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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Grandes Patifes da Literatura (V) - Paulinho Perna Torta
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
João Antônio é um dos grandes escritores brasileiros. E, com a sua galeria de malandros, um dos mais importantes para entender a nossa sociedade excludente. “Paulinho Perna Torta” é o nome de um longo conto sobre uma dessas pessoas que, após uma sequência de explorações e discriminações, torna-se bandida. Paulinho Perna Torta vira cafetão, assaltante, faz de tudo no crime, na região central de São Paulo.
 
O conto foi escrito em 1965, mas publicado em 1974, no livro “Leão-de-Chácara”. Em artigo publicado na Revista de Estudos Avançados, da USP, o escritor Bruno Zeni mencionava, em 2004, um trecho importante. Paulinho diz: “[...] me ensinaram que meu negócio era ver e desejar. Parasse aí”. Zeni observa que, para o protagonista, “as pretensões de acumulação material não deveriam passar de fantasia”.
 
Estamos aqui, portanto, no quinto texto da série, diante de um caso muito diverso dos dois anteriores: Paulo Honório, de Graciliano Ramos, e João Romão, de Aluísio de Azevedo, representam proprietários de terra, capitalistas. Fernando Vidal Olmos, de Ernesto Sabato, era também um bandido, mas burguês. Perna Torta, um espoliado.
 
A escalada de Paulinho duma Perna Torta (ele não gostava da abreviação) no mundo do crime tem um momento antológico. João Antônio narra os conselhos daquele que era seu professor do crime. Mas a sequência – específica sobre machismo - poderia ser a mesma caso o conselheiro, com alguma variação temática, fosse uma raposa política diante de um novato, ou um empresário experiente diante de seu sucessor, um fazendeiro ensinando um jagunço.
 
Paulinho tinha apenas 18 anos e vivia com uma prostituta. Já era seu cafetão, mas ela o dominava. Vejamos:
 
“Vivia todo arranhado. Quando eu não dormia com ela, por ficar lá mesmo na minha tarimba da boca do Arrudão, na outra noite, Ivete estalava de nervos, se metia a me bater. Eu entendia mal todo aquele movimento. Ficava como um moleque bocó arriado à beira da cama. Agüentando a gritaria...Por onde foi que andou, cadelinho? - com aquele ar canalha me gozando no canto da boca.
 
- Uma criança. Um dia de cabeça quente, boquejei com Laércio, pedi-lhe uma luz. O mulato me zombou e ouvi xingo, esculhambação, desconsideração. Fiquei desengonçado como um papagaio enfeitado. Entendendo nada.

- Também... Você deixa a gringa lhe fazer gato e sapato. Dá-lhe um chalau, seu trouxa.
 
Arrudão arrastou este aqui para um canto e ensinou.
 
- Você vai deixar de ser um pivete frouxo. Vou te levantar a crista pra você dar uma ripada nessa gringa – e me olhou dos pés à cabeça – porque você é gente minha.
 
O brilho de simpatia nos olhos de Laércio Arrudão começou por me ensinar que quem bate é o homem. E manda surra a toda hora e fala pouco. Quem chega tarde é o homem. Quem tem cinco-dez-mulheres é o homem – a mulher só tem um homem. Quem vive bem é ele – para tanto, a mulher trabalha, se vira e arruma a grana. Quem impõe vontades, nove-horas, cocorecos, bicos-de-pato e lero-leros é o macho. Homem grita, manda e desmanda, exige, dispõe, põe cara feia e pede pressa. A mulher ouve e não diz um a, nem sim, nem não, rabo entre as pernas. Mulher só serve para dar dinheiro ao seu malandro. Todo o dinheiro. Por isso, entre os malandros da baixa e da alta, as mulheres se chamam minas.
 
Laércio Arrudão me ensinou.
 
- Mulher lava os pés do seu homem e enxuga com os cabelos.
 
Laércio Arrudão me ensinou.
 
- Outra coisa: duas ondas bestas podem perder um homem. Gostar e mulher bonita. Malandro que é malandro se espianta e evita tudo isso.
 
Pousando as duas mãos nos meus ombros, falando baixo e sério um português bem clarinho, Laércio começava a me escolar que quem gosta da gente é a gente. Só. E apenas o dinheiro interessa. Só ele é positivo. O resto são frescuras do coração.
 
