sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sobre a morte de crianças indígenas, Luiza e a falta de assunto na internet

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Treze crianças indígenas morreram nos últimos dias no Acre, vítimas de diarreia, vômito e dores. A suspeita, rotavírus. Ainda não há diagnóstico. Elas eram dos povos Hui Nikui e Madjá, do Alto Purus. No ano passado, também em janeiro, oito crianças Xavante morreram após um surto de pneumonia, em um intervalo de 15 dias. Essas crianças não estavam no Canadá – estavam no Brasil. Um País que ainda violenta seus povos originários.

A referência ao Canadá não será entendida por quem leia este artigo daqui a alguns anos. Refiro-me à insuportável leveza que tomou conta da internet nos últimos dias, a partir de uma piada sobre uma tal de Luiza – que (apenas isso) viajou para o Canadá. Essa informação singela foi dita num comercial paraibano e se tornou mania nacional. Um assunto seríssimo, opinou hoje o jornalista Gilberto Dimenstein em sua coluna no UOL. Digno de estudos aprofundados.

Hoje, 20 de janeiro, é o Dia Nacional da Consciência Indígena – e merece uma reflexão de todos os brasileiros sobre a indiferença nacional diante das violações sistemáticas dos direitos dos povos indígenas. Crianças e adolescentes de diversas etnias são assassinadas, ou morrem por falta de assistência médica. Mas não se tornam – como a tal Luiza - um assunto viral nas redes sociais. Por quê?

Este é um vídeo divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário com notícia sobre as crianças do Acre:

A esse acontecimento somou-se outra notícia do Acre, publicada na segunda-feira pelo 
Blog da Amazônia, no portal Terra. A antropóloga Oira Bonilla - nesse espaço mantido pelo jornalista Altino Machado - contou que um falso pastor desapareceu com 13 índios da etnia Paumiri. Entre eles duas crianças e seis adolescentes.

Outra notícia (com um pouco mais de repercussão) foi dada em primeira mão, no início do ano, por blogs de Maranhão e de Brasília: a denúncia, por lideranças indígenas e pelo Cimi, de que uma criança da etnia Awá-Guajá, de 8 anos, foi morta – e queimada – por madeireiros no Maranhão.

Essas mortes não foram gravadas em vídeo, não chocaram como o espancamento do yorkshire em Goiânia. E não geraram “memes”, piadinhas na internet do mesmo nível da velha piadinha do pavê. (“É para ver ou...”) Talvez porque essas ondas sejam auto-referentes demais, uma espécie de Vídeo-Show do mundo virtual.

CONSCIÊNCIA EMBOTADA

Há no Brasil um embotamento da consciência, após anos de decepção com os governos de PT e PSDB – esses que deveriam ter resgatado dívidas brasileiras históricas. A dívida em relação a 511 anos de invasão dos territórios indígenas ainda não começou a ser paga. Em meio à falta de alternativas políticas (e a esse emburrecedor Fla-Flu político) multiplicam-se as fugas – quando não as conivências.

Enquanto isso, algumas de nossas 210 nações indígenas seguem sendo dizimadas. No Maranhão, baixaram de 280 mil, no fim do século 19, para 25 mil pessoas, atualmente. Mas o assunto, no início de 2012, é a sorridente Luiza – “que já voltou do Canadá”.

Índios bebendo água com barro no Rio Xingu, por conta da Usina de Belo Monte? Um presidente da Funai omisso? O ministro da Justiça preocupado em impedir a entrada de haitianos no Acre? Não: melhor compartilharmos mais uma piadinha no nosso Facebook.

Diante da crise recente na USP, Gilberto Dimenstein chamou os alunos ativistas de “delinquentes mimados”. Tudo porque tinham ocupado a reitoria, em protesto contra a violência da PM no campus. O mesmo jornalista não escreveu ainda, nos últimos tempos, sobre matança de indígenas. Ele, que já foi “especialista” em infância e em educação, sugere que seja estudada a repercussão desse “efeito Luiza”.

