Portais transformam vítima de agressão na USP em “suposto” estudante
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O portal UOL divulgou a notícia da agressão ao aluno de Ciências da Natureza da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) com o seguinte título, no meio da tarde de ontem: “Vídeo mostra policial militar agredindo suposto estudante da USP”.
“Suposto”. Por enquanto guardemos esta palavra. “Suposto estudante”. O que ela significa, nesse caso?
Por ora avancemos. Pois outro portal de notícias importante, o G1 (de um dos grupos, ao lado da Folha de S. Paulo, que controla o UOL), seguiu na mesma linha ao definir Nicolas Menezes Barreto - sem nomeá-lo - como “um homem”. Ou um “jovem”. Os termos foram utilizados no texto, no título e na outra chamada principal da notícia.
Entre os três grandes formadores de opinião, foi o portal Estadão o mais preciso. Chamou Nicolas - vejam só - pelo nome e sobrenome. E o classificou como ele é – um estudante.
Tivessem os jornalistas olhado para a carteirinha que ele exibiu às câmeras, e feito uma apuração básica, todos os leitores saberiam que Nicolas era mesmo Nicolas - e também músico. Os que conseguiram entrevistá-lo sabemos ainda que ele é professor de Ciências na rede municipal – e de sua renda depende também sua família.
Ao definirem Nicolas como um “suposto” estudante, os portais de notícias embarcaram numa grande teoria da conspiração montada na reitoria da USP, numa espetacular paranoia do reitor João Grandino Rodas – o mesmo que se revelou tão pouco rígido, nas investigações da Comissão de Mortos e Desaparecidos, em relação a punir torturadores.
Por essa teoria bancada pela reitoria, os ocupantes da antiga sede do DCE Livre, onde Nicolas foi espancado e teve uma arma apontada para si, não eram... não eram estudantes. Eram apenas “supostos” estudantes. “Homens”, “rapazes”, sem vínculo com a Cidade Universitária.
Aqui precisa ficar claro que caberia exatamente a esse detalhe (a condição de não estudantes) a função de tornar legítima qualquer tensão adicional na USP, nestes primeiros dias do ano. Isto, claro, aos olhos punitivos de Rodas - e da polícia truculenta do governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Estamos aqui falando também de uma complacência da sociedade com certas violências. Pois não lemos diariamente na internet legiões de paulistas defendendo uns “corretivos” em estudantes que ousam fazer outras coisas que não estudar - como política estudantil? Uma palmadinha aqui, uma torturazinha ali – mas longe das câmeras, por favor!
Alguém pode até ter pensado: “De quem foi essa ideia de se comportar de forma tão destemperada, sabendo que estavam sendo filmados?”
Mas voltemos aos "supostos". No Estadão, lemos que os ocupantes do Centro de Vivência – um espaço em disputa entre estudantes e reitoria - eram, todos eles, “punks”. Sim, punks ocupando um prédio da USP. Isto foi escrito no jornal no dia 5 de janeiro. Mais precisamente, “um grupo de punks anarquistas e antifascistas” – conforme reportagem assinada por dois jornalistas do grupo.
AS PERIGOSAS BITUCAS
Esses punks estariam lá no lugar de estudantes, que, segundo o jornal, saíram de lá no ano passado. O relato chega a apontar no chão “bitucas de cigarro jogadas pelo chão e uma ampola de cocaína”. Como as bitucas ainda não são um problema de segurança pública, parece-me que a descrição preocupa-se com existência de... “drogados”. Drogados! Mais até do que os “maconheiros” que os postantes de internet tanto adoram associar à USP. E, portanto, qualquer semelhança com a repressão na Cracolândia terá sido mera coincidência?
Todo o texto do Estadão estava nesse contexto – de descrever aqueles homens como usurpadores do espaço universitário. E a reportagem foi publicada quando? Na quinta-feira, dia 5. Ou seja, ela precedeu em um dia (exatamente em um dia) a primeira desocupação do Centro de Vivência, o DCE Ocupado. Precisamente na sexta-feira a Guarda Universitária lá esteve. E com truculência – comparável à da polícia de Alckmin.
Uma das fotos divulgadas pelos estudantes mostra (entre várias pessoas que, sim, estudam na USP) uma gestante tentando sair do local – sem conseguir. Ela é estudante de Matemática na USP. E negra. O portão de ferro, baixado pelos guardas, machucou suas costas.
A pergunta ingênua que nos fica é: a sociedade paulistana – essa que se mostra tão complacente com “corretivos” - se importaria com umas pancadas a mais ou a menos em “punks”? “Drogados”? “Homens” não vinculados a uma instituição de ensino universitário - e não os seus futuros professores, geógrafos, filósofos etc?
Infelizmente eu imagino que não - diante do vasto analfabetismo social em relação a direitos humanos. Claro, estamos aqui no terreno das suposições. O que teria acontecido se um sargento truculento tivesse batido num punk – e não num estudante. Mas ao menos isto me ajuda a voltar à palavra “suposto” – como quis o UOL.
Terá sido por coincidência, então, que esse sargento escolheu (entre várias pessoas presentes), para enfrentar, não o corinthiano bem nutrido ao lado, não a bela moça que estava por ali? Não. O valente sargento mapeou o local e escolheu o rastafari. Um suposto estranho no ninho: um jovem homem negro.
E foi lá desferir suas bordoadas em Nicolas, o franzino. Diante da evidência de que ele era – e é – estudante da USP, o policial conseguiu ficar ainda mais transtornado do que já estava. Começou a andar de lá para cá. A turma de policiais militares na Cidade Universitária seguiu à mercê de seu comando instável. Ele sabia que falhara em sua missão.
