“PM me escolheu porque eu era o único negro”, diz estudante agredido na USP
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Órfão de pai desde os 15 anos, Nicolas Menezes Barreto sabe bem o que é trabalhar. É músico e professor da rede municipal de ensino, na zona leste – em condição provisória, pois ainda não é formado. Ele prestou Música, mas entrou na segunda opção no vestibular da Fuvest. Cursa Ciências da Natureza na EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades), na USP-Leste.
Nicolas foi agredido por um sargento da PM, nesta segunda-feira, durante a desocupação da antiga sede do DCE Livre, o DCE ocupado – a alguns metros da sede da reitoria da USP. “Eu era o único negro lá, com dread”, disse ele ao blog Outro Brasil, por telefone, no fim da tarde.
A palavra dread remete ao estilo de cabelo rastafari. “Sem dúvida foi racismo. Ele foi falar comigo porque pensou que eu não era um estudante, e sim um traficante, algo assim. Tanto que se surpreendeu quando viu que eu era estudante”.
Ele conta que um guarda universitário ajudou o PM a segurá-lo, durante a agressão – naquele momento as imagens aparecem um pouco mais distantes no vídeo. Sobre o sargento que o agrediu, ele afirma: “O cara estava virado no capeta, não sei o que acontece. Tem de pagar as contas também, né. Mas não aceito.”
Nicolas diz que é conhecido dos guardas universitários. Até por ter sido um dos 73 estudantes presos durante a desocupação da reitoria, no início de novembro.
- Agora estou aqui, na endorfina, na adrenalina, tentando me livrar desse susto. Tive algumas escoriações, arranhões, cortes na mão. Mas fiquei com medo de ir à delegacia sozinho. Como tem o vídeo vou fazer depois o exame de corpo de delito. Estou esperando o advogado para ir fazer o boletim de ocorrência.
O estudante conta que não falou nada demais na hora em que o policial avança em sua direção. “Quando eu falo no vídeo, com o punho da mão fechado, estava dizendo que nós estávamos cuidando do espaço e que não precisávamos da reforma da reitoria. Ele não entendeu isso e veio pra cima de mim”.
O sargento pediu o documento e Nicolas disse que sua palavra bastava. “Aí ele me puxou da bancada”, confirmando o que se vê e ouve no vídeo veiculado pela internet. “Tentei me defender para não tomar um tapa na cara – ou um tiro na barriga, pois ele me apontou a arma”.
Nicolas fala com orgulho de seu projeto como músico, a banda BRs. O símbolo da banda tem um quadradinho antes do “s”. Ele conta que sua mãe insiste, diante das dificuldades, para ele priorizar o trabalho – pois a família depende de sua renda. Mesmo assim ele tenta conciliar tudo. “Minha mãe sabe da minha luta”.
O estudante atendeu a reportagem agitado, mesmo depois de uma noite sem sono – os estudantes ficaram em vigília nas últimas noites, por conta da ameaça de nova desocupação do espaço.
Antes de desligar o telefone, ainda falou do momento "sinistro" que vivem os alunos da USP durante a gestão de João Grandino Rodas. E se declarou preocupado com a cobertura da mídia. Já sabe que alguns veículos o definiram como “suposto” estudante. “Às vezes o repórter está bem intencionado, mas não sabemos como vai ser a edição”.
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Ela tem um filho de 2 meses; foi expulsa da USP e da moradia
Amanda e Salvio conheceram-se no movimento estudantil. Ambos
estudam Filosofia na Universidade de São Paulo e moram no Crusp (Conjunto
Residencial da USP). No dia 24 de outubro, nasceu o primeiro filho do casal.
Dois dias depois, ela recebeu uma carta, da Coordenadoria de Assistência Social
(Coseas) da universidade: informando que não poderia continuar na moradia.
Quase dois meses depois, na última sexta-feira, nova informação: Amanda está
entre os seis expulsos pelo reitor João Grandino Rodas.
Com um filho no colo, entre uma e outra amamentação, ela
tenta ainda assimilar o que está acontecendo. “Decidi não me estressar
pessoalmente, por causa do meu filho”, disse ontem ao blog, logo após um ato
dos estudantes contra as expulsões, em frente da reitoria. “Até para continuar
no movimento estudantil, dando de mamar. Agora me vejo em duas frentes de luta –
no movimento e com meu filho”.
Amanda Freire é uma das três estudantes expulsas, a uma
semana do Natal, ao lado de Jéssica Trinca (da Letras) e Aline Camoles (Artes
Cênicas). A lista é completada por Bruno Belém (Artes Plásticas), Marcus Dunne
(Letras) e Yves Souzedo (Geografia). Eles foram acusados de ocupar o espaço do Serviço Social
da Divisão de Promoção Social da Coseas, no bloco G. O decreto da reitoria fala
em “eliminação do corpo discente” – eles não podem mais voltar à universidade
nem nela trabalhar. Cabe recurso, que deve ser movido ainda hoje pelos
advogados.
