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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Golpe de 1964: a atualidade de “Memórias do Esquecimento”, de Flávio Tavares

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Vejamos esta análise sobre a política brasileira:

- Nos dois lados - a favor ou contra o governo - surgiu a figura do "político profissional", para o qual o importante passou a ser o estardalhaço para "ganhar eleição", nunca um projeto de ação para a sociedade. Apoiadas na mercadologia das agências de publicidade, as campanhas fizeram-se entusiastas mesmo perdendo o significado político. Disputava-se uma eleição como uma partida de futebol. O pluralismo era postiço e falso, mas poucos o percebiam.

Poderia ter sido escrito em 2013? Poderia. Mas data de 1999 e se refere a um momento muito específico da política brasileira: os dias que se sucederam ao golpe de 1964.

O livro “Memórias do Esquecimento”, de Flávio Tavares (Editora Globo), volta a ganhar relevância com o lançamento do filme “O Dia que Durou 21 Dias”, de seu filho Camilo Tavares. Camilo não era nascido quando o pai foi preso, em 1969. Ambos assinam o roteiro, baseado inicialmente no livro, mas modificado após a descoberta de documentos, em Washington, que detalham o envolvimento dos Estados Unidos no golpe que derrubou João Goulart, há exatamente 49 anos.


Flávio foi um dos 15 presos políticos trocados pelo embaixador americano Charlles Ellbrick, sequestrado no Rio. O próprio jornalista descreve essa saga, logo no início do livro. Entre os demais libertados estavam o comunista histórico Onofre Pinto e líderes estudantis como José Dirceu e Vladimir Palmeira. Todos foram para o México, onde um burocrata brasileiro – designado pelos militares - teve de engolir a seguinte frase do responsável pelo setor da imigração: “En México mandamos nosotros”. Seguida de outra frase clara: “Retirem as algemas e libertem estes senhores, e que eles desçam de imediato”.

O ELOGIO DE SABATO

Camilo nasceu exatamente na Cidade do México, em 1971, durante o exílio do pai. Não o conheço pessoalmente, nem Flávio Tavares, mas casualmente conheci a mulher do jornalista, durante reportagem em Brasília, em 2006. É a senadora argentina Norma Morandini, pré-candidata à vice-presidência da República. Na época era deputada e participava de um debate sobre direitos humanos. Falamos do livro, que eu acabara de ler. E dos elogios feitos pelo escritor Ernesto Sabato, seu conterrâneo, à obra do marido:

- Flávio é um novo Dostoievkski, e Memórias do Esquecimento revela imagens vividas num inferno apenas entrevisto por Dante, Rimbaud e o próprio Dostoievski.

Especialista nessa temática subterrânea, Sabato (1911-2011) sabia do que estava falando. Mesmo que admitamos algum exagero, por causa de sua amizade com Norma (ela me contou isso, quando mencionei o elogio ao livro), ele é preciso ao falar de inferno: as descrições que Flávio Tavares faz dos porões da ditadura só podem ser, de fato, comparadas a esse cenário-símbolo. As sessões de tortura são descritas com intensidade atroz. Mas também a impotência, o desespero e a agonia das vítimas.

E o livro de Tavares talvez seja, de fato, o grande testemunho sobre o período da ditadura de 1964. Não pode competir com Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, que relatou a prisão durante o Estado Novo. Mas é literariamente superior a relatos similares, feitos por presos políticos. E olhem que tem livro bom nesse gênero, como “Náufrago da Utopia”, de Celso Lungaretti, e “Onde foi que Vocês Enterraram nossos Mortos?”, de Aluizio Palmar.

UM GÊNERO LITERÁRIO

Os três livros fazem parte de uma segunda geração de testemunhos sobre a última ditadura. A primeira inclui clássicos como “O Que é isso, Companheiro”, de Fernando Gabeira (1979), e “Batismo de Sangue”, de Frei Betto (1983), lançados ainda durante o governo de João Baptista Figueiredo. Gabeira, Betto e Alfredo Sirkis estiveram e estão ligados diretamente ao cenário político-partidário.

Os relatos do fim dos anos 90 (caso de Tavares, ou de Carlos Eugênio Paz) e anos 2000 (Lungaretti, Palmar), porém, soam mais maduros, com o distanciamento funcionando como depurador literário. As obras ganham uma densidade psicológica adicional. E possibilitam análises políticas mais refinadas, como essa de Flávio Tavares (que, em 1964 e 1969, era colunista político de jornais) reproduzida no início deste artigo.

Não se prendam somente aos filmes, portanto. Antes de haver uma sequência de películas sobre a ditadura, como tem assinalado a imprensa, existe essa fila imprescindível de livros, do gênero literatura de testemunho, que eu incluiria ainda num subgênero: literatura de testemunho sobre a ditadura de 1964. O conjunto dessas obras tem valor tanto literário como histórico – e precisa ser mais conhecido pelos brasileiros.

Em tempo: a L&PM lançou em 2012 uma versão pocket de “Memórias do Esquecimento”.

