Ex-deputado Ricardo Bacha quintuplicou suas terras rurais em dez anos
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)*
Entre 1996, dois anos antes de se candidatar ao governo do Mato Grosso do Sul, e 2006, candidato a deputado estadual, o pecuarista Ricardo Bacha teve o patrimônio ampliado de R$ 554 mil para R$ 1,75 milhão. A quantidade de terras saltou de 1.252 hectares para 6.214 hectares. Os dados constam das declarações de bens entregues à Justiça Eleitoral.
Bacha é pivô da crise com os indígenas da etnia Terena, no Mato Grosso do Sul. Eles reivindicam 17 mil hectares na região. A Fazenda Buriti, do ex-deputado, leva o mesmo nome da Terra Indígena Buriti, já reconhecida pela Funai, mas não homologada pelo Ministério da Justiça. Foi lá que morreu o indígena Oziel Gabriel, em maio, baleado pela Polícia Federal durante reintegração de posse. Dias após, em outra fazenda, outro Terena foi baleado pelas costas, mas sobreviveu.
A Fazenda Buriti já aparecia na declaração entregue em 1998, quando Ricardo Bacha foi candidato ao governo pelo PSDB. Seu valor era de R$ 272 mil. Um ano depois passou para R$ 333 mil, valor que não foi mais corrigido. Ela tem 302 hectares – onde o pecuarista, formado em engenharia, cria gado.
O blog solicitou os dados há algumas semanas ao presidente do TRE-MS, já que, ao contrário da declaração de 2006, eles não estão disponíveis na internet. Em 1998, Bacha apresentou a lista entregue ao Imposto de Renda em dois anos: 1996 e 1997. Os valores corrigidos de um ano para o outro não foram mais atualizados.
Entre 1997 e 2006 o pecuarista adquiriu terras menos valiosas que a Fazenda Buriti, porém mais extensas. Bacha tinha somente três fazendas em 1997 (com 1.252 hectares). Em 2006, quando foi candidato à Assembleia Legislativa pelo PPS, a quantidade de fazendas saltou para 13. Perfazendo o total de 6.214 hectares.
Uma dessas dez novas terras fica em Caracol (MS). É a Fazenda São Judas Tadeu, com 903 hectares, declarada por valores redondos: R$ 270 mil. Outra, a mais extensa, fica em Ribas do Rio Pardo (MS). A Fazenda Limão tem 3 mil hectares e foi declarada por R$ 300 mil.
O preço das terras é considerado o principal motivo da resistência dos fazendeiros em deixar o local. O conflito no Mato Grosso do Sul foi um dos principais assuntos de maio. Em junho, com os protestos de rua em todo o Brasil, perdeu visibilidade.
Note-se que a correção do preço da fazenda Buriti, em 1997, para R$ 333 mil, ocorreu já durante a vigência do real. E que a fazenda em Ribas do Rio Pardo, dez vezes maior que ela, foi declarada por menos que isso.
* o autor deste blog é também o autor do livro Partido da Terra – como os políticos conquistam o território brasileiro (Editora Contexto, 2012)
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Reintegrações de posse no MS beneficiam políticos
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quinta-feira, 27 de junho de 2013
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Está deflagrado o Outono Indígena no Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Às vésperas do inverno, esquenta a temperatura no campo. São vários os sinais de que vivemos um momento histórico em relação à questão indígena. O assassinato de Oziel Gabriel em Sidrolândia (MS) na semana passada, um índio Terena, foi a senha para o governo e a imprensa começarem a se movimentar. Mas a um passo atrás do movimento de indígenas (não só Terena) e fazendeiros.
Essa história tem 513 anos. A esse número impactante corresponde uma ignorância brutal, no eixo Rio-Brasília-São Paulo, em relação ao cotidiano das etnias e à dinâmica específica das demarcações. À ignorância soma-se o discurso ruralista, manipulador, de olho na expansão do território do agronegócio.
A Folha publicou hoje entrevista com um líder dos produtores rurais do Mato Grosso do Sul. “Estamos falando de um massacre iminente”, disse ele. "Vai morrer mais gente", afirmou. "Vai ter mais sangue".
Gente morrendo e sangue correndo acontece há séculos, entre os indígenas. No ano passado a PF matou Adenilson Munduruku. Às mortes violentas e sistemáticas, homicídios e genocídios, somam-se os suicídios, que não deixam de ser outro genocídio disfarçado, e o extermínio pela omissão: pela ausência de saúde, pelo cerceamento dos modos indígenas de ser.