“Recebi a notícia de que não poderia ficar na moradia das
mãos de um agente de segurança da USP, dois dias após o nascimento do meu filho”,
conta Amanda, de 29 anos. Era uma carta da Coordenadoria de Assistência Social. “Normalmente
nos chamam para conversar na Coseas, desta vez mandaram um agente, sem
privacidade. Mandaram as mesmas pessoas que nos vigiam e perseguem, com uma
carta praticamente aberta, num plastiquinho”. Ele disse apenas uma frase: “Assine
aqui”.
Salvio observa que a
Assistência Social da USP deveria prever um tratamento melhor a uma mãe. “É uma
contradição, justo na maior universidade pública do Brasil”. Ele demonstra uma
serenidade em relação aos últimos acontecimentos. Amanda fez um discurso
indignado, contra o que considera um “cerco” do PSDB na universidade, e estava
particularmente azarada – recebeu duas picadas de formiga no pé, enquanto dava
a entrevista, e teve de entregar o bebê ao companheiro diante da dor. “Se a
polícia está batendo aqui, imagina lá fora”, discursou.
Em entrevista à Folha, publicada nesta terça-feira, Amanda afirma que nem estava na ocupação do espaço da Coseas. E que seu nome foi incluído por questões políticas.
Em entrevista à Folha, publicada nesta terça-feira, Amanda afirma que nem estava na ocupação do espaço da Coseas. E que seu nome foi incluído por questões políticas.
A família dela é de São Mateus, na zona leste de São Paulo. Ela teve dificuldade de
tocar o curso nos dois primeiros anos, diante da distância. Só então conseguiu
uma vaga no Crusp. Ela e Aline foram diretoras da Amorcrusp, a Associação dos
Moradores do Conjunto Residencial, em uma gestão de esquerda. A ocupação da
atual Moradia Retomada, em março de 2010, foi o episódio que deu origem aos
processos que culminaram em sua “eliminação” da USP.
“Não somos só os seis expulsos, somos os 73 presos durante a
desocupação da reitoria (Aline e Jéssica também estavam entre os 73), somos os
outros 20 que estão sofrendo processos”, diz Amanda. “É tudo a mesma coisa. Tudo
parte do mesmo processo de criminalização da política na universidade. Estamos
indo mais para a delegacia do que para a sala de aula”.
Em
seu discurso durante o ato, Amanda criticou a entrada da polícia no
campus "para proteger os bens dos ricos". "Os carross na FEA (Faculdade
de Economia) serão protegidos. Não precisam mais de alarme. A PM está na
USP como segurança particular de burguês". Ao contrário de outros
colegas (punidos por expulsões ou presos durante a desocupação da
reitoria), Amanda não integra nenhuma facção política. "Temos de acabar
com a universidade burguesa e elitista".
A
este blog, mais calma, ironizou as punições: "Veja o perigo que
oferecemos à universidade: uma mãe com seu filho. Eles temem a
proliferação dos revolucionários?"
Ela
disse que o termo “eliminação”
- utilizado no decreto do reitor que determinou as expulsões - foi
utilizado na legislação da USP de 1972 em um contexto de ditadura.
Segundo ela, significava mais do que expulsão. “Eliminação era te
colocar no porão e nunca
mais ser visto”.
domingo, 18 de dezembro de 2011
"Ainda sou aluna da USP", diz estudante expulsa pela
reitoria
A estudante Jéssica de Abreu Trinca foi a primeira entre os
seis alunos expulsos da USP a se manifestar. Os estudantes em greve divulgaram um
vídeo com seu depoimento, neste domingo, um dia após a divulgação do despacho
da reitoria que determina a “eliminação do corpo discente” dela e de mais cinco
estudantes. “Eu sou aluna da USP ainda”, diz Jéssica. “Temos professores, que
são advogados, que vão reverter isso”.
Ela passa os quase 12 minutos do vídeo atacando o reitor
João Grandino Rodas, a quem associa ao período da ditadura militar. Jéssica
lembra que há 43 anos (no dia 17 de dezembro de 1968) o Exército invadiu o
Crusp, o Conjunto Residencial da USP. E teme que a história se repita. “Antes
do golpe militar a USP expulsou muitos alunos militantes do movimento
estudantil. Espero que a sociedade não permita que se construam novamente os
porões”.
A estudante de Letras justifica a ocupação do bloco G do
Crusp, a chamada Moradia Retomada, porque esse espaço já fora destinado à
moradia. A ocupação ocorreu em março de 2010 e deu origem aos processos que
culminaram na expulsão dos estudantes. “A reitoria destruiu os apartamentos e
construiu escritórios”, afirma. Ela não entra em detalhes das acusações feitas
pela reitoria no processo – e que não foram ainda divulgadas à imprensa.
