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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Por que não boicotamos empresas ligadas a assassinatos, desmatamento, espancamentos?
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
Ativistas do Greenpeace estão agarrados há três dias à corrente da âncora de um navio, no Maranhão. Tentam impedir que ele saia do país com um carregamento de 30 mil toneladas de ferro-gusa, matéria-prima do aço. A organização denuncia utilização, na cadeia produtiva, de trabalho escravo, desrespeito a povos indígenas e desmatamento – ou seja, floresta queimada para virar carvão, utilizado ilegalmente pelas siderúrgicas.
 
A Amazônia não seria destruída sem o aval dos consumidores. O Greenpeace lembra que, entre os clientes do minério extraído na Amazônia (PA, AM e TO) estão as montadoras Ford, General Motors, Nissan, Mercedes e BMW. E a produtora de equipamentos agrícolas John Deere. Isto conforme o estudo “Carvoaria Amazônia:como a indústria de aço e ferro gusa está destruindo a floresta”.
 
A pergunta é: por que o brasileiro não leva a sério propostas de boicote? Por que essas empresas não sofrem um mísero arranhão em suas vendas?
 
Quando falo que boicoto a empresa Gol Linhas Aéreas as pessoas estranham. E muito. É como se eu estivesse falando grego. A maioria nem sabe que seu dono, “Nenê” Constantino de Oliveira, é acusado pelo pistoleiro João Marques dos Santos de ser mandante de oito assassinatos. Um deles, em 2001, contra o líder comunitário Márcio Leonardo de Sousa Brito. Por esse caso o empresário foi indiciado, em 2008, pela Polícia Civil.

Constantino já foi denunciado por outros crimes. É acusado de tentativa de homicídio duplamente qualificado contra o próprio genro. O empresário estaria insatisfeito com sua interferência nos negócios da família e por não querer dividir o patrimônio de uma empresa chamada Viação Satélite. “Nenê” vai a júri popular por conta disso. E segue, desde março de 2011, em prisão domiciliar.
 
Não só todos continuam de olho nas promoções da empresa como as divulgam nas redes sociais. Solidariedade a brasileiros assassinados? Bobagem: melhor garantir a passagem mais baratinha. Simplesmente não conheço mais ninguém – nem uma única pessoa – que compartilhe da minha proposta específica de boicote à Gol. E ainda me olham como se como se eu lutasse contra moinhos de vento.
 
Essa lógica do “cada um por si”, essa Lei de Gerson aplicada ao consumo, pode ser vista também em São Paulo. E não somente relacionada ao consumo de produtos. Tão importante quanto economizar uns trocos na compra, numa sociedade mercantilizada, é ter prestígio social. Ir a lugares “bem freqüentados”. Que o diga o sucesso de  uma das festas mais badaladas da cidade, uma referência no meio teatral, que atende pelo nome de Gambiarra.
 
Essa festa – não raro freqüentada por globais, por gente descoladíssima- é organizada pela atriz Anna Cecília Junqueira. Ela disse à jornalista Eliane Brum, da revista Época, ser sócia de um “condomínio” no Pará. Não são bem um condomínio as terras controladas por seu pai, um fazendeiro da região de Ribeirão Preto (SP). No Pará, conta Eliane (provavelmente a melhor repórter do Brasil), o que eles têm é uma fazenda grilada, em uma área de conservação, com intensa extração de madeira em seu interior.
 
Conheci Anna Cecília quando ela era jornalista, no Estadão. Depois virou atriz. É uma mulher muito bonita, simpática. Difícil não gostar dela. Indagada por Eliane sobre o que acontecia no Pará, demonstrou confiança nos relatos familiares. Mudou imediatamente seu nome no Facebook, para não ser incomodada – e bola pra frente. Enviei a ela perguntas a ela sobre o caso, em fevereiro, mas Anna nunca me respondeu.
 
Eventualmente somos informados dessas faces ocultas (e não tão belas) de pessoas e empresas, mas não movemos um músculo para protestar. “Bora para a Gambiarra, dançar até o sol nascer?” E lá vamos nós. Não houve nenhum movimento de protesto contra os Junqueira, Anna Cecília ou sua festa para descolados, tudo segue conforme o antigo script – não importa que a Amazônia esteja sendo grilada ou despedaçada.
 
Em Curitiba, no início do mês, um jovem de 18 anos ficou assustado no badalado James Bar e saiu correndo. Ele descobriu que estava sem dinheiro para pagar toda a conta, de R$ 60. Foi alcançado por seguranças e espancado. No hospital, teve sua perna amputada. Os donos do bar insistem que o segurança (de 110 kg) fez o procedimento correto. A amputação da perna de um brasileiro é definida como um “acidente”.
 
Desta vez a passividade não foi absoluta. Protestos contra o bar motivaram seu fechamento por um dia, nesta quarta-feira. Mas por um único dia - ele reabriria nesta quinta. Não faltará quem pague para entrar. E o mesmo vale para dezenas (centenas) de bares e boates pelo Brasil que têm na truculência de seus seguranças uma de suas marcas mais bem definidas. Mexer do bolso desses patrões não é considerado uma estratégia válida.
 
Poderíamos invocar a famosa cordialidade, como bem definida por Sergio Buarque de Holanda, para tentar explicar essa falta de memória do brasileiro. Ou esse déficit de atitude política no momento do consumo. Mais importante é estar bem com os amigos (que vão à Gambiarra ou ao James Bar), viajar baratinho pela Gol para o Nordeste (para curtir a vida), ligar o carrão – eventualmente construído a partir de carvão da Amazônia e mão-de-obra escrava.
 
