Quem matou MC Daleste? (Uma reflexão sobre polícia, cultura, periferias e violência.)
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Uma estrela do funk, MC Daleste, morreu baleada durante show em Campinas, no sábado. Enquanto falava de um enquadro policial. Ou seja, de uma batida ostensiva, de um baculejo, tão comum nas periferias. Aquelas abordagens truculentas que atingem os mais pobres, preferencialmente os negros. Marcados diariamente pela humilhação e pela ameaça.
Cortemos agora para uma música do MC Daleste, "Apologia". Sobre a rotina de um assaltante: Frase-chave: "Fala pra nois quem é o poder/ matar os polícia é a nossa meta".
Leio no Correio da Bahia que, em um dos posts sobre a morte do músico no Facebook, alguém comemora sua morte e transcreve um trecho dessa letra. O comentário tinha recebido 200 "curtidas". Como? Duzentas pessoas comemoraram a execução do artista por ele ter escrito música contra a polícia? (E nem estamos aqui a falar dos outros milhares de bárbaros que comemoraram a morte porque ele era funkeiro.)
Basta ler os comentários nessa página da música, no portal Terra, para ver mais gente celebrando o que consideram uma vingança. Por exemplo: “Um tiro foi pouco, esse tá lá no inferno vendo milhares rindo da morte dele”. Ou então: “Eu vou ser policial. Quer matar polícia? Se fudeu, peba. Bandido bom é bandido morto”. E assim por diante.
Isso significa que foi alguém ligado à polícia, ou dela um defensor cego, que efetuou o disparo? Não é possível afirmar isso. Pode até ter sido alguém se aproveitando desse contexto, para disfarçar um crime comum. Pode ter sido qualquer assassino, qualquer covarde. Mas é possível afirmar – e lamentar – que a hipótese de ação de um grupo de extermínio seja perfeitamente verossímil.
(Os jornais cariocas, curiosamente, exploraram mais o detalhe do enquadro policial, instantes antes de MC Daleste ser baleado, que os paulistas.)
Não se trata aqui – e muito longe disso - de defender esta ou aquela letra. Será sempre injustificável, numa sociedade minimamente sadia, a defesa de crime contra a vida. Se dissesse isso numa entrevista (e um jornalista sério perguntaria a ele se concordava com a letra), seria processado. Numa letra? Um tema para pessoas especializadas, juristas. Mas também para sociólogos.
O fato é que, mesmo sendo considerada uma apologia ao crime, a solução mais absurda para defensores da vida de policiais (e todos os defensores de direitos humanos o são) seria a execução do letrista. Solução paradoxal, inclusive, por se tratar de outro crime. Que só gerará mais violência. Mas a realidade das periferias é assim: absurda e violentíssima.
Existe pena de morte em São Paulo? E com a assinatura de policiais? Claro que existe. E não só em SP: vide a recente chacina na Maré, no Rio, minimizada pela imprensa brasileira. (Leiam Eliane Brum: “Também somos o chumbo das balas”.) O jornalista Caco Barcelllos denunciou os grupos de extermínio lá atrás, no livro “Rota 66” - e mesmo assim foi hostilizado, durante os protestos de junho, por manifestantes desinformados.
O caso de MC Daleste é a primeira execução de um letrista revoltado com a polícia? Não, não é o primeiro caso. Vejamos este título do R7, de 2012: “Sobe para seis o número de funkeiros mortos na Baixada Santista”. Estamos diante de um extermínio específico?
Curiosamente, leio que MC Daleste estava preferindo o "funk ostentação", que deixou de lado letras sociais para dar lugar a temas como grifes, roupas de marca, carros de luxo, bebidas, dinheiro e mulheres. Aos 20 anos, estava ganhando muito dinheiro.
Talvez o músico optasse por nem falar mais do cotidiano humilhante na periferia? Talvez. Mas também isso fica agora apenas como hipótese. O fato é que, ao menos durante os shows, ele ainda cantava as músicas de protesto.