Jéssica criticou ainda o que chama de “sistema de vigilância”
montado na Cidade Universitária, segundo ela, por funcionários da Coordenadoria
de Assistência Social e pelo chefe da Guarda Universitária, Ronaldo Penna. “Eles
vigiam a vida pessoal dos alunos”, acusa. “Acham que estão fazendo um favor aos
moradores do Crusp e proíbem que nos manifestemos politicamente”.
Para ela as expulsões estão ligadas a um processo de
repressão na USP, efetivado com a entrada de Rodas. Ela lembra
que as “eliminações” ocorrem após a prisão de 73 estudantes, durante a
desocupação da reitoria no dia 8 de novembro, e após o conflito na Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas, quando policiais militares tentaram
prender estudantes que portavam 21,8 gramas de maconha. “Tentaram algemar os estudantes na
frente de professores e alunos”, diz.
Outro ponto-chave é o convênio assinado entre a reitoria e a
Secretaria de Estado de Segurança Pública, este ano, meses após o assassinato de
um aluno de Ciências Contábeis, no estacionamento da Faculdade de Economia
(FEA). “A PM até agora só prendeu estudantes”, afirma Jéssica no vídeo:
Segundo a estudante, trata-se de um projeto para que a USP
não seja mais pública. “Querem eliminar todos que acreditam na autonomia
universitária”, considera. Ela citou o caso de um professor do Instituto de Ciências Biomédicas que estaria sendo
processado internamente por criticar o sistema de conservação dos cadáveres das
cobaias utilizadas em pesquisas.
- O que fere a imagem da USP não é eu ser a favor de ocupar
prédio para moradia, ou esse professor fazer crítica à conservação dos
cadáveres. O que fere é um reitor que defende torturadores, que gasta R$ 72 mil
para comprar um tapete, que gasta dinheiro para instaurar processos, que monta
um monumento à ditadura militar.
Aqui cabe um esclarecimento: esse monumento na Praça do Relógio,feito em parceria com a Secretaria dos Direitos Humanos (hoje com status de ministério) e com a Petrobras, é, na verdade, um monumento às vítimas da repressão - mortos e cassados. Mas ele
se tornou polêmico porque utilizou a expressão “mortos e cassados pela Revolução de 1964”. "Revolução" é o termo utilizado
pelos militares, no lugar de “golpe de 1964”.
A estudante também dá uma alfinetada nos colegas que não têm participado das mobilizações. “O que fere a imagem da USP é o movimento estudantil aceitar
essas decisões”. Jéssica considera que precisa ser garantido o direito de se
manifestar e reivindicar. E encerra o vídeo dirigindo-se ironicamente aos
futuros calouros: “Bem-vindos, Bixos, à USP”.
O site da USP e o perfil da reitoria no Twitter ainda não
fizeram referência às expulsões de estudantes.
Uma das manifestações contrárias a essa decisão partiu da
seção paulista da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), ainda no sábado.
Os três estudantes pegos com maconha no dia 27 de outubro são alunos de
Geografia.
Entre os demais cinco expulsos, um também estuda Letras; ainda na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), um é da Filosofia, outro está no último ano de Geografia, prestes a entregar o trabalho final. Os dois alunos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) são dos cursos de Artes Cênicas e Artes Plásticas.
Entre os demais cinco expulsos, um também estuda Letras; ainda na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), um é da Filosofia, outro está no último ano de Geografia, prestes a entregar o trabalho final. Os dois alunos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) são dos cursos de Artes Cênicas e Artes Plásticas.
Publicado por
Alceu Castilho, jornalista.
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14:24
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sábado, 17 de dezembro de 2011
Reitor da USP expulsa seis estudantes com base em lei de
1972
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
A reitoria da Universidade de São Paulo decretou ontem a
expulsão de seis estudantes. O decreto fala em “eliminação do corpo discente”.
São eles: Aline Dias Camoles e Bruno Belém, da Escola de Comunicações e Artes
(ECA), Amanda Freire de Sousa, Jéssica de Abreu Trinca, Marcus Padraic Dunne e
Yves de Carvalho Souzedo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
O processo foi iniciado, em 2010, por conta da ocupação de um prédio para moradia estudantil - a chamada Moradia Retomada.
Cinco estudantes foram absolvidos. Outras duas pessoas
escaparam por não estarem mais matriculadas na USP. São eles
Paulo Henrique Oliveira Galego e Pedro Luiz Damião. Este já se formou. O
despacho do reitor, publicado ontem no Diário Oficial, diz que Damião concluiu
o curso e que as anotações da penalidade devem contar “em seus prontuários”.
Os estudantes decidiram neste sábado fazer um ato de protesto na segunda-feira, às 13 horas, em frente da reitoria.
Os estudantes decidiram neste sábado fazer um ato de protesto na segunda-feira, às 13 horas, em frente da reitoria.
O site Jus Brasil publica o despacho do reitor. Os estudantes divulgaram um trecho do Regimento Geral da USP, de 1972 – quando o presidente da
República era o senhor Emílio Garrastazu Medici.