No meio da tarde de ontem, a cúpula da Polícia Militar foi rápida: puniu o sargento. Tirou-o imediatamente das ruas. Não, a Secretaria de Segurança Pública não se importou em investigar os mandantes (mas quem são mesmo eles nas ações do governo estadual, não é mesmo) da operação. Não se importou com a farsa bancada por João Rodas. Não questionou os jornais que legitimaram a invasão do DCE Ocupado - sem mandado judicial.
Sobrou para André, o sargento frenético.
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terça-feira, 10 de janeiro de 2012
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Sobre o Estadão, João
Rodas e José Sarney – da USP ao Maranhão
por ALCEU LUÍS
CASTILHO (@alceucastilho)
Trabalhei por muitos
anos no Estadão. Não é o pior dos veículos conservadores deste
País. Consegue até obter algum respeito de setores de esquerda, por
conseguir ser mais honesto (segundo esses setores, MST inclusive) que
jornais como a Folha (que seria mais hipócrita) e veículos como a
Veja – este, quase hoje por aclamação entre os mais bem
informados, o grande detrito editorial do Brasil.
Mas o editorial desta quarta-feira do jornal, aliado a um artigo do editorialista José Nêumanne, motivam um sinal de alerta em relação à linha adotada pelo jornal paulista. Atenção, senhores editorialistas, senhora Marcia Guerreiro (minha colega de Facebook): vocês têm tanta certeza assim de que João Grandino Rodas está do lado da democracia?
E de que somente a
“extrema esquerda” esteja questionando modelos militarizados de
polícia, repressões e abusos não somente na Cidade Universitária,
mas em todo o País?
O Estadão ajudou a
fundar a USP. Como uma universidade, aliás, a serviço das elites.
Quem já deixou isso claro foi nada menos que o historiador Fernand
Braudel – da missão francesa que veio legitimar a Universidade de
São Paulo. Somente com o tempo a universidade abrigaria (e de fato
abriga) representantes de classes mais baixas (mas nunca na chefia da
reitoria).
Talvez por esse vínculo
afetivo com a USP o jornal esteja avançando o sinal em relação a
Rodas, o reitor biônico. Seria uma posição ingênua do vetusto e
centenário jornal? Vejamos.
O Estadão, que
rejeitou o acirramento da repressão durante a ditadura militar,
talvez possa lembrar que o reitor da USP deveria ser o senhor
Glaucius Oliva, atual presidente do CNPq. Pois João Rodas foi apenas
o segundo mais votado pela comunidade acadêmica. O governador José
Serra escolheu o segundo colocado– e aqui nem estou falando de
eleições diretas, hoje inexistentes.
O Estadão coloca-se
como vítima do regime militar – o de 1967, não o de 1964. E foi.
Coloca-se também como censurado – está desde o dia 31 de julho de
2009 sem poder publicar informações sobre a Operação Boi Barrica,
que investiga a família do senador José Sarney (PMDB-AP). E, de
fato, o jornal está sendo censurado – merece, nesse aspecto, o
apoio incondicional de todas as forças democráticas do País.
Pois, caros
editorialistas, o senhor João Grandino Rodas nada fica devendo ao
senhor José Ribamar Ferreira da Costa Araújo - o Sarney. João e
José, José e João, ambos estiveram do lado da ditadura militar que
vocês combateram. O Estadão chegou a publicar receitas de bolo nos
jornais para indicar que os militares praticavam censura. Mas Rodas e
Sarney, Sarney e Rodas, família Mesquita, possuem a mesmíssima
matriz: eles mandam no Maranhão e na USP como se fossem os quintais
de suas casas. Sem consultar ninguém.
Todos sabem que Sarney era da Arena. Mas poucos sabem que Rodas votou contra as vítimas da ditadura. Confiram nesta reportagem publicada no jornal Brasil de Fato.
Todos sabem que Sarney era da Arena. Mas poucos sabem que Rodas votou contra as vítimas da ditadura. Confiram nesta reportagem publicada no jornal Brasil de Fato.
A USP está se tornando
um Maranhão. Por lá, no Estado com quatro senadores, a legalidade é
mandada às favas, na medida em que até a toponímia local se dá à
margem das leis brasileiras. E dá-lhe Ponte José Sarney, Tribunal
de Contas Roseana Sarney, Forum Trabalhista José Sarney, e assim por
diante. São homenagens (eleitoreiras, aliás) a pessoas vivas –
algo vedado pela legislação brasileira. Mas vá ao Maranhão
protestar contra eventuais abusos de poder para ver se os principais
jornais locais vão publicar.
Na Cidade
Universitária, policiais entraram (antes mesmo do convênio assinado
por Rodas, antes mesmo da morte do aluno da FEA) para reprimir
estudantes – e até mesmo funcionários e professores, os netos de
Braudel e Lévi-Strauss, os filhos de Florestan Fernandes e Fernando
Henrique Cardoso.
Até este jornalista (não exatamente de extrema esquerda) foi abordado de forma humilhante, em frente da FEA, uma semana após o assassinato do estudante de Ciências Contábeis. “Mãos à cabeça. Você tem entorpecente no carro? Não? Mas... usa entorpecente?” Apontaram uma arma para o bandido imaginário que estava no meu porta-malas e olharam (de forma curiosamente paranoica) para um corretivo de pele que eu levava a uma amiga. “Mãos à cabeça! Abre as pernas!”
Somente o Doutor
Pangloss e Cândido podem acreditar que essa polícia estava e está
no campus para proteger a comunidade, não é mesmo? Preciso aqui
mencionar também Pollyanna e a Velhinha de Taubaté (personagem do
articulista Luis Fernando Verissimo), para as referências a Voltaire
não ficarem muito elitistas?