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sábado, 4 de fevereiro de 2012

“Uma Visita para Elizabeth” resgata dimensão histórica de uma heroína brasileira
 

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
O curta “Uma Visita para Elizabeth Teixeira” (2011) é um tributo duplo: ao cineasta Eduardo Coutinho e à camponesa Elizabeth Altina Teixeira. Elizabeth é a viúva de João Pedro Teixeira, o líder das Ligas Camponesas assassinado em abril de 1962. Estamos a dois meses do cinquentenário de um fato histórico: Teixeira é o “Cabra Marcado para Morrer” do clássico de Coutinho, o documentário mais importante já feito no Brasil. Tanto ele como Elizabeth são símbolos da luta pela terra na América Latina.
 

A cineasta Susanna Lira começa seu filme, dedicado a Eduardo Coutinho, com cenas de “Cabra Marcado” (1984). São cenas de 1962, quando Coutinho soube da morte de Teixeira e decidiu fazer o documentário – interrompido pelo regime militar. Em seguida Susanna explica a motivação do filme: ela considera Elizabeth Teixeira a personagem mais contundente do gênero documentário no Brasil.

A vida de Elizabeth, de fato, é uma síntese da violência contra camponeses no Brasil – e da capacidade de resistência de um povo espoliado. Leia aqui uma entrevista com a camponesa, feita em 2006, em Brasília.
 

Elizabeth perdeu o marido e dois filhos assassinados; diante da morte do pai, uma filha enlouqueceu. Depois da tragédia ela morou, por vários anos, clandestina, no Rio Grande do Norte, com o nome de Maria Marta. Com o sucesso do filme de Coutinho, ele a ofertou uma casa no bairro Cruz das Armas, em João Pessoa – onde está até hoje, aos 86 anos.

Foi para lá que Susanna Lira viajou, do Rio. Após as cenas de “Cabra Marcado”, ela pergunta: será que aquela mulher manteve os ideais, o discurso? Resposta simples: manteve. Elizabeth Teixeira segue perguntando: “Cadê a reforma agrária?”
 

O próprio Eduardo Coutinho e João Pedro Stedile, um dos coordenadores nacionais do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), dão depoimentos sobre a camponesa. Existe um diálogo entre a importância de Elizabeth para a luta camponesa no Brasil e a importância do filme de Coutinho para essa mesma luta: estamos diante de um caso onde a arte (no caso, um documentário) participa decisivamente de uma construção política.

O ponto alto do filme de Susanna Lira é a visita de Elizabeth a uma capela, construída em homenagem a Teixeira. É a primeira visita dela ao local. Uma placa registra o nome do líder e o dia de seu assassinato. Mas ela não consegue enxergar, mesmo com óculos. A diretora pergunta se ela sabe quem construiu a capela. Ela diz que não sabe. Mas que devem ter sido os sem-terra. “O Latifúndio é que não foi”.
 

Coloco o Latifúndio assim, com maiúscula, porque era comum que se falasse dessa forma personalizada, na Paraíba. O Latifúndio era uma espécie de personagem, ou mais que isso: uma entidade.

Nesta semana, o Latifúndio foi homenageado por Dilma Roussef. A presidente nomeou, como ministro das cidades, o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). Ele é neto de Aguinaldo Veloso Borges, um dos três mandantes do assassinato de João Pedro Teixeira.

Não sei se Elizabeth já tem essa informação. Sob uma perspectiva histórica, porém, é possível perceber que esse será apenas mais um escárnio específico da política brasileira. Quem se lembrará que Aguinaldo Ribeiro foi ministro das Cidades?

Um dos méritos do filme de Susanna Lira é nos relembrar que a história do Brasil registrará os nomes de João Pedro e Elizabeth Teixeira.


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Entrevista com Elizabeth Teixeira ajudou cineasta a localizá-la
 

Em 2006 entrevistei Elizabeth Teixeira, no Senado. Ela acabara de ser homenageada, no Dia Internacional da Mulher. A entrevista foi publicada no site da Agência Repórter Social – do qual eu era um dos editores. Ao conversar com a cineasta Susanna Lira, descobri que ela foi decisiva para a realização de seu documentário sobre a camponesa: é que, indagada sobre onde morava, a viúva de João Pedro Teixeira, o "Cabra Marcado para Morrer", deu seu endereço completo, em João Pessoa – tornando mais fácil a busca da cineasta. Reproduzo a entrevista aqui, na íntegra, conforme publicada na época:

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)


Aos 81 anos, Elizabeth Teixeira, a viúva de “Cabra Marcado para Morrer”, ainda sonha com a reforma agrária