O artigo 250 traz as possíveis faltas que constituem infração disciplinar. Entre elas “praticar ato atentatório à moral ou aos bons costumes”, “utilizar substância entorpecente” e “promover manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, racial ou religioso”.
O reitor diz no despacho que, se as normas internas da USP não tivessem referência ao poder disciplinar, mesmo assim "o dirigente não teria como não observá-lo, sob pena de responsabilidade".
Os estudantes da USP estão em greve, decidida em sucessivas assembleias gerais, desde o dia 8 de novembro. Uma das reivindicações é a saída do reitor João Grandino Rodas. Outra, o fim dos processos contra estudantes. Outra, a saída da PM do campus.
O artigo 250 traz as possíveis faltas que constituem infração disciplinar. Entre elas “praticar ato atentatório à moral ou aos bons costumes”, “utilizar substância entorpecente” e “promover manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, racial ou religioso”.
O reitor diz no despacho que, se as normas internas da USP não tivessem referência ao poder disciplinar, mesmo assim "o dirigente não teria como não observá-lo, sob pena de responsabilidade".
Os estudantes da USP estão em greve, decidida em sucessivas assembleias gerais, desde o dia 8 de novembro. Uma das reivindicações é a saída do reitor João Grandino Rodas. Outra, o fim dos processos contra estudantes. Outra, a saída da PM do campus.
Mas nem todos os cursos estão seguindo a
decisão dos estudantes. A greve começou no dia em que 400 policiais desocuparam
a reitoria e prenderam 73 estudantes - entre eles, Aline Camoles e Jessica Trinca, duas das estudantes expulsas.
A ocupação da reitoria (e, antes de um
prédio da FFLCH) ocorreu após a prisão de três alunos de Geografia que portavam
uma pequena quantidade de maconha, no estacionamento do prédio da História e Geografia. Uma massa de estudantes se rebelou, em apoio aos detidos.
Veja todos os itens do artigo 250 do Regimento Geral da USP:
Veja todos os itens do artigo 250 do Regimento Geral da USP:
Constituem infração disciplinar do aluno, passíveis de sanção segundo a
gravidade da falta cometida.
I - inutilizar, alterar ou fazer qualquer inscrição em editais ou
avisos afixados pela administração;
II - fazer inscrições em próprios universitários, ou em suas
imediações, ou nos objetos de propriedade da USP e afixar cartazes fora dos
locais a eles destinados;
III - retirar, sem prévia permissão da autoridade competente, objeto
ou documento existente em qualquer dependência da USP;
IV - praticar ato atentatório à moral ou aos bons costumes;
V - praticar jogos proibidos;
VI - guardar, transportar ou utilizar arma ou substância
entorpecente;
VII - perturbar os trabalhos escolares bem como o funcionamento da
administração da USP;
VIII - promover manifestação ou propaganda de caráter
político-partidário, racial ou religioso, bem como incitar, promover ou apoiar
ausências coletivas aos trabalhos escolares;
IX - desobedecer aos preceitos regulamentares constantes dos
Regimentos das Unidades, Centros, bem como dos alojamentos e residências em
próprios universitários.
Esta notícia estará sendo atualizada nos próximos dias. O site da USP e o perfil da reitoria no Twitter não trazem nenhuma informação sobre as expulsões.
A notícia foi dada pelo site USP em Greve, publicado pelo Comando de Greve dos estudantes - durante a paralisação, o DCE e os Centros Acadêmicos são diluídos.
O endereço é: http://uspemgreve.blogspot.com
A notícia só começou a ser publicada nos principais portais no início da noite. O primeiro foi o iG. Depois se seguiram G1, R7, Folha, Terra e Estadão, entre outros.
LEIA MAIS:
Carta Aberta aos Eliminados
Rodas fala à Folha em "sumiço de documentos"
Pietro Germi, Elio Petri e os fura-greve da USP
A notícia foi dada pelo site USP em Greve, publicado pelo Comando de Greve dos estudantes - durante a paralisação, o DCE e os Centros Acadêmicos são diluídos.
O endereço é: http://uspemgreve.blogspot.com
A notícia só começou a ser publicada nos principais portais no início da noite. O primeiro foi o iG. Depois se seguiram G1, R7, Folha, Terra e Estadão, entre outros.
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Carta Aberta aos Eliminados
Rodas fala à Folha em "sumiço de documentos"
Pietro Germi, Elio Petri e os fura-greve da USP
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domingo, 4 de dezembro de 2011
Presos da USP articulam contra-ataque político
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Só faltou a presença do DCE Livre da USP – controlado pelo PSOL. De resto, o ato promovido na tarde deste sábado pelos 73 presos políticos da Universidade de São Paulo, presos no dia 8 de novembro durante a desocupação da reitoria, conseguiu unificar partidos e facções de esquerda (inclusive o PSTU, que não participou da ocupação) em torno de algumas causas – contra o reitor João Grandino Rodas, as polícias militares e o governo paulista.