Penso que seria melhor estudar a indiferença nacional diante de crianças mortas por diarreia. Ou assassinadas por madeireiros – não podemos nos esquecer que, em 2009, outra criança Awá-Guajá recebeu um tiro na nuca, numa região que a Funai insiste em ignorar. Em 2009 outras dez crianças indígenas foram assassinadas no Brasil.

O PAPEL DO GOVERNO

Mais fácil pensar em pesquisas banais que cobrar ações políticas – de todos os governos de todas as origens partidárias. Diante da situação dos povos indígenas, por exemplo, o que está fazendo exatamente o governo federal? Vamos discutir isso na internet? Ou somente mudanças nas leis americanas?

Segundo o Cimi, em dezembro, apenas 33% dos recursos federais para a proteção de povos indígenas, em 2011, tinha sido gasta. Os gastos com saúde indígena chegaram, no ano passado, a apenas 64% da verba prevista.

Qualquer relação desses números com as mortes daquelas crianças será mera coincidência?

Esse é o Brasil real, que emerge acima dos “memes” e do Big Brother - e que os nossos políticos sempre insistiram em ignorar. É o Brasil da expulsão de sem-teto (em São Paulo e em São José dos Campos), da tortura na Cracolândia, das violências policiais admitidas como algo normal.

Dia a dia, porém, post após post, os representantes mais ilustres da sociedade brasileira (estudantes, jornalistas, advogados, médicos, engenheiros, atores, cineastas) têm chegado ao mesmo nível de consciência daqueles ilustres políticos – praticando, nas redes sociais, a sua dose diária de escárnio.

Estarei exagerando? Sendo por demais enfático? Sinto muito: no Dia Nacional da Consciência Indígena as palavras não poderiam ser mais simpáticas ou conciliadoras. Pois, do Canadá à Cracolândia, do Acre a São José dos Campos, dos gabinetes de Brasília à nossa escolha diária de temas nas redes sociais, o verbo a ser utilizado é esse mesmo: escarnecer.

LEIA MAIS:
Como foi a matança de indígenas em 2011
A violação sistemática dos direitos indígenas
Governo só gastou 33% dos recursos para proteção dos indígenas
Cimi diz que criança de 8 anos foi queimada por madeireiros no MA

Em carta, indígenas denunciam água barrenta no Xingu

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7 comentários:

Mariana Congo disse...

Gostei muito da reflexão.
Só queria comentar que as redes sociais virtuais apenas reproduzem a dinâmica que existe entre as pessoas nas redes sociais físicas, do "mundo real". A diferença é: tudo o que é dito na internet é ampliado e mais facilmente propagado. Digo isso porque não é de hoje - e não é porque estamos conectados via internet - que assuntos banais ganham mais atenção do os problemas crônicos brasileiros.
Some a esse ponto o fato de a atrocidade de uma pessoa matar um yorkshire é capaz de sensibilizar mais pessoas do que as atrocidades das mortes de crianças indígenas. A vida de um cãozinho doméstico está mais próxima da realidade da maior parte dos brasileiros - e por isso os sensibiliza mais - do que a "distante" realidade indígena amazônica.

Santa Luz FM disse...
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Santa Luz FM disse...

