio não só do país, mas de todo o mundo em torno daquele ideal, porque não era só irmã Dorothy que tinha aquela ideia de centros ecológicos – é a mesma mentalidade do Chico Mendes. O pessoal ficou muito fortalecido com isso. A morte recupera um pouco a espiritualidade dos primeiros cristãos, que o sangue do mártir é semente, vida nova na igreja.

 
Repórter Social - O senhor conheceu todos esses personagens? Chico, Dorothy? Outro dia eu estava entrevistando a Elizabeth, a viúva do “Cabra Marcado para Morrer”, conforme o documentário do Eduardo Coutinho...
Dom Tomás –
Conheci. Sobretudo Dorothy. Ela era do CPT. Josimo era meu companheiro de caminhada. Esteve até na cadeia, do exército araguaiano. O Tito Alencar... Bem na minha diocese tem um padre que ficou cego dos dois olhos, porque tomou um tiro de cartucheira, perdeu completamente a visão.

 
Repórter Social - Perdeu em Goiás?
Dom Tomás -
Foi, foi lá. O tiro seria para o bispo. Ele é cego, mas foi promovido como pároco da mesma paróquia onde foi ferido.

 
Repórter Social - O que os mártires têm em comum? Liderança, fibra, visão do processo histórico?
Dom Tomás -
Certamente uma mística em comum. Na linha da libertação, de levantar as condições de vida do povo, a paixão pelo povo. Todos eles, de uma maneira muito forte. Isso é uma coisa que não é fruto de um aprendizado, de um noviciado. É um negócio complexo, não é? Como é que a pessoa chega a isso? É inato, parece que algo é inato. Um elemento que está encontrando as condições, então se afirma dessa forma.

 
Repórter Social - O senhor se arrepende de algo em sua trajetória?
Dom Tomás - Meu temperamento não é de ficar arrependido nem triste. Não é mérito de minha parte, é meu jeito de ser. Eu enfrento. Eu acho que herdei essa coragem de enfrentar os acontecimentos do meu pai. Meu pai foi juiz, numa área de cangaço. Eu era meninote, acompanhava as estratégias para a defesa da família. Porque tinha um bando querendo ocupar a cidade – Formosa (GO), aqui perto. E ele era uma das pessoas juradas para morrer. Esse homem enfrentava isso com serenidade e continuava como juiz, julgando essas causas escabrosas. Formosa está ligada àquele perímetro que você vê em Guimarães Rosa, Urucuia, a interseção Minas-Bahia-Goiás, uma região muito pródiga em cangaço naquele tempo. E isso ia esbarrar aonde? Na Justiça.
 
NO TWITTER:
@blogOutroBrasil
 

NO FACEBOOK:

domingo, 29 de abril de 2012

Cacique Guajajara é a primeira grande vítima do novo Código Florestal

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho) 

Os ruralistas que comemoraram a aprovação do novo Código Florestal já podem comemorar sua primeira vítima. Ela se chama Maria Amélia Guajajara. Uma cacique de 52 anos, de um povo perseguido por madeireiros no Maranhão.

A notícia do assassinato de Maria Amélia – com dois tiros na cabeça, na frente de sua família – foi dada pelo jornal maranhense Vias de Fato. O fato ocorreu ontem no município de Grajaú, a 600 quilômetros de São Luís. Em um Estado com quatro senadores da República.

Ruralistas, comemorando? Não se trata de exagero. Vejam a descrição do jornal Valor Econômico, de 25 de maio de 2011:


- Era perto das 16h quando uma cena grotesca aconteceu no plenário da Câmara dos Deputados. O líder do Partido Verde, José Sarney Filho, lia uma reportagem sobre o extrativista José Claudio Ribeiro da Silva, brutalmente assassinado pela manhã no Pará, junto com sua mulher Maria do Espírito Santo da Silva, também uma liderança amazônica. Ao dizer que o casal que procurava defender os recursos naturais havia morrido em uma emboscada, ouviu-se uma vaia. Vinha das galerias e também de alguns deputados ruralistas.

Há os que comemoram e há os que são indiferentes – ou cúmplices. A morte de Maria Amélia é notícia para ter repercussão internacional. Como o assassinato do seringalista Chico Mendes em 1988, como a execução da missionária Dorothy Stang em 2005. E cabe a cada brasileiro cobrar do poder político a importância que o fato possui.

Essa importância é multiplicada pela aprovação do novo Código Florestal, no dia 25, já bem definido como “uma lei de consolidação de atividades agropecuárias ilegais, ou uma lei de anistia”.

Atividades ilegais, no campo, estão associadas a desmatamento – e também a trabalho escravo. E a assassinatos.