A reivindicação mais imediata é a anulação dos processos contra os 73 estudantes. Mas os grupos de esquerda articulam um contra-ataque mais amplo. Não querem ficar apenas como vítimas, mas reagir ao que consideram uma violência planejada dos tucanos – em um contexto de, segundo os debatedores, afirmação do fascismo e da luta de classes no Brasil e no mundo. A memória das repressões no Brasil foi um dos temas em debate.
“Quem está com medo é o reitor João Grandino Rodas, é o governador Geraldo Alckmin”, discursou Rosi, a estudante de Filosofia da FFLCH torturada pela polícia durante a reintegração de posse (leia aqui o depoimento dela sobre a tortura). A representante do Comitê Pró-Haiti Brasil, Lucia Skromov, referendou a fala de Rosi: “O fascismo recrudesce. Concordo que eles têm mais medo que nós”. Ela utilizou uma metáfora para falar de resistência: “Onde há muito igrejismo, há bruxas também”.
A própria Lucia foi presa política durante o regime militar, vítima de torturas no II Exército – o mesmo que invadiu o Crusp (Conjunto Residencial da USP) com tanques, em 1968, e deteve 800 pessoas. “Não somos erva-daninhas”, afirmou ela, em dia inspirado. “Somos a flor do asfalto. Somos o caminho que aponta e desfaz o caos. O fascismo está aí. No mundo todo. E ele é bravo. E é importante sabermos o quanto ele está aí. Eles têm muito mais medo de vocês do que vocês deles”.
Foram exibidos dois vídeos com apoios internacionais (da Argentina e do México) e lido um apoio contundente do DCE da Universidade Federal de Rondônia. Uma estudante chilena falou pessoalmente. Quatro professores da USP estiveram na mesa de debates: Jorge Luiz Souto Maior, da Faculdade de Direito, Jorge Luís Grespan e Lincoln Secco, do Departamento de História (FFLCH), e Luiz Renato Martins, o Luizito, da Escola de Comunicações e Artes (ECA). Somente Secco não falou. O professor Osvaldo Coggiola, da História, também teve um tempo de fala.
MEMÓRIA E HISTÓRIA
A mesa foi completada por Rafael Alves e Maria Fernanda Silva Pinto, a Mafê, ambos da FFLCH, dois presos durante a desocupação da reitoria. E por representantes do Sintusp. O termo “presos políticos”, ironizado por jornalistas de direita, ganhou contornos precisos neste sábado – concorde-se ou não com as ideias e atitudes dos estudantes. É um fato que eles estão se articulando em bloco. E que as reivindicações (antes e agora) são, sim, políticas. Os discursos dos debatedores apontaram interpretações em comum do quadro político brasileiro e mundial.
De um modo geral, a estratégia é de inserção da prisão em uma sequência histórica. Em particular, com o movimento estudantil de 1968. Mafê foi mais longe: leu um texto do francês Fernand Braudel, um dos membros da missão francesa que fundou a USP, onde, em 1934, ele descrevia seus alunos como grã-finos. Em 1936, apontava ele, as coisas começaram a mudar na Faculdade de Filosofia –com a entrada de estudantes de outras classes sociais. “Aí começava o ódio à FFLCH”, apontou Mafê.
Ela rebateu artigo do jurista Miguel Reali Jr, publicado hoje no Estadão. “Foi chocante os invasores da Reitoria terem tido a desfaçatez de se autointitularem presos políticos”, escreveu o ex-ministro da Justiça. “Um desrespeito à História, ao sofrimento daqueles que, de forma certa ou errada, comprometeram sua existência por um ideal de liberdade e igualdade ante os regimes ditatoriais”.
A estudante diz que quem destroi a memória é quem organiza a repressão em São Paulo, “onde a PM atua de modo brutal”. “Quem destroi a memória é um governo fraco, dito de esquerda, que é incapaz de abrir os arquivos da ditadura militar”. Segundo Mafê, a anistia a Carlos Marighella, na Bahia, é insuficiente. Sob aplausos, ela pediu reparação para os demais torturados e mortos durante o regime militar. “Querem discutir memória? Então vamos!”.
RADICALIZAÇÃO E INTOLERÂNCIA
O professor Souto Maior apontou uma crise profunda do capitalismo e se declarou assustado com o “desprezo à razão”, segundo ele uma característica do que vem acontecendo no Brasil – e é ilustrado pelos episódios de repressão na USP. “Não parece mais ficção o filme Matrix”, disse. Ele criticou o “déficit democrático” da universidade e o “massacre público” sofrido pelos estudantes. “Pessoas de todos os credos mostraram seu ódio, do governador até a atendente da lanchonete. A radicalização contra os estudantes é fruto da intolerância – grave – contra todos os movimentos sociais”.
Em fala que deu o tom ao debate, Osvaldo Coggiola disse que os acusados “têm de se transformar em acusadores”. “Quem está violando a legalidade são o governador, a Secretaria de Segurança Pública e o reitor”. Ele disse que as cláusulas do convênio da reitoria com a SSP têm sido violentadas sistematicamente. “Temos de levar ao barco dos acusados os verdadeiros responsáveis pela situação. Caso contrário, poderá haver outros acontecimentos desse tipo. Vencemos em Rondônia e vamos vencer na USP”.
