Por uma Marcha dos Amarildos
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O
dia 12 de agosto marca os 30 anos do assassinato da líder sindical
Margarida Maria Alves, camponesa de Alagoa Grande, na Paraíba. O caso
gerou muita revolta na época. Entre os acusados estava Aguinaldo Velloso
Borges, político, coronel. Em 1962 ele já fora acusado de mandar matar
João Pedro Teixeira, o “Cabra Marcado para Morrer” do filme de Eduardo
Coutinho. Naquele ano um deputado estadual e quatro suplentes
renunciaram para que Borges assumisse o cargo na Assembleia e ganhasse
imunidade. Em 1990, ele morreu. Seu neto, homônimo, é o atual ministro
das Cidades.
Borges era bem relacionado, como mostro no livro “Partido da Terra – como os políticos conquistam o território brasileiro”.
Nove dias após o assassinato de Margarida, ele recebia o deputado Paulo
Maluf, então candidato à Presidência. Um jornal local descrevia o
usineiro como líder de um grupo de três deputados federais, cinco
deputados estaduais, 50 prefeitos. Controlava 27 representantes da
Paraíba no Colégio Eleitoral que definiria o próximo presidente. Maluf
perderia para Tancredo Neves.
Trinta anos depois, o neto de
Tancredo tenta a presidência da República, pelo PSDB. Sem despertar
maiores emoções. O Partido dos Trabalhadores chegou ao poder sem fazer
reforma agrária. A presidente Dilma Rousseff busca a reeleição com um
aliado polêmico: o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB).
A
sociedade brasileira – e fluminense – faz em coro uma pergunta simples
ao governador: “Onde está o Amarildo?”
O pedreiro Amarildo Dias de
Souza desapareceu na Rocinha no dia 14 de julho, após ser levado, “para
averiguação”, para a sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).
Tinha 43 anos. Provavelmente foi assassinado. A sociedade quer saber não
apenas onde está Amarildo, mas que sejam investigados seus algozes. O
responsável (ao que tudo indica, o Estado), devidamente punido.
As
duas histórias têm cara de ditadura. No fim do regime militar,
Margarida foi vítima de um crime que continua a ocorrer, no campo, em
tempos democráticos. Com assinatura de fazendeiros, de políticos, e
proteção sistemática da Justiça. É por causa dessa violação sistemática
de direitos de trabalhadoras rurais que a Contag e outras entidades
sindicais organizam, a cada quatro anos, a Marcha das Margaridas.
Durante
dias as trabalhadoras rurais marcham do interior do Brasil até
Brasília. Por visibilidade. Para os milhões de Margaridas no Brasil. Em
2011 a Marcha das Margaridas teve como lema desenvolvimento sustentável
com justiça, autonomia, igualdade e liberdade.
Esta liberdade também se mostra ausente no mundo urbano – e masculino. No Rio, Amarildo era conhecido como “Boi”.
Forte, e na ausência do Estado, ele carregava as pessoas que precisavam
de socorro, em meio às escadas da favela, para que fossem atendidas com
urgência em um hospital. Era um herói – ainda não reconhecido.
As
lutas da cidade e do campo são uma só. Ou pelo menos deveriam ser. É
por isso que lanço aqui uma ideia singela: por que não se pensar em
fazer, de quatro em quatro anos, uma Marcha dos Amarildos? Não só pelos
desaparecidos e assassinados. Mas por todos os ameaçados, humilhados.
Em
2015 teremos novamente uma Marcha das Margaridas. Em pauta, os direitos
no campo. E em 2013? 2017? A Marcha dos Amarildos seria um ato-espelho,
uma homenagem a todos os heróis urbanos. E reivindicaria o direito à
cidade.
Marcha das Margaridas e Marcha dos Amarildos cobrariam
de nossos governantes o respeito aos direitos elementares dos
trabalhadores, dos cidadãos. A começar do direito à vida, à liberdade de
ir e vir – sem que uma polícia “pacificadora” violente seus direitos.
Esses
direitos rasgados diariamente compõem uma democracia pela metade. Nos
anos pares, como 2014, temos eleições. Com financiamento privado, compra
de votos, abuso do poder econômico. Mesmo assim políticos e jornalistas
deslumbrados (ou cínicos) descrevem os pleitos como uma “festa da
democracia”.
A democracia precisa ser cobrada nas ruas. Com a
mesma dignidade das mulheres camponesas. A Marcha das Margaridas precisa
se encontrar com a Marcha dos Amarildos.
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jornalismo, geografia, literatura, cinema. Utopia, resistência. 'Indignem-se!' (Stéphane Hessel). 'Nem tudo é sórdido' (Ernesto Sabato - 1911-2011)
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segunda-feira, 12 de agosto de 2013
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Quantas pessoas, de verdade, foram mortas no Brasil durante a ditadura?
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Já há dados suficientes para que entre no debate público brasileiro uma revisão histórica crucial: quantas pessoas foram mortas diretamente por influência da ditadura de 1964? O dado é fundamental em relação ao regime que, em comparação com as ditaduras chilena (40.280 mortos) e Argentina (30 mil mortos), é conhecido por ter “matado menos”: supostamente, algumas centenas. E que o jornal Folha de S. Paulo já chamou de “ditabranda”.
Ocorre que a cultura brasileira é também a do disfarce. O jornal O Globo revelou ontem a descoberta de uma foto forjada, no Rio Grande do Sul, do taxista Ângelo Cardoso da Silva que, nos dados oficiais, teria cometido um suicídio. Como no caso Vladimir Herzog. Pergunta: quantos homicídios no Brasil foram registrados como suicídios, entre 1964 e 1985?
Pergunta mais difícil: quantos homicídios foram registrados como acidentes de trânsito, ou outras causas? As Comissões de Verdade podem chegar a esse nível de detalhamento?
Pergunta menos óbvia: quantas pessoas indesejáveis ao regime foram enviadas a hospícios, e, ali, mortas?
Esta última vem a propósito do lançamento do livro Holocausto Brasileiro – vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil (Geração Editorial), de Daniela Arbex. Vejam como a jornalista Eliane Brum, que prefaciou o livro, resume as vítimas da instituição chamada “Colônia”, em Barbacena (MG): “Epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, mendigos, militantes políticos, gente que se rebelava, gente que se tornara incômoda para alguém com mais poder”. Prestem atenção: militantes políticos?
CAMPONESES E INDÍGENAS
No ano passado a própria Folha informou que a lista oficial de mortos pela ditadura pode ser ampliada: com mais 600 mortos além das 357 vítimas já registradas. “São camponeses, sindicalistas, líderes rurais e religiosos, padres, advogados e ambientalistas mortos nos grotões do país entre 1961 e 1988”, escreveu o repórter.
Mas há pelo menos uma omissão nessa lista: os índios. Somente entre os Waimiri-Aitroari foram mais de 1.100 mortos, segundo o antropólogo José Porfírio de Carvalho, da Eletronorte. “Morreram de doença e morreram à bala”, afirma Carvalho. “E armado lá quem estava era o Exército”.
“Muitos indígenas foram mortos com napalm, outros eletrocutados, uns com armas de fogo”, diz Egydio Schwade, ex-secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). E há também o caso dos Paracanã. Segundo Schwade, massacrados durante a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará.
Livros que relatam os conflitos nessa região do Rio Tocantins, aliás, são fartos em descrições de mortes de camponeses. Além da destruição de suas casas, da humilhação. E isso se repetiu em outras regiões do Brasil: estarão contemplados naquele cálculo de 600 vítimas extras da ditadura?
Façamos uma conta simples. Somando as 357 vítimas atuais com as 600 já reivindicadas com os 1.100 indígenas já teríamos 2 mil vítimas da ditadura. Por baixo. Sem entrar ainda em casos como o de Josué de Castro, um dos maiores intelectuais que o Brasil teve, aquele que pautou a fome no mundo – que, cassado em 1964, morreu de exílio, em 1973. De tristeza.
