Indignação e barbárie: as mortes de cachorros escandalizam
mais?
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Longe de mim questionar a indignação diante das violências
contra cachorros – ou quaisquer animais. Ela é mais do que legítima e mostra
que nem a tudo estamos habituados neste mundo pleno de barbárie. Único ponto a
ser desenvolvido é o da indiferença seletiva: por que a morte de camponeses e
indígenas, a violência contra quilombolas ou moradores de favelas não gera o
mesmo clamor?
Claro, trabalho dos mais árduos para sociólogos, psicólogos,
cientistas sociais de um modo geral. Mas me aventuro a dizer que, no caso dos animais
espancados, os inimigos não são tão ameaçadores assim – no sentido de que
atacá-los constituirá um consenso e nada ocorrerá a quem faça isso. É como se
não tivéssemos nada a perder.
Em contrapartida, o ataque a um ônibus escolar indígena, no
Mato Grosso do Sul, ou a morte de dois líderes agroextrativistas no Pará, ambos
os casos ocorridos este ano (entre centenas de outros exemplos), não geraram
nem 10% das exclamações feitas em relação ao cachorro de Goiânia. Os motivos
talvez sejam políticos – e econômicos.
Vou repetir a minha linha de pensamento para que não haja
distorções: eu também participo da indignação em relação ao yorkshire espancado
e morto pela enfermeira goiana - aquele flagrado em vídeo que ocupou a internet
nestes meados de dezembro. Deploro. Choco-me. Choro.
O que questiono (e eu disse que seria repetitivo) é a
desproporção entre essa justa revolta e a indiferença – injusta - em relação a
seres humanos igualmente (e sistematicamente) vítimas cotidianas de violência.
Ocorre que, sem ser necessário desenvolver a fundo conceitos
marxistas, as violências contra esses grupos sociais citados (e eu já citei que
entre eles estão crianças) têm motivações também econômicas. Não tenho a menor
dúvida em relação a sadismos de policiais, jagunços, fazendeiros – mas, sim,
existe nesses casos um componente de luta de classes. Isto por um lado. De
disputa por territórios (não necessariamente capitalistas, aliás) por outro.
Desta forma, o indignado no sofá fica em uma razoável zona
de conforto. Pode dar vazão à sua indignação apenas quando os seres humanos
ameaçados fazem parte de seu círculo social imediato; ou seja, quando ele mesmo
corre risco. E pode ficar exasperado quando um cachorro é arrastado por seu
dono, até que morra, numa cidade do interior paulista.
Esse cachorro não está no seu circuito econômico (como a mão-de-obra dos espoliados), nem mesmo se destina à sua mesa – e não gera qualquer necessidade adicional de comprometimento político. Não há embate ideológico.
Esse cachorro não está no seu circuito econômico (como a mão-de-obra dos espoliados), nem mesmo se destina à sua mesa – e não gera qualquer necessidade adicional de comprometimento político. Não há embate ideológico.
Vale lembrar, aqui, que os ruralistas vaiaram no plenário da
Câmara, este ano, durante a votação do Código Florestal, vaiaram
estrondosamente a notícia de que dois líderes extrativistas tinham sido mortos
no Pará. O interesse político, no caso, se sobrepõs à capacidade de indignação.
De seres humanos que talvez tenham ficado chocados com a agonia do yorkshire.
Todo esse mecanismo, diga-se, não parte de decisões
individuais, conscientes, mas de um código de valores perpetuado no dia a dia –
pelos jornais, pelo sistema, pelo medo de mudanças. Não estou personalizando a
crítica, demonizando os indiferentes; apenas tentando entender as contradições.
Em outras palavras, é como se a nossa indignação girasse em
torno não das reaparições da barbárie, mas do rompimento de determinados pactos
culturais e sociais. Não necessariamente sacramentados em leis. Uma indignação
ritualística, psicologicamente necessária – mas politicamente precária.
Muita coisa sórdida, assim, é simplesmente aceita –
ignorada, complacentemente escanteada do rol de indignações. Quando não
aplaudida. E muita coisa sórdida gera movimentos incríveis de súbita
solidariedade – desde que essa solidariedade, evidentemente, não ameace os
códigos anteriormente citados.
“Eu não vou ver esse
vídeo violento, esse cachorro sendo torturado, eu não vou” – mas e esses
estudantes e sem-teto folgados, hem? Borracha neles!
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