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domingo, 22 de janeiro de 2012

Mano Brown na Favela do Moinho – mas você não verá na Globo

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Mano Brown: líder dos Racionais MCs. Músico e pensador paulistano que se manifesta no movimento hip-hop.

Favela do Moinho: é aquela que pegou fogo dois dias antes do Natal, na região central de São Paulo. Com dois mortos oficiais – e vários outros, na versão dos moradores exposta neste vídeo.


Mano Brown faz show hoje na Favela do Moinho. O Festival Moinho Vivo começa às 14 horas, com música, fotografia, artes circenses. É um acontecimento cultural – e político. Apesar da dupla importância, a grande mídia não fará a cobertura.


Somente Mano Brown toca hoje no Moinho? Não. O festival terá também Dexter e Rincon Paciência. Quase teve Emicida. Terá ainda Crônica Mendes, DeDeus, Ducorre, James Bantu, Lindomar 3L, Ortiz, Rimatitude, Sombra, e Us VCagabundo Chic. E b-boys, Ds, grafiteiros, poetas. Mas não sairá nas telas da Rede Globo.

Os organizadores esperam toneladas de mantimentos – destinados aos desabrigados - e centenas de medicamentos. Os jornalistas especializados em “sustentabilidade”, porém, lá não estarão. Cadernos especializados em “Cidades”, “Metrópole”, “Cotidiano”? Pouco provável que façam jus a seus nomes.

No início do ano a prefeitura tentou implodir o prédio ao lado da Favela do Moinho, na região central de São Paulo. A implosão falhou, mas o prefeito Gilberto Kassab (PSD) ainda assim deu nota 10 para a operação.

Em meio à invisibilidade nos principais meios de comunicação do país, os organizadores do Festival Moinho Vivo fazem uma cobertura colaborativa. Nos mesmos moldes do que aconteceu nos últimos dias na Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. Aliás, haverá show hoje também no Pinheirinho. Às 16 horas, com a cantora de rap Lurdes da Luz.

O próprio nome do festival de hip-hop, Moinho Vivo, tem embutido um significado de resistência. Veja a definição no site Hip-Hop Brasil:

- Moinho Vivo é uma iniciativa autogestionária de produtores, militantes, moradores e ativistas que querem dar visibilidade ao que acontece na Comunidade do Moinho (pós incêndio). Compartilhando informações, denúncias e principalmente todo o potencial criativo e produtivo da Comunidade.

Um Moinho e um Pinheirinho vivos contrapõem-se aos meios de comunicação tradicionais – semi-mortos. Por quê?

A EXCLUSÃO MIDIÁTICA

O primeiro motivo da exclusão midiática é o próprio conteúdo político. Jornalismo cultural e jornalismo político são planetas distantes nas redações. Não há diálogo. Como falar de entretenimento no jornalismo político? É considerado um assunto “menor” – apesar do festival de fofocas que caracteriza a cobertura política brasileira.

Da mesma forma, a política só entra no jornalismo cultural como contrabando. Até entra, aqui e ali – por distração dos chefes de redação (poucos deles realmente ilustrados) ou porque se considera que o fato político já foi amestrado pela indústria cultural. Como se o registro das contradições do país em livro ou vídeo fosse a parte que coubesse aos excluídos no latifúndio político-cultural.

Mas vale ressaltar também o aspecto econômico por trás da invisibilidade de fenômenos como o do hip-hop paulistano. Pois não se trata de algo exatamente simpático às gravadoras – como é Michel Teló.

Claro, Teló é também mais inofensivo. Pense na letra de “Ai, se eu Te Pego”. Agora leia estes versos de “Num é só ver”, de  Emicida e Rael da Rima:

"Empresários perdem milhões
Pobres acham, devolvem
Barões matam nações
Que se refazem, se movem
Manipulam informações
Fodem!
Grandes populações
Que não se envolvem
Trancados em mansões
É, eles podem
Seguros das monções
Oh right, no problem
Epidemias, liquidações
Dormem pessoas simples nos barracões
Orem
Calam manifestações
Olhem
Por cifras, com vidas
Não estranhe que joguem
Atrás de notícias compradas
Se escondem
Sem dó tiram comida
De outro homem
Artistas fazem rir
Presidentes fazem chorar
Tiros são barulhentos
Mas não impedem de escutar
O canto dos que lutam pelo povo
Sempre vivo
Gente louca faz música
Gente séria explosivo".