Enquanto isso, brancos cínicos, pensadores tímidos, eurocêntricos rudimentares repetem frases preconceituosas sobre as etnias: admiram-se por eles usarem máquinas fotográficas, tênis, camisetas com marca. O antropólogo José Ribamar Bessa Freire já escreveu o artigo definitivo sobre isso: “Os índios do Século XXI”. E desconstruiu a infâmia.
Os jornais não têm desculpas em relação a essa distração histórica, a esse distanciamento socio-geográfico. Mas, de repente, veem-se obrigados a cobrir a escalada do levante indígena. Por causa da ocupação de rodovias? Por causa da morte de Oziel? Talvez por tudo um pouco, mas também pela ocupação, por membros da etnia Kaingang no Paraná da ministra Gleisi Hoffmann, de uma das sedes do PT.
A partir das duas letrinhas mágicas exporta-se para a questão indígena, portanto, o debate político maniqueísta que reina nestas terras invadidas: o Fla-Flu entre PT e PSDB. Esse debate que reduz tudo a uma disputa entre grupos partidários hegemônicos – e que dispensa uma bela perspectiva histórica, sociológica. Ou uma abordagem minimamente humanista. Questão indígena, bem sabem os antropólogos, é algo que perpassa governos udenistas e petistas, regimes verde-oliva e tucanos, sem solução à vista.
E os indígenas reagem – para quem tiver olhos para ver, neste momento crucial da história brasileira. Eles não engoliram a suspensão da demarcação de terras indígenas, fruto de pressão dos políticos ruralistas. Estes aprovaram cana na Amazônia, costuraram a tesourada na Funai, agora não mais o único órgão responsável pelas demarcações de terras, tornaram-se muito próximos das principais figuras do governo federal.
Pior: os indígenas reagem (com a Constituição na mão) sob atentos olhares internacionais. O jornal inglês The Guardian foi incisivo ao analisar a temperatura crescente ao sul do Equador e pedir “pressão internacional” contra o Brasil: este, em relação aos indígenas, diz o título, “viola direitos humanos”.
Esse Outono Indígena que se desenha, portanto, sem promessa de recuo no inverno ou no segundo semestre, tem um efeito-espelho em relação às primaveras políticas do hemisfério norte. Como no caso de Chico Mendes (1988), como na morte de Dorothy Stang (2005), não tem cara de algo que se possa varrer para debaixo do tapete. É o Sul do Sul que emerge junto com os arcos-e-flechas. A mais elegante e maltratada periferia do mundo.
Soluções à vista? Longe disso. Não há notícia de que a Força Nacional que anda por Belo Monte e agora migra para o Mato Grosso do Sul tenha habilidades diplomáticas. O delegado responsável pelas reintegrações de posse na região da Terra Indígena Buriti (curiosamente, em terras de políticos) também não faria grande sucesso como negociador. A Justiça? Ora, a Justiça tem lado: o das elites. Como Espinoza já dizia.
E, no entanto, o mundo se move. Os oprimidos, os indígenas, ganham voz. Como expôs a BBC: “Índios usam mídias sociais para fortalecer voz própria”. E falam em vingar Oziel. Um somente? Não: muitos, muitíssimos. Do outro lado, as palavras do pecuarista ecoam: “Vai morrer mais gente. Vai ter mais sangue”.
Todos estão avisados. Os jornais são míopes, porém, os jornais desaprenderam a fazer reportagens, os jornais não enxergam muitos palmos desse país continental. E os jornais também têm um lado. Os jornais preservam os proprietários de terra – mesmo diante de evidências de grilagem (em um país grilado), de crimes ambientais (no país do desmatamento), de trabalho escravo (um senhor de 513 anos). Os jornais evocam o discurso da legalidade apenas quando esta lhes é conveniente.
O mínimo necessário em meio a esse cenário bélico é fazer política. No sentido mais nobre do termo: política de alto nível, muita política. Política com afinco, política maiúscula. Mas a redução do debate a algumas palavras-de-ordem (em meio a uma lavagem cerebral patrocinada pelos tratoristas-ruralistas) e o calendário eleitoral não ajudam nem um pouco.
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Reintegrações de posse no MS beneficiam políticos
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por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Às vésperas do inverno, esquenta a temperatura no campo. São vários os sinais de que vivemos um momento histórico em relação à questão indígena. O assassinato de Oziel Gabriel em Sidrolândia (MS) na semana passada, um índio Terena, foi a senha para o governo e a imprensa começarem a se movimentar. Mas a um passo atrás do movimento de indígenas (não só Terena) e fazendeiros.