Não à toa, o que estava sendo discutido no dia das vaias era o novo Código Florestal.

Cada voto ruralista é um tiro. Cada voto em um ruralista, um aval. O silêncio da grande imprensa, um túmulo.


(Atualização do dia 02 de maio, quarta-feira: os portais G1 e Estadão repercutiram o caso. De resto, silêncio.)


NO TWITTER:

NO FACEBOOK:

sábado, 7 de janeiro de 2012

“Sagrada Terra Especulada”, filme sobre o DF, é síntese sobre especulação imobiliária

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

“Sagrada Terra Especulada” (2011) trata do Setor Noroeste, em Brasília – um projeto destinado aos moradores de alta renda apresentado pelos construtores como “o primeiro bairro ecológico do país”. No meio do caminho, porém, há famílias indígenas. Elas moram desde 1957 no Santuário dos Pajés, na Terra Indígena Bananal. Ali se reúnem índios Fulni-ô Tapuia – mas também representantes de diversas etnias. O filme é a história de uma resistência, ao longo dos últimos anos no Distrito Federal.

O filme dirigido por Zé Furtado consegue um resultado que não interessa somente aos moradores do DF: pois trata de temas centrais nos debates nacionais deste início de 2012. Boa parte do filme trata de direitos indígenas. E esta semana estourou a denúncia da morte de uma criança indígena – queimada – no Maranhão. Em São Paulo, o incêndio na Favela do Moinho, no fim do ano, e a retirada à força de dependentes químicos da Cracolândia, na região central, expuseram nos últimos dias o tema da especulação imobiliária – que dá nome à obra. (Veja na íntegra aqui.)



OS ÍNDIOS

A obra começa apresentando o cotidiano dos indígenas no Santuário dos Pajés. “A terra é minha, a maloca é minha”, exclama um dos moradores. O pajé Shantxiê Tapuia mostra o trabalho com plantas medicinais e fala do patrimônio fitoterápico brasileiro – um projeto premiado pelo Ministério da Cultura, em 2007. Furtado é eficaz ao mostrar a dimensão sagrada da terra, presente no discurso e no dia-a-dia dos moradores. “Não é terra para vender, mas para sobreviver”, diz Caftho Fulni-ô.

Ao mesmo tempo, o diretor apresenta os conflitos – motivados pelo projeto imobiliário, capitaneado pela empresa Terracap. Em 30 de março de 2009 uma casa foi queimada “de forma criminosa”. Com isso, um casal de indígenas desistiu e voltou para Pernambuco. “O GDF (governo do Distrito Federal) quer bairro nobre para a classe alta”, resume um morador. “Onde tem indígena há defesa de brasileiro”, diz outro. “A natureza deve ser a mãe de todos os brasilienses”.

Numa sequência impagável, o presidente da Terracap na época, Antonio Gomes, tenta convencer os índios a sair do local. “Na verdade”, gagueja, “vocês estão bem no meio do bairro”. A direção tem lado: os contrários ao projeto imobiliário expõem desde o início argumentos contundentes; os defensores aparecem em situações patéticas, ou que exibam as contradições – e os interesses financeiros evidentes.

OS POLÍTICOS

Furtado move-se do tempo sagrado para um ritmo com mais edições. As autoridades políticas são descritas uma a uma. Com ênfase no vice-governador Paulo Octavio, ele mesmo uma marca imobiliária em Brasíllia, e no governador José Roberto Arruda (DEM) – que teria seu mandato cassado em 2010.  “Não tenho nada contra alta renda”, arrisca o paranaense Cássio Taniguchi, secretário do Meio Ambiente. (Reproduzimos aqui os cargos da época em que o filme foi rodado.)

Paulo Octavio (PO) é apresentado como marido de Ana Kubitschek – neta do fundador da cidade, JK. E como um antigo sócio de Sergio Naya, aquele ex-deputado que construiu no Rio um prédio que desabou. Arruda tem seu prontuário político enumerado, como a cassação pela violação do painel de votação do Senado. Sarcástico, o diretor escolhe uma foto particularmente monstruosa do senador Antonio Carlos Magalhães para ilustrar o período. Arruda também é apresentado como o “Big Boss” – um corrupto assumido.

UM PROJETO “VERDE”

O filme move-se dialeticamente, a partir de contradições. O marketing do “primeiro bairro ecológico do país” é demolido pelo diretor com várias machadadas contra a "sustentabilidade". “A máfia se veste de verde e cria a primeira obra baseada na aniquilação da natureza”, diz o locutor. O antropólogo José Jorge diz que não há condomínio verde. “Condomínio é cinza”. Um dos lugares com destruição prevista é a área-tampão do Parque Nacional.  PO afirma em entrevista que Taniguchi e ele vão fazer uma “cidade ambientalmente correta”. O repórter pergunta: “Na área-tampão do Parque Nacional?”