BRASÍLIA - Ao falar da morte do marido, João Pedro Teixeira, há exatos 44 anos, a paraibana Elizabeth Altina Teixeira comete um ato falho (ou nem tanto): começa a falar no tempo passado, “ele só queria o melhor para a classe trabalhadora”, e passa para o tempo presente, “e é assassinado, barbaramente”. Vinte e dois anos após o lançamento de “Cabra Marcado para Morrer”, o consagrado documentário de Eduardo Coutinho, o testemunho de Elizabeth ganha força de atualidade, diante das estatísticas sobre mortes no Brasil em decorrência de conflitos fundiários: 1.500 nos últimos anos, segundo a Comissão Pastoral da Terra, 39 delas em 2005. Elizabeth foi homenageada no Senado no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Ex-candidata a deputada estadual pelo PSB, filiada ao PT durante a década de 90, sentou-se ao lado da senadora alagoana Heloísa Helena (Psol), em cadeira normalmente ocupada por senadores. Uma ironia da história: no cordel “Cabra Marcado para Morrer”, que inspirou em Coutinho a realização do filme, o maranhense Ferreira Gullar dispara: “Essa guerra do Nordeste/ não mata quem é doutor. / Não mata dono de engenho, / só mata cabra da peste, / só mata o trabalhador./ O dono de engenho engorda,/ vira logo senador.”Em entrevista exclusiva à Agência Repórter Social, Elizabeth fala dos dois filhos assassinados, da filha que se suicidou logo após sua prisão. Em tom musical, relembra em detalhes o dia da morte do marido e conta sobre o que mudou depois do filme de Eduardo Coutinho. Fala da esperança de ainda ver o trabalhador do campo ganhar sua terra. Mas, com decepção, e com a arma que a democracia lhe devolveu, sentencia: “A reforma agrária ainda não implantada em nosso País”. Confira a conversa feita no Senado, no dia 8 de Março, quando foi uma das cinco homenageadas pelo Dia Internacional da mulher:
 

Repórter Social – Quarenta e quatro anos após a morte do seu marido, João Pedro Teixeira, como a senhora se sente, com tantos cabras marcados para morrer ainda no Brasil?
Elizabeth Teixeira – Sinto dentro de mim uma tristeza quando acontece qualquer violência com o homem do campo. Por conta de João Pedro. Porque João Pedro é uma personalidade que só queria o melhor para a classe trabalhadora, do campo, lutando, e é assassinado em emboscada, barbaramente. Até hoje eu vejo essa violência com o homem do campo e me sinto muito triste, o homem do campo luta por melhores condições de sobrevivência. João Pedro era uma pessoa que lutava dia e noite para que o homem do campo tivesse condições de viver com seus filhos, não ver seus filhos morrer de fome. E por essa razão ele fundou a Liga Camponesa, na cidade de Sapé (PB), para que ali fosse reunindo o homem do campo, e ele fosse ali se saciando, e desfrutarem, unidos. Como tinha muitos pais de família naqueles engenhos vendo seus filhos morrer de fome, a luta de João Pedro era para que o homem do campo não visse seu filhos morrer de fome e tivesse condição de colocá-los numa escola, para que fossem alfabetizados. E por essa razão ele foi assassinado. Até hoje a luta no campo continua na violência, a reforma agrária não foi implantada ainda em nosso País. Pois João Pedro na luta sabia que ia morrer. Ele chegava em casa, me abraçava todos os dias e me dizia: “Minha filha, vão me tirar a vida. Mas a reforma agrária vai ser implantada em nosso País. E com a reforma agrária, com terra, com condições para o homem do campo produzir, vai acabar com essa miséria que tem, de fome, o homem do campo sem terra, sem condições de sobreviver, com os filhos analfabetos, isso vai acabar, minha filha”.


Repórter Social – E a senhora ainda acredita nisso?

Elizabeth - Eu acredito que ainda seja implantada uma reforma agrária, que nosso povo lute, nossas mulheres. Como eu enfrentei depois do assassinato do João Pedro, assumi a presidência da Liga Camponesa e fui lutar com o homem do campo. Quantas vezes eu era presa, mas não ficava presa, me liberavam e eu voltava e continuava a luta para o que desse e viesse. Então acredito que ainda vai ser implantada uma reforma agrária em nosso País, que vai melhorar a situação do povo. Apesar de hoje eu já estar com 81 anos, pelo que passei na minha vida, o assassinato de João Pedro vai fazer 44 anos no dia 2 de abril, não foi fácil. Mas tenho uma fé dentro de mim que vai melhorar a situação do nosso povo brasileiro, principalmente o homem do campo.

Repórter Social – Com 81 anos, como a senhora faz nessa luta?

Elizabeth – Olha, com 81 anos eu não posso mais continuar a luta no campo. Vivo em casa, só a minha vidinha de casa mesmo, viu? Não estou mais na luta no campo, agora eles vêm conversar comigo, eu dou apoio, converso com eles, mostro o livro de João Pedro, o meu livro, ao companheiro do campo, mas no campo não posso mais estar, lutando naqueles engenhos, não posso mais, meu filho.

Repórter Social – A senhora mora onde? 

Elizabeth – Eu moro em João Pessoa, em Cruz das Armas, na Genésio Gambarra, 160, em Cruz das Armas.
 