Eu precisava tomar uns pontos na ignorância.
 
À noite, à toa, à toa, meti-lhe um sopapo na caixa do pensamento. Ela caiu e quis pôr a boca no mundo. Chapoletei-lhe mais um muquete e se aquietou.
 
- Fale baixo comigo.
 
Agora, ganha porrada toda a mão que tenta uma liberdade. Às vezes, à frente das outras mulheres do Salão Azul. Então, meu nome se espalha e começa a ganhar tamanho na zona. Boquejam à boca pequena:
 
- Um valente ponta firme.
 
Ivete se sente mulher de malandro e me agrada mais. Vem se aninhar como uma cachorra. Sou temido e presenteado”.
 
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domingo, 15 de janeiro de 2012

Grandes Patifes da Literatura (IV) –
João Romão

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

O cortiço de Aluísio Azevedo é filho do cortiço de Émile Zola. Quem o diz é o crítico Antonio Cândido, em “O Discurso e a Cidade”.  Azevedo escreveu sua grande obra – para Cândido, as demais são medíocres – em 1890. Doze anos depois de “A Taberna”, de Zola (1878). Por isso nada de “transposição direta da natureza”, avisa o crítico, como pretendia o naturalismo. Personagens e situações de “O Cortiço” são diretamente inspirados em personagens de “L’Assommoir”.

Mais de 120 anos depois, a obra de Azevedo se afirma como um clássico. Um dos livros que grudaram na lista de leituras obrigatórias da Fuvest, ele se mantém como referência para se pensar a questão urbana. A visão higienista embutida na obra está aí ainda, em São Paulo e no Brasil (da Favela do Moinho à Cracolândia, dos morros do Rio a milhares de iniciativas governamentais em cidades médias e grandes), para quem quiser ver.

Mas uma obra-prima sempre permite leituras diversas. Este item da série “Grandes Patifes da Literatura” foi sugerido pelo jornalista Haroldo Ceravolo Sereza. Especialista em literatura, e da boa, ele não titubeou quando instado a sugerir um grande patife: “João Romão”.

O protagonista do "Cortiço", de fato, vai além de Zola e do próprio naturalismo. É exatamente João Romão que marca a diferença central em relação ao livro de Zola. As duas obras são sobre trabalhadores “amontoados numa habitação coletiva”, como diz Cândido. Mas, como mostra o crítico, Zola não associou a vida do trabalhador à presença direta do explorador econômico – como faz Azevedo.

No livro do francês há apenas a figura do senhorio, “que cobra aluguéis nos momentos difíceis”. Em Aluísio Azevedo essa presença do explorador econômico “se torna o eixo da narrativa”. Para Cândido, a originalidade do livro está na coexistência íntima do explorado e do explorador. Isso só era possível, diz, porque o país era à época “economicamente semicolonial”.

Romão é um capitalista obsessivo, mas sem grandes refinamentos. Ele mesmo se vê de modo um tanto torpe. Diante dos vizinhos de origem nobre, envergonha-se – mas compensa essa percepção acumulando mais capital.

Em meio a esse processo, o leitor do século 21 tende a ficar particularmente chocado com o modo como Romão vê e trata Bertoleza – candidata, como a Madalena de Paulo Honório, à lista de mulheres mais humilhadas da literatura brasileira.

O País acabava de se livrar da escravidão. “Sou negra, sim, mas tenho sentimentos”, diz Bertoleza a Romão, ao saber que ele planeja se livrar dela. Azevedo escreve as últimas palavras de sua obra como se mantivesse a frase adversativa, de forma invertida (e crítica): “Bertoleza tem sentimentos, mas é negra”.
Ao contrário de Paulo Honório, um tanto direto demais, Romão mostra nessa sequência final que também pode ser dissimulado.

A sequência é um dos finais mais conhecidos da literatura brasileira:

“ - Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce, chegando ao armazém.

Um homem alto, com ar de estróina, adiantou-se e entregou-lhe uma folha de papel.

João Romão, um pouco trêmulo, abriu-a defronte dos olhos e leu-a demoradamente. Um silêncio formou-se em torno dele; os caixeiros pararam em meio do serviço, intimados por aquela cena em que entrava a polícia.