Luiz Renato Martins, do curso de Artes Plásticas da ECA, apontou a origem elitista da USP: “Ela é de direita e está nas mãos da direita. Fizeram com ela um projeto nacional e antissocial, de reprodução da desigualdade, racismo, repressão, alienação, construção de um sistema de ensino que nada tem a ver com as realidades do Brasil”. Ele observou que professores de esquerda jamais comandaram a universidade. E que a USP nunca foi invadida de fora, por iniciativa alheia. “A iniciativa sempre foi de dentro. Tropas atenderam convocações da reitoria e direções de unidade”.
Luizito lembrou que, em audiência na Assembleia Legislativa na segunda-feira, o deputado Carlso Giannasi (PSOL) e o Sintusp denunciaram um sistema de espionagem na USP, “montado a partir da reitoria, muito provavelmente em relação com o governador do Estado. “É todo um aparato repressivo. Foi divulgado um relatório elaborado por espiões, com nomes de trabalhadores e frases ditas em reuniões”. Ele disse também que professores estão sendo ameaçados “de forma velada” por membros do Conselho Universitário.
O historiador Jorge Grespan defendeu uma união das três categorias (estudantes, funcionários e professores) por uma greve geral da USP. “Está sendo planejada uma escalada de violência”, afirmou, em relação ao governo estadual. Ele apontou um esfacelamento do centro em todo o mundo, o que leva a uma polarização entre esquerda e direita. “E, quando o centro cai, a luta de classes fica clara. E a direita é forte. Quando a crise bater aqui o PT – que é esse centro no Brasil – se desmorona”.
Grespan considera que as ações de Alckmin na USP fazem parte de uma orquestração tucana para a direita chegar ao governo federal: “Na década de 30 e 40, a esquerda perdeu. Quem ganhou foram os fascistas e nazistas. De novo a gente não pode perder. A luta agora é só o começo. É longa. O movimento não é um ataque só à USP. A direita está se preparando para a luta de classes”.
Além de Mafê, Rafael e Rosi, falaram rapidamente pelos estudantes representantes das seguintes organizações políticas: PCO, LER-QI, Práxis, MNN, PSTU e Espaço Socialista. A plateia do Teatro Coletivo, na Rua da Consolação (bem em frente do cemitério), estava lotada. Estudantes sentavam-se e deitavam-se no palco. A imprensa, ausente, foi citada em vários discursos. Como o de Bruno Gilga, da LER-QI: “A imprensa diz que estamos parados em 1968. E nós vamos trazer 1968 de volta”.
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por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Só faltou a presença do DCE Livre da USP – controlado pelo PSOL. De resto, o ato promovido na tarde deste sábado pelos 73 presos políticos da Universidade de São Paulo, presos no dia 8 de novembro durante a desocupação da reitoria, conseguiu unificar partidos e facções de esquerda (inclusive o PSTU, que não participou da ocupação) em torno de algumas causas – contra o reitor João Grandino Rodas, as polícias militares e o governo paulista.
A reivindicação mais imediata é a anulação dos processos contra os 73 estudantes. Mas os grupos de esquerda articulam um contra-ataque mais amplo. Não querem ficar apenas como vítimas, mas reagir ao que consideram uma violência planejada dos tucanos – em um contexto de, segundo os debatedores, afirmação do fascismo e da luta de classes no Brasil e no mundo. A memória das repressões no Brasil foi um dos temas em debate.
“Quem está com medo é o reitor João Grandino Rodas, é o governador Geraldo Alckmin”, discursou Rosi, a estudante de Filosofia da FFLCH torturada pela polícia durante a reintegração de posse (leia aqui o depoimento dela sobre a tortura). A representante do Comitê Pró-Haiti Brasil, Lucia Skromov, referendou a fala de Rosi: “O fascismo recrudesce. Concordo que eles têm mais medo que nós”. Ela utilizou uma metáfora para falar de resistência: “Onde há muito igrejismo, há bruxas também”.
A própria Lucia foi presa política durante o regime militar, vítima de torturas no II Exército – o mesmo que invadiu o Crusp (Conjunto Residencial da USP) com tanques, em 1968, e deteve 800 pessoas. “Não somos erva-daninhas”, afirmou ela, em dia inspirado. “Somos a flor do asfalto. Somos o caminho que aponta e desfaz o caos. O fascismo está aí. No mundo todo. E ele é bravo. E é importante sabermos o quanto ele está aí. Eles têm muito mais medo de vocês do que vocês deles”.