Repórter Social – A senhora se mantém como? 
Elizabeth – O governo do Estado me deu há muitos anos atrás uma pensão. È uma pensãozinha de 600 reais. (A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu ainda há três anos uma indenização em parcela única, no valor de 480 salários mínimos – o equivalente hoje a cerca de R$ 150 mil) Eu recebo, já faz muito anos que recebo essa pensão.

Repórter Social – O que mudou desde 1984, desde o filme e portanto desde a redemocratização do País?

 Elizabeth - O que mudou? Eu não tinha uma casa para morar. Eduardo Coutinho, que fez o filme “Cabra Marcado para Morrer”, comprou uma casa, justamente nesse bairro de Cruz das Armas e me deu a casinha. Justamente eu moro lá na casa. O que melhorou para mim foi essa casa, que eu moro com uma filha lá na casa que foi dada, comprada pelo Eduardo Coutinho com o dinheiro do filme “Cabra Marcado para Morrer”.

Repórter Social – A senhora foi procurada por muita gente por conta do filme?

Elizabeth - Muita gente chegava até minha casa e dizia que tinha assistido o filme Cabra Marcado e que tinha gostado do filme...

Repórter Social – A senhora ainda é reconhecida nas ruas?

 Elizabeth - Sou reconhecida, nas ruas, todo mundo. Elizabeth Teixeira, educadora, mulher da reforma agrária, mulher da Liga Camponesa, eles gritam: “É a Liga Camponesa, Elizabeth Teixeira!” Sou conhecida demais, demais até. E tudo: lá na Paraíba, no Pernambuco, em São Paulo (sorri), no Rio (sorri), em todo canto eu sou conhecida. ( Ela foi homenageada pelo grupo Tortura Nunca Mais, no Rio, e pela Câmara Municipal de São Paulo; no ano passado, foi uma das 100 brasileiras indicadas ao Prêmio Nobel da Paz.)

Repórter Social – Quantos filhos a senhora teve? 

Elizabeth - Onze filhos. Eu fiquei com onze filhos, mas dois foram assassinados. O José Eudes Teixeira e o João Pedro Teixeira foram assassinados, e a mais velha suicidou-se com a minha prisão, no mesmo ano em que mataram João Pedro foram me prender, os policiais, fizeram fila de policiais, aí o tenente me chamou lá na frente, cada passo que eu dava um dava um tiro de um lado, outro de outro, outro de outro, outro de outro, aí quando eu cheguei lá o tenente me disse, de dentro do carro: “Eu vou pegar o documento”. Eu disse: “mas tenente, é mais uma prova de covardia. Vocês não mataram o João Pedro de emboscada? Não botaram uma emboscada e tiraram a vida de João Pedro, e por que não tiram a minha aqui?” Né? Foram tiros, muitos tiros. Aí a menina mais velha, Marluce Teixeira, onde eu voltei para pegar os documentos, ela me pegou, me abraçou e me disse: “Mainha, vão tirar a sua vida da maneira que tiraram a de Painho. Daí peguei na mão dele, melada de sangue, fiquei toda melada de sangue, mas a senhora eu não quero ver a senhora morta não, mainha. Vão tirar sua vida.” Eu disse: “não, minha filha, não vão tirar não. Fique aí com seus irmãozinhos, que eu vou presa, mas volto”. Aí eu vim presa para João Pessoa, do município de Sapé, onde eu morava, vim para João Pessoa, quando eu cheguei em João Pessoa já tinha um advogado, doutor Santa Cruz, já tinha tomado conhecimento desses desentendimentos que houve lá no engenho, que já tinha ido lá, aí ele estava lá me esperando, sei que fizeram várias perguntas a mim, eu respondi tudo, o tenente disse: “Está liberada, pode voltar”. Aí eu voltei para casa, quando cheguei em casa, ela já tinha ingerido veneno com mel, já estava morrendo. Trouxe ela para a cidade, voltei no mesmo carro, o carro do advogado que foi me levar, voltei no mesmo carro, quando eu cheguei em casa ela já estava (pausa) morrendo, aí botei dentro do carro, trouxe para João Pessoa, quando cheguei lá em João Pessoa que o médico examinou ele disse: “Ela vai morrer já”. Em poucos minutos ela morreu.

Repórter Social – Os seus outros filhos morreram quando?

Elizabeth - Um morreu já depois da anistia. Ele fundou uma associação, um sindicato, quando fundou o sindicato já estava com 200 associados, aí o cara veio lá e matou, tirou a vida dele.
 

Repórter Social – Algum dos seus filhos persiste na luta? 
Elizabeth - Não. Não tem mais nenhum. Não. Nenhum mais na luta. Não tem não. Eu é quem continuo a luta, mas meus filhos não. Os filhos não. Foi assassinado José Eudes Teixeira, que me abraçava e dizia: “Mainha, eu vou continuar a luta de painho, para o que der e vier.” Aí fundou o sindicato. Construiu a casa, fundou e foi morto.

Repórter Social – O que a senhora não disse no filme que gostaria de dizer, hoje?