Nem é preciso dizer que essa conta não se trata de um “detalhe”. Um país não pode viver sob o peso da ocultação de homicídios praticados pelo Estado. Isso sem falar em outras abominações, como a destruição sistemática de casas de camponeses, as aldeias incendiadas, a tortura nos porões e nos hospícios.
De início, perguntamos: quantos milhares de seres humanos o regime militar assassinou?
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por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Já há dados suficientes para que entre no debate público brasileiro uma revisão histórica crucial: quantas pessoas foram mortas diretamente por influência da ditadura de 1964? O dado é fundamental em relação ao regime que, em comparação com as ditaduras chilena (40.280 mortos) e Argentina (30 mil mortos), é conhecido por ter “matado menos”: supostamente, algumas centenas. E que o jornal Folha de S. Paulo já chamou de “ditabranda”.
Ocorre que a cultura brasileira é também a do disfarce. O jornal O Globo revelou ontem a descoberta de uma foto forjada, no Rio Grande do Sul, do taxista Ângelo Cardoso da Silva que, nos dados oficiais, teria cometido um suicídio. Como no caso Vladimir Herzog. Pergunta: quantos homicídios no Brasil foram registrados como suicídios, entre 1964 e 1985?
Pergunta mais difícil: quantos homicídios foram registrados como acidentes de trânsito, ou outras causas? As Comissões de Verdade podem chegar a esse nível de detalhamento?
Pergunta menos óbvia: quantas pessoas indesejáveis ao regime foram enviadas a hospícios, e, ali, mortas?
Esta última vem a propósito do lançamento do livro Holocausto Brasileiro – vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil (Geração Editorial), de Daniela Arbex. Vejam como a jornalista Eliane Brum, que prefaciou o livro, resume as vítimas da instituição chamada “Colônia”, em Barbacena (MG): “Epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, mendigos, militantes políticos, gente que se rebelava, gente que se tornara incômoda para alguém com mais poder”. Prestem atenção: militantes políticos?
CAMPONESES E INDÍGENAS
No ano passado a própria Folha informou que a lista oficial de mortos pela ditadura pode ser ampliada: com mais 600 mortos além das 357 vítimas já registradas. “São camponeses, sindicalistas, líderes rurais e religiosos, padres, advogados e ambientalistas mortos nos grotões do país entre 1961 e 1988”, escreveu o repórter.
Mas há pelo menos uma omissão nessa lista: os índios. Somente entre os Waimiri-Aitroari foram mais de 1.100 mortos, segundo o antropólogo José Porfírio de Carvalho, da Eletronorte. “Morreram de doença e morreram à bala”, afirma Carvalho. “E armado lá quem estava era o Exército”.
“Muitos indígenas foram mortos com napalm, outros eletrocutados, uns com armas de fogo”, diz Egydio Schwade, ex-secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). E há também o caso dos Paracanã. Segundo Schwade, massacrados durante a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará.
Livros que relatam os conflitos nessa região do Rio Tocantins, aliás, são fartos em descrições de mortes de camponeses. Além da destruição de suas casas, da humilhação. E isso se repetiu em outras regiões do Brasil: estarão contemplados naquele cálculo de 600 vítimas extras da ditadura?
Façamos uma conta simples. Somando as 357 vítimas atuais com as 600 já reivindicadas com os 1.100 indígenas já teríamos 2 mil vítimas da ditadura. Por baixo. Sem entrar ainda em casos como o de Josué de Castro, um dos maiores intelectuais que o Brasil teve, aquele que pautou a fome no mundo – que, cassado em 1964, morreu de exílio, em 1973. De tristeza.
Nem é preciso dizer que essa conta não se trata de um “detalhe”. Um país não pode viver sob o peso da ocultação de homicídios praticados pelo Estado. Isso sem falar em outras abominações, como a destruição sistemática de casas de camponeses, as aldeias incendiadas, a tortura nos porões e nos hospícios.
De início, perguntamos: quantos milhares de seres humanos o regime militar assassinou?
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quarta-feira, 5 de junho de 2013
Está deflagrado o Outono Indígena no Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Às vésperas do inverno, esquenta a temperatura no campo. São vários os sinais de que vivemos um momento histórico em relação à questão indígena. O assassinato de Oziel Gabriel em Sidrolândia (MS) na semana passada, um índio Terena, foi a senha para o governo e a imprensa começarem a se movimentar. Mas a um passo atrás do movimento de indígenas (não só Terena) e fazendeiros.
Essa história tem 513 anos. A esse número impactante corresponde uma ignorância brutal, no eixo Rio-Brasília-São Paulo, em relação ao cotidiano das etnias e à dinâmica específica das demarcações. À ignorância soma-se o discurso ruralista, manipulador, de olho na expansão do território do agronegócio.
A Folha publicou hoje entrevista com um líder dos produtores rurais do Mato Grosso do Sul. “Estamos falando de um massacre iminente”, disse ele. "Vai morrer mais gente", afirmou. "Vai ter mais sangue".
Gente morrendo e sangue correndo acontece há séculos, entre os indígenas. No ano passado a PF matou Adenilson Munduruku. Às mortes violentas e sistemáticas, homicídios e genocídios, somam-se os suicídios, que não deixam de ser outro genocídio disfarçado, e o extermínio pela omissão: pela ausência de saúde, pelo cerceamento dos modos indígenas de ser.
Enquanto isso, brancos cínicos, pensadores tímidos, eurocêntricos rudimentares repetem frases preconceituosas sobre as etnias: admiram-se por eles usarem máquinas fotográficas, tênis, camisetas com marca. O antropólogo José Ribamar Bessa Freire já escreveu o artigo definitivo sobre isso: “Os índios do Século XXI”. E desconstruiu a infâmia.
Os jornais não têm desculpas em relação a essa distração histórica, a esse distanciamento socio-geográfico. Mas, de repente, veem-se obrigados a cobrir a escalada do levante indígena. Por causa da ocupação de rodovias? Por causa da morte de Oziel? Talvez por tudo um pouco, mas também pela ocupação, por membros da etnia Kaingang no Paraná da ministra Gleisi Hoffmann, de uma das sedes do PT.
A partir das duas letrinhas mágicas exporta-se para a questão indígena, portanto, o debate político maniqueísta que reina nestas terras invadidas: o Fla-Flu entre PT e PSDB. Esse debate que reduz tudo a uma disputa entre grupos partidários hegemônicos – e que dispensa uma bela perspectiva histórica, sociológica. Ou uma abordagem minimamente humanista. Questão indígena, bem sabem os antropólogos, é algo que perpassa governos udenistas e petistas, regimes verde-oliva e tucanos, sem solução à vista.
E os indígenas reagem – para quem tiver olhos para ver, neste momento crucial da história brasileira. Eles não engoliram a suspensão da demarcação de terras indígenas, fruto de pressão dos políticos ruralistas. Estes aprovaram cana na Amazônia, costuraram a tesourada na Funai, agora não mais o único órgão responsável pelas demarcações de terras, tornaram-se muito próximos das principais figuras do governo federal.
Pior: os indígenas reagem (com a Constituição na mão) sob atentos olhares internacionais. O jornal inglês The Guardian foi incisivo ao analisar a temperatura crescente ao sul do Equador e pedir “pressão internacional” contra o Brasil: este, em relação aos indígenas, diz o título, “viola direitos humanos”.
Esse Outono Indígena que se desenha, portanto, sem promessa de recuo no inverno ou no segundo semestre, tem um efeito-espelho em relação às primaveras políticas do hemisfério norte. Como no caso de Chico Mendes (1988), como na morte de Dorothy Stang (2005), não tem cara de algo que se possa varrer para debaixo do tapete. É o Sul do Sul que emerge junto com os arcos-e-flechas. A mais elegante e maltratada periferia do mundo.
Soluções à vista? Longe disso. Não há notícia de que a Força Nacional que anda por Belo Monte e agora migra para o Mato Grosso do Sul tenha habilidades diplomáticas. O delegado responsável pelas reintegrações de posse na região da Terra Indígena Buriti (curiosamente, em terras de políticos) também não faria grande sucesso como negociador. A Justiça? Ora, a Justiça tem lado: o das elites. Como Espinoza já dizia.