Muito mais elaborado que Teló? Expressivo? Relevante? Importante? Sim, mas não somente isso. Basta observar que Emicida tem posição declarada contra o latifúndio. Rincon Paciência fala em rap “resistente”.

Para quem luta pela manutenção do status quo, deve soar inquietante.

Festival Moinho Vivo
Quando: domingo (22), a partir das 14h
Onde: Favela do Moinho – R. Doutor Elias Chaves, 20 (próx. Viaduto da Avenida Rio Branco)
Quanto: doações de alimentos, roupas, materiais de construção, materiais escolares, brinquedos ou remédios.

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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

"Parece a Etiópia ou o Haiti", diz Julio Lancelotti sobre desalojados em SP

O padre Julio Lancelotti repercutiu neste domingo, em seu perfil no Facebook, a situação dos desalojados da Favela do Moinho, que pegou fogo na última terça-feira. Ele publicou dois posts sobre o tema.

No primeiro ele definiu a implosão (pela metade) de um prédio pela prefeitura como "um fiasco". E fez críticas à cobertura da mídia:

- Mas a imprensa não mostra o drama humano dos desalojados. Hoje visitei o acampamento embaixo do viaduto, assemelha-se à Etiópia ou ao Haiti,em pleno centro de São Paulo. Visitei dois queimados: um sentado no chão, outro deitado na carroça. Visitei Dona Natalia em seu pobre barraco, sem locomoção e idosa. O que recebeu foi um protetor para os ouvidos. O abandono do povo pelo poder público é alarmante.

Lancelotti faz parte da Pastoral do Povo de Rua, da Arquidiocese de São Paulo. No outro post ele denuncia abordagem violenta por Guardas Civis Metropolitanos:

- Uma senhora de nome Socorro estava agitada e voltou para a área de risco da implosão, foi abordada com violência por GCMs e nem 8 guardas conseguiam controle sobre ela. Fui a seu encontro chamando pelo nome, segurando em sua mão, e consegui que viesse comigo para a área de segurança e ficou com as missionárias da Aliança de Misericórdia.

CARTA ABERTA
Os moradores publicaram neste domingo uma Carta Aberta à População, para "impedir distorções das informações". Eles solicitam - pela quinta vez - uma audiência com o secretário municipal da Habitação. Querem mais educação e oportunidade, mais diálogo e respeito pela perspectiva de futuro "e menos arrogância".
Eles estão alojados provisoriamente no Clube Escola Raul Tabajara, um centro desportivo municipal, e sob o Viaduto Engenheiro Orlando Murgel, ao lado da favela. Como diz o padre Julio Lancelotti, "com coberturas de plástico e ao relento".

O padre definiu como "mentira" a reportagem do Fantástico, da Rede Globo, que diz que os moradores foram "removidos". Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, esteve mais uma vez neste domingo no local e chamou de "vergonhoso" o atendimento aos moradores.
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

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A trapalhada de Kassab e a implosão parcial da vergonha política

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

A imagem de um prédio parcialmente implodido marcou este início de ano em São Paulo. O objetivo oficial, preservar o tráfego dos trens, ao lado. O prédio pegou fogo durante o incêndio da Favela do Moinho, antes do Natal. Moradores estão desabrigados. Alguns dormem ao relento. Mas o prefeito Gilberto Kassab (PSD) comemorou a implosão parcial – na verdade, uma grande trapalhada de seus engenheiros.  De qualquer modo, a cena – metaforicamente muito rica - dá margem a várias análises.

Fica evidente que o prefeito – munido de seus ideais higienistas – queria mesmo ver aquela cena de implosão geral e irrestrita, aquela que a Rede Globo sempre gostou de mostrar, com algum engenheiro descrevendo euforicamente a proeza. Uma favela pegou fogo? Dois moradores morreram? Pela lógica de Kassab, “queimemos as evidências”. “Mostremos que esta cidade tem comando. Eu sou um prefeito realizador: vou lá e implodo mesmo”.