Elizabeth – O que eu considero importante é que o nosso povo brasileiro se una, fiquem todos unidos, lutando por uma reforma agrária. Era a maior alegria da minha vida se eu tomasse conhecimento de que fosse implantada uma reforma agrária em nosso País, e que todos os homens do campo tivessem condições de sobreviver ali na terra, melhorar essas condições do trabalhador da terra, isso aí era o que eu tinha mais prazer na minha vida, e hoje, na idade em que estou, tomasse conhecimento de um movimento desses.

Repórter Social – A senhora está feliz com a homenagem feita pelo Senado? 

Elizabeth - Estou feliz com essa homenagem, por estar aqui no Senado. Agradeço a todas as mulheres que estão presentes, a todos os senadores, agradeço a todos de coração por lembrar a minha pessoa e fazer esta grande homenagem a Elizabeth Teixeira, lutadora da Liga Camponesa, da reforma agrária no campo.
 
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"Uma Visita para Elizabeth" resgata dimensão histórica de uma heroína brasileira
 

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sábado, 21 de janeiro de 2012

São Paulo, 458 anos
“Drama das Secas” era projeto de Josué de Castro e Cesare Zavattini

A obra de Rodolfo Nanni não é extensa. Ele já foi chamado de cineasta bissexto. Mas já se declarou “menos que isso” – diante das dificuldades para filmar no Brasil. Foi delicadamente biografado pela jornalista Neusa Barbosa como “um diretor persistente”.

Nanni fez dois longa-metragem de ficção. Ambos foram premiados. “O Saci”, quatro vezes. Ganhou o prêmio homônimo, oferecido pelo Estadão, o jornal mais tradicional da cidade; o prêmio Governador do Estado de São Paulo; o prêmio Curumim, do jornal carioca Diário de Notícias; e o prêmio Índio, do Jornal de Cinema. Todos em 1954.

Veja aqui um trecho do filme, onde Narizinho é transformada em pedra pela Cuca:


“Cordélia, Cordélia” (1971) foi baseado em peça de Antonio Bivar. O filme levou o Prêmio Especial de Qualidade do Instituto Nacional de Cinema. Lilian Lemmertz foi eleita a Melhor Atriz no prêmio Coruja de Ouro.


Nanni também foi laureado pelo curta “Realidade de um Plano” (1962). Era o prêmio Municipalidade de São Paulo. “Os Vencedores” (1968), feito para o Instituto Nacional de Cinema, documentou os filmes e realizadores brasileiros contemplados em festivas internacionais. Foi exibido no Festival de Veneza, naquele mesmo ano.

O DRAMA DAS SECAS

Mas foi Em 1958 que Rodolfo Nanni realizou seu projeto mais ousado: o documentário “O Drama das Secas”. Filmado no interior de cinco Estados nordestinos (BA, PE, CE, PB e RN), o filme foi patrocinado pela Associação Mundial da Luta Contra a Fome.

A obra foi feita em parceria com ninguém menos que Josué de Castro. O autor de “Geografia da Fome” era diretor da FAO, o órgão da ONU voltado para a alimentação – curiosamente, hoje, dirigido por outro brasileiro, José Graziano da Silva.

O projeto original era um filme assinado por vários cineastas, sobre a fome no mundo. Um desses diretores seria Roberto Rossellini – um dos diretores que mais revolucionaram a sétima arte, peça-chave do neorealismo italiano.

“Partimos do Recife, com dois jipes do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas”, conta o diretor no site do filme “O Retorno”:

- Levamos uma câmera 35mm e algumas latas de negativo, prontos para registrar a miséria e a fome endêmica de toda uma população. Percorremos uma grande parte dos estados de Pernambuco, Ceará e Paraíba, num percurso de cerca de 4 mil quilômetros.

Eles passaram por pequenas cidades, “de uma pobreza inimaginável e de imensos territórios onde não havia nada, além da terra seca, rachada, leitos secos de rios”. “Animais mortos e pessoas, velhos, jovens e crianças sub-nutridas”, relata. “Uma paisagem de desolação”.

O filme foi exibido nas principais capitais europeias. Ganhou o prêmio “Saci”, em 1960 (o prestigiado prêmio do Estadão), e o prêmio “Municipalidade de São Paulo”, no mesmo ano.

O CINEMA ITALIANO

O idealizador de “A Geografia da Fome no Mundo” foi Cesare Zavattini, o maior roteirista do neorealismo - escola que também ajudou a fundar. Foi ele quem assinou as melhores obras do diretor Vittorio de Sica, como “Ladrões de Bicicleta”, “Milagre em Milão” (leia aqui uma análise sobre a atualidade do filme) e Umberto D.

- O Zavattini queria fazer um filme internacional sobre o problema da fome no mundo, inspirado no livro "Geopolítica da Fome", do Josué de Castro. Eu fui convidado para fazer a parte referente ao Brasil. Acontece que só nós é que fizemos. E dei o nome de "Drama das Secas". O restante do projeto não aconteceu.