 - Está aqui com efeito... disse afinal o negociante. Pensei que fosse livre...  - É minha escrava, afirmou o outro. Quer entregar-me?  - Mas imediatamente.  - Onde está ela?

 - Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar...

O sujeito fez sinal aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e encaminharam-se todos para o interior da casa. Botelho, à frente deles, ensinava-lhes o caminho. João Romão ia atrás, pálido, com as mãos cruzadas nas costas.

Atravessaram o armazém, depois de um pequeno corredor que dava para um pátio calçado, chegaram finalmente à cozinha. Bertoleza, que havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cócoras no chão, escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando viu parar defronte dela aquele grupo sinistro.

Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande perigo compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre; adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro.

Seu primeiro impulso foi de fugir. Mal, porém, circunvagou os olhos em torno de si, procurando escapula, o senhor adiantou-se dela e segurou-lhe o ombro.

 - É esta! Disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a segui-los. -  Prendam-na! É escrava minha!

A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.

Os policiais, vendo que ela não se despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto, e antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado”.

LEIA MAIS:
Grandes Patifes da Literatura (I) – Fernando Vidal Olmos
Grandes Patifes da Literatura (II) – Juan Pablo Castel
Grandes Patifes da Literatura (I) – Paulo Honório

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domingo, 8 de janeiro de 2012

Grandes Patifes da Literatura (III) -
Paulo Honório


por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Depois de dois personagens da literatura argentina (Fernando Vidal Olmos e Juan Pablo Castel, ambos de Ernesto Sabato), inauguro com Paulo Honório a literatura brasileira nesta série sobre patifes.

Assim como Olmos e Castel, o protagonista de “São Bernardo” (1934) narra sua paranoia em primeira pessoa. Como Castel, o pintor de “O Túnel” (1948), mergulha nos ciúmes. “Boa em demasia”, Madalena é uma das mulheres mais humilhadas da literatura brasileira. (Como tal, parece ironia ela ser uma professora.)

Uma diferença em relação a Sabato é que as ficções de Graciliano Ramos têm um lado político mais acentuado - em meio ao mesmo existencialismo. Paulo Honório representa os proprietários de terra – e também o capital. Para ele Casimiro Lopes (o jagunço) é uma propriedade, Madalena é uma propriedade. Todos são extensões das terras de São Bernardo - obtidas de Padilha "sem remorsos".

Em artigo para a Revista Universitária do Audiovisual, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Henrique Dias Soares de Barros aplica especificamente a Paulo Honório o conceito de "homem subterrâneo", desenvolvido pelo crítico Antonio Cândido em relação à obra de Graciliano como um todo. O nome vem da obra (existencialista) de Dostoievski, também conhecida como "Homem do Subsolo".

Graciliano era leitor de Dostoievski. Cândido identifica nesses "homens subterrâneos" um conflito entre um ser social, "ligado à necessidade de ajustar-se a certas normas convencionais para sobreviver", e um ser profundo, "revoltado contra elas, inadaptado, vendo a marca da contingência e fragilidade em tudo e em si mesmo".

Reproduzo abaixo o capítulo dezenove: um momento especial (poético e de grande profundeza psicológica) dentro de uma das obras-chave de nossa literatura. Aqui Paulo Honório ganha contornos humanos – mas em meio ao delírio. “Encolerizo-me e enterneço-me”, diz ele.

Não se pode perder de vista a condição de patrão de Paulo Honório. Nem ele mesmo a perde, como neste trecho sobre Mestre Caetano: "Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar".

Paulo, Fernando e Juan bem poderiam também estar numa coletânea sobre literatura e saúde mental. “Não quero luz”, diz ele a Maria das Dores. A descrição de Paulo Honório de suas violências - como no caso dos dois argentinos – se desenrola em sua alma "agreste" em meio a um profundo tormento:

SÃO BERNARDO, CAPÍTULO DEZENOVE

Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as idéias não vêm, ou vêm muito numerosas e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.

Emoções indefiníveis me agitam - inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.

Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão.

Lá fora os sapos arengavam, o vento gemia, as árvores do pomar tornavam-se massas negras.