Essa história tem 513 anos. A esse número impactante corresponde uma ignorância brutal, no eixo Rio-Brasília-São Paulo, em relação ao cotidiano das etnias e à dinâmica específica das demarcações. À ignorância soma-se o discurso ruralista, manipulador, de olho na expansão do território do agronegócio.
A Folha publicou hoje entrevista com um líder dos produtores rurais do Mato Grosso do Sul. “Estamos falando de um massacre iminente”, disse ele. "Vai morrer mais gente", afirmou. "Vai ter mais sangue".
Gente morrendo e sangue correndo acontece há séculos, entre os indígenas. No ano passado a PF matou Adenilson Munduruku. Às mortes violentas e sistemáticas, homicídios e genocídios, somam-se os suicídios, que não deixam de ser outro genocídio disfarçado, e o extermínio pela omissão: pela ausência de saúde, pelo cerceamento dos modos indígenas de ser.
Enquanto isso, brancos cínicos, pensadores tímidos, eurocêntricos rudimentares repetem frases preconceituosas sobre as etnias: admiram-se por eles usarem máquinas fotográficas, tênis, camisetas com marca. O antropólogo José Ribamar Bessa Freire já escreveu o artigo definitivo sobre isso: “Os índios do Século XXI”. E desconstruiu a infâmia.
Os jornais não têm desculpas em relação a essa distração histórica, a esse distanciamento socio-geográfico. Mas, de repente, veem-se obrigados a cobrir a escalada do levante indígena. Por causa da ocupação de rodovias? Por causa da morte de Oziel? Talvez por tudo um pouco, mas também pela ocupação, por membros da etnia Kaingang no Paraná da ministra Gleisi Hoffmann, de uma das sedes do PT.
A partir das duas letrinhas mágicas exporta-se para a questão indígena, portanto, o debate político maniqueísta que reina nestas terras invadidas: o Fla-Flu entre PT e PSDB. Esse debate que reduz tudo a uma disputa entre grupos partidários hegemônicos – e que dispensa uma bela perspectiva histórica, sociológica. Ou uma abordagem minimamente humanista. Questão indígena, bem sabem os antropólogos, é algo que perpassa governos udenistas e petistas, regimes verde-oliva e tucanos, sem solução à vista.
E os indígenas reagem – para quem tiver olhos para ver, neste momento crucial da história brasileira. Eles não engoliram a suspensão da demarcação de terras indígenas, fruto de pressão dos políticos ruralistas. Estes aprovaram cana na Amazônia, costuraram a tesourada na Funai, agora não mais o único órgão responsável pelas demarcações de terras, tornaram-se muito próximos das principais figuras do governo federal.
Pior: os indígenas reagem (com a Constituição na mão) sob atentos olhares internacionais. O jornal inglês The Guardian foi incisivo ao analisar a temperatura crescente ao sul do Equador e pedir “pressão internacional” contra o Brasil: este, em relação aos indígenas, diz o título, “viola direitos humanos”.
Esse Outono Indígena que se desenha, portanto, sem promessa de recuo no inverno ou no segundo semestre, tem um efeito-espelho em relação às primaveras políticas do hemisfério norte. Como no caso de Chico Mendes (1988), como na morte de Dorothy Stang (2005), não tem cara de algo que se possa varrer para debaixo do tapete. É o Sul do Sul que emerge junto com os arcos-e-flechas. A mais elegante e maltratada periferia do mundo.
Soluções à vista? Longe disso. Não há notícia de que a Força Nacional que anda por Belo Monte e agora migra para o Mato Grosso do Sul tenha habilidades diplomáticas. O delegado responsável pelas reintegrações de posse na região da Terra Indígena Buriti (curiosamente, em terras de políticos) também não faria grande sucesso como negociador. A Justiça? Ora, a Justiça tem lado: o das elites. Como Espinoza já dizia.
E, no entanto, o mundo se move. Os oprimidos, os indígenas, ganham voz. Como expôs a BBC: “Índios usam mídias sociais para fortalecer voz própria”. E falam em vingar Oziel. Um somente? Não: muitos, muitíssimos. Do outro lado, as palavras do pecuarista ecoam: “Vai morrer mais gente. Vai ter mais sangue”.