Diante do fracasso midiático, o dinâmico prefeito se reuniu por uma hora e meia com os técnicos para “avaliar o sucesso da ação”. Encerrados esses 90 minutos, feito um jogador de futebol emitindo platitudes após uma partida, ele se saiu com a tese de que a implosão parcial fora “bem sucedida”. Que o objetivo – diz Kassab - era liberar as linhas da Companhia de Trens Metropolitanos e era preciso achar um “ponto de equilíbrio”.

Poderíamos perguntar aqui, equilibradamente, até onde vai a cara-de-pau (essa que nunca parece pegar fogo) dos políticos brasileiros. Mas busquemos um contra-exemplo. Na sexta-feira, em entrevista à Folha, o governador carioca Sergio Cabral (PMDB) mostrou que ainda é possível (aqui e ali) ouvir políticos dizerem a verdade. Ainda que em um único trecho de entrevista. Diante de uma pergunta sobre educação, a última feita pelos repórteres, Cabral respondeu:

- É vexatória a situação. Vigésimo sexto no Ideb me envergonhou profundamente. Meu compromisso é estar entre os cinco do Ideb em 2014.

Claro, seria pedir muito que um político não agregasse uma promessa a uma constatação vexatória. Oportuno também lembrar que educação não é uma competição, uma corrida entre cavalos. Nem algo passível de mudanças bruscas em tão pouco tempo – não se trata de tentar classificar ninguém para alguma Copa do Mundo.

Mas reconheçamos: o governador do Rio admitiu que está envergonhado. Pode até ter levado depois uma chamada de seus marqueteiros, porém declarou-se “profundamente envergonhado”.

E Gilberto Kassab? Não estaria ele envergonhado? Ainda que não tão “profundamente”? Não por sua implosão de araque num ano novo chuvoso, mas por administrar uma cidade cujas moradias pegam fogo?

Existe ainda espaço para a “profunda vergonha” na política brasileira?

Dilma Rousseff tem “profunda vergonha” do desmatamento e do novo Código Florestal? Ou do trabalho infantil? Luiz Inácio Lula da Silva tem vergonha por não ter cumprido a promessa de erradicar o analfabetismo? Fernando Henrique Cardoso fica vexado ao ser confrontado com os números da “privataria tucana”? Governadores de todo o Brasil declaram-se envergonhados diante das violências policiais – nos porões e nas ruas?

E o trabalho escravo (esse sobrevivente), a exploração sexual de crianças e adolescentes, as violências praticadas contra as nações indígenas brasileiras? Elas inspiram em nossos governantes (entre eles todos os ministros recentes da Justiça, de Renan Calheiros a José Eduardo Cardozo) alguns sentimentos humanos – de vergonha, ou de pena, comiseração?

O que mais no Brasil está “parcialmente implodido”?

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domingo, 1 de janeiro de 2012

Prédio ao lado de favela em SP implode pela metade e moradores vaiam

Um dos vizinhos afetados pela implosão ao lado da Favela do Moinho, em São Paulo, é João Paulo Rodrigues, da coordenação nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra). Ele mora na Rua Dino Bueno, em um dos prédios em frente do edifício condenado. Seu apartamento foi um dos evacuados pela prefeitura.


Um prédio ao lado da favela foi condenado após ser atingido pelo incêndio, ocorrido antes do Natal – quando dois moradores morreram queimados. Mas a implosão na tarde deste domingo foi mal sucedida: parte do prédio ficou em pé. “Estava ao lado do viaduto, com umas mil pessoas assistindo”, contou Rodrigues. “Foi uma vaia total”.

Rodrigues estava no interior e correu para São Paulo quando ficou sabendo da implosão do prédio vizinho. “Toda uma movimentação para nada”, contou ele ao blog, no fim da tarde deste domingo. O líder do MST contou no Twitter, antes e depois da implosão, que era um dos atingidos. "Coisas do governo Kassab".

Ele voltou ao seu apartamento enquanto falava ao telefone. “Foi um erro de cálculo tremendo. Pode parte da dinamite ainda estourar lá dentro”, imagina o líder dos sem-terra. “É uma bagunça. Todos tiveram de deixar a janela aberta, aí a poeira toda entrou na casa do povo”.