Se alguém fala algo sobre boicotar a Gol é visto como um extra-terrestre. Uma espécie de ingênuo. Ou então um “radical”. Boicotar, eu? Não faz parte do nosso vocabulário, das nossas práticas de povo devidamente oprimido e despolitizado. A indignação se inverte: em vez de nos rebelarmos contra pilantras, assassinos, grileiros, torcemos o nariz para o sujeito que propõe o boicote e o consumo consciente como armas. “Que cara chato”.
 
Esse tipo de comportamento não representa apenas indiferença ante as dores dos demais. Do ponto de vista coletivo, possui um efeito bumerangue: as vítimas somos todos nós. Mesmo assim ocorre a alienação coletiva. Ela possui sintomas parecidos com o daquela síndrome por que passam pessoas sequestradas, pela qual elas desenvolvem dependência e até afeto por seus algozes.
 
Sim: o brasileiro possui uma indisfarçável e sórdida Síndrome de Estocolmo.

PS: algumas amigas observam que deixaram de comprar roupas na Zara, após a revelação, no ano passado, de que a marca utilizava mão-de-obra escrava.
 

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sábado, 12 de maio de 2012

Quem será um dos 117 mortos de hoje no trânsito? Mais um indiferente?
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
A indiferença em relação à crescente matança no trânsito brasileiro é brutal. O Estadão divulgou hoje dados consolidados do Ministério da Saúde: em 2010, foram 42.844 mortos. Um crescimento de 13,9% em relação a 2009, com 37.594 mortos.
 
Sempre me pergunto o porquê do embotamento em relação ao tema. Motivos religiosos, que enxergam “fatalidade” nesse extermínio? Motivos econômicos, que levam os jornais (patrocinados pelas grandes montadoras) a naturalizar o problema?
 
O fato é que, diariamente, 117 pessoas morreram no trânsito em 2010. E o número está crescendo, apontam os gráficos. Caminhamos velozmente para 50 mil mortos por ano no trânsito. Mais de três salas de aula por dia. Em 20 anos serão eliminados 1 milhão de brasileiros.
 
Somente entre motociclistas foram 10.825 mortos em 2010. Fora os feridos, mutilados. (Basta ir numa clínica de fisioterapia para ver os estragos.) Isso representa cerca de 25% do total de mortos. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) do município de São Paulo diz que “apenas” 8% dos 512 motociclistas mortos na cidade em 2011 eram motoboys.
 
A morte está na esquina. No próximo poste. Mas nos acostumamos a essa lógica absurda de apropriação do espaço público. Para chegarmos logo aos locais de trabalho, assassinamos a função da rua como espaço socializador. E, de quebra, autorizamos o extermínio diário de brasileiros.
 
Quem são eles? Apenas playboys andando a 280 quilômetros por hora, a ostentar seus carrões e horizontes culturais estreitos? Não: são famílias, são crianças, são mulheres. Em boa parte assassinadas. Empregadas domésticas, pedreiros, estudantes – em poucos casos um grande empresário ou filho de político. A matança é de classe média. E de pobres.
 
Essas pessoas estão bem perto da gente. Conhecemos, em nosso círculo, alguém que foi esmagado, algum adolescente com sua vida furtada. Em muitos casos, um parente. Choramos por eles. E conhecemos também os algozes. Em muitos casos, tomamos cervejinha com esses pilotos, andamos no mesmo carro com o motorista alucinado, participamos de conversas toscas sobre os últimos modelos de armas - de carros.
 
Claro que nem toda morte no trânsito é fruto de irresponsabilidade individual, do motorista ou do pedestre. Mas basta andar nas estradas de São Paulo para perceber os potenciais assassinos, grudando na traseira do seu carro, dando fechadas inacreditáveis, tudo por alguns segundos a menos em seus trajetos. E eles são legitimados: não há uma revolta na sociedade pela direção “perigosa” - potencialmente assassina.
 
Aos indivíduos que protagonizam a matança devemos somar a responsabilidade coletiva. O papel de uma sociedade doente. Os mesmos jornais que se acostumaram com a barbárie do trânsito são os que promovem a lógica do automóvel como um dos bens supremos da sociedade. É uma espécie de religião, como bem sabem os que convivem diretamente com fanáticos por carros.

As montadoras também são diretamente responsáveis: o objetivo é o lucro, não a segurança dos cidadãos. O mesmo jornal que divulgou os dados da matança (42,8 mil mortes em 2010), no caderno Metrópole, dá o seguinte título, no caderno de Economia: "Montadoras prometem juro zero para se livrar dos estoques".

Na mídia (jornalismo e publicidade), o entupimento das ruas por carros aparece como unicamente um direito individual, uma aspiração legítima de todos - e não um arranjo coletivo questionável, banhado a sangue.
 
E o que faz o poder público? Enxuga gelo, claro. Quando não estimula (com diminuição de impostos) a proliferação de automóveis, apontada como motivo primeiro do aumento das mortes. A indústria de multas pouco tem a ver com uma política real de combate aos motoristas perigosos. Os motoqueiros criaram uma faixa imaginária no trânsito, buzinam e chutam o retrovisor quando a desrespeitamos – mas não ocorre a ninguém coibir essa tentativa coletiva de suicídio.
 
Parte desses mortos estava a serviço. Mas eles nem entram nas estatísticas de acidentes de trabalho. Poucos trabalham formalmente. São pontas-de-lança de um capitalismo particularmente selvagem. Alguém ganha dinheiro com esses brasileiros dizimados, nossa pizza chega eventualmente alguns minutos antes.
 
E seguimos indiferentes.
 
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