Todos estão avisados. Os jornais são míopes, porém, os jornais desaprenderam a fazer reportagens, os jornais não enxergam muitos palmos desse país continental. E os jornais também têm um lado. Os jornais preservam os proprietários de terra – mesmo diante de evidências de grilagem (em um país grilado), de crimes ambientais (no país do desmatamento), de trabalho escravo (um senhor de 513 anos). Os jornais evocam o discurso da legalidade apenas quando esta lhes é conveniente.
O mínimo necessário em meio a esse cenário bélico é fazer política. No sentido mais nobre do termo: política de alto nível, muita política. Política com afinco, política maiúscula. Mas a redução do debate a algumas palavras-de-ordem (em meio a uma lavagem cerebral patrocinada pelos tratoristas-ruralistas) e o calendário eleitoral não ajudam nem um pouco.
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segunda-feira, 20 de maio de 2013
Reintegrações de posse no MS beneficiam
políticos
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O delegado Alcídio de Souza Araújo roubou a cena, neste sábado, ao confiscar o computador e o gravador do jornalista Ruy Sposati, do Conselho Indigenista Missionário. Ele comandava uma ação de reintegração de posse em Sidrolândia (MS). Um detalhe tem passado despercebido: trata-se de mais um despejo em benefício de político local.
O fazendeiro Ricardo Bacha já foi deputado estadual, pelo PSDB, e candidato ao governo estadual, em 1998 (foi derrotado no segundo turno). Ele aparece neste vídeo discutindo com os indígenas que ocuparam a fazenda. No segundo minuto bate as mãos no chão e diz: “Isto aqui é meu!” Os Terena reivindicam o mesmo.
O delegado Alcídio de Souza Araújo roubou a cena, neste sábado, ao confiscar o computador e o gravador do jornalista Ruy Sposati, do Conselho Indigenista Missionário. Ele comandava uma ação de reintegração de posse em Sidrolândia (MS). Um detalhe tem passado despercebido: trata-se de mais um despejo em benefício de político local.
O fazendeiro Ricardo Bacha já foi deputado estadual, pelo PSDB, e candidato ao governo estadual, em 1998 (foi derrotado no segundo turno). Ele aparece neste vídeo discutindo com os indígenas que ocuparam a fazenda. No segundo minuto bate as mãos no chão e diz: “Isto aqui é meu!” Os Terena reivindicam o mesmo.
Veja aqui o vídeo com o
confisco do equipamento:
http://www.youtube.com/watch?v=ZRlHeOzENvI&feature=youtu.be. Aqui, o vídeo com Bacha e os indígenas:
http://www.youtube.com/watch?v=eQwMXPavpok&feature=youtu.be.
Em 2006, Bacha declarou um total de 6.214 hectares em terras: http://noticias.uol.com.br/politica/politicos-brasil/2006/deputado-estadual/23041949-ricardo-bacha.jhtm. A área em disputa, a Fazenda Buriti, foi declarada por R$ 333.106,84. Segundo o político, tem 302 hectares de “terras pastais e lavradias”.
Ele possui uma área de mais de 3 mil hectares em Ribas do Rio Pardo.
Pecuarista, Bacha não declarou uma única cabeça de gado. Isso apesar de ter declarado inúmeras áreas de "terras pastais". Ele foi secretário de Estado da Fazenda no governo Wilson Martins (1995-1998).
MAIS UM POLÍTICO
O mesmo delegado que confiscou o material do jornalista, Alcídio Araújo, participou há exatamente três anos de reintegração de posse – também contra índios da etnia Terena – em benefício do ex-governador Pedro Pedrossian (PMDB).
Confira a reportagem do Correio do Estado: “PM expulsa índios da terra dePedrossian”.
O delegado declarou o seguinte, na ocasião: “Temos duas opções. Ou vocês saem de forma pacífica ou haverá confronto, porque hoje nós vamos cumprir a determinação da Justiça". Houve confronto, registrado neste vídeo histórico. Segue trecho da reportagem:
- Durante a correria um índio foi ferido na perna por um disparo de bala de borracha e uma criança machucou o joelho. Em quinze minutos os indígenas começaram a deixar o local sem levar nada, algumas mulheres saíram carregando as crianças e os cachorros.
Pedrossian governou Mato Grosso do Sul entre 1991 e 1995. Em 2002, candidato derrotado ao Senado pelo PST, declarou 6.936 hectares. Como Bacha, é um latifundiário.