Todos os moradores num raio de 500 metros tiveram de deixar temporariamente suas  casas.

Segundo o portal UOL, foram utilizados cerca de 800 quilos de dinamite. Mas os responsáveis ainda não deram detalhes sobre os trabalhos, diz a reportagem da Folha. A prefeitura obteve na sexta-feira uma ordem judicial para tomar posse do imóvel – o que lhe permitiu a demolição.

AO RELENTO

Os moradores da favela que pegou fogo estão alojados provisoriamente no Clube Escola Raul Tabajara, um centro desportivo municipal, e sob o Viaduto Engenheiro Orlando Murgel, ao lado da favela. Como diz o padre Julio Lancelotti, "com coberturas de plástico e ao relento".

Em sua página no Facebook, Lancelotti definiu como "mentira" a reportagem do Fantástico, da Rede Globo, que diz que os moradores foram "removidos". Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, esteve mais uma vez neste domingo no local e chamou de "vergonhoso" o atendimento aos moradores.

Confira abaixo texto sobre a agressão aos moradores da Favela do Moinho por homens da Guarda Civil Metropolitana, na última terça-feira, em São Paulo.

Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Guarda Civil agride desabrigados da Favela do Moinho

O padre Julio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua em São Paulo, informou nesta terça-feira que se reúne hoje com o prefeito Gilberto Kassab, às 14 horas, para discutir dois temas: 1) os desabrigados da Favela do Moinho, que pegou fogo na última quinta-feira; 2) a situação da população de rua.

Ele relatou em sua página no Facebook o conflito entre membros da Guarda Civil Metropolitana e moradores que tentaram armar seus barracos em um terreno vizinho, na região dos Campos Elíseos, “com o pouco que sobrou após o incêndio”.

- Foram atacados com cacetetes - disse o padre a este blog. - Cheguei no local logo depois, pois estava com o Promotor Público de plantão para solicitar providências para a favela.  Vi as pessoas revoltadas e machucadas a golpes de cacetetes. Negociamos muito [com os dois lados] até serenarem.

A Rede Record registrou imagens do conflito entre GCM e desabrigados. Um dos guardas atira pedras em direção à multidão - em resposta a pedras arremessadas por alguns deles. As imagens mostram crianças atônitas em meio aos guardas. Um desses profissionais, após atirar uma pedra, esconde-se em seguida atrás de outro guarda.

O apresentador da Record declara-se "contra ocupações", segundo ele "um crime", mas critica a GCM e diz que está "ao lado dos moradores". Ele afirma que "não é com cacetete que se resolve questão social".

À tarde a favela foi visitada pelo Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer. Um dos advogados da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese, Geraldo Majela Pessoa Tardelli, comentou na página virtual do padre Julio: “É impressionante que a GCM de São Paulo esteja tão violenta. As queixas na Comissão são constantes”.

O portal UOL registrou à noite o conflito, no pé de uma notícia sobre os moradores da favela. A notícia informava que os moradores rejeitaram proposta da prefeitura de receber R$ 300,00 mensais, por 30 meses, às famílias que perderam suas casas.

Segundo o portal, a GCM reprimiu um grupo de dez famílias que ocupou um terreno do Ceagesp, a companhia de abastecimento ligada ao governo estadual. “Após alguns xingamentos, os guardas teriam se irritado e agredido os moradores”.

O UOL reproduz nota da Secretaria Municipal de Segurança Urbana: “Os guardas civis metropolitanos estão  apoiando os agentes da subprefeitura para evitar invasões de áreas públicas e prestar atendimento à comunidade”. Segundo a secretaria, a confusão começou após um morador se recusar a deixar o terreno.

- Um dos munícipes se recusou a cumprir a determinação de não permanecer no local e desacatou o agente que o advertiu. Houve um desentendimento, já controlado. O caso será apurando pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana para avaliar a conduta dos guardas.

Cerca de 380 famílias – entre 532 que moravam no local – tiveram seus barracos queimados. Duas pessoas morreram carbonizadas e outras seis estão desaparecidas. As vítimas estão abrigadas em um ginásio na Barra Funda e dois barracões de escola de samba.

Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

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