Rodolfo Nanni estudou na França, no Institut des Hautes Études Cinematographiques. Mas foi o cinema italiano – sua estética e seu compromisso – que reverberou em sua obra:

- Minha referência, naquela época, foi justamente a da explosão do formidável cinema italiano. Tive relações pessoais com Zavattini e boa amizade com Sergio Amidei (autor de "Roma Cidade Aberta", de Rossellini).

Nanni conta que esteve junto com Rossellini no Brasil. “Ele também tinha planos de
filmar no nordeste, inspirado no livro do Josué de Castro”.

O diretor voltou 50 anos depois ao Nordeste, para fazer "O Retorno". O filme contém várias cenas de "O Drama das Secas". Veja o trailer:


Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

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São Paulo, 458 anos
Aos 87 anos, Rodolfo Nanni busca recursos para filmar sua cidade

por ALCEU LUÍS CASTILHO (
@alceucastilho)


Em 1954, São Paulo fazia 400 anos. Rodolfo Nanni ganhava quatro prêmios pelo filme “O Saci” (1953), o primeiro filme brasileiro para crianças, a partir da obra de Monteiro Lobato. Em 2012, o cineasta tenta há três anos obter recursos para filmar sua cidade.


Ele está com 87 anos. É o diretor mais longevo do cinema brasileiro – à frente de Nelson Pereira dos Santos, que está com 83 anos. Dirigiu “O Drama das Secas” (1958), de repercussão internacional. Pede respeito.

Um respeito compatível com sua trajetória premiada.

“O Saci” estreou no Festival Internacional do IV Centenário da Cidade de São Paulo e ganhou quatro prêmios.  O documentário “O Drama das Secas” e a ficção “Cordélia, Cordélia” (1971) também foram obras reconhecidas. Em 2008 ele filmou “O Retorno”, revisitando a região do semi-árido documentada 50 anos antes.
Nos anos 70 fez vários documentários, quatro deles exatamente sobre São Paulo.

O PROJETO

O nome do atual projeto em homenagem à sua terra é “Cidade Ilimitada”. “A Cidade Ilimitada é São Paulo, ilimitada em todos os sentidos, sobretudo no grande contraste entre riqueza e pobreza”, conta Nanni ao blog Outro Brasil.

O roteiro conta a história de habitantes de diferentes classes sociais. “É, a rigor, um filme de denúncia, mas cheio de situações charmosas, mulheres bonitas, sexo, etc”, descreve o diretor.

Os personagens são um rico empreendedor, um operário, uma atriz, um jornalista e um outsider. A sinopse do filme adianta que os personagens vão se encontrando numa trama dramática, desembocando num final surpreendente.

- O que me obsessiona é a cidade como um todo. Há muitas tomadas de helicóptero. Bairros ricos, favelas, congestionamentos, favelas nas margens de estradas de primeiro mundo, como no rodoanel.

Filho de imigrantes italianos com alguns recursos, Nanni nasceu num casarão da Rua Oscar Freire, entre a Rebouças e a Artur de Azevedo. Ali ele conviveu com os modernistas Mário e Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia, que iam visitar outro morador da casa: o escultor Victor Brecheret, seu primo. Acharam pouco? Seus professores de pintura atendiam por Anita Malfatti e Cândido Portinari.

Com essa autoridade de quem viu a cidade crescer, Rodolfo Nanni faz críticas às atuais políticas da prefeitura e do governo estadual na região central:

- As ações na cracolândia me parecem malucas. Claro que tem que acabar, mas não assim. Trata-se de um caso de saúde pública, não de polícia. A polícia tem que ir atrás dos traficantes.

Diante da realidade da especulação imobiliária, ele lembra que um dos personagens principais do filme é o dono de uma grande firma de engenharia. “A questão social quase nunca é levada em conta no Brasil”, afirma o cineasta.

OS RECURSOS

Nanni não esconde as mágoas diante das dificuldades. “Eu tenho convicção de que é um belo roteiro, inclusive afirmado por pessoas que têm nível para entender e julgar”, diz ele. “Mas é incrível, já entrei três vezes no Fomento do Cinema Paulista e esse filme, essencialmente paulista, não ganha”.

O diretor não sabe o motivo. “O insondável mistério dos júris”, afirma. Ele considera os júris imprevisíveis – e muitas vezes absurdos:

- Um exemplo: no Fundo Setorial, quando seu projeto é escolhido e você tem que ir ao Rio para fazer aquilo que chamam de "defesa oral", você, na verdade, não pode defender (ele enfatiza essa impossibilidade), mas estar de acordo com as críticas e  sugestões dos pareceristas. Não é um absurdo? Que espécie de “defesa oral” é essa?

O próprio cineasta tenta obter os recursos para o filme.

- Para realizar "O Retorno" ganhei no edital do Fomento do Cinema Paulista e ainda o "Minc-Fiesp". O absurdo é que ganhei o fomento para fazer o filme no nordeste, mas não consigo ganhar para fazer o filme sobre São Paulo. É kafkiano.