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Em 2006, Bacha declarou um total de 6.214 hectares em terras: http://noticias.uol.com.br/politica/politicos-brasil/2006/deputado-estadual/23041949-ricardo-bacha.jhtm. A área em disputa, a Fazenda Buriti, foi declarada por R$ 333.106,84. Segundo o político, tem 302 hectares de “terras pastais e lavradias”.
Ele possui uma área de mais de 3 mil hectares em Ribas do Rio Pardo.
Pecuarista, Bacha não declarou uma única cabeça de gado. Isso apesar de ter declarado inúmeras áreas de "terras pastais". Ele foi secretário de Estado da Fazenda no governo Wilson Martins (1995-1998).
MAIS UM POLÍTICO
O mesmo delegado que confiscou o material do jornalista, Alcídio Araújo, participou há exatamente três anos de reintegração de posse – também contra índios da etnia Terena – em benefício do ex-governador Pedro Pedrossian (PMDB).
Confira a reportagem do Correio do Estado: “PM expulsa índios da terra dePedrossian”.
O delegado declarou o seguinte, na ocasião: “Temos duas opções. Ou vocês saem de forma pacífica ou haverá confronto, porque hoje nós vamos cumprir a determinação da Justiça". Houve confronto, registrado neste vídeo histórico. Segue trecho da reportagem:
- Durante a correria um índio foi ferido na perna por um disparo de bala de borracha e uma criança machucou o joelho. Em quinze minutos os indígenas começaram a deixar o local sem levar nada, algumas mulheres saíram carregando as crianças e os cachorros.
Pedrossian governou Mato Grosso do Sul entre 1991 e 1995. Em 2002, candidato derrotado ao Senado pelo PST, declarou 6.936 hectares. Como Bacha, é um latifundiário.
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Alceu Castilho, jornalista.
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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
500 anos depois
A violação sistemática dos direitos indígenas
Ontem publiquei um resumo das violências praticadas contra povos indígenas: mortes, espancamentos, ameaças. Mas outras notícias publicadas ao longo do ano pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) ajudam a entender como os direitos dos índios são sistematicamente violados no Brasil – oferecendo condições estruturais àquelas violências mais explícitas.
Algumas histórias tratam da disputa pelo território – e de despejos de populações indígenas:Na Bahia, indígenas Pataxó Hã-Hã-Hãe podem ser despejados a qualquer momento (07/01)
Entidades repudiam proposta de retirada Xavante de terra tradicional pela segunda vez (30/05)
Povo Xavante declara guerra contra segunda expulsão da Terra Indígena Marãiwatséde (08/08)
Fazendeiros destroem aldeia e expulsam índios Guarani Kaiowá em MS (07/09)
Despejo paira sobre Laranjeira Nhanderu mais uma vez (22/09)
Grilagem e invasões avançam sobre Território Indígena Karitiana (11/10)
Essa disputa pelo território – vale sempre observar - é uma disputa econômica:
Construção da usina de Belo Monte ameaça indígenas isolados (18/03)
Indígenas denunciam invasões de madeireiros no Maranhão (03/10)
O garimpo volta a ameaçar o Povo Yanomami (14/10)
Outras notícias mostram a questão ambiental. A questão agrária é econômica, mas também ambiental:
Rio Peruaçu e povo Xakriabá ameaçados (08/02)
Soja pirata na Terra Indígena Maraiwatsede (04/03)
Estas notícias mostram a exploração do trabalho indígena. Alguns ainda são escravizados:
Indígenas são explorados em condições degradantes (02/03)
Indígenas de Roraima publicam manifesto contra tráfico de pessoas no Estado (17/03)
Outros links do Cimi sintetizam as violações de direito e as condições socioeconômicas das populações indígenas:
Dia do Índio: MPF/RO denuncia 110 violações de direitos dos índios (20/04)
Maior proporção de miseráveis está entre população indígena (11/05)
Povo Kaingang bloqueia nove rodovias no RS por melhorias na saúde indígena (09/08)
Em meio à disputa política, porém, governos adotam uma solução tradicional: a repressão policial.
Neste momento, Polícia Militar cerca indígenas e apoiadores no Santuário dos Pajés (03/11)
Cerca de 200 policiais mascarados desalojam comunidade Tabajara na Paraíba (30/11)
Algumas lideranças são simplesmente presas:
Prisão de mais uma liderança Tupinambá de Olivença (04/02)
Nota sobre a prisão de lideranças indígenas do Povo Terena da Terra Indígena Buriti, MS (30/08)
Deixo para segunda-feira o desfecho desta série. Quanto investiu o governo Dilma em 2011? E qual o papel da imprensa na perpetuação dessas violências?