Foram exibidos dois vídeos com apoios internacionais (da Argentina e do México) e lido um apoio contundente do DCE da Universidade Federal de Rondônia. Uma estudante chilena falou pessoalmente. Quatro professores da USP estiveram na mesa de debates: Jorge Luiz Souto Maior, da Faculdade de Direito, Jorge Luís Grespan e Lincoln Secco, do Departamento de História (FFLCH), e Luiz Renato Martins, o Luizito, da Escola de Comunicações e Artes (ECA). Somente Secco não falou. O professor Osvaldo Coggiola, da História, também teve um tempo de fala.
MEMÓRIA E HISTÓRIA
A mesa foi completada por Rafael Alves e Maria Fernanda Silva Pinto, a Mafê, ambos da FFLCH, dois presos durante a desocupação da reitoria. E por representantes do Sintusp. O termo “presos políticos”, ironizado por jornalistas de direita, ganhou contornos precisos neste sábado – concorde-se ou não com as ideias e atitudes dos estudantes. É um fato que eles estão se articulando em bloco. E que as reivindicações (antes e agora) são, sim, políticas. Os discursos dos debatedores apontaram interpretações em comum do quadro político brasileiro e mundial.
De um modo geral, a estratégia é de inserção da prisão em uma sequência histórica. Em particular, com o movimento estudantil de 1968. Mafê foi mais longe: leu um texto do francês Fernand Braudel, um dos membros da missão francesa que fundou a USP, onde, em 1934, ele descrevia seus alunos como grã-finos. Em 1936, apontava ele, as coisas começaram a mudar na Faculdade de Filosofia –com a entrada de estudantes de outras classes sociais. “Aí começava o ódio à FFLCH”, apontou Mafê.
Ela rebateu artigo do jurista Miguel Reali Jr, publicado hoje no Estadão. “Foi chocante os invasores da Reitoria terem tido a desfaçatez de se autointitularem presos políticos”, escreveu o ex-ministro da Justiça. “Um desrespeito à História, ao sofrimento daqueles que, de forma certa ou errada, comprometeram sua existência por um ideal de liberdade e igualdade ante os regimes ditatoriais”.
A estudante diz que quem destroi a memória é quem organiza a repressão em São Paulo, “onde a PM atua de modo brutal”. “Quem destroi a memória é um governo fraco, dito de esquerda, que é incapaz de abrir os arquivos da ditadura militar”. Segundo Mafê, a anistia a Carlos Marighella, na Bahia, é insuficiente. Sob aplausos, ela pediu reparação para os demais torturados e mortos durante o regime militar. “Querem discutir memória? Então vamos!”.
RADICALIZAÇÃO E INTOLERÂNCIA
O professor Souto Maior apontou uma crise profunda do capitalismo e se declarou assustado com o “desprezo à razão”, segundo ele uma característica do que vem acontecendo no Brasil – e é ilustrado pelos episódios de repressão na USP. “Não parece mais ficção o filme Matrix”, disse. Ele criticou o “déficit democrático” da universidade e o “massacre público” sofrido pelos estudantes. “Pessoas de todos os credos mostraram seu ódio, do governador até a atendente da lanchonete. A radicalização contra os estudantes é fruto da intolerância – grave – contra todos os movimentos sociais”.
Em fala que deu o tom ao debate, Osvaldo Coggiola disse que os acusados “têm de se transformar em acusadores”. “Quem está violando a legalidade são o governador, a Secretaria de Segurança Pública e o reitor”. Ele disse que as cláusulas do convênio da reitoria com a SSP têm sido violentadas sistematicamente. “Temos de levar ao barco dos acusados os verdadeiros responsáveis pela situação. Caso contrário, poderá haver outros acontecimentos desse tipo. Vencemos em Rondônia e vamos vencer na USP”.
Luiz Renato Martins, do curso de Artes Plásticas da ECA, apontou a origem elitista da USP: “Ela é de direita e está nas mãos da direita. Fizeram com ela um projeto nacional e antissocial, de reprodução da desigualdade, racismo, repressão, alienação, construção de um sistema de ensino que nada tem a ver com as realidades do Brasil”. Ele observou que professores de esquerda jamais comandaram a universidade. E que a USP nunca foi invadida de fora, por iniciativa alheia. “A iniciativa sempre foi de dentro. Tropas atenderam convocações da reitoria e direções de unidade”.
Luizito lembrou que, em audiência na Assembleia Legislativa na segunda-feira, o deputado Carlso Giannasi (PSOL) e o Sintusp denunciaram um sistema de espionagem na USP, “montado a partir da reitoria, muito provavelmente em relação com o governador do Estado. “É todo um aparato repressivo. Foi divulgado um relatório elaborado por espiões, com nomes de trabalhadores e frases ditas em reuniões”. Ele disse também que professores estão sendo ameaçados “de forma velada” por membros do Conselho Universitário.
O historiador Jorge Grespan defendeu uma união das três categorias (estudantes, funcionários e professores) por uma greve geral da USP. “Está sendo planejada uma escalada de violência”, afirmou, em relação ao governo estadual. Ele apontou um esfacelamento do centro em todo o mundo, o que leva a uma polarização entre esquerda e direita. “E, quando o centro cai, a luta de classes fica clara. E a direita é forte. Quando a crise bater aqui o PT – que é esse centro no Brasil – se desmorona”.