Meu caro ALCEU LUÍS CASTILHO.
Saúde e paz ao amigo!
Acabo de ler aqui o seu texto intitulado: Sobre a morte de crianças indígenas, Luiza e a falta de assunto na internet.
Sinceramente quero aqui concordar com todas as frases e palavras colocadas e digo mais, este país em que prevalece o autoritarismo, camuflado em uma democracia aliada à falsa liberdade de expressão usada em forma de libertinagem pelas latifundiárias das comunicações que culmina e desemboca na indecência, onde moram a pornografia, a baixaria, a corrupção, a falta de respeito aos valores éticos, morais e familiares, onde a educação e a saúde é sempre posta em ultimo plano, infelizmente não me espanta ver o que acontece com nossos irmãos indígenas, as barbáries que fazem com eles.
Sinceramente a cada dia me sinto mais torturado psicologicamente ao ver tantas misérias neste país. Enquanto se fala de crescimento do PIB, da exaltação que fazem a ele, esquecem das centenas de milhares de famílias que vivem à margem. Violentadas nas filas do SUS, digo violentadas, porque ninguém pede para ficar doente, muito menos o dia em que quer ficar doente. Assim, não há como esperar muitas vezes um ano para ser atendido, muitas vezes dormindo noites e noites ao relento em filas hospitalares para poder garantir uma ficha para ser atendido ou marcar um exame. Será que eles, os políticos esperariam?
Meu amigo Aleceu. De um Brasil em que o político claramente passa a mão no dinheiro publico e se torna elegível imediatamente, não dá para se esperar muita coisa se não for a miséria, a fome, a chacina, e todos os tipos de violência...
De um país onde existem até auxilio paletó para parlamentares o que mais podemos esperar? De um país em que a pornografia está escancarada nas telinhas, aliada ao incentivo ao alcoolismo e etc... etc... O que mais podemos esperar?
Enquanto isso, a nação e nossos irmãos indígenas são assassinados brutalmente, sem nenhum tipo de prioridade que lhe traga algum beneficio. Aliás, prioridade neste país é para o beneficio de políticos, meia dúzia de coronéis das comunicações, latifundiários de terras, empresários... etc...
Meu caro por fim, em um país onde a educação nunca foi prioridade, onde a alienação prevalece pelo amplo domínio global e hoje também crescente pela outra que é do Pastor, o que podemos dizer? Um é o BBB o outro é FAZENDA? Ambas dominam e manipulam. Por outro lado, a pornografia fonográfica através da musica, ou da coreografia, estão a cada dia mais explicitas o que podemos esperar desse país?
Mas meu amigo, eu acredito que um dos passos a serem dados para de repente poder se pagar essa dívida que você fala indignado e de maneira categórica, primeiro é varrer a lama do Congresso, da Câmara, do Judiciário, das Policias e dos escalões de todas as esferas políticas deste país, ou seja, fazer uma faxina ampla e geral e ainda usar muito desinfetante, pois a lama lá é podre e do jeito que está não dar para sonharmos em um rumo melhor.
Concluindo eu deixo aqui, um soneto que ousei certa ocasião rabiscar, talvez ele sirva para alimentar a nossa indignação neste dia 20 de Janeiro e quem sabe “10 pessoas” verão esse texto?


O órfão

Oh! Filho da grande maldade,
Agonizante no meio da corrupção,
Vivendo à margem da proteção,
No meio de falcatruas e indignidade...

Filho de uma... maldita desigualdade,
“Brasil”... “zona de prostituição”,
Não lhe permitem que seja um Cidadão,
Pois é fruto desta sórdida sociedade.

Filho da avassaladora perversidade,
De uma inescrupulosa realidade,
Que de ninguém tem compaixão...

Filho das noites, dos bordeis... da escuridão...
Do alucinógeno, do estupro e da indignação,
Quando tu serás tratado com dignidade?


Edisvânio Nascimento
Santa Luz, 07 de Setembro de 2001. Às 06 horas e 13 minutos da manhã.


Forte abraço do seu amigo,

Edisvânio Nascimento
Radialista e poeta.
Estudante do Curso de Comunicação Social em Rádio e TV pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB.

Alceu Castilho, jornalista. disse...

Mariana,

sem dúvida. Mas um ponto importante do artigo é a crítica específica a setores da sociedade que têm uma responsabilidade maior - por serem supostamente mais bem informados.

No post abaixo escrevi sobre yorkshire e (também) indiferença: http://alceucastilho.blogspot.com/2011/12/indignacao-e-barbarie-as-mortes-de.html

att,
Alceu Castilho

Alceu Castilho, jornalista. disse...

salve, Edisvânio,

fico feliz em ver que meu esforço indignado foi, de algum modo, dialogar com suas inspirações poéticas.

É um longo caminho, sem dúvida.

Agradeço a divulgação.

abraço!
Alceu Castilho

Joel Rios Neto disse...
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Joel Rios Neto disse...

Cada dia mais, me pergunto até qdo viveremos numa sociedade injusta, tentamos transformar de algum modo suas condutas, e, parece que remamos contra a maré das pessoas sem educação, usuários de sites de relacionamentos que propaga um mundo sem valor, sem concepção, sem noção!
Políticos corruptos, pessoas mal intencionadas, cultura de massa: resumo de um contexto social emergente.