Há cinco anos, na Folha de S. Paulo, o apresentador Luciano Huck (distraído em relação a crimes ambientais) ocupou espaço para reclamar de um roubo. Levaram seu Rolex. O escritor Ferréz escreveu um texto ficcional, onde o narrador (o assaltante) dizia que, no fim das contas, todos saíram ganhando: “O assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio”.
Ferréz foi processado. E ficou abalado com a reação judicial a uma peça de ficção. Achou que, com esse recurso, sua liberdade de expressão seria preservada. Longe disso.
Esses episódios, somados, entre fatos e possibilidades, mostram que a fronteira entre ficção e realidade (em uma civilização, desejável) não existe em São Paulo. Nem aos olhos da Justiça, nem nas ruas.
A cultura de massas, obviamente, reflete a cultura vivida. Se esta é composta por assaltantes, traficantes, e por uma polícia covarde e assassina, como fugir disso? Terão os artistas da periferia de falar apenas de roupas de marca e mulheres?
Hoje se matará porque um músico fez apologia a algum crime. O que já será um sintoma de nossa barbárie intrínseca, disfarçada de defesa da legalidade. Amanhã se matará por qualquer letra. Por um músico denunciar – legitimamente – um baculejo. Ou a humilhação, a opressão, a desigualdade. É como dizia John Lennon (branco e rico), baleado em 1980: “Do jeito que as coisas vão, eles vão me crucificar”.
Crucificar artistas é mais fácil que discutir e combater a violência.
E por isso assusta o silêncio dos jornalistas e dos músicos em relação a MC Daleste. Ou à morte sistemática de funkeiros. O silêncio de todos aqueles músicos (brancos e negros) que lutaram contra a ditadura. Dos jornalistas que veem colegas serem mortos ou exilados por fazer reportagens sobre violência policial.
Parece que estão achando que não é com eles.
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jornalismo, geografia, literatura, cinema. Utopia, resistência. 'Indignem-se!' (Stéphane Hessel). 'Nem tudo é sórdido' (Ernesto Sabato - 1911-2011)
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segunda-feira, 8 de julho de 2013
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Estudante protesta contra Alckmin na Grande SP, toma batida e é fichado
Diante de uma visita do governador Geraldo Alckmin (PSDB) a Francisco Morato, na Grande São Paulo, o estudante Fernando Cardoso Pereira, de 22 anos, decidiu protestar, nesta quarta-feira, contra a agressão sofrida anteontem pelo aluno da USP Nicolas Menezes Barreto, na sede do DCE Ocupado.
Morador da cidade, ele levou um cartaz ao evento onde estava o governador. O cartaz dizia:
- Fora Rodas! Fora PM! Exonerem o PM racista da USP.
Fernando ergueu ao lado do palco onde estavam o governador e prefeitos. Mas ele contou, em depoimento ao Jornal da USP Livre, ter sido prontamente reprimido:
- Assim que o levantei na frente do governador, um segurança do evento pôs a mão em mim e disse para que eu saísse, “para que não estragasse a festa”. Eu disse que não fiz nada de errado, não agredi ninguém, era uma manifestação política. O vereador Capá (PT), que estava próximo, interveio e o segurança me deixou.
Uma jornalista perguntou sobre o episódio de segunda-feira na USP – apontado pelo próprio Nicolas como racista. Alckmin disse que os PMs estão preparados para lidar com os estudantes. E que o sargento André – o agressor da segunda-feira – faz parte de uma minoria de 0,1% dos policiais.
Fernando conta ao blog que somente ergueu o cartaz. "Não podem alegar que provoquei distúrbio", diz. "Tanto é que não fizeram nada comigo lá. Foram fazer depois, a um quarteirão de distância".
É que, encerrado o evento, Alckmin foi visitar uma escola. Fernando seguiu por uma quadra e parou para conversar com dois amigos, na Praça do Coreto. Enquanto relatava o episódio da segunda-feira, os três foram abordados por policiais:
- Enquanto eu falava isso na esquina com meus amigos, os “hômi” chegaram, tirando a pistola da cintura e apontando para mim. Foram educados. Um deles ordenou que eu me encostasse na parede, me revistou, revistou todos os bolsinhos da minha bolsa. Perguntou se eu trabalhava, disse que sou estudante. “Vai querer a carteirinha também?”, perguntei.
Segundo Fernando, o policial perguntou se ele tinha problemas com a lei. Ele respondeu que era estudante - passou no vestibular de Filosofia da USP em 2011, mas não se matriculou, acaba de ser aprovado em Direito na UFRJ - e estava só portando livros.
- Tirei um monte de livros e revistas da bolsa. O PM me abordou por uns dez minutos. Pegou meu RG e fez uma anotação em uma caderneta com meu RG, nome de meu pai, mãe e endereço. Perguntei ao PM qual o teor da anotação. Disse que era o procedimento padrão. Era para que as pessoas que me viram tenham certeza que ele me abordou e que eu fui liberado. E “que não aconteceu nada contigo”.
Fernando diz que não sabe para que pode servir esse cadastro. "Pode ter sido só para intimidar, mas acho pouco plausível. Não duvido que tenham incluído meu nome em algum cadastro ilegal".
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
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Fernando ergueu ao lado do palco onde estavam o governador e prefeitos. Mas ele contou, em depoimento ao Jornal da USP Livre, ter sido prontamente reprimido:
- Assim que o levantei na frente do governador, um segurança do evento pôs a mão em mim e disse para que eu saísse, “para que não estragasse a festa”. Eu disse que não fiz nada de errado, não agredi ninguém, era uma manifestação política. O vereador Capá (PT), que estava próximo, interveio e o segurança me deixou.
Uma jornalista perguntou sobre o episódio de segunda-feira na USP – apontado pelo próprio Nicolas como racista. Alckmin disse que os PMs estão preparados para lidar com os estudantes. E que o sargento André – o agressor da segunda-feira – faz parte de uma minoria de 0,1% dos policiais.
Fernando conta ao blog que somente ergueu o cartaz. "Não podem alegar que provoquei distúrbio", diz. "Tanto é que não fizeram nada comigo lá. Foram fazer depois, a um quarteirão de distância".
É que, encerrado o evento, Alckmin foi visitar uma escola. Fernando seguiu por uma quadra e parou para conversar com dois amigos, na Praça do Coreto. Enquanto relatava o episódio da segunda-feira, os três foram abordados por policiais:
- Enquanto eu falava isso na esquina com meus amigos, os “hômi” chegaram, tirando a pistola da cintura e apontando para mim. Foram educados. Um deles ordenou que eu me encostasse na parede, me revistou, revistou todos os bolsinhos da minha bolsa. Perguntou se eu trabalhava, disse que sou estudante. “Vai querer a carteirinha também?”, perguntei.
Segundo Fernando, o policial perguntou se ele tinha problemas com a lei. Ele respondeu que era estudante - passou no vestibular de Filosofia da USP em 2011, mas não se matriculou, acaba de ser aprovado em Direito na UFRJ - e estava só portando livros.
- Tirei um monte de livros e revistas da bolsa. O PM me abordou por uns dez minutos. Pegou meu RG e fez uma anotação em uma caderneta com meu RG, nome de meu pai, mãe e endereço. Perguntei ao PM qual o teor da anotação. Disse que era o procedimento padrão. Era para que as pessoas que me viram tenham certeza que ele me abordou e que eu fui liberado. E “que não aconteceu nada contigo”.
Fernando diz que não sabe para que pode servir esse cadastro. "Pode ter sido só para intimidar, mas acho pouco plausível. Não duvido que tenham incluído meu nome em algum cadastro ilegal".
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