Feliz 2012 a todos.
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
LEIA MAIS:
Como foi a matança de indígenas em 2011
Governo só gastou 33% dos recursos para proteção de indígenas, diz o Cimi
A violação sistemática dos direitos indígenas
Ontem publiquei um resumo das violências praticadas contra povos indígenas: mortes, espancamentos, ameaças. Mas outras notícias publicadas ao longo do ano pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) ajudam a entender como os direitos dos índios são sistematicamente violados no Brasil – oferecendo condições estruturais àquelas violências mais explícitas.
Algumas histórias tratam da disputa pelo território – e de despejos de populações indígenas:Na Bahia, indígenas Pataxó Hã-Hã-Hãe podem ser despejados a qualquer momento (07/01)
Entidades repudiam proposta de retirada Xavante de terra tradicional pela segunda vez (30/05)
Povo Xavante declara guerra contra segunda expulsão da Terra Indígena Marãiwatséde (08/08)
Fazendeiros destroem aldeia e expulsam índios Guarani Kaiowá em MS (07/09)
Despejo paira sobre Laranjeira Nhanderu mais uma vez (22/09)
Grilagem e invasões avançam sobre Território Indígena Karitiana (11/10)
Essa disputa pelo território – vale sempre observar - é uma disputa econômica:
Construção da usina de Belo Monte ameaça indígenas isolados (18/03)
Indígenas denunciam invasões de madeireiros no Maranhão (03/10)
O garimpo volta a ameaçar o Povo Yanomami (14/10)
Outras notícias mostram a questão ambiental. A questão agrária é econômica, mas também ambiental:
Rio Peruaçu e povo Xakriabá ameaçados (08/02)
Soja pirata na Terra Indígena Maraiwatsede (04/03)
Estas notícias mostram a exploração do trabalho indígena. Alguns ainda são escravizados:
Indígenas são explorados em condições degradantes (02/03)
Indígenas de Roraima publicam manifesto contra tráfico de pessoas no Estado (17/03)
Outros links do Cimi sintetizam as violações de direito e as condições socioeconômicas das populações indígenas:
Dia do Índio: MPF/RO denuncia 110 violações de direitos dos índios (20/04)
Maior proporção de miseráveis está entre população indígena (11/05)
Povo Kaingang bloqueia nove rodovias no RS por melhorias na saúde indígena (09/08)
Em meio à disputa política, porém, governos adotam uma solução tradicional: a repressão policial.
Neste momento, Polícia Militar cerca indígenas e apoiadores no Santuário dos Pajés (03/11)
Cerca de 200 policiais mascarados desalojam comunidade Tabajara na Paraíba (30/11)
Algumas lideranças são simplesmente presas:
Prisão de mais uma liderança Tupinambá de Olivença (04/02)
Nota sobre a prisão de lideranças indígenas do Povo Terena da Terra Indígena Buriti, MS (30/08)
Deixo para segunda-feira o desfecho desta série. Quanto investiu o governo Dilma em 2011? E qual o papel da imprensa na perpetuação dessas violências?
Feliz 2012 a todos.
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
500 anos depois
Como foi a matança de indígenas em 2011
Listo abaixo uma relação dos títulos (com links) de notícias publicadas ao longo do ano pelo Conselho Indigenista Missionário. São histórias de mortes, ameaças, espancamentos. E de impunidade.
Utilizo o recurso referencial porque as histórias dizem muito por si só. Até mesmo os títulos, isoladamente, são em si informativos – ainda que não tragam os detalhes sobre os povos e pessoas vitimados.
Observo que estas histórias são apenas uma amostra da violência praticada em 2011 contra os povos indígenas, 511 anos após a invasão de suas terras:
Indígenas Xavante morrem por falta de assistência à saúde (11/01)
Indígena Krikati é baleado dentro de sua terra, no Maranhão (17/03)
Comunidade Terena de Cachoeirinha continua sob forte ameaça (20/04)
Índice de homicídios em aldeias de Dourados é 800% maior que média nacional (03/05)
Ônibus com estudantes Terena é atacado em Mato Grosso do Sul (04/06)
Mais um corpo Guarani estraçalhado no chão (02/07)
Guarani Kaiowá é espancado por homens encapuzados no MS (20/07)
Sob as lonas pretas, mais uma criança Guarani Mbya morre sem ter vivido dentro de sua terra (20/07)
Cacique Xakriabá é alvo de emboscada no norte de Minas Gerais (04/08)
Dia Internacional do Índio é marcado por ataques a índios isolados (10/08)
MORTES ANUNCIADAS
Vale destacar aqui a sequência das notícias de agosto: o Conselho Indigenista avisou, dias antes, que pistoleiros ameaçavam os Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul:Cerco de pistoleiros ameaça grupo Guarani Kaiowá (12/08)
Pistoleiros invadem e destroem acampamento Guarani Kaiowá em MS (15/08)
Vale repetir: o País estava avisado sobre a matança. Mas prossigamos com a listagem.