- Casimiro! Casimiro Lopes estava no jardim, acocorado ao pé da janela, vigiando.

- Casimiro! A figura de Casimiro Lopes aparece à janela, os sapos gritam, o vento sacode as árvores, apenas visíveis na treva. Maria das Dores entra e vai abrir o comutador. Detenho-a: não quero luz.

O tique-taque do relógio diminui, os grilos começam a cantar. E Madalena surge no lado de lá da mesa. Digo baixinho: - Madalena! A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos. Estou encostado à mesa, as mãos cruzadas. Os objetos fundiram-se, e não enxergo sequer a toalha branca.

- Madalena...

A voz de Madalena continua a acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande algum dinheiro a Mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritação é diferente das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura estar uma pessoa ao mesmo tempo zangada e tranquila. Mas estou assim. Irritado contra quem? Contra Mestre Caetano. Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar. Mandrião! A toalha reaparece, mas não sei se é esta toalha sobre que tenho as mãos cruzadas ou a que estava aqui há cinco anos.

Rumor do vento, dos sapos, dos grilos. A porta do escritório abre-se de manso, os passos de Seu Ribeiro afastam-se. Uma coruja pia na torre da igreja. Terá realmente piado a coruja? Será a mesma que piava há dois anos? Talvez seja até o mesmo pio daquele tempo.

Agora Seu Ribeiro está conversando com Dona Glória no salão. Esqueço que eles me deixaram e que esta casa está quase deserta.

- Casimiro! Penso que chamei Casimiro Lopes. A cabeça dele, com o chapéu de couro de sertanejo, assoma de quando em quando à janela, mas ignoro se a visão que me dá é atual ou remota.

Agitam-se em mim sentimentos inconciliáveis: encolerizo-me e enterneço-me; bato na mesa e tenho vontade de chorar.

Aparentemente estou sossegado: as mãos continuam cruzadas sobre a toalha e os dedos parecem de pedra. Entretanto ameaço Madalena com o punho. Esquisito.

Distingo no ramerrão da fazenda as mais insignificantes minudências. Maria das Dores, na cozinha, dá lições ao papagaio. Tubarão rosna acolá no jardim. O gado muge no estábulo.

O salão fica longe: para irmos lá temos de atravessar um corredor comprido. Apesar disso a palestra de Seu Ribeiro e Dona Glória é bastante clara. A dificuldade seria reproduzir o que eles dizem. É preciso admitir que estão conversando sem palavras.
Padilha assobia no alpendre. Onde andará Padilha? Se eu convencesse Madalena de que ela não tem razão ... Se lhe explicasse que é necessário vivermos em paz...
Não me entende. Não nos entendemos.

O que vai acontecer será muito diferente do que esperamos. Absurdo.

Há um grande silêncio. Estamos em julho. O nordeste não sopra e os sapos dormem. Quanto às corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E foram tapados os buracos de grilos.

Repito que tudo isso continua a azucrinar-me. O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me.

LEIA MAIS:
Grandes Patifes da Literatura (I) – Fernando Vidal Olmos
Grandes Patifes da Literatura (II) – Juan Pablo Castel

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domingo, 18 de dezembro de 2011

Grandes Patifes da Literatura (II) –
Juan Pablo Castel

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Comecei a série com Fernando Vidal Olmos, personagem de Ernesto Sabato. Prossigo com o argentino. Desta vez falo de Juan Pablo Castel, “o pintor que matou Maria Iribarne”, em O Túnel (1948).

Castel é o embrião de Vidal Olmos. Personagem obsessivo, que se move a partir de delírios (no caso, ciúmes, sentimento de posse), mas se abraçando a uma suposta racionalidade. Ambas as narrações são em primeira pessoa - o que reforça o tom de delírio dos relatos.

A repetição de Sabato nesta série mostra o quanto o escritor (1911-2011), morto este ano em Buenos Aires, tornou seus romances uma investigação sobre a alma humana.