Que o senhor José Nêumanne Pinto seja conservador não temos a menor dúvida. Mas,
caro Nêumanne, comparar os estudantes que ocuparam a reitoria a
bandidos... perdeu a noção, senhor jornalista? Que tal tirar o
risinho do canto da boca e invocar algum espírito de medida (esse
que tanto atribuem aos franceses). Está com inveja do Reinaldo
Azevedo e do Diogo Mainardi, José Nêumanne? Você é mais
inteligente que isso – e pode ser melhor.
Os estudantes que se
proclamam “presos políticos”, senhor editorialista, não estavam
assaltando bancos. Nem traficando drogas. Ou estuprando, achacando,
subornando. Estavam utilizando um recurso (aprove-se ou não,
equivocado ou não) eminentemente político. Ou vocês não sabem que
sem ocupações não teríamos tido nem esse arremedo de reforma
agrária que tivemos no Brasil? Discordem, tomem as posições políticas –
mas com o mínimo de honestidade, é pedir demais?
Se for esse País
policialesco que desejam, jornalistas e donos do Estadão, digam.
Assumam. Mas não somente em relação à USP (onde talvez um de seus
filhos e netos ainda venha a estudar), mas para o País inteiro.
Sabendo, porém, exatamente que serpente estão criando. De Boa Vista
à Avenida Paulista.
O próprio jornal já
sofreu e sofre isso na pele. E, como possui pretensões políticas um
tanto mais refinadas, espero sinceramente que não queiram fazer o
mesmo tipo de jornalismo que O Estado do Maranhão – ou demais
veículos da família Sarney.
Vale lembrar, conforme notícia do portal Brasil 247, o que o promotor Valter Foleto Santin, do Ministério Público Estadual, abriu, em relação a João Rodas, o Inquérito Civil 088/2011, pela Promotoria do Patrimônio Público e Social. Ele é investigado por: “Violação aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, burla ao acesso de cargo mediante concurso público, lesão aos cofres públicos e improbidade administrativa”.
Ainda nesta
terça-feira, João Rodas começou a demolir os prédios que abrigam
o Núcleo de Consciência Negra – em um país onde o homicídio de
negros cresceu 23,4% nos últimos oito anos. (Que tal um editorial
sobre isso?)
José Sarney está lá,
onde sempre esteve.
João e José estão a postos. E não estão para brincadeira.
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Ela tem um filho de 2 meses; foi expulsa da USP e da moradia
Amanda e Salvio conheceram-se no movimento estudantil. Ambos
estudam Filosofia na Universidade de São Paulo e moram no Crusp (Conjunto
Residencial da USP). No dia 24 de outubro, nasceu o primeiro filho do casal.
Dois dias depois, ela recebeu uma carta, da Coordenadoria de Assistência Social
(Coseas) da universidade: informando que não poderia continuar na moradia.
Quase dois meses depois, na última sexta-feira, nova informação: Amanda está
entre os seis expulsos pelo reitor João Grandino Rodas.
Com um filho no colo, entre uma e outra amamentação, ela
tenta ainda assimilar o que está acontecendo. “Decidi não me estressar
pessoalmente, por causa do meu filho”, disse ontem ao blog, logo após um ato
dos estudantes contra as expulsões, em frente da reitoria. “Até para continuar
no movimento estudantil, dando de mamar. Agora me vejo em duas frentes de luta –
no movimento e com meu filho”.
Amanda Freire é uma das três estudantes expulsas, a uma
semana do Natal, ao lado de Jéssica Trinca (da Letras) e Aline Camoles (Artes
Cênicas). A lista é completada por Bruno Belém (Artes Plásticas), Marcus Dunne
(Letras) e Yves Souzedo (Geografia). Eles foram acusados de ocupar o espaço do Serviço Social
da Divisão de Promoção Social da Coseas, no bloco G. O decreto da reitoria fala
em “eliminação do corpo discente” – eles não podem mais voltar à universidade
nem nela trabalhar. Cabe recurso, que deve ser movido ainda hoje pelos
advogados.
“Recebi a notícia de que não poderia ficar na moradia das
mãos de um agente de segurança da USP, dois dias após o nascimento do meu filho”,
conta Amanda, de 29 anos. Era uma carta da Coordenadoria de Assistência Social. “Normalmente
nos chamam para conversar na Coseas, desta vez mandaram um agente, sem
privacidade. Mandaram as mesmas pessoas que nos vigiam e perseguem, com uma
carta praticamente aberta, num plastiquinho”. Ele disse apenas uma frase: “Assine
aqui”.
Salvio observa que a
Assistência Social da USP deveria prever um tratamento melhor a uma mãe. “É uma
contradição, justo na maior universidade pública do Brasil”. Ele demonstra uma
serenidade em relação aos últimos acontecimentos. Amanda fez um discurso
indignado, contra o que considera um “cerco” do PSDB na universidade, e estava
particularmente azarada – recebeu duas picadas de formiga no pé, enquanto dava
a entrevista, e teve de entregar o bebê ao companheiro diante da dor. “Se a
polícia está batendo aqui, imagina lá fora”, discursou.
Em entrevista à Folha, publicada nesta terça-feira, Amanda afirma que nem estava na ocupação do espaço da Coseas. E que seu nome foi incluído por questões políticas.
Em entrevista à Folha, publicada nesta terça-feira, Amanda afirma que nem estava na ocupação do espaço da Coseas. E que seu nome foi incluído por questões políticas.