Notem que o ataque ao ônibus escolar, em junho, tem em agosto um desfecho fatal:
Morre mulher Terena vítima de ataque a ônibus escolar (24/08)
Indígena do povo Canela é assassinada brutalmente no Maranhão (31/08)
Fazendeiros destroem aldeia e expulsam índios Guarani Kaiowá em MS (07/09)
Indígena Awá-Guajá é agredido por madeireiros no Maranhão (09/09)
Indígena da comunidade de Y’poi é barbaramente assassinado no MS (28/09)
Indígenas do Santuário dos Pajés, no DF, são espancados por seguranças de construtora (13/09)
Lideranças Tapirapé são ameaçadas de morte (03/11)
Povo Kaiowá Guarani sofre novo ataque no Mato Grosso do Sul (28/11)
Ameaçados de morte no Pará participam de Encontro e divulgam Carta (15/12)
A VIOLÊNCIA PERPETUADA
Em poucas palavras: o extermínio de índios prossegue no Brasil.
Levantamentos preliminares do Cimi mostram que foram 45 assassinatos de indígenas em todo o país. Trinta deles no Mato Grosso do Sul.
Esta reportagem do próprio Cimi mostra os dados de 2010:Violência contra os povos indígenas: continua tudo igual!
A notícia abaixo trata de um homicídio antigo. Mas que repercutiu este ano por conta do julgamento dos acusados:
Caso Cacique Veron: os condenados absolvidos (04/03)
Uma notícia publicada no dia 17 de maio relembra outra matança:2.000 Waimiri-Aitroari desaparecidos durante ditadura militar
A BANDEIRA PERFURADA
Os fatos são suficientemente exclamativos. Em vez de gastar, por ora, palavras de protesto, destaco três artigos de Egon Heck, o coordenador do Cimi em Mato Grosso do Sul.
Aqui ele fala sobre a morte de Guarani Kaiowá:
E a vida os e-levou
Neste artigo ele analisa o genocídio. E fala sobre os "caminhos da esperança":
Povos Indígenas: caminhos do genocídio e da esperança
Aqui, Heck escreve especificamente sobre Nísio Gomes, uma das vítimas:
Nísio, o sorriso matado
O início é antológico:
- O primeiro tiro foi na cabeça. Nisio já há algum tempo usava um simpático chapéu no qual estava estampada a bandeira do Brasil. Um rombo na bandeira mostra o tiro covarde que tirou a vida do cacique-Nhanderu Nisio Gomes, naquela fatídica madrugada do dia 18 de novembro. Não apenas rasgaram a bandeira, mas a perfuraram com várias balas calibre 12.
Sugestão ao leitor: abra o artigo para conferir a foto com o sorriso de Nísio. (Outra sugestão é abrir as demais notícias - e divulgá-las.)
Amanhã voltaremos ao tema, com outras notícias divulgadas pelo Cimi e dados sobre a política indigenista do governo Dilma Rousseff.
Por ora ficamos com esses relatos de mortos, espancados e ameaçados.
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
LEIA MAIS:
A violação sistemática dos direitos indígenas
Governo só gastou 33% dos recursos para proteção de indígenas, diz o Cimi
Como foi a matança de indígenas em 2011
Listo abaixo uma relação dos títulos (com links) de notícias publicadas ao longo do ano pelo Conselho Indigenista Missionário. São histórias de mortes, ameaças, espancamentos. E de impunidade.
Utilizo o recurso referencial porque as histórias dizem muito por si só. Até mesmo os títulos, isoladamente, são em si informativos – ainda que não tragam os detalhes sobre os povos e pessoas vitimados.