E, no entanto, o mundo se move. Os oprimidos, os indígenas, ganham voz. Como expôs a BBC: “Índios usam mídias sociais para fortalecer voz própria”. E falam em vingar Oziel. Um somente? Não: muitos, muitíssimos. Do outro lado, as palavras do pecuarista ecoam: “Vai morrer mais gente. Vai ter mais sangue”.
Todos estão avisados. Os jornais são míopes, porém, os jornais desaprenderam a fazer reportagens, os jornais não enxergam muitos palmos desse país continental. E os jornais também têm um lado. Os jornais preservam os proprietários de terra – mesmo diante de evidências de grilagem (em um país grilado), de crimes ambientais (no país do desmatamento), de trabalho escravo (um senhor de 513 anos). Os jornais evocam o discurso da legalidade apenas quando esta lhes é conveniente.
O mínimo necessário em meio a esse cenário bélico é fazer política. No sentido mais nobre do termo: política de alto nível, muita política. Política com afinco, política maiúscula. Mas a redução do debate a algumas palavras-de-ordem (em meio a uma lavagem cerebral patrocinada pelos tratoristas-ruralistas) e o calendário eleitoral não ajudam nem um pouco.
LEIA MAIS:
Reintegrações de posse no MS beneficiam políticos
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por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Às vésperas do inverno, esquenta a temperatura no campo. São vários os sinais de que vivemos um momento histórico em relação à questão indígena. O assassinato de Oziel Gabriel em Sidrolândia (MS) na semana passada, um índio Terena, foi a senha para o governo e a imprensa começarem a se movimentar. Mas a um passo atrás do movimento de indígenas (não só Terena) e fazendeiros.
Essa história tem 513 anos. A esse número impactante corresponde uma ignorância brutal, no eixo Rio-Brasília-São Paulo, em relação ao cotidiano das etnias e à dinâmica específica das demarcações. À ignorância soma-se o discurso ruralista, manipulador, de olho na expansão do território do agronegócio.
A Folha publicou hoje entrevista com um líder dos produtores rurais do Mato Grosso do Sul. “Estamos falando de um massacre iminente”, disse ele. "Vai morrer mais gente", afirmou. "Vai ter mais sangue".
Gente morrendo e sangue correndo acontece há séculos, entre os indígenas. No ano passado a PF matou Adenilson Munduruku. Às mortes violentas e sistemáticas, homicídios e genocídios, somam-se os suicídios, que não deixam de ser outro genocídio disfarçado, e o extermínio pela omissão: pela ausência de saúde, pelo cerceamento dos modos indígenas de ser.
Enquanto isso, brancos cínicos, pensadores tímidos, eurocêntricos rudimentares repetem frases preconceituosas sobre as etnias: admiram-se por eles usarem máquinas fotográficas, tênis, camisetas com marca. O antropólogo José Ribamar Bessa Freire já escreveu o artigo definitivo sobre isso: “Os índios do Século XXI”. E desconstruiu a infâmia.
Os jornais não têm desculpas em relação a essa distração histórica, a esse distanciamento socio-geográfico. Mas, de repente, veem-se obrigados a cobrir a escalada do levante indígena. Por causa da ocupação de rodovias? Por causa da morte de Oziel? Talvez por tudo um pouco, mas também pela ocupação, por membros da etnia Kaingang no Paraná da ministra Gleisi Hoffmann, de uma das sedes do PT.
A partir das duas letrinhas mágicas exporta-se para a questão indígena, portanto, o debate político maniqueísta que reina nestas terras invadidas: o Fla-Flu entre PT e PSDB. Esse debate que reduz tudo a uma disputa entre grupos partidários hegemônicos – e que dispensa uma bela perspectiva histórica, sociológica. Ou uma abordagem minimamente humanista. Questão indígena, bem sabem os antropólogos, é algo que perpassa governos udenistas e petistas, regimes verde-oliva e tucanos, sem solução à vista.
E os indígenas reagem – para quem tiver olhos para ver, neste momento crucial da história brasileira. Eles não engoliram a suspensão da demarcação de terras indígenas, fruto de pressão dos políticos ruralistas. Estes aprovaram cana na Amazônia, costuraram a tesourada na Funai, agora não mais o único órgão responsável pelas demarcações de terras, tornaram-se muito próximos das principais figuras do governo federal.
Pior: os indígenas reagem (com a Constituição na mão) sob atentos olhares internacionais. O jornal inglês The Guardian foi incisivo ao analisar a temperatura crescente ao sul do Equador e pedir “pressão internacional” contra o Brasil: este, em relação aos indígenas, diz o título, “viola direitos humanos”.
Esse Outono Indígena que se desenha, portanto, sem promessa de recuo no inverno ou no segundo semestre, tem um efeito-espelho em relação às primaveras políticas do hemisfério norte. Como no caso de Chico Mendes (1988), como na morte de Dorothy Stang (2005), não tem cara de algo que se possa varrer para debaixo do tapete. É o Sul do Sul que emerge junto com os arcos-e-flechas. A mais elegante e maltratada periferia do mundo.
Soluções à vista? Longe disso. Não há notícia de que a Força Nacional que anda por Belo Monte e agora migra para o Mato Grosso do Sul tenha habilidades diplomáticas. O delegado responsável pelas reintegrações de posse na região da Terra Indígena Buriti (curiosamente, em terras de políticos) também não faria grande sucesso como negociador. A Justiça? Ora, a Justiça tem lado: o das elites. Como Espinoza já dizia.
E, no entanto, o mundo se move. Os oprimidos, os indígenas, ganham voz. Como expôs a BBC: “Índios usam mídias sociais para fortalecer voz própria”. E falam em vingar Oziel. Um somente? Não: muitos, muitíssimos. Do outro lado, as palavras do pecuarista ecoam: “Vai morrer mais gente. Vai ter mais sangue”.
Todos estão avisados. Os jornais são míopes, porém, os jornais desaprenderam a fazer reportagens, os jornais não enxergam muitos palmos desse país continental. E os jornais também têm um lado. Os jornais preservam os proprietários de terra – mesmo diante de evidências de grilagem (em um país grilado), de crimes ambientais (no país do desmatamento), de trabalho escravo (um senhor de 513 anos). Os jornais evocam o discurso da legalidade apenas quando esta lhes é conveniente.
O mínimo necessário em meio a esse cenário bélico é fazer política. No sentido mais nobre do termo: política de alto nível, muita política. Política com afinco, política maiúscula. Mas a redução do debate a algumas palavras-de-ordem (em meio a uma lavagem cerebral patrocinada pelos tratoristas-ruralistas) e o calendário eleitoral não ajudam nem um pouco.
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segunda-feira, 20 de maio de 2013
Reintegrações de posse no MS beneficiam
políticos
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O delegado Alcídio de Souza Araújo roubou a cena, neste sábado, ao confiscar o computador e o gravador do jornalista Ruy Sposati, do Conselho Indigenista Missionário. Ele comandava uma ação de reintegração de posse em Sidrolândia (MS). Um detalhe tem passado despercebido: trata-se de mais um despejo em benefício de político local.
O fazendeiro Ricardo Bacha já foi deputado estadual, pelo PSDB, e candidato ao governo estadual, em 1998 (foi derrotado no segundo turno). Ele aparece neste vídeo discutindo com os indígenas que ocuparam a fazenda. No segundo minuto bate as mãos no chão e diz: “Isto aqui é meu!” Os Terena reivindicam o mesmo.
O delegado Alcídio de Souza Araújo roubou a cena, neste sábado, ao confiscar o computador e o gravador do jornalista Ruy Sposati, do Conselho Indigenista Missionário. Ele comandava uma ação de reintegração de posse em Sidrolândia (MS). Um detalhe tem passado despercebido: trata-se de mais um despejo em benefício de político local.
O fazendeiro Ricardo Bacha já foi deputado estadual, pelo PSDB, e candidato ao governo estadual, em 1998 (foi derrotado no segundo turno). Ele aparece neste vídeo discutindo com os indígenas que ocuparam a fazenda. No segundo minuto bate as mãos no chão e diz: “Isto aqui é meu!” Os Terena reivindicam o mesmo.