A família dela é de São Mateus, na zona leste de São Paulo. Ela teve dificuldade de
tocar o curso nos dois primeiros anos, diante da distância. Só então conseguiu
uma vaga no Crusp. Ela e Aline foram diretoras da Amorcrusp, a Associação dos
Moradores do Conjunto Residencial, em uma gestão de esquerda. A ocupação da
atual Moradia Retomada, em março de 2010, foi o episódio que deu origem aos
processos que culminaram em sua “eliminação” da USP.
“Não somos só os seis expulsos, somos os 73 presos durante a
desocupação da reitoria (Aline e Jéssica também estavam entre os 73), somos os
outros 20 que estão sofrendo processos”, diz Amanda. “É tudo a mesma coisa. Tudo
parte do mesmo processo de criminalização da política na universidade. Estamos
indo mais para a delegacia do que para a sala de aula”.
Em
seu discurso durante o ato, Amanda criticou a entrada da polícia no
campus "para proteger os bens dos ricos". "Os carross na FEA (Faculdade
de Economia) serão protegidos. Não precisam mais de alarme. A PM está na
USP como segurança particular de burguês". Ao contrário de outros
colegas (punidos por expulsões ou presos durante a desocupação da
reitoria), Amanda não integra nenhuma facção política. "Temos de acabar
com a universidade burguesa e elitista".
A
este blog, mais calma, ironizou as punições: "Veja o perigo que
oferecemos à universidade: uma mãe com seu filho. Eles temem a
proliferação dos revolucionários?"
Ela
disse que o termo “eliminação”
- utilizado no decreto do reitor que determinou as expulsões - foi
utilizado na legislação da USP de 1972 em um contexto de ditadura.
Segundo ela, significava mais do que expulsão. “Eliminação era te
colocar no porão e nunca
mais ser visto”.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Expulsões na USP: Rodas fala
à Folha em “sumiço de documentos”
Em entrevista publicada
nesta segunda-feira na Folha de S. Paulo, respondida por escrito, o reitor João Grandino Rodas
disse que a expulsão de seis estudantes da USP, decretada na sexta-feira, não foi
excessiva por conta de “ações graves, como desaparecimento de milhares de
prontuários”.
Esses documentos, diz
ele, continham informações sigilosas da saúde e da família de alunos da
universidade e da Escola de Aplicação da USP. Ele fala também de “desaparecimento
e danos do patrimônio público”, sem entrar em detalhes.
Rodas afirma que o
decreto de 1972 sobre disciplina, no qual a reitoria se baseou para as
punições, foi incorporado ao estatuto da USP “porque os alunos preferiram fazê-lo
do que [sic] redigir novo texto”.
“Os que imaginam que o
fundamento legal não vale terão oportunidade de contestá-lo judicialmente e
tentar a anulação das penas”, afirma o reitor. Segundo ele, a comissão que
presidiu o processo administrativo se baseou em provas. “Se os referidos alunos
têm certeza de que nada fizeram a não ser manifestações políticas, poderão
recorrer ao Judiciário”.
O jornal publicou ainda uma nota sobre a versão apresentada pela estudante Jéssica Trinca. "Em vídeo, aluna punida diz que medida foi política", diz o título.
Nesta segunda-feira os estudantes realizaram ato em frente da reitoria, a partir das 13 horas, em protesto contra as expulsões.
A VERSÃO DOS ESTUDANTES
“É mentira”, disse ao blog nesta segunda-feira Jéssica Trinca, em relação ao sumiço dos prontuários. “Saíram matérias na mídia dizendo que devolvemos todos os documentos à Coseas” (A Coordenadoria de Assistência Social da USP).
Ela diz que a acusação de dano ao patrimônio é infundada, pois 40 estudantes moram no térreo do bloco G – o da Moradia retomada. “Se o patrimônio tivesse de fato sido danificado essa pessoas não teriam condições para morar”, afirma a estudante.
Jéssica diz que o reitor não assume que cortou a luz da moradia retomada, “que ficou 7 meses no escuro”.
ASSESSORIA DE IMPRENSA
O boletim da assessoria de imprensa da USP trouxe nesta segunda-feira mais detalhes sobre os processos movidos contra os 13 estudantes – seis expulsos, cinco absolvidos e dois que terão a punição anotada em seus prontuários. Segundo a reitoria, foram extraviados, durante a ocupação do bloco G, 4 mil prontuários, 300 documentos de trabalho, 10 pastas, 17 computadores, duas impressoras, nove aparelhos eletrodomésticos, dois televisores, 13 aparelhos telefônicos, 20 talões de tíquetes-refeição e 12 toneladas de alimentos.
Não há informações, porém, sobre acusações específicas de furto (na Justiça) contra os estudantes punidos.
"Mesmo se quiséssemos não conseguiríamos, cada um, carregar duas toneladas de alimentos", rebateu Amanda Freire, nesta terça-feira, a este blog. "Isso tudo é uma mentira, é só para trazer a opinião pública para o lado deles, todos os documentos e prontuários foram entregues pela ocupação, isso foi registrado e protocolado". Ela disse em entrevista à Folha que os estudantes que ocuparam o espaço entregaram tudo que encontraram no local, "em um ato público".
OUTRA POLÊMICA
A reitoria alega que a decisão por expulsão teve o respaldo de "quase todos" os diretores de unidade. O Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) disse durante um ato nesta segunda-feira que os diretores de quatro unidades não estiveram presentes na reunião, que teria sido feita à margem da reunião do Conselho Universitário. Seriam os diretores da Escola de Comunicações e Artes, Faculdade de Educação, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e (a se confirmar) Faculdade de Direito - redutos de oposição a Rodas.
Ao blog vi o mundo, o professor Adrián Fanjul, da FFLCH, disse que participou da reunião do CO no dia 13 de dezembro e que o assunto das expulsões não foi discutido. "Nem por parte da reitoria nem de nenhum outro dirigente", afirma. A data consta do despacho sobre as "eliminações" publicado no Diário Oficial.