Rodolfo Nanni desabafa:

- Parece que, no Brasil, o fato de ser “consagrado”, como você diz, conta contra. Ser um diretor histórico em nosso cinema não quer dizer nada. Sem me vangloriar (porque não há glória nisso), creio ser o diretor brasileiro mais antigo em atividade e realizei, há 60 anos, um filme que as crianças adoram até hoje.

Diante da idade e do currículo, ele acha que deveria não somente ser respeitado, mas ter facilidades para realizar seus filmes.

- Veja o Manoel de Oliveira, com 104 anos e continua filmando! A Secretária do Audiovisual, Ana Santana, me disse que iria conseguir uma forma de patrocinar filmes para os diretores históricos. Infelizmente, não tive mais notícias sobre isso.

O orçamento aprovado pela Ancine é de R$ 4,8 milhões. O diretor pretende pedir redimensionamento, para menos. Não é o único projeto para o qual não conseguiu obter recursos. Um deles é uma cinebiografia da pintora Tarsila do Amaral.

Nanni disse que não conhece nenhum sistema de captação pela internet, como o do coletivo Catarse.

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sábado, 7 de janeiro de 2012

Obra do CMI é também uma aula sobre ativismo

A produção de “Sagrada Terra Especulada” é do Centro de Mídia Independente (CMI), com a participação de vários coletivos, em sistema de cópia aberta – pode baixar à vontade. Mas o que torna o filme uma referência também sobre novas formas de ativismo é a forma como ele se conjuga às manifestações dos apoiadores do Santuário dos Pajes. Em vários momentos os repórteres e cinegrafistas são protagonistas do filme – ele mesmo um instrumento político.

A própria exibição da obra torna-se objeto do filme, quando ele é exibido em dois lugares significativos: por um lado, o Santuário dos Pajés, para os índios; por outro, uma exibição pública em um estacionamento; não um estacionamento qualquer, mas o do stand de vendas do Setor Noroeste.

Os manifestantes mostram uma percepção midiática inspirada nos atos do Greenpeace. Durante eventos supostamente ambientais, dos políticos pró-destruição, ativistas entram em cena com cartazes – às vezes pendurados no próprio corpo. Um deles informa: “Todas as licenças foram canceladas pelo MPF”. Tudo é documentado pelo diretor Zé Furtado. Inclusive cenas de ameaça e violência contra cinegrafistas.

O Festival Internacional de Brasília tem uma categoria especial para filmes produzidos no DF, o Prêmio Câmara Legislativa. O filme de 68 minutos chegou a ser inicialmente recusado, na edição de 2011, em outubro, por “não ser nem longa nem curta”. Uma aberração, claro, já que grandes clássicos do cinema têm essa duração. Mas acabou sendo liberado – diante da pressão - e ganhou o segundo lugar.

O filme insere-se como parte de um processo. De um movimento que continua – nas ruas e na internet, pelo site Santuário Não se Move.

Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
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"Sagrada Terra Especulada", filme sobre o DF, é síntese sobre especulação imobiliária

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“Sagrada Terra Especulada”, filme sobre o DF, é síntese sobre especulação imobiliária

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

“Sagrada Terra Especulada” (2011) trata do Setor Noroeste, em Brasília – um projeto destinado aos moradores de alta renda apresentado pelos construtores como “o primeiro bairro ecológico do país”. No meio do caminho, porém, há famílias indígenas. Elas moram desde 1957 no Santuário dos Pajés, na Terra Indígena Bananal. Ali se reúnem índios Fulni-ô Tapuia – mas também representantes de diversas etnias. O filme é a história de uma resistência, ao longo dos últimos anos no Distrito Federal.

O filme dirigido por Zé Furtado consegue um resultado que não interessa somente aos moradores do DF: pois trata de temas centrais nos debates nacionais deste início de 2012. Boa parte do filme trata de direitos indígenas. E esta semana estourou a denúncia da morte de uma criança indígena – queimada – no Maranhão. Em São Paulo, o incêndio na Favela do Moinho, no fim do ano, e a retirada à força de dependentes químicos da Cracolândia, na região central, expuseram nos últimos dias o tema da especulação imobiliária – que dá nome à obra. (Veja na íntegra aqui.)



OS ÍNDIOS

A obra começa apresentando o cotidiano dos indígenas no Santuário dos Pajés. “A terra é minha, a maloca é minha”, exclama um dos moradores. O pajé Shantxiê Tapuia mostra o trabalho com plantas medicinais e fala do patrimônio fitoterápico brasileiro – um projeto premiado pelo Ministério da Cultura, em 2007. Furtado é eficaz ao mostrar a dimensão sagrada da terra, presente no discurso e no dia-a-dia dos moradores. “Não é terra para vender, mas para sobreviver”, diz Caftho Fulni-ô.