Veja aqui o vídeo com o
confisco do equipamento:
http://www.youtube.com/watch?v=ZRlHeOzENvI&feature=youtu.be. Aqui, o vídeo com Bacha e os indígenas:
http://www.youtube.com/watch?v=eQwMXPavpok&feature=youtu.be.
Em 2006, Bacha declarou um total de 6.214 hectares em terras: http://noticias.uol.com.br/politica/politicos-brasil/2006/deputado-estadual/23041949-ricardo-bacha.jhtm. A área em disputa, a Fazenda Buriti, foi declarada por R$ 333.106,84. Segundo o político, tem 302 hectares de “terras pastais e lavradias”.
Ele possui uma área de mais de 3 mil hectares em Ribas do Rio Pardo.
Pecuarista, Bacha não declarou uma única cabeça de gado. Isso apesar de ter declarado inúmeras áreas de "terras pastais". Ele foi secretário de Estado da Fazenda no governo Wilson Martins (1995-1998).
MAIS UM POLÍTICO
O mesmo delegado que confiscou o material do jornalista, Alcídio Araújo, participou há exatamente três anos de reintegração de posse – também contra índios da etnia Terena – em benefício do ex-governador Pedro Pedrossian (PMDB).
Confira a reportagem do Correio do Estado: “PM expulsa índios da terra dePedrossian”.
O delegado declarou o seguinte, na ocasião: “Temos duas opções. Ou vocês saem de forma pacífica ou haverá confronto, porque hoje nós vamos cumprir a determinação da Justiça". Houve confronto, registrado neste vídeo histórico. Segue trecho da reportagem:
- Durante a correria um índio foi ferido na perna por um disparo de bala de borracha e uma criança machucou o joelho. Em quinze minutos os indígenas começaram a deixar o local sem levar nada, algumas mulheres saíram carregando as crianças e os cachorros.
Pedrossian governou Mato Grosso do Sul entre 1991 e 1995. Em 2002, candidato derrotado ao Senado pelo PST, declarou 6.936 hectares. Como Bacha, é um latifundiário.
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http://www.youtube.com/watch?v=eQwMXPavpok&feature=youtu.be.
Em 2006, Bacha declarou um total de 6.214 hectares em terras: http://noticias.uol.com.br/politica/politicos-brasil/2006/deputado-estadual/23041949-ricardo-bacha.jhtm. A área em disputa, a Fazenda Buriti, foi declarada por R$ 333.106,84. Segundo o político, tem 302 hectares de “terras pastais e lavradias”.
Ele possui uma área de mais de 3 mil hectares em Ribas do Rio Pardo.
Pecuarista, Bacha não declarou uma única cabeça de gado. Isso apesar de ter declarado inúmeras áreas de "terras pastais". Ele foi secretário de Estado da Fazenda no governo Wilson Martins (1995-1998).
MAIS UM POLÍTICO
O mesmo delegado que confiscou o material do jornalista, Alcídio Araújo, participou há exatamente três anos de reintegração de posse – também contra índios da etnia Terena – em benefício do ex-governador Pedro Pedrossian (PMDB).
Confira a reportagem do Correio do Estado: “PM expulsa índios da terra dePedrossian”.
O delegado declarou o seguinte, na ocasião: “Temos duas opções. Ou vocês saem de forma pacífica ou haverá confronto, porque hoje nós vamos cumprir a determinação da Justiça". Houve confronto, registrado neste vídeo histórico. Segue trecho da reportagem:
- Durante a correria um índio foi ferido na perna por um disparo de bala de borracha e uma criança machucou o joelho. Em quinze minutos os indígenas começaram a deixar o local sem levar nada, algumas mulheres saíram carregando as crianças e os cachorros.
Pedrossian governou Mato Grosso do Sul entre 1991 e 1995. Em 2002, candidato derrotado ao Senado pelo PST, declarou 6.936 hectares. Como Bacha, é um latifundiário.
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Alceu Castilho, jornalista.
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quinta-feira, 27 de setembro de 2012
“Terras de políticos são improdutivas”, aponta mestrado da USP
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
As propriedades rurais de deputados e senadores são majoritariamente grandes - e improdutivas. A constatação foi feita por Sandra Helena Gonçalves Costa, em mestrado defendido na última quinta-feira (dia 20 de setembro) na Universidade de São Paulo. Diante de uma base de dados do Incra, de 2003, ela aferiu que 41,47% do total de propriedade de políticos eram latifúndios improdutivos; e que as grandes propriedades produtivas representavam 29,17%.
Esses dados referem-se às declarações de bens entregues pelas pessoas físicas. Entre as empresas declaradas por políticos a porcentagem é ainda maior: 62,25% do total são grandes propriedades improdutivas, contra 25,26% de latifúndios produtivos. O nome da dissertação, apresentado no programa de pós-graduação em Geografia Humana da FFLCH-USP, é: “A questão agrária no Brasil e a bancada ruralista no Congresso Nacional”.
Sandra informou que Bahia, Mato Grosso e Piauí são os estados que lideram uma lista de 217 propriedades improdutivas de políticos. O professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira observou que, no cadastro do Incra, essas propriedades aparecem assinaladas com três pontinhos, entre parênteses. “É uma decisão corrupta do Incra, para evitar que os proprietários não consigam empréstimos bancários”, afirma. “Isso é ilegal, inconstitucional”.
GRILAGEM E CONTRADIÇÕES
Orientada por Oliveira, Sandra sustentou a tese de que os políticos são sujeitos ativos na dinâmica de expansão capitalista da agricultura. Organizam-se “no intuito de defender seus interesses de classe”. Suas propriedades estão associadas, em muitos casos, à grilagem. “Eles são ruralistas e são grileiros”, afirma Sandra. “Meu trabalho mostra isso”.
Além dos dados do Incra, a pesquisadora analisou também declarações à Justiça Eleitoral, entre 1998 e 2010, além de biografias dos congressistas, estudos acadêmicos e outros documentos oficiais (prefeituras, Câmaras Municipais). “Muitos dados parecem forjados, outros são escondidos”, observa. Ela considera que a existência dos latifúndios fere a dignidade humana e que o poder político “é uma perversidade”.
A pesquisadora identificou 364 políticos na bancada ruralista, nas últimas legislaturas. Apenas 118 declararam profissões diretamente relacionadas. “A lista vai continuar aumentando”, afirma. Sandra observa que os senadores José Sarney e Renan Calheiros só se reconheceram como ruralistas em 2010.
Ela defende mais transparência na divulgação dos dados sobre bens rurais de políticos. Considera que o Estado deixa os pesquisadores numa situação de “abandono”.
O CONTROLE DO TERRITÓRIO
Sandra ressaltou a relação próxima que os proprietários têm com a terra. “O poder político é dos proprietários de terra, na escala dos municípios”, afirma. “Não somente capital. Principalmente no interior, ser poderoso é ter terras, ser fazendeiro”.
A professora Valéria de Marcos, do Departamento de Geografia da USP, que também fez parte da banca examinadora, disse que o caráter rentista dessa classe política precisa ficar mais evidenciado. “É preciso dizer que estão vivendo disso”, afirmou. “E que terra é poder”. Valéria considera que não dá mais para falar do tema (bancada ruralista) sem fazer referência ao trabalho de Sandra, elogiada pela “coragem de colocar a mão nesse vespeiro”.
“O trabalho comprova que o Estado abriu mão do controle de seu território”, afirmou Carlos Alberto Feliciano, da Unesp de Presidente Prudente. “O livro é uma denúncia. Se o Estado quisesse fazer alguma coisa era só pegar a lista que eles próprios declararam e pronto: os assentados já teriam terras”.
Ariovaldo Umbelino de Oliveira afirmou que, daqui para a frente, os congressistas saberão que suas terras estarão expostas na Internet. Ele está em fase de conclusão de um Atlas da Terra, que mostra a dimensão do processo de grilagem, como formador do território brasileiro. Áreas declaradas ao Incra ultrapassam a área real dos municípios, por exemplo.