Outra cena antológica ocorre num momento em que a representante do Instituto Brasília Ambiental (Ibram-DF) expõe um projeto do ex-governador paranaense Jaime Lerner (DEM) – sem licitação – no Parque Burle Marx. Seria uma casa onde os índios poderiam se reunir e, diz ela, ser uma atração turística. Alguém dispara a palavra “zoológico”. E ela engole: “Não é zoológico, é uma atração realmente”. Corta para Arruda e Paulo Octávio discursando. PO interrompe Arruda: “Fala que vamos construir uma oca para eles morarem”. Arruda repete, empolgado.

PROPAGANDA E REPRESSÃO

Os principais meios de comunicação de Brasília – como o Correio Braziliense e o Jornal de Brasília – são definidos como servis ao projeto imobiliário. O diretor mostra um especialista atacando as ocupações irregulares das mansões. A legenda informa que a entrevista não foi veiculada. O jornalista Alan Schvarsberg informa que, entre o fim de 2007 e o início de 2009, o Correio Braziliense publicou 38 matérias no caderno Cidades favoráveis ao Setor Noroeste. No mesmo período, o caderno veiculou 94 propagandas do ramo imobiliário.

Seguem-se cenas de repressão. Depois da mídia, a polícia. Seguranças batendo em manifestantes, policiais batendo em manifestantes, cavalaria em cima dos manifestantes, arma apontada para manifestantes – e cinegrafistas. As cenas de batalha durante o “Fora Arruda” são impressionantes – e candidatas a uma coletânea sobre o saco de maldades policiais diante de atos democráticos, uma constante no Brasil atual. (Escrevo no momento em que isso ocorre de modo bárbaro contra estudantes no Piauí.)

FINAL SEM FINAL

A partir dessas imagens o filme ganha o aspecto de uma obra com atualização constante. É descrita a promessa do novo governador, Agnelo Queiroz (PT) de não trair ninguém – não cumprida. Em 16 de agosto de 2011, duas empreiteiras destruíram uma área do Santuário dos Pajés. Depois tiveram de sair.  No dia 25 de agosto a Justiça Federal determina que a área dos indígenas não pode ser invadida. E que a Funai deve concluir o processo de demarcação das terras.

O filme se encerra informando que o Cerrado continua sendo devastado. E que a batalha contra o projeto imobiliário continua. Pouco antes o diretor recolocara em cena o pajé Shantxiê Tapuia, dizendo que os índios estão em guerra contra os brancos:

- Eles declararam primeiro guerra contra a terra. Depois, contra os filhos da terra.

LEIA MAIS:
Obra do CMI é também uma aula sobre ativismo

NO TWITTER:
@blogOutroBrasil


NO FACEBOOK:
Outro Brasil

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012


Cimi diz que criança de 8 anos foi queimada por madeireiros no MA

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) publicou há pouco que uma criança Awá-Guajá, de 8 anos, foi assassinada e queimada por madeireiros, em outubro, no município de Arame, no Maranhão.
Esses índios vivem isoladamente. A informação foi confirmada por lideranças do povo Guajajara, da Terra Indígena Araribóia.

O jornal maranhense Vias de Fato publicou ontem a notícia do assassinato, diante das informações dos Guajajara - e ainda teriam comemorado o feito.

Veja o relato completo do Vias de Fato:

- O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) confirmou ontem a informação que uma criança da etnia Awá-Gwajá, de aproximadamente 8 anos, foi assassinada e queimada por madeireiros na terra indígena Araribóia, no município de Arame, distante 476 km de São Luis. A denúncia feita pelo Vias de Fato foi postada logo após receber um telefonema de um índio Guajajara denunciando o caso.

De acordo com Gilderlan Rodrigues da Silva, um dos representantes do Cimi no Maranhão, um índio Guajajara filmou o corpo da criança carbonizado. ”Os Awá-Gwajás são muito isolados, e madeireiros invasores montaram acampamento na Aldeia Tatizal, onde estavam instalados os Awá. Estamos atrás desse vídeo, ainda não fizemos a denúncia porque precisamos das provas em mãos”, disse Gilderlan.

Violência contra indígenas é fato recorrente no Maranhão, no dia 26 de setembro de 2011, conforme denunciamos aqui nesse site, uma senhora indígena do Povo Canela, Ramkokamekrá Conceição Krion Canela, de 51 anos, foi encontrada morta a pauladas. A atrocidade aconteceu no Povoado Escondido, interior de Barra do Corda. No mês de outubro, uma índia de 22 anos, deficiente mental,  da terra indígena Krikati, foi violentada sexualmente por um homem identificado como Francildo. Segundo Belair de Sousa, coordenador técnico da terra indígena, o indivíduo chegou na aldeia Campo Grande armado.