Durante o ato contra as expulsões, na segunda-feira, professor Luiz Renato Martins, da ECA, fez um discurso mais exaltado do que os estudantes. Voltando-se contra a reitoria, chamou o reitor de "fascista", "franquista" e salazarista", em referência aos regimes autoritários do século XX na Europa.
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
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Nesta segunda-feira os estudantes realizaram ato em frente da reitoria, a partir das 13 horas, em protesto contra as expulsões.
A VERSÃO DOS ESTUDANTES
“É mentira”, disse ao blog nesta segunda-feira Jéssica Trinca, em relação ao sumiço dos prontuários. “Saíram matérias na mídia dizendo que devolvemos todos os documentos à Coseas” (A Coordenadoria de Assistência Social da USP).
Ela diz que a acusação de dano ao patrimônio é infundada, pois 40 estudantes moram no térreo do bloco G – o da Moradia retomada. “Se o patrimônio tivesse de fato sido danificado essa pessoas não teriam condições para morar”, afirma a estudante.
Jéssica diz que o reitor não assume que cortou a luz da moradia retomada, “que ficou 7 meses no escuro”.
ASSESSORIA DE IMPRENSA
O boletim da assessoria de imprensa da USP trouxe nesta segunda-feira mais detalhes sobre os processos movidos contra os 13 estudantes – seis expulsos, cinco absolvidos e dois que terão a punição anotada em seus prontuários. Segundo a reitoria, foram extraviados, durante a ocupação do bloco G, 4 mil prontuários, 300 documentos de trabalho, 10 pastas, 17 computadores, duas impressoras, nove aparelhos eletrodomésticos, dois televisores, 13 aparelhos telefônicos, 20 talões de tíquetes-refeição e 12 toneladas de alimentos.
Não há informações, porém, sobre acusações específicas de furto (na Justiça) contra os estudantes punidos.
"Mesmo se quiséssemos não conseguiríamos, cada um, carregar duas toneladas de alimentos", rebateu Amanda Freire, nesta terça-feira, a este blog. "Isso tudo é uma mentira, é só para trazer a opinião pública para o lado deles, todos os documentos e prontuários foram entregues pela ocupação, isso foi registrado e protocolado". Ela disse em entrevista à Folha que os estudantes que ocuparam o espaço entregaram tudo que encontraram no local, "em um ato público".
OUTRA POLÊMICA
A reitoria alega que a decisão por expulsão teve o respaldo de "quase todos" os diretores de unidade. O Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) disse durante um ato nesta segunda-feira que os diretores de quatro unidades não estiveram presentes na reunião, que teria sido feita à margem da reunião do Conselho Universitário. Seriam os diretores da Escola de Comunicações e Artes, Faculdade de Educação, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e (a se confirmar) Faculdade de Direito - redutos de oposição a Rodas.
Ao blog vi o mundo, o professor Adrián Fanjul, da FFLCH, disse que participou da reunião do CO no dia 13 de dezembro e que o assunto das expulsões não foi discutido. "Nem por parte da reitoria nem de nenhum outro dirigente", afirma. A data consta do despacho sobre as "eliminações" publicado no Diário Oficial.
Durante o ato contra as expulsões, na segunda-feira, professor Luiz Renato Martins, da ECA, fez um discurso mais exaltado do que os estudantes. Voltando-se contra a reitoria, chamou o reitor de "fascista", "franquista" e salazarista", em referência aos regimes autoritários do século XX na Europa.
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
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domingo, 18 de dezembro de 2011
"Ainda sou aluna da USP", diz estudante expulsa pela
reitoria
A estudante Jéssica de Abreu Trinca foi a primeira entre os
seis alunos expulsos da USP a se manifestar. Os estudantes em greve divulgaram um
vídeo com seu depoimento, neste domingo, um dia após a divulgação do despacho
da reitoria que determina a “eliminação do corpo discente” dela e de mais cinco
estudantes. “Eu sou aluna da USP ainda”, diz Jéssica. “Temos professores, que
são advogados, que vão reverter isso”.
Ela passa os quase 12 minutos do vídeo atacando o reitor
João Grandino Rodas, a quem associa ao período da ditadura militar. Jéssica
lembra que há 43 anos (no dia 17 de dezembro de 1968) o Exército invadiu o
Crusp, o Conjunto Residencial da USP. E teme que a história se repita. “Antes
do golpe militar a USP expulsou muitos alunos militantes do movimento
estudantil. Espero que a sociedade não permita que se construam novamente os
porões”.
A estudante de Letras justifica a ocupação do bloco G do
Crusp, a chamada Moradia Retomada, porque esse espaço já fora destinado à
moradia. A ocupação ocorreu em março de 2010 e deu origem aos processos que
culminaram na expulsão dos estudantes. “A reitoria destruiu os apartamentos e
construiu escritórios”, afirma. Ela não entra em detalhes das acusações feitas
pela reitoria no processo – e que não foram ainda divulgadas à imprensa.
Jéssica criticou ainda o que chama de “sistema de vigilância”
montado na Cidade Universitária, segundo ela, por funcionários da Coordenadoria
de Assistência Social e pelo chefe da Guarda Universitária, Ronaldo Penna. “Eles
vigiam a vida pessoal dos alunos”, acusa. “Acham que estão fazendo um favor aos
moradores do Crusp e proíbem que nos manifestemos politicamente”.