Sandra dedicou parte de sua dissertação de mestrado às famílias de políticos ruralistas. Como os Caiado, em Goiás, ou os Rosado, no Rio Grande do Norte. Betinho Rosado ilustra um caso de diferença entre os dados do Incra e os do TSE: declarou 784,8 hectares em Mossoró, mas no Incra constam somente 554 hectares. “Quase nunca a área registrada coincide com a declarada”, afirma.
Uma exceção a essa tendência ocorre no Sul. “Mas os políticos vão buscar terras em outros estados”, diz Sandra. “CNA, Associação dos Criadores de Zebu e UDR são espaços de articulação desses parlamentares, para se apropriarem de terras em outros estados”.
PARTIDO DA TERRA
Muitos dados apresentados coincidem com os do livro Partido da Terra (Alceu Luís Castilho, Editora Contexto, 2012), um levantamento a partir de quase 13 mil declarações de bens de prefeitos, vice-prefeitos, deputados estaduais, federais, senadores, governadores e vice-governadores, eleitos em 2008 e 2010.
Carlos Alberto Feliciano chegou a tirar o livro da mochila, durante sua arguição (sem saber que o repórter estava presente), e observou que jornalista e pesquisadora tinham chegado, por caminhos diferentes, a várias constatações em comum. Ele apontou diferença entre o viés acadêmico da pesquisadora e o que chamou de viés “mercadológico” do livro, segundo ele mais preocupado do que o trabalho acadêmico em “contar histórias”.
Jornalista e pesquisadora chegaram a conclusões idênticas sem terem se falado. E com metodologias diferentes. Sandra se estendeu mais no tempo, contabilizando dados de políticos do Congresso eleitos desde 1998. E analisou também os dados do Incra.
O trabalho que resultou no livro avançou em outras esferas de poder, ao analisar os bens de deputados estaduais, governadores, prefeitos e vice-prefeitos. A conclusão do autor é a de que existe, mais que uma bancada, um “sistema político ruralista” no Brasil.
A CONTINUIDADE
Uma das conclusões do mestrado de Sandra é a do surgimento de novos protagonistas entre os ruralistas. Ela observa que, após as mudanças do Código Florestal (chamado por ambientalistas de Código Ruralista), eles se dedicarão a atacar os territórios indígenas.
Ela também enumerou casos de conflitos de políticos com a classe camponesa: o de Benito Priante e Jader Barbalho, no Pará, mencionados no caso da irmã Dorothy Stang; e o do deputado federal Rubens Moreira Mendes Filho, em Rondônia, que, em documento oficial, chegou a perguntar ao Exército por que não tinha enviado forças armadas contra a Liga dos Camponeses Pobres.
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
As propriedades rurais de deputados e senadores são majoritariamente grandes - e improdutivas. A constatação foi feita por Sandra Helena Gonçalves Costa, em mestrado defendido na última quinta-feira (dia 20 de setembro) na Universidade de São Paulo. Diante de uma base de dados do Incra, de 2003, ela aferiu que 41,47% do total de propriedade de políticos eram latifúndios improdutivos; e que as grandes propriedades produtivas representavam 29,17%.
Esses dados referem-se às declarações de bens entregues pelas pessoas físicas. Entre as empresas declaradas por políticos a porcentagem é ainda maior: 62,25% do total são grandes propriedades improdutivas, contra 25,26% de latifúndios produtivos. O nome da dissertação, apresentado no programa de pós-graduação em Geografia Humana da FFLCH-USP, é: “A questão agrária no Brasil e a bancada ruralista no Congresso Nacional”.
Sandra informou que Bahia, Mato Grosso e Piauí são os estados que lideram uma lista de 217 propriedades improdutivas de políticos. O professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira observou que, no cadastro do Incra, essas propriedades aparecem assinaladas com três pontinhos, entre parênteses. “É uma decisão corrupta do Incra, para evitar que os proprietários não consigam empréstimos bancários”, afirma. “Isso é ilegal, inconstitucional”.
GRILAGEM E CONTRADIÇÕES
Orientada por Oliveira, Sandra sustentou a tese de que os políticos são sujeitos ativos na dinâmica de expansão capitalista da agricultura. Organizam-se “no intuito de defender seus interesses de classe”. Suas propriedades estão associadas, em muitos casos, à grilagem. “Eles são ruralistas e são grileiros”, afirma Sandra. “Meu trabalho mostra isso”.
Além dos dados do Incra, a pesquisadora analisou também declarações à Justiça Eleitoral, entre 1998 e 2010, além de biografias dos congressistas, estudos acadêmicos e outros documentos oficiais (prefeituras, Câmaras Municipais). “Muitos dados parecem forjados, outros são escondidos”, observa. Ela considera que a existência dos latifúndios fere a dignidade humana e que o poder político “é uma perversidade”.
A pesquisadora identificou 364 políticos na bancada ruralista, nas últimas legislaturas. Apenas 118 declararam profissões diretamente relacionadas. “A lista vai continuar aumentando”, afirma. Sandra observa que os senadores José Sarney e Renan Calheiros só se reconheceram como ruralistas em 2010.
Ela defende mais transparência na divulgação dos dados sobre bens rurais de políticos. Considera que o Estado deixa os pesquisadores numa situação de “abandono”.
O CONTROLE DO TERRITÓRIO
Sandra ressaltou a relação próxima que os proprietários têm com a terra. “O poder político é dos proprietários de terra, na escala dos municípios”, afirma. “Não somente capital. Principalmente no interior, ser poderoso é ter terras, ser fazendeiro”.
A professora Valéria de Marcos, do Departamento de Geografia da USP, que também fez parte da banca examinadora, disse que o caráter rentista dessa classe política precisa ficar mais evidenciado. “É preciso dizer que estão vivendo disso”, afirmou. “E que terra é poder”. Valéria considera que não dá mais para falar do tema (bancada ruralista) sem fazer referência ao trabalho de Sandra, elogiada pela “coragem de colocar a mão nesse vespeiro”.
“O trabalho comprova que o Estado abriu mão do controle de seu território”, afirmou Carlos Alberto Feliciano, da Unesp de Presidente Prudente. “O livro é uma denúncia. Se o Estado quisesse fazer alguma coisa era só pegar a lista que eles próprios declararam e pronto: os assentados já teriam terras”.
Ariovaldo Umbelino de Oliveira afirmou que, daqui para a frente, os congressistas saberão que suas terras estarão expostas na Internet. Ele está em fase de conclusão de um Atlas da Terra, que mostra a dimensão do processo de grilagem, como formador do território brasileiro. Áreas declaradas ao Incra ultrapassam a área real dos municípios, por exemplo.
Sandra dedicou parte de sua dissertação de mestrado às famílias de políticos ruralistas. Como os Caiado, em Goiás, ou os Rosado, no Rio Grande do Norte. Betinho Rosado ilustra um caso de diferença entre os dados do Incra e os do TSE: declarou 784,8 hectares em Mossoró, mas no Incra constam somente 554 hectares. “Quase nunca a área registrada coincide com a declarada”, afirma.
Uma exceção a essa tendência ocorre no Sul. “Mas os políticos vão buscar terras em outros estados”, diz Sandra. “CNA, Associação dos Criadores de Zebu e UDR são espaços de articulação desses parlamentares, para se apropriarem de terras em outros estados”.
PARTIDO DA TERRA
Muitos dados apresentados coincidem com os do livro Partido da Terra (Alceu Luís Castilho, Editora Contexto, 2012), um levantamento a partir de quase 13 mil declarações de bens de prefeitos, vice-prefeitos, deputados estaduais, federais, senadores, governadores e vice-governadores, eleitos em 2008 e 2010.
Carlos Alberto Feliciano chegou a tirar o livro da mochila, durante sua arguição (sem saber que o repórter estava presente), e observou que jornalista e pesquisadora tinham chegado, por caminhos diferentes, a várias constatações em comum. Ele apontou diferença entre o viés acadêmico da pesquisadora e o que chamou de viés “mercadológico” do livro, segundo ele mais preocupado do que o trabalho acadêmico em “contar histórias”.