Neste trecho (o capítulo 2 do livro), Castel mostra seu imenso ceticismo – e desespero:

“Como eu ia dizendo, meu nome é Juan Pablo Castel. Vocês poderão perguntar o que me leva a escrever a história do meu crime (não sei se já disse que vou relatar meu crime) e, sobretudo, a procurar um editor. Conheço bem a alma humana para prever que pensarão em vaidade. Pensem o que quiserem: não ligo a mínima; faz tempo que não ligo a mínima para a opinião e a justiça dos homens. Afinal, sou feito de carne, ossos, cabelo e unhas como qualquer outro homem e acharia muito injusto que exigissem de mim, logo de mim, qualidades especiais; às vezes nos julgamos super-homens, até percebermos que também somos mesquinhos, sujos e pérfidos. Da vaidade não digo nada: creio que ninguém está desprovido desse notável motor do Progresso Humano. Fazem-me rir esses senhores que falam da modéstia de Einstein ou de gente da laia; resposta: é fácil ser modesto quando se é célebre; quer dizer, parecer modesto. Mesmo quando se imagina que ela não existe em absoluto, surge de repente em sua forma mais sutil: a vaidade da modéstia. Quantas vezes esbarramos com esse tipo de indivíduo! Até um homem, real ou simbólico, como Cristo, pronunciou palavras sugeridas pela vaidade ou no mínimo pela soberba. Que dizer de León Bloy, que se defendia da acusação de soberba argumentando que passara a vida servindo a indivíduos que não lhe chegavam aos pés? A vaidade se encontra nos lugares mais inesperados: ao lado da bondade, da abnegação, da generosidade. Quando eu era pequeno e me desesperava em face da idéia de que a minha mãe haveria de morrer um dia (com o passar dos anos, vem-se a saber que a morte não só é suportável, como até reconfortante), não imaginava que ela pudesse ter defeitos. Agora que ela não existe, devo dizer que foi tão boa quanto um ser humano pode chegar a sê-lo. Mas recordo, de seus últimos anos, quando eu já era um homem, como de início era doloroso para mim descobrir sob suas melhores ações um sutilíssimo ingrediente de vaidade ou de orgulho. Algo muito mais ilustrativo aconteceu comigo mesmo quando ela foi operada de um câncer. Para chegar a tempo tive de viajar dois dias inteiros sem dormir. Quando cheguei ao lado de sua cama, seu rosto de cadáver conseguiu sorrir-me levemente, com ternura, e murmurou umas palavras de compadecimento (ela se compadecia  de meu cansaço!). E eu senti dentro de mim, obscuramente, o vaidoso orgulho de ter acudido tão rápido.

Confesso esse segredo para que vejam até que ponto não me julgo melhor que os outros. No entanto, não conto essa história por vaidade. Talvez estivesse disposto a aceitar que há uma dose de orgulho ou de soberba. Mas por que essa mania de querer encontrar explicação para todos os atos da vida? Quando comecei este relato, estava firmemente decidido a não dar explicações de nenhuma espécie. Tinha vontade de contar a história de meu crime e ponto: quem não gostasse, que não lesse. Mas duvido, pois essas pessoas que estão sempre atrás de explicações são justamente as mais curiosas, e acho que nenhuma delas perderia a oportunidade de ler a história de um crime até o final.

Eu poderia calar os motivos que me levaram a escrever estas páginas de confissão; mas, como não estou interessado em passar por excêntrico, direi a verdade, que de resto é bastante simples: pensei que elas poderiam ser lidas por muita gente, já que agora sou famoso; e, embora não tenha ilusões acerca da humanidade em geral, nem dos leitores destas páginas em particular, anima-me a tênue esperança de que alguma pessoa chegue a me entender: MESMO QUE SEJA UMA ÚNICA PESSOA.

“Por quê?”, poderá perguntar-se alguém, “apenas uma tênue esperança, se o manuscrito há de ser lido por tantas pessoas?” Esse é o gênero de perguntas que considero inúteis. E, não obstante, temos de prevê-las, porque as pessoas vivem fazendo perguntas inúteis, perguntas que o exame mais superficial revela desnecessárias. Posso falar até o cansaço e aos gritos para uma assembléia de cem mil russos: ninguém me entenderia. Percebem o que quero dizer?

Existiu uma pessoa que poderia me entender. Mas foi, justamente, a pessoa que matei”.

LEIA MAIS:
Grande Patifes da Literatura (I) - Fernando Vidal Olmos


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