Para ela as expulsões estão ligadas a um processo de
repressão na USP, efetivado com a entrada de Rodas. Ela lembra
que as “eliminações” ocorrem após a prisão de 73 estudantes, durante a
desocupação da reitoria no dia 8 de novembro, e após o conflito na Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas, quando policiais militares tentaram
prender estudantes que portavam 21,8 gramas de maconha. “Tentaram algemar os estudantes na
frente de professores e alunos”, diz.
Outro ponto-chave é o convênio assinado entre a reitoria e a
Secretaria de Estado de Segurança Pública, este ano, meses após o assassinato de
um aluno de Ciências Contábeis, no estacionamento da Faculdade de Economia
(FEA). “A PM até agora só prendeu estudantes”, afirma Jéssica no vídeo:
Segundo a estudante, trata-se de um projeto para que a USP
não seja mais pública. “Querem eliminar todos que acreditam na autonomia
universitária”, considera. Ela citou o caso de um professor do Instituto de Ciências Biomédicas que estaria sendo
processado internamente por criticar o sistema de conservação dos cadáveres das
cobaias utilizadas em pesquisas.
- O que fere a imagem da USP não é eu ser a favor de ocupar
prédio para moradia, ou esse professor fazer crítica à conservação dos
cadáveres. O que fere é um reitor que defende torturadores, que gasta R$ 72 mil
para comprar um tapete, que gasta dinheiro para instaurar processos, que monta
um monumento à ditadura militar.
Aqui cabe um esclarecimento: esse monumento na Praça do Relógio,feito em parceria com a Secretaria dos Direitos Humanos (hoje com status de ministério) e com a Petrobras, é, na verdade, um monumento às vítimas da repressão - mortos e cassados. Mas ele
se tornou polêmico porque utilizou a expressão “mortos e cassados pela Revolução de 1964”. "Revolução" é o termo utilizado
pelos militares, no lugar de “golpe de 1964”.
A estudante também dá uma alfinetada nos colegas que não têm participado das mobilizações. “O que fere a imagem da USP é o movimento estudantil aceitar
essas decisões”. Jéssica considera que precisa ser garantido o direito de se
manifestar e reivindicar. E encerra o vídeo dirigindo-se ironicamente aos
futuros calouros: “Bem-vindos, Bixos, à USP”.
O site da USP e o perfil da reitoria no Twitter ainda não
fizeram referência às expulsões de estudantes.
Uma das manifestações contrárias a essa decisão partiu da
seção paulista da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), ainda no sábado.
Os três estudantes pegos com maconha no dia 27 de outubro são alunos de
Geografia.
Entre os demais cinco expulsos, um também estuda Letras; ainda na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), um é da Filosofia, outro está no último ano de Geografia, prestes a entregar o trabalho final. Os dois alunos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) são dos cursos de Artes Cênicas e Artes Plásticas.
Entre os demais cinco expulsos, um também estuda Letras; ainda na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), um é da Filosofia, outro está no último ano de Geografia, prestes a entregar o trabalho final. Os dois alunos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) são dos cursos de Artes Cênicas e Artes Plásticas.
Publicado por
Alceu Castilho, jornalista.
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quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Sobre imprensa, estudantes e tortura
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
A revista Miséria (miseriahq.blogspot.com) repercutiu da seguinte forma a entrevista com Rosi, a estudante de Filosofia da USP torturada no dia 8 de novembro pela polícia, em plena reitoria: “Folha de São Paulo e Rede Globo omitem caso de estudante torturada por conta da ocupação da reitoria da USP”.
Esse é o título principal. A outra chamada do site igualmente foca o conflito na omissão da imprensa: “Jornalistas da Folha de São Paulo e da Rede Globo souberam que estudante tinha sido torturada por policiais, mas optaram em não divulgar isso em seus jornais”.
De fato, o relato que fiz a partir de duas entrevistas de Rosi contém esses dois casos: o da Folha e o da Rede Globo. No caso da emissora de TV, a estudante criticou um repórter que, segundo ela, ignorou a denúncia (ainda no calor dos acontecimentos, durante a reintegração de posse da reitoria) de que estava sofrendo violência dos policiais.
No caso da Folha, Rosi foi procurada por um repórter, dias após a prisão. A entrevista foi gravada. Mas o jornal não quis publicá-la, alegando “questões editoriais”. A transcrição dessa mesma entrevista, porém, motivou na segunda-feira um texto da agência Carta Maior (que não ouviu Rosi) e o texto neste blog (que fez outra entrevista com a estudante).
Ou seja: além de não publicar a reportagem, o jornal faz o entrevistado pensar que o texto vai ser publicado – enquanto isso, respeitando a exclusividade, a fonte não divulga a outros veículos. E o fato vai esfriando. Duas semanas depois, Rosi falaria no Masp, durante ato contra a PM, que a imprensa “podre” não tinha publicado sua denúncia.
“NÍVEL DE DESINFORMAÇÃO”
A revista de quadrinhos Miséria - que destacou essa face jornalística do episódio da tortura - é mantida por um coletivo do qual faz parte o jornalista e cartunista João da Silva. Ele também trabalha no jornal Atenção, da Fábrica Ocupada Flaskô. Seu ponto de vista, como mostra o destaque dado aos casos de imprensa, é o de quem não acredita na isenção dos grandes meios de comunicação.
Ele não é o único. Vale destacar
alguns comentários de amigos no Facebook. Maria Laura Conti Nunes
ironizou a “imparcialidade” da imprensa e recomendou a entrevista com Rosi
desta forma: “Leia e descubra
seu nível de desinformação sobre esse assunto.” Nanci Pittelkow resumiu
o texto de forma concisa: “O outro lado da história”. As duas são jornalistas.