Jornalista e pesquisadora chegaram a conclusões idênticas sem terem se falado. E com metodologias diferentes. Sandra se estendeu mais no tempo, contabilizando dados de políticos do Congresso eleitos desde 1998. E analisou também os dados do Incra.
O trabalho que resultou no livro avançou em outras esferas de poder, ao analisar os bens de deputados estaduais, governadores, prefeitos e vice-prefeitos. A conclusão do autor é a de que existe, mais que uma bancada, um “sistema político ruralista” no Brasil.
A CONTINUIDADE
Uma das conclusões do mestrado de Sandra é a do surgimento de novos protagonistas entre os ruralistas. Ela observa que, após as mudanças do Código Florestal (chamado por ambientalistas de Código Ruralista), eles se dedicarão a atacar os territórios indígenas.
Ela também enumerou casos de conflitos de políticos com a classe camponesa: o de Benito Priante e Jader Barbalho, no Pará, mencionados no caso da irmã Dorothy Stang; e o do deputado federal Rubens Moreira Mendes Filho, em Rondônia, que, em documento oficial, chegou a perguntar ao Exército por que não tinha enviado forças armadas contra a Liga dos Camponeses Pobres.
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quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Políticos estão na nova Lista Suja do trabalho escravo
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Pelo menos dois prefeitos, um ex-prefeito e a mulher de um deputado estadual
estão na nova Lista Suja do trabalho escravo, divulgada na semana passada pelo
Ministério do Trabalho e Emprego.
O levantamento foi feito pelo blog a partir de cruzamento com a lista de
políticos contida no livro “Partido da Terra” (Editora Contexto, 2012), no
capítulo sobre trabalho escravo.
A mulher se chama Janete Riva. Ela chegou a ser candidata a
vice-governadora do Mato Grosso, pelo PSDB, em 2002. É casada com José Riva (PP),
presidente de honra da Asssembleia. Chegou a ser presa em 2010, durante a
Operação Jurupari, que combatia o comércio e o transporte ilegais de madeira da
Amazônia. Sua história está contada em outro capítulo do mesmo livro, “Amazônia
despedaçada”.
Ela está na nova Lista Suja por conta de fiscalização feita na Fazenda Paineiras, em Juara (MT). A atividade ali, segundo o MTE, é a criação de gado bovino. Sete trabalhadores foram libertados. Em 2010 ela possuía mais de 7 mil hectares e 3,4 mil bovinos nessa fazenda. Segundo a ONG Repórter Brasil as vítimas pagavam pelas ferramentas de trabalho. E não eram fornecidas camas ou colchões.
Ela está na nova Lista Suja por conta de fiscalização feita na Fazenda Paineiras, em Juara (MT). A atividade ali, segundo o MTE, é a criação de gado bovino. Sete trabalhadores foram libertados. Em 2010 ela possuía mais de 7 mil hectares e 3,4 mil bovinos nessa fazenda. Segundo a ONG Repórter Brasil as vítimas pagavam pelas ferramentas de trabalho. E não eram fornecidas camas ou colchões.
A mesma ONG especializada em trabalho escravo informa que, em cada quatro ingressantes da Lista Suja, um é do Mato Grosso.
O município de Codó, no Maranhão, é mencionado várias vezes em denúncias de trabalho escravo envolvendo políticos. A nova Lista Suja (atualizada a cada seis meses) inclui o próprio prefeito, Zito Rolim, ou José Rolim Filho, eleito pelo PV.
O município de Codó, no Maranhão, é mencionado várias vezes em denúncias de trabalho escravo envolvendo políticos. A nova Lista Suja (atualizada a cada seis meses) inclui o próprio prefeito, Zito Rolim, ou José Rolim Filho, eleito pelo PV.
Vinte e quatro trabalhadores foram libertados das fazendas
São Raimundo e São José, em Peritoró (MA). A atividade econômica também é a
criação de bovinos. O livro “Partido da Terra” informa que essas fazendas não
foram informadas à Justiça Eleitoral. Ele declarou outra fazenda, de 968 hectares,
em Itapecuru Mirim. Não registrou nenhuma
cabeça de gado.
O estado com mais conflitos de terra no Brasil é o Pará. A nova Lista
Suja mantém o nome de Francisco Medeiros Sobrinho. Ele está inelegível, mas já
foi prefeito de Japi (eleito pelo PSDB), no Rio Grande do Norte. Mas as terras ficam em Palestina do Pará. A fiscalização
do MTE libertou ali cinco trabalhadores. Que também trabalhavam com gado
bovino, na fazenda Indiaçu.
O município de Japi é administrado por outro membro da
família Medeiros – todos parentes do patriarca, o “coronel” Francisco Medeiros.
Estas informações também constam do livro “Partido da Terra”.
Finalmente, a nova Lista Suja apresenta o nome de Vicente Pereira de Souza Neto, o Vicentão. O agricultor é prefeito de Toledo, em Minas Gerais. Os fiscais libertaram 21 trabalhadores da Fazenda Santana, em Vianópolis (GO).
Finalmente, a nova Lista Suja apresenta o nome de Vicente Pereira de Souza Neto, o Vicentão. O agricultor é prefeito de Toledo, em Minas Gerais. Os fiscais libertaram 21 trabalhadores da Fazenda Santana, em Vianópolis (GO).
Vicentão não declarou essa fazenda à Justiça Eleitoral, em
2008. Nem qualquer terra em Goiás. Somente 298 hectares em Toledo. Os trabalhadores
libertados tinham saído de Colinas, no Maranhão. Na fazenda do prefeito,
colhiam batatas.
A ONG Repórter Brasil informa o nome de mais duas pessoas ligadas ao mundo político entre os ingressantes na Lista Suja, além de Janete Riva: o engenheiro René Pompêo de Pina, ex-secretário de infra-estrutura do Estado de Goiás (e presidente do conselho da Celg Distribuição S/A), filiado ao PSDB, e o de Emanoel Gomes Bezerra Junior, sobrinho do deputado federal Carlos Bezerra (PMDB-MT).
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A ONG Repórter Brasil informa o nome de mais duas pessoas ligadas ao mundo político entre os ingressantes na Lista Suja, além de Janete Riva: o engenheiro René Pompêo de Pina, ex-secretário de infra-estrutura do Estado de Goiás (e presidente do conselho da Celg Distribuição S/A), filiado ao PSDB, e o de Emanoel Gomes Bezerra Junior, sobrinho do deputado federal Carlos Bezerra (PMDB-MT).
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terça-feira, 15 de maio de 2012
Quem matou o índio macuxi Aldo Mota? No dia 17, o
julgamento de Chico Tripa
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O Conselho Indigenista Missionário informa que
Aldo da Silva Mota – índio da etnia Macuxi - desapareceu no
dia 2 de janeiro de 2003, após receber um recado do capataz da
Fazenda Retiro. A fazenda ficava na Raposa Serra do Sol, terra indígena em
Roraima homologada em 2005 pelo governo federal.
As terras "pertenciam" ao ex-vereador Francisco
das Chagas de Oliveira, conhecido como Chico Tripa. O capataz pediu
que Aldo fosse buscar um bezerro de sua aldeia naquela fazenda. “Foi
e não voltou", resume o Cimi.
(Coloco entre aspas o "pertenciam" porque, como em boa parte da Amazônia, na Serra do Sol se tratavam de terras da União).
O julgamento de Chico Tripa e de mais dois acusados
será nesta quinta-feira, dia 17, às 9 horas, em Boa Vista.
Repercuto a notícia perguntando-me que veículo
de alcance nacional irá divulgar o julgamento. Nem cogito que alguém
mande um repórter para Boa Vista – o que seria muito
bem-vindo. Mas algum portal ou grande jornal se interessará pela
história de nosso Aldo?
(O italiano Aldo Moro foi morto em 1978 pelas
Brigadas Vermelhas. O crime repercute internacionalmente até hoje.)