Observo que estas histórias são apenas uma amostra da violência praticada em 2011 contra os povos indígenas, 511 anos após a invasão de suas terras:
Indígenas Xavante morrem por falta de assistência à saúde (11/01)
Indígena Krikati é baleado dentro de sua terra, no Maranhão (17/03)
Comunidade Terena de Cachoeirinha continua sob forte ameaça (20/04)
Índice de homicídios em aldeias de Dourados é 800% maior que média nacional (03/05)
Ônibus com estudantes Terena é atacado em Mato Grosso do Sul (04/06)
Mais um corpo Guarani estraçalhado no chão (02/07)
Guarani Kaiowá é espancado por homens encapuzados no MS (20/07)
Sob as lonas pretas, mais uma criança Guarani Mbya morre sem ter vivido dentro de sua terra (20/07)
Cacique Xakriabá é alvo de emboscada no norte de Minas Gerais (04/08)
Dia Internacional do Índio é marcado por ataques a índios isolados (10/08)
MORTES ANUNCIADAS
Vale destacar aqui a sequência das notícias de agosto: o Conselho Indigenista avisou, dias antes, que pistoleiros ameaçavam os Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul:Cerco de pistoleiros ameaça grupo Guarani Kaiowá (12/08)
Pistoleiros invadem e destroem acampamento Guarani Kaiowá em MS (15/08)
Vale repetir: o País estava avisado sobre a matança. Mas prossigamos com a listagem.
Notem que o ataque ao ônibus escolar, em junho, tem em agosto um desfecho fatal:
Morre mulher Terena vítima de ataque a ônibus escolar (24/08)
Indígena do povo Canela é assassinada brutalmente no Maranhão (31/08)
Fazendeiros destroem aldeia e expulsam índios Guarani Kaiowá em MS (07/09)
Indígena Awá-Guajá é agredido por madeireiros no Maranhão (09/09)
Indígena da comunidade de Y’poi é barbaramente assassinado no MS (28/09)
Indígenas do Santuário dos Pajés, no DF, são espancados por seguranças de construtora (13/09)
Lideranças Tapirapé são ameaçadas de morte (03/11)
Povo Kaiowá Guarani sofre novo ataque no Mato Grosso do Sul (28/11)
Ameaçados de morte no Pará participam de Encontro e divulgam Carta (15/12)
A VIOLÊNCIA PERPETUADA
Em poucas palavras: o extermínio de índios prossegue no Brasil.
Levantamentos preliminares do Cimi mostram que foram 45 assassinatos de indígenas em todo o país. Trinta deles no Mato Grosso do Sul.
Esta reportagem do próprio Cimi mostra os dados de 2010:Violência contra os povos indígenas: continua tudo igual!
A notícia abaixo trata de um homicídio antigo. Mas que repercutiu este ano por conta do julgamento dos acusados:
Caso Cacique Veron: os condenados absolvidos (04/03)
Uma notícia publicada no dia 17 de maio relembra outra matança:2.000 Waimiri-Aitroari desaparecidos durante ditadura militar
A BANDEIRA PERFURADA
Os fatos são suficientemente exclamativos. Em vez de gastar, por ora, palavras de protesto, destaco três artigos de Egon Heck, o coordenador do Cimi em Mato Grosso do Sul.
Aqui ele fala sobre a morte de Guarani Kaiowá:
E a vida os e-levou
Neste artigo ele analisa o genocídio. E fala sobre os "caminhos da esperança":
Povos Indígenas: caminhos do genocídio e da esperança
Aqui, Heck escreve especificamente sobre Nísio Gomes, uma das vítimas:
Nísio, o sorriso matado
O início é antológico:
- O primeiro tiro foi na cabeça. Nisio já há algum tempo usava um simpático chapéu no qual estava estampada a bandeira do Brasil. Um rombo na bandeira mostra o tiro covarde que tirou a vida do cacique-Nhanderu Nisio Gomes, naquela fatídica madrugada do dia 18 de novembro. Não apenas rasgaram a bandeira, mas a perfuraram com várias balas calibre 12.
Sugestão ao leitor: abra o artigo para conferir a foto com o sorriso de Nísio. (Outra sugestão é abrir as demais notícias - e divulgá-las.)
Amanhã voltaremos ao tema, com outras notícias divulgadas pelo Cimi e dados sobre a política indigenista do governo Dilma Rousseff.
Por ora ficamos com esses relatos de mortos, espancados e ameaçados.
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Governo só gastou 33% dos recursos para proteção de indígenas, diz o Cimi
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Alceu Castilho, jornalista.
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