Nesse contexto, fatos de interesse dos estudantes (e de interesse público), como os cartazes colados por skinheads, foram sistematicamente ignorados. Folha e Globo só noticiaram os cartazes - intolerantes e ameaçadores - depois que a Polícia Civil passou a investigar o caso – mas omitiram que essa provocação ocorrera desde antes da reintegração de posse da reitoria (como eu expliquei à Folha).
E olhe que um desses cartazes trazia a imagem de Vladimir Herzog pendurado, com a seguinte legenda: "Suicídio é triste, né?" Na assinatura, uma letra repetida três vezes, compondo uma sigla muitíssimo conhecida nos anos de chumbo: "C.C.C." Uma referência, claro, ao Comando de Caça aos Comunistas.
UM ICEBERG DE NOTÍCIAS
Analisando a cobertura dos episódios na USP, percebi que as notícias e reportagens formam um bloco monolítico – uma visão demonizadora do movimento estudantil. Uma das táticas, como observa o professor Dennis de Oliveira (do Departamento de Jornalismo da ECA-USP), foi a de infantilizar os estudantes. Utilizando diminutivos e expressões pejorativas. Até gente rodada como Gilberto Dimenstein caiu nesse discurso.
Outra tática repetida, avalia Dennis, é a visão moralista – como se ninguém nas redações fumasse maconha ou otras cositas más. E não vamos nem falar dos comentários fascistas de leitores - neste reino da trollagem que se tornou a internet, nessa descida aos infernos que se tornou a leitura de comentários sobre qualquer assunto.
Por outro lado, os artigos – opinativos- sobre os conflitos na USP traziam uma maior pluralidade de pontos de vista. Às vezes, curiosamente, em um único artigo. Algumas das vozes que se levantaram em defesa (nem sempre geral e irrestrita) dos estudantes o fizeram em artigos da imprensa alternativa (como o jornal Brasil de Fato) – mas também em grandes jornais, como Estadão e Folha.
Ou seja, o formato jornalístico destinado a relatar a pluralidade de pontos de vista (as reportagens) tornou-se um imenso bloco monolítico – para não dizer um iceberg. Do outro lado, um formato (o dos artigos) que poderíamos supor mais preso aos interesses do autor revelou-se mais plural.
UM ESPECIAL LAMENTO
Como jornalista, lamentei e lamento a agressividade de parte dos estudantes contra os profissionais de imprensa. Mas sei que não são todos os estudantes que pensam e agem dessa forma.
Como estudante da USP, lamento a indiferença e o cinismo de boa parte dos profissionais da grande imprensa. E registro que, infelizmente, percebo como poucas as exceções.
Em especial, deploro a omissão – historicamente imperdoável – de que uma cidadã brasileira, uma jovem de 25 anos, foi torturada em plena Cidade Universitária, no prédio da reitoria, no centro do poder da maior universidade da América Latina – essa espoliada.
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
A revista Miséria (miseriahq.blogspot.com) repercutiu da seguinte forma a entrevista com Rosi, a estudante de Filosofia da USP torturada no dia 8 de novembro pela polícia, em plena reitoria: “Folha de São Paulo e Rede Globo omitem caso de estudante torturada por conta da ocupação da reitoria da USP”.
Esse é o título principal. A outra chamada do site igualmente foca o conflito na omissão da imprensa: “Jornalistas da Folha de São Paulo e da Rede Globo souberam que estudante tinha sido torturada por policiais, mas optaram em não divulgar isso em seus jornais”.
De fato, o relato que fiz a partir de duas entrevistas de Rosi contém esses dois casos: o da Folha e o da Rede Globo. No caso da emissora de TV, a estudante criticou um repórter que, segundo ela, ignorou a denúncia (ainda no calor dos acontecimentos, durante a reintegração de posse da reitoria) de que estava sofrendo violência dos policiais.
No caso da Folha, Rosi foi procurada por um repórter, dias após a prisão. A entrevista foi gravada. Mas o jornal não quis publicá-la, alegando “questões editoriais”. A transcrição dessa mesma entrevista, porém, motivou na segunda-feira um texto da agência Carta Maior (que não ouviu Rosi) e o texto neste blog (que fez outra entrevista com a estudante).
Ou seja: além de não publicar a reportagem, o jornal faz o entrevistado pensar que o texto vai ser publicado – enquanto isso, respeitando a exclusividade, a fonte não divulga a outros veículos. E o fato vai esfriando. Duas semanas depois, Rosi falaria no Masp, durante ato contra a PM, que a imprensa “podre” não tinha publicado sua denúncia.
“NÍVEL DE DESINFORMAÇÃO”
A revista de quadrinhos Miséria - que destacou essa face jornalística do episódio da tortura - é mantida por um coletivo do qual faz parte o jornalista e cartunista João da Silva. Ele também trabalha no jornal Atenção, da Fábrica Ocupada Flaskô. Seu ponto de vista, como mostra o destaque dado aos casos de imprensa, é o de quem não acredita na isenção dos grandes meios de comunicação.
Ele não é o único. Vale destacar
alguns comentários de amigos no Facebook. Maria Laura Conti Nunes
ironizou a “imparcialidade” da imprensa e recomendou a entrevista com Rosi
desta forma: “Leia e descubra
seu nível de desinformação sobre esse assunto.” Nanci Pittelkow resumiu
o texto de forma concisa: “O outro lado da história”. As duas são jornalistas.
O fato é que a grande imprensa vem fazendo jus a essa descrença (cada vez mais crescente).
No caso da USP, a relação hostil entre ela e o público estudantil ocorre desde
que, no fim de outubro, três estudantes da Geografia foram abordados por
policiais no estacionamento da faculdade – e detidos pela posse de uma pequena
quantidade de maconha.