O mais provável é que o julgamento de Aldo da
Silva Mota não tenha um centésimo (para não dizer um milésimo) da
repercussão dos julgamentos do seringueiro Chico Mendes - morto em 1988 - e da
missionária Dorothy Stang - executada em 2005.
Refiro-me a dois dos únicos nomes, entre centenas de pessoas assassinadas por fazendeiros nos últimos anos, que motivaram
alguma cobertura da grande imprensa – e nem acho que ela tenha sido
lá essas coisas.
Catorze pessoas já morreram em 2012 em
decorrência de conflitos no campo, informa a Comissão Pastoral da
Terra. Ou seja, os fazendeiros “solucionaram” os conflitos
assassinando os camponeses – ou suas lideranças.
No caso de Aldo da Silva Mota, o corpo foi
encontrado numa vala rasa, exposto aos urubus. O IML de Boa Vista
atestou inicialmente “morte natural”.
Um dos acusados pelo crime é esse ex-vereador, que
atende pela alcunha de Chico Tripa. Tivemos outro Chico em São
Paulo, o Chico Picadinho. Era um serial killer, um Maníaco do Parque
dos anos 70. Os crimes de ambos tiveram vasta cobertura da imprensa.
Os assassinatos em série no campo não motivam as
mesmas linhas nos jornais. Indígenas, quilombolas, posseiros,
sem-terra seguem sendo executados - pelos latifundiários e pelo silêncio da
mídia.
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domingo, 29 de abril de 2012
Cacique Guajajara é a primeira grande vítima do novo Código Florestal
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Os ruralistas que comemoraram a aprovação do novo Código Florestal já podem comemorar sua primeira vítima. Ela se chama Maria Amélia Guajajara. Uma cacique de 52 anos, de um povo perseguido por madeireiros no Maranhão.
A notícia do assassinato de Maria Amélia – com dois tiros na cabeça, na frente de sua família – foi dada pelo jornal maranhense Vias de Fato. O fato ocorreu ontem no município de Grajaú, a 600 quilômetros de São Luís. Em um Estado com quatro senadores da República.
Ruralistas, comemorando? Não se trata de exagero. Vejam a descrição do jornal Valor Econômico, de 25 de maio de 2011:
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
A notícia do assassinato de Maria Amélia – com dois tiros na cabeça, na frente de sua família – foi dada pelo jornal maranhense Vias de Fato. O fato ocorreu ontem no município de Grajaú, a 600 quilômetros de São Luís. Em um Estado com quatro senadores da República.
Ruralistas, comemorando? Não se trata de exagero. Vejam a descrição do jornal Valor Econômico, de 25 de maio de 2011:
- Era perto das 16h quando uma cena grotesca aconteceu no plenário da Câmara dos Deputados. O líder do Partido Verde, José Sarney Filho, lia uma reportagem sobre o extrativista José Claudio Ribeiro da Silva, brutalmente assassinado pela manhã no Pará, junto com sua mulher Maria do Espírito Santo da Silva, também uma liderança amazônica. Ao dizer que o casal que procurava defender os recursos naturais havia morrido em uma emboscada, ouviu-se uma vaia. Vinha das galerias e também de alguns deputados ruralistas.
Há os que comemoram e há os que são indiferentes – ou cúmplices. A morte de Maria Amélia é notícia para ter repercussão internacional. Como o assassinato do seringalista Chico Mendes em 1988, como a execução da missionária Dorothy Stang em 2005. E cabe a cada brasileiro cobrar do poder político a importância que o fato possui.
Essa importância é multiplicada pela aprovação do novo Código Florestal, no dia 25, já bem definido como “uma lei de consolidação de atividades agropecuárias ilegais, ou uma lei de anistia”.
Atividades ilegais, no campo, estão associadas a desmatamento – e também a trabalho escravo. E a assassinatos.
Não à toa, o que estava sendo discutido no dia das vaias era o novo Código Florestal.
Cada voto ruralista é um tiro. Cada voto em um ruralista, um aval. O silêncio da grande imprensa, um túmulo.
(Atualização do dia 02 de maio, quarta-feira: os portais G1 e Estadão repercutiram o caso. De resto, silêncio.)
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Há os que comemoram e há os que são indiferentes – ou cúmplices. A morte de Maria Amélia é notícia para ter repercussão internacional. Como o assassinato do seringalista Chico Mendes em 1988, como a execução da missionária Dorothy Stang em 2005. E cabe a cada brasileiro cobrar do poder político a importância que o fato possui.
Essa importância é multiplicada pela aprovação do novo Código Florestal, no dia 25, já bem definido como “uma lei de consolidação de atividades agropecuárias ilegais, ou uma lei de anistia”.
Atividades ilegais, no campo, estão associadas a desmatamento – e também a trabalho escravo. E a assassinatos.
Não à toa, o que estava sendo discutido no dia das vaias era o novo Código Florestal.
Cada voto ruralista é um tiro. Cada voto em um ruralista, um aval. O silêncio da grande imprensa, um túmulo.
(Atualização do dia 02 de maio, quarta-feira: os portais G1 e Estadão repercutiram o caso. De resto, silêncio.)
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domingo, 8 de janeiro de 2012
Grandes Patifes da Literatura (III) -
Paulo Honório
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Depois de dois personagens da literatura argentina (Fernando Vidal Olmos e Juan Pablo Castel, ambos de Ernesto Sabato), inauguro com Paulo Honório a literatura brasileira nesta série sobre patifes.
Assim como Olmos e Castel, o protagonista de “São Bernardo” (1934) narra sua paranoia em primeira pessoa. Como Castel, o pintor de “O Túnel” (1948), mergulha nos ciúmes. “Boa em demasia”, Madalena é uma das mulheres mais humilhadas da literatura brasileira. (Como tal, parece ironia ela ser uma professora.)
Uma diferença em relação a Sabato é que as ficções de Graciliano Ramos têm um lado político mais acentuado - em meio ao mesmo existencialismo. Paulo Honório representa os proprietários de terra – e também o capital. Para ele Casimiro Lopes (o jagunço) é uma propriedade, Madalena é uma propriedade. Todos são extensões das terras de São Bernardo - obtidas de Padilha "sem remorsos".
Em artigo para a Revista Universitária do Audiovisual, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Henrique Dias Soares de Barros aplica especificamente a Paulo Honório o conceito de "homem subterrâneo", desenvolvido pelo crítico Antonio Cândido em relação à obra de Graciliano como um todo. O nome vem da obra (existencialista) de Dostoievski, também conhecida como "Homem do Subsolo".
Graciliano era leitor de Dostoievski. Cândido identifica nesses "homens subterrâneos" um conflito entre um ser social, "ligado à necessidade de ajustar-se a certas normas convencionais para sobreviver", e um ser profundo, "revoltado contra elas, inadaptado, vendo a marca da contingência e fragilidade em tudo e em si mesmo".
Reproduzo abaixo o capítulo dezenove: um momento especial (poético e de grande profundeza psicológica) dentro de uma das obras-chave de nossa literatura. Aqui Paulo Honório ganha contornos humanos – mas em meio ao delírio. “Encolerizo-me e enterneço-me”, diz ele.
Não se pode perder de vista a condição de patrão de Paulo Honório. Nem ele mesmo a perde, como neste trecho sobre Mestre Caetano: "Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar".
Paulo, Fernando e Juan bem poderiam também estar numa coletânea sobre literatura e saúde mental. “Não quero luz”, diz ele a Maria das Dores. A descrição de Paulo Honório de suas violências - como no caso dos dois argentinos – se desenrola em sua alma "agreste" em meio a um profundo tormento:
SÃO BERNARDO, CAPÍTULO DEZENOVE
Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.
E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.
Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as idéias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.
Emoções indefiníveis me agitam - inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.
Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão.
Lá fora os sapos arengavam, o vento gemia, as árvores do pomar tornavam-se massas negras.
- Casimiro! Casimiro Lopes estava no jardim, acocorado ao pé da janela, vigiando.
- Casimiro! A figura de Casimiro Lopes aparece à janela, os sapos gritam, o vento sacode as árvores, apenas visíveis na treva. Maria das Dores entra e vai abrir o comutador. Detenho-a: não quero luz.
O tique-taque do relógio diminui, os grilos começam a cantar. E Madalena surge no lado de lá da mesa. Digo baixinho: - Madalena! A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos. Estou encostado à mesa, as mãos cruzadas. Os objetos fundiram-se, e não enxergo sequer a toalha branca.
- Madalena...
A voz de Madalena continua a acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande algum dinheiro a Mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritação é diferente das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura estar uma pessoa ao mesmo tempo zangada e tranquila. Mas estou assim. Irritado contra quem? Contra Mestre Caetano. Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar. Mandrião! A toalha reaparece, mas não sei se é esta toalha sobre que tenho as mãos cruzadas ou a que estava aqui há cinco anos.
Rumor do vento, dos sapos, dos grilos. A porta do escritório abre-se de manso, os passos de Seu Ribeiro afastam-se. Uma coruja pia na torre da igreja. Terá realmente piado a coruja? Será a mesma que piava há dois anos? Talvez seja até o mesmo pio daquele tempo.
Agora Seu Ribeiro está conversando com Dona Glória no salão. Esqueço que eles me deixaram e que esta casa está quase deserta.
- Casimiro! Penso que chamei Casimiro Lopes. A cabeça dele, com o chapéu de couro de sertanejo, assoma de quando em quando à janela, mas ignoro se a visão que me dá é atual ou remota.
Agitam-se em mim sentimentos inconciliáveis: encolerizo-me e enterneço-me; bato na mesa e tenho vontade de chorar.
Aparentemente estou sossegado: as mãos continuam cruzadas sobre a toalha e os dedos parecem de pedra. Entretanto ameaço Madalena com o punho. Esquisito.
Distingo no ramerrão da fazenda as mais insignificantes minudências. Maria das Dores, na cozinha, dá lições ao papagaio. Tubarão rosna acolá no jardim. O gado muge no estábulo.
O salão fica longe: para irmos lá temos de atravessar um corredor comprido. Apesar disso a palestra de Seu Ribeiro e Dona Glória é bastante clara. A dificuldade seria reproduzir o que eles dizem. É preciso admitir que estão conversando sem palavras.
Padilha assobia no alpendre. Onde andará Padilha? Se eu convencesse Madalena de que ela não tem razão ... Se lhe explicasse que é necessário vivermos em paz...
Não me entende. Não nos entendemos.
O que vai acontecer será muito diferente do que esperamos. Absurdo.
Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.
Repito que tudo isso continua a azucrinar-me. O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me.
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Paulo Honório
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Depois de dois personagens da literatura argentina (Fernando Vidal Olmos e Juan Pablo Castel, ambos de Ernesto Sabato), inauguro com Paulo Honório a literatura brasileira nesta série sobre patifes.
Assim como Olmos e Castel, o protagonista de “São Bernardo” (1934) narra sua paranoia em primeira pessoa. Como Castel, o pintor de “O Túnel” (1948), mergulha nos ciúmes. “Boa em demasia”, Madalena é uma das mulheres mais humilhadas da literatura brasileira. (Como tal, parece ironia ela ser uma professora.)
Uma diferença em relação a Sabato é que as ficções de Graciliano Ramos têm um lado político mais acentuado - em meio ao mesmo existencialismo. Paulo Honório representa os proprietários de terra – e também o capital. Para ele Casimiro Lopes (o jagunço) é uma propriedade, Madalena é uma propriedade. Todos são extensões das terras de São Bernardo - obtidas de Padilha "sem remorsos".
Em artigo para a Revista Universitária do Audiovisual, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Henrique Dias Soares de Barros aplica especificamente a Paulo Honório o conceito de "homem subterrâneo", desenvolvido pelo crítico Antonio Cândido em relação à obra de Graciliano como um todo. O nome vem da obra (existencialista) de Dostoievski, também conhecida como "Homem do Subsolo".
Graciliano era leitor de Dostoievski. Cândido identifica nesses "homens subterrâneos" um conflito entre um ser social, "ligado à necessidade de ajustar-se a certas normas convencionais para sobreviver", e um ser profundo, "revoltado contra elas, inadaptado, vendo a marca da contingência e fragilidade em tudo e em si mesmo".
Reproduzo abaixo o capítulo dezenove: um momento especial (poético e de grande profundeza psicológica) dentro de uma das obras-chave de nossa literatura. Aqui Paulo Honório ganha contornos humanos – mas em meio ao delírio. “Encolerizo-me e enterneço-me”, diz ele.
Não se pode perder de vista a condição de patrão de Paulo Honório. Nem ele mesmo a perde, como neste trecho sobre Mestre Caetano: "Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar".
Paulo, Fernando e Juan bem poderiam também estar numa coletânea sobre literatura e saúde mental. “Não quero luz”, diz ele a Maria das Dores. A descrição de Paulo Honório de suas violências - como no caso dos dois argentinos – se desenrola em sua alma "agreste" em meio a um profundo tormento:
SÃO BERNARDO, CAPÍTULO DEZENOVE
Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.
E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.
Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as idéias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.
Emoções indefiníveis me agitam - inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.
Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão.
Lá fora os sapos arengavam, o vento gemia, as árvores do pomar tornavam-se massas negras.
- Casimiro! Casimiro Lopes estava no jardim, acocorado ao pé da janela, vigiando.
- Casimiro! A figura de Casimiro Lopes aparece à janela, os sapos gritam, o vento sacode as árvores, apenas visíveis na treva. Maria das Dores entra e vai abrir o comutador. Detenho-a: não quero luz.
O tique-taque do relógio diminui, os grilos começam a cantar. E Madalena surge no lado de lá da mesa. Digo baixinho: - Madalena! A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos. Estou encostado à mesa, as mãos cruzadas. Os objetos fundiram-se, e não enxergo sequer a toalha branca.
- Madalena...
A voz de Madalena continua a acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande algum dinheiro a Mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritação é diferente das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura estar uma pessoa ao mesmo tempo zangada e tranquila. Mas estou assim. Irritado contra quem? Contra Mestre Caetano. Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar. Mandrião! A toalha reaparece, mas não sei se é esta toalha sobre que tenho as mãos cruzadas ou a que estava aqui há cinco anos.
Rumor do vento, dos sapos, dos grilos. A porta do escritório abre-se de manso, os passos de Seu Ribeiro afastam-se. Uma coruja pia na torre da igreja. Terá realmente piado a coruja? Será a mesma que piava há dois anos? Talvez seja até o mesmo pio daquele tempo.
Agora Seu Ribeiro está conversando com Dona Glória no salão. Esqueço que eles me deixaram e que esta casa está quase deserta.
- Casimiro! Penso que chamei Casimiro Lopes. A cabeça dele, com o chapéu de couro de sertanejo, assoma de quando em quando à janela, mas ignoro se a visão que me dá é atual ou remota.
Agitam-se em mim sentimentos inconciliáveis: encolerizo-me e enterneço-me; bato na mesa e tenho vontade de chorar.
Aparentemente estou sossegado: as mãos continuam cruzadas sobre a toalha e os dedos parecem de pedra. Entretanto ameaço Madalena com o punho. Esquisito.
Distingo no ramerrão da fazenda as mais insignificantes minudências. Maria das Dores, na cozinha, dá lições ao papagaio. Tubarão rosna acolá no jardim. O gado muge no estábulo.
O salão fica longe: para irmos lá temos de atravessar um corredor comprido. Apesar disso a palestra de Seu Ribeiro e Dona Glória é bastante clara. A dificuldade seria reproduzir o que eles dizem. É preciso admitir que estão conversando sem palavras.
Padilha assobia no alpendre. Onde andará Padilha? Se eu convencesse Madalena de que ela não tem razão ... Se lhe explicasse que é necessário vivermos em paz...
Não me entende. Não nos entendemos.
O que vai acontecer será muito diferente do que esperamos. Absurdo.
Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.
Repito que tudo isso continua a azucrinar-me. O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me.
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Publicado por
Alceu Castilho, jornalista.
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12:05
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