Ao mesmo tempo, o diretor apresenta os conflitos – motivados pelo projeto imobiliário, capitaneado pela empresa Terracap. Em 30 de março de 2009 uma casa foi queimada “de forma criminosa”. Com isso, um casal de indígenas desistiu e voltou para Pernambuco. “O GDF (governo do Distrito Federal) quer bairro nobre para a classe alta”, resume um morador. “Onde tem indígena há defesa de brasileiro”, diz outro. “A natureza deve ser a mãe de todos os brasilienses”.

Numa sequência impagável, o presidente da Terracap na época, Antonio Gomes, tenta convencer os índios a sair do local. “Na verdade”, gagueja, “vocês estão bem no meio do bairro”. A direção tem lado: os contrários ao projeto imobiliário expõem desde o início argumentos contundentes; os defensores aparecem em situações patéticas, ou que exibam as contradições – e os interesses financeiros evidentes.

OS POLÍTICOS

Furtado move-se do tempo sagrado para um ritmo com mais edições. As autoridades políticas são descritas uma a uma. Com ênfase no vice-governador Paulo Octavio, ele mesmo uma marca imobiliária em Brasíllia, e no governador José Roberto Arruda (DEM) – que teria seu mandato cassado em 2010.  “Não tenho nada contra alta renda”, arrisca o paranaense Cássio Taniguchi, secretário do Meio Ambiente. (Reproduzimos aqui os cargos da época em que o filme foi rodado.)

Paulo Octavio (PO) é apresentado como marido de Ana Kubitschek – neta do fundador da cidade, JK. E como um antigo sócio de Sergio Naya, aquele ex-deputado que construiu no Rio um prédio que desabou. Arruda tem seu prontuário político enumerado, como a cassação pela violação do painel de votação do Senado. Sarcástico, o diretor escolhe uma foto particularmente monstruosa do senador Antonio Carlos Magalhães para ilustrar o período. Arruda também é apresentado como o “Big Boss” – um corrupto assumido.

UM PROJETO “VERDE”

O filme move-se dialeticamente, a partir de contradições. O marketing do “primeiro bairro ecológico do país” é demolido pelo diretor com várias machadadas contra a "sustentabilidade". “A máfia se veste de verde e cria a primeira obra baseada na aniquilação da natureza”, diz o locutor. O antropólogo José Jorge diz que não há condomínio verde. “Condomínio é cinza”. Um dos lugares com destruição prevista é a área-tampão do Parque Nacional.  PO afirma em entrevista que Taniguchi e ele vão fazer uma “cidade ambientalmente correta”. O repórter pergunta: “Na área-tampão do Parque Nacional?”

Outra cena antológica ocorre num momento em que a representante do Instituto Brasília Ambiental (Ibram-DF) expõe um projeto do ex-governador paranaense Jaime Lerner (DEM) – sem licitação – no Parque Burle Marx. Seria uma casa onde os índios poderiam se reunir e, diz ela, ser uma atração turística. Alguém dispara a palavra “zoológico”. E ela engole: “Não é zoológico, é uma atração realmente”. Corta para Arruda e Paulo Octávio discursando. PO interrompe Arruda: “Fala que vamos construir uma oca para eles morarem”. Arruda repete, empolgado.

PROPAGANDA E REPRESSÃO

Os principais meios de comunicação de Brasília – como o Correio Braziliense e o Jornal de Brasília – são definidos como servis ao projeto imobiliário. O diretor mostra um especialista atacando as ocupações irregulares das mansões. A legenda informa que a entrevista não foi veiculada. O jornalista Alan Schvarsberg informa que, entre o fim de 2007 e o início de 2009, o Correio Braziliense publicou 38 matérias no caderno Cidades favoráveis ao Setor Noroeste. No mesmo período, o caderno veiculou 94 propagandas do ramo imobiliário.

Seguem-se cenas de repressão. Depois da mídia, a polícia. Seguranças batendo em manifestantes, policiais batendo em manifestantes, cavalaria em cima dos manifestantes, arma apontada para manifestantes – e cinegrafistas. As cenas de batalha durante o “Fora Arruda” são impressionantes – e candidatas a uma coletânea sobre o saco de maldades policiais diante de atos democráticos, uma constante no Brasil atual. (Escrevo no momento em que isso ocorre de modo bárbaro contra estudantes no Piauí.)

FINAL SEM FINAL

A partir dessas imagens o filme ganha o aspecto de uma obra com atualização constante. É descrita a promessa do novo governador, Agnelo Queiroz (PT) de não trair ninguém – não cumprida. Em 16 de agosto de 2011, duas empreiteiras destruíram uma área do Santuário dos Pajés. Depois tiveram de sair.  No dia 25 de agosto a Justiça Federal determina que a área dos indígenas não pode ser invadida. E que a Funai deve concluir o processo de demarcação das terras.

O filme se encerra informando que o Cerrado continua sendo devastado. E que a batalha contra o projeto imobiliário continua. Pouco antes o diretor recolocara em cena o pajé Shantxiê Tapuia, dizendo que os índios estão em guerra contra os brancos:

- Eles declararam primeiro guerra contra a terra. Depois, contra os filhos da terra.

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