A notícia divulgada pelo Vias de Fato já tinha ganhado as redes sociais, mas sem confirmação pelo Cimi. Mas o Conselho publicou há pouco em seu site a notícia. Leia um trecho:

- As suspeitas dão conta de que um ataque tenha ocorrido entre setembro e outubro contra o acampamento dos indígenas isolados. Clovis Tenetehara costumava ver os Awá-Guajá isolados durante caçadas na mata. No entanto, deixou de encontrá-los logo que localizou um acampamento com sinais de incêndio e os restos mortais de uma criança.

“Depois disso não foi mais visto o grupo isolado. Nesse período os madeireiros estavam lá. Eram muitos. Agora desapareceram. Não foram mais lá. Até para nós é perigoso andar, imagine para os isolados”, diz Luís Carlos Tenetehara, da aldeia Patizal. Os indígenas acreditam que o grupo isolado tenha se dispersado para outros pontos da Terra Indígena Araribóia temendo novos ataques.

A organização internacional Survival publicou, em fevereiro de 2011, um relato do genocídio dos Awá no Maranhão:
Nômades isolados da Amazônia enfrentam aniquilação

Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

LEIA MAIS:
Como foi a matança de indígenas em 2011

NO TWITTER:
@blogOutroBrasil


NO FACEBOOK:
Outro Brasil


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

500 anos depois
A violação sistemática dos direitos indígenas


Ontem publiquei um resumo das violências praticadas contra povos indígenas: mortes, espancamentos, ameaças. Mas outras notícias publicadas ao longo do ano pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) ajudam a entender como os direitos dos índios são sistematicamente violados no Brasil – oferecendo condições estruturais àquelas violências mais explícitas.

Algumas histórias tratam da disputa pelo território – e de despejos de populações indígenas:Na Bahia, indígenas Pataxó Hã-Hã-Hãe podem ser despejados a qualquer momento (07/01)
Entidades repudiam proposta de retirada Xavante de terra tradicional pela segunda vez (30/05)
Povo Xavante declara guerra contra segunda expulsão da Terra Indígena Marãiwatséde (08/08)
Fazendeiros destroem aldeia e expulsam índios Guarani Kaiowá em MS (07/09)
Despejo paira sobre Laranjeira Nhanderu mais uma vez (22/09)
Grilagem e invasões avançam sobre Território Indígena Karitiana (11/10)

Essa disputa pelo território – vale sempre observar - é uma disputa econômica:
Construção da usina de Belo Monte ameaça indígenas isolados (18/03)
Indígenas denunciam invasões de madeireiros no Maranhão (03/10)
O garimpo volta a ameaçar o Povo Yanomami (14/10)

Outras notícias mostram a questão ambiental. A questão agrária é econômica, mas também ambiental:
Rio Peruaçu e povo Xakriabá ameaçados (08/02)
Soja pirata na Terra Indígena Maraiwatsede (04/03)

Estas notícias mostram a exploração do trabalho indígena. Alguns ainda são escravizados:
Indígenas são explorados em condições degradantes (02/03)
Indígenas de Roraima publicam manifesto contra tráfico de pessoas no Estado (17/03)

Outros links do Cimi sintetizam as violações de direito e as condições socioeconômicas das populações indígenas:
Dia do Índio: MPF/RO denuncia 110 violações de direitos dos índios (20/04)
Maior proporção de miseráveis está entre população indígena (11/05)
Povo Kaingang bloqueia nove rodovias no RS por melhorias na saúde indígena (09/08)

Em meio à disputa política, porém, governos adotam uma solução tradicional: a repressão policial.
Neste momento, Polícia Militar cerca indígenas e apoiadores no Santuário dos Pajés (03/11)
Cerca de 200 policiais mascarados desalojam comunidade Tabajara na Paraíba (30/11)

Algumas lideranças são simplesmente presas:
Prisão de mais uma liderança Tupinambá de Olivença (04/02)
Nota sobre a prisão de lideranças indígenas do Povo Terena da Terra Indígena Buriti, MS (30/08)

Deixo para segunda-feira o desfecho desta série. Quanto investiu o governo Dilma em 2011? E qual o papel da imprensa na perpetuação dessas violências?

Feliz 2012 a todos.

Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

LEIA MAIS:
Como foi a matança de indígenas em 2011
Governo só gastou 33% dos recursos para proteção de indígenas, diz o Cimi


NO TWITTER: