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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Pinheirinho, Brasil: onde foi que enterraram nossos escrúpulos?
 

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

A grande imagem do domingo – e do ano - é a das mães com criança no colo, o fogo na Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos, ao fundo. Que tipo de sociedade patrocina cenas como essa? E que tipo de ser humano acorda para trabalhar, numa segunda-feira, e consegue apoiar essa e outras demonstrações de barbárie?

Empresto o título deste artigo do jornalista Aluizio Palmar, autor de um livro chamado: “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?” Ele fez uma via crucis por Brasil e Argentina em busca de corpos de amigos mortos pelos regimes militares. Tratava-se de uma necessidade civilizatória – a busca de Palmar não era só por corpos. Era por um sentido da existência, pelo resgate de ideais compartilhados, mas esquecidos.

Algo no Brasil está sendo enterrado com velocidade atroz - e não estamos nos dando conta da dificuldade de futuro resgate. A palavra “escrúpulos” foi consagrada pelo ex-ministro Jarbas Passarinho durante aquele mesmo regime militar. Diante de alguma dificuldade, raciocinava ele, “às favas os escrúpulos de consciência”. Quase 50 anos depois, a frase segue inquietantemente atual. É gritada, falada, murmurada. Sua incidência e sua abrangência colocam em xeque a possibilidade de convivência - cordial - neste país.

Não falo apenas dos governantes que patrocinam a violência institucional contra milhões de brasileiros. Não somente do cinismo de cúpula, dessa farsa que pode ser resumida pelo calote sistemático do pagamento de precatórios. Um governo que não paga suas dívidas judiciais está desrespeitando a lei, certo? Mas o discurso legalista dos poderosos é casual, de conveniência: o próprio governo age ao arrepio de decisões judiciais - sem que alguém possa acionar a Tropa de Choque contra o governador.

Eu falo não somente desses farsantes de ocasião, dos mentirosos de colarinho branco e alto coturno, mas do cidadão comum. De classe média. Alta. Baixa. De seres humanos que escarnecem da agonia de seus semelhantes. Falo daqueles cidadãos que conseguem fazer piada com a tragédia alheia – a falta de moradia, de terra, de emprego. Dos policiais da Tropa de Choque, em São José dos Campos, que riem enquanto atiram granadas e balas de borracha contra populações indefesas.

Refiro-me, portanto, a gente muito próxima de nós. Que, como os soldados que bancaram e bancam regimes fascistas pelo mundo, tomaria, se tivesse oportunidade, as mesmíssimas decisões que Geraldo Alckmin ou o juiz cínico de plantão; que se comporta de maneira semelhante (acumuladora, inescrupulosa) à do capitalista Naji Nahas; que, com balas de borracha e gás lacrimogêneo à disposição, não hesitaria em agredir outros brasileiros que nasceram sob o signo da miséria.

Estou a pensar nos milhões de seres humanos (que podem ser nossos tios e colegas de trabalho) que apoiam as maiores e menores agressões diárias à democracia. E que se regozijam com isso – achando-se o máximo. Que patrocinam (com a imensa arrogância dos analfabetos da cidadania) os abusos policiais em manifestações de estudantes e professores; que não se importam que haja tortura, e tortura em larga escala – muito tempo depois do fim oficial do regime militar.

PONTAPÉS EM CRIANÇAS

Vejo cada uma dessas pessoas – muito mais do que metaforicamente - dando socos e pontapés naquelas mulheres de São José dos Campos; derrubando-as ao chão, humilhando-as. Com o país e o mundo pegando fogo, em volta. Vejo cada uma dessas pessoas atirando aquelas crianças em algum galpão enlameado. Escarnecendo do sofrimento delas, enviando-as para a fogueira, alimentando o fogo com sua violência e seu cinismo.

Não se trata, portanto, de apenas demonizar este ou aquele partido, este ou aquele governador. Que seja feita a dose diária de repúdio a cada um desses senhores, desses senhores-de-engenho, desses capatazes, desses verdugos – torturadores, assassinos, genocidas. Mas sem maiores ilusões de que o partido alternativo ou o governador alternativo sejam tão diferentes assim.

Algumas supostas exceções são apenas aparentes: quando obtêm chances reais de chegar ao poder, fazem pacto com todos os demais - todos os que praticam ou patrocinam a violência diária contra milhões de espoliados, contra as centenas de Ocupações Pinheirinho espalhadas pelo mundo. Sobram algumas exceções de fato, autenticamente indignadas – mas quase sem chances eleitorais.

Essas chances são diminutas exatamente porque existe bem pertinho de nós uma legião de seres humanos sem escrúpulos, prontos a apoiar toda sorte de violência contra seus semelhantes. São eles que beijam virtualmente a mão dos Nahas e dos Calheiros, dos Maluf e dos Sarney, dos répteis (com todo respeito aos répteis) que infestam o Judiciário, o Legislativo e o Executivo.

São esses brasileiros muito próximos de nós que alimentam esse inesgotável saco de maldades. Tomam cervejinha conosco. Cantam parabéns aos nossos filhos nas festas de aniversário. Nas redes sociais, são nossos “amigos”. Nos portais (naqueles fóruns que vêm se consagrando como o grande esgoto do pensamento), postam comentários homofóbicos, racistas, higienistas – ou no mínimo indiferentes.

Esses brasileiros são pessoas violentas. Agridem sem-teto. Agridem sem-terra. Batem em estudantes, em moradores de rua, em indígenas, em dependentes de crack. E não se dão conta disso. Não é com a mão deles que se exerce o controle das massas. Existe o que alguém já chamou de “violência da calma”. Uma violência-cúmplice, uma violência que não deixa marcas no próprio corpo – ou na própria consciência.

Esses brasileiros violentos e cúmplices acreditam firmemente que os patifes anteriormente citados são a causa de todos os males. Ou, muito pior que isso: que quem resiste a todas essas ignonímias é quem seja o problema de fato; os inconformados é que são os culpados pela ausência evidente de civilização. Por essa visão torpe e míope do mundo e dos processos históricos, são eles – os ativistas, os resistentes – que devem ser eliminados. E, portanto, ridicularizados. Agredidos.

Para disfarçar a sanha de violência, que se inverta o ônus. Que se definam os resistentes como “estudantada”, que se apontem os resistentes como “traficantes”, ou maconheiros – ameaças a “gente de bem”. Que se rebaixe quem vai contra a corrente ao mesmo nível – subterrâneo – de consciência embotada. Afinal, porque não dizer, os meios de comunicação de massa são a mais completa tradução desse reino dos cúmplices.
 


A foto das mães em São José dos Campos significa muita coisa. Não enxerguemos nela somente motivo para indignação coletiva – porque esta, a rigor, contra todas as aparências, não existe. Nem mesmo a indignação de classe existe, infelizmente, queridos amigos revolucionários – pois as lutas desse curioso espécime (o ser humano) são várias, não somente uma. A violência do sistema econômico é apenas uma das expressões da barbárie.


Essa foto das mães em fuga (com os mencionados país e mundo pegando fogo ao fundo) significa um grito contido. Por um lado, mostra a relativa impotência dos resistentes. Por outro, a força (não se sabe bem vinda de onde) que nos leva a manter alguma esperança. Por fim, esconde um amplo contexto de violência latente. A trilha sonora dessa imagem é sórdida – o coro de brasileiros que, diariamente, sob risinhos, piadinhas e comentariozinhos, ateiam fogo à democracia.

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