O acordo entre estudantes e jornalistas tem sido raro - quase impossível.
É uma espécie de conflito USP-Mackenzie dos anos 2000. Nos últimos meses eu (jornalista-estudante) assisti a quase todas as assembleias
gerais dos estudantes da USP, participei de ato em frente da reitoria e assisti à movimentação em
torno das ocupações (da administração da Faculdade de Filosofia) e da reitoria. Do lado dos estudantes, paranoia. Do lado dos jornalistas, um certo complexo de superioridade.
ESTUDANTES X IMPRENSA
O conflito era evidente. No vão livre do prédio da História-Geografia, vi um amigo que trabalha na Band, Francisco Câmpera, revoltadíssimo – um estudante cuspira nele, do alto do prédio, sem se identificar. E ele acabara de chegar. Cuspiram só porque ele era jornalista – ou da Band. Em vários outros momentos alguns estudantes enfrentaram os profissionais de imprensa. Com ofensas verbais, tapa nos microfones e, até, briga corporal.
Do outro lado, igualmente pouca disposição ao diálogo. Um dia um estudante da FEA (a Faculdade de Economia, antro de conservadores na USP) chegou em frente da reitoria com um cartaz. O texto insinuava que os ocupantes só podiam estar ali, ser revolucionários, por causa do dinheiro “do papai”. Os cinegrafistas se divertiram – sentiram-se representados por aquele provocador isolado.
Quase desnecessário assinalar que a performance isolada do aluno da FEA ganhou muito mais mídia do que centenas de falas (sérias, representativas, discursos políticos legítimos) de estudantes de esquerda, nas assembleias ou fora dela. A Batalha da Cidade Universitária é notoriamente desigual.
O conflito era evidente. No vão livre do prédio da História-Geografia, vi um amigo que trabalha na Band, Francisco Câmpera, revoltadíssimo – um estudante cuspira nele, do alto do prédio, sem se identificar. E ele acabara de chegar. Cuspiram só porque ele era jornalista – ou da Band. Em vários outros momentos alguns estudantes enfrentaram os profissionais de imprensa. Com ofensas verbais, tapa nos microfones e, até, briga corporal.
Do outro lado, igualmente pouca disposição ao diálogo. Um dia um estudante da FEA (a Faculdade de Economia, antro de conservadores na USP) chegou em frente da reitoria com um cartaz. O texto insinuava que os ocupantes só podiam estar ali, ser revolucionários, por causa do dinheiro “do papai”. Os cinegrafistas se divertiram – sentiram-se representados por aquele provocador isolado.
Quase desnecessário assinalar que a performance isolada do aluno da FEA ganhou muito mais mídia do que centenas de falas (sérias, representativas, discursos políticos legítimos) de estudantes de esquerda, nas assembleias ou fora dela. A Batalha da Cidade Universitária é notoriamente desigual.
Nesse contexto, fatos de interesse dos estudantes (e de interesse público), como os cartazes colados por skinheads, foram sistematicamente ignorados. Folha e Globo só noticiaram os cartazes - intolerantes e ameaçadores - depois que a Polícia Civil passou a investigar o caso – mas omitiram que essa provocação ocorrera desde antes da reintegração de posse da reitoria (como eu expliquei à Folha).
E olhe que um desses cartazes trazia a imagem de Vladimir Herzog pendurado, com a seguinte legenda: "Suicídio é triste, né?" Na assinatura, uma letra repetida três vezes, compondo uma sigla muitíssimo conhecida nos anos de chumbo: "C.C.C." Uma referência, claro, ao Comando de Caça aos Comunistas.
UM ICEBERG DE NOTÍCIAS
Analisando a cobertura dos episódios na USP, percebi que as notícias e reportagens formam um bloco monolítico – uma visão demonizadora do movimento estudantil. Uma das táticas, como observa o professor Dennis de Oliveira (do Departamento de Jornalismo da ECA-USP), foi a de infantilizar os estudantes. Utilizando diminutivos e expressões pejorativas. Até gente rodada como Gilberto Dimenstein caiu nesse discurso.
Outra tática repetida, avalia Dennis, é a visão moralista – como se ninguém nas redações fumasse maconha ou otras cositas más. E não vamos nem falar dos comentários fascistas de leitores - neste reino da trollagem que se tornou a internet, nessa descida aos infernos que se tornou a leitura de comentários sobre qualquer assunto.
Por outro lado, os artigos – opinativos- sobre os conflitos na USP traziam uma maior pluralidade de pontos de vista. Às vezes, curiosamente, em um único artigo. Algumas das vozes que se levantaram em defesa (nem sempre geral e irrestrita) dos estudantes o fizeram em artigos da imprensa alternativa (como o jornal Brasil de Fato) – mas também em grandes jornais, como Estadão e Folha.
Ou seja, o formato jornalístico destinado a relatar a pluralidade de pontos de vista (as reportagens) tornou-se um imenso bloco monolítico – para não dizer um iceberg. Do outro lado, um formato (o dos artigos) que poderíamos supor mais preso aos interesses do autor revelou-se mais plural.
UM ESPECIAL LAMENTO
Como jornalista, lamentei e lamento a agressividade de parte dos estudantes contra os profissionais de imprensa. Mas sei que não são todos os estudantes que pensam e agem dessa forma.
Como estudante da USP, lamento a indiferença e o cinismo de boa parte dos profissionais da grande imprensa. E registro que, infelizmente, percebo como poucas as exceções.
Em especial, deploro a omissão – historicamente imperdoável – de que uma cidadã brasileira, uma jovem de 25 anos, foi torturada em plena Cidade Universitária, no prédio da reitoria, no centro do poder da maior universidade da América Latina – essa espoliada.
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