Grespan considera que as ações de Alckmin na USP fazem parte de uma orquestração tucana para a direita chegar ao governo federal: “Na década de 30 e 40, a esquerda perdeu. Quem ganhou foram os fascistas e nazistas. De novo a gente não pode perder. A luta agora é só o começo. É longa. O movimento não é um ataque só à USP. A direita está se preparando para a luta de classes”.
Além de Mafê, Rafael e Rosi, falaram rapidamente pelos estudantes representantes das seguintes organizações políticas: PCO, LER-QI, Práxis, MNN, PSTU e Espaço Socialista. A plateia do Teatro Coletivo, na Rua da Consolação (bem em frente do cemitério), estava lotada. Estudantes sentavam-se e deitavam-se no palco. A imprensa, ausente, foi citada em vários discursos. Como o de Bruno Gilga, da LER-QI: “A imprensa diz que estamos parados em 1968. E nós vamos trazer 1968 de volta”.
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quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Sobre imprensa, estudantes e tortura
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
A revista Miséria (miseriahq.blogspot.com) repercutiu da seguinte forma a entrevista com Rosi, a estudante de Filosofia da USP torturada no dia 8 de novembro pela polícia, em plena reitoria: “Folha de São Paulo e Rede Globo omitem caso de estudante torturada por conta da ocupação da reitoria da USP”.
Esse é o título principal. A outra chamada do site igualmente foca o conflito na omissão da imprensa: “Jornalistas da Folha de São Paulo e da Rede Globo souberam que estudante tinha sido torturada por policiais, mas optaram em não divulgar isso em seus jornais”.
De fato, o relato que fiz a partir de duas entrevistas de Rosi contém esses dois casos: o da Folha e o da Rede Globo. No caso da emissora de TV, a estudante criticou um repórter que, segundo ela, ignorou a denúncia (ainda no calor dos acontecimentos, durante a reintegração de posse da reitoria) de que estava sofrendo violência dos policiais.
No caso da Folha, Rosi foi procurada por um repórter, dias após a prisão. A entrevista foi gravada. Mas o jornal não quis publicá-la, alegando “questões editoriais”. A transcrição dessa mesma entrevista, porém, motivou na segunda-feira um texto da agência Carta Maior (que não ouviu Rosi) e o texto neste blog (que fez outra entrevista com a estudante).
Ou seja: além de não publicar a reportagem, o jornal faz o entrevistado pensar que o texto vai ser publicado – enquanto isso, respeitando a exclusividade, a fonte não divulga a outros veículos. E o fato vai esfriando. Duas semanas depois, Rosi falaria no Masp, durante ato contra a PM, que a imprensa “podre” não tinha publicado sua denúncia.
“NÍVEL DE DESINFORMAÇÃO”
A revista de quadrinhos Miséria - que destacou essa face jornalística do episódio da tortura - é mantida por um coletivo do qual faz parte o jornalista e cartunista João da Silva. Ele também trabalha no jornal Atenção, da Fábrica Ocupada Flaskô. Seu ponto de vista, como mostra o destaque dado aos casos de imprensa, é o de quem não acredita na isenção dos grandes meios de comunicação.
Ele não é o único. Vale destacar
alguns comentários de amigos no Facebook. Maria Laura Conti Nunes
ironizou a “imparcialidade” da imprensa e recomendou a entrevista com Rosi
desta forma: “Leia e descubra
seu nível de desinformação sobre esse assunto.” Nanci Pittelkow resumiu
o texto de forma concisa: “O outro lado da história”. As duas são jornalistas.
Nesse contexto, fatos de interesse dos estudantes (e de interesse público), como os cartazes colados por skinheads, foram sistematicamente ignorados. Folha e Globo só noticiaram os cartazes - intolerantes e ameaçadores - depois que a Polícia Civil passou a investigar o caso – mas omitiram que essa provocação ocorrera desde antes da reintegração de posse da reitoria (como eu expliquei à Folha).
E olhe que um desses cartazes trazia a imagem de Vladimir Herzog pendurado, com a seguinte legenda: "Suicídio é triste, né?" Na assinatura, uma letra repetida três vezes, compondo uma sigla muitíssimo conhecida nos anos de chumbo: "C.C.C." Uma referência, claro, ao Comando de Caça aos Comunistas.
UM ICEBERG DE NOTÍCIAS
Analisando a cobertura dos episódios na USP, percebi que as notícias e reportagens formam um bloco monolítico – uma visão demonizadora do movimento estudantil. Uma das táticas, como observa o professor Dennis de Oliveira (do Departamento de Jornalismo da ECA-USP), foi a de infantilizar os estudantes. Utilizando diminutivos e expressões pejorativas. Até gente rodada como Gilberto Dimenstein caiu nesse discurso.
Outra tática repetida, avalia Dennis, é a visão moralista – como se ninguém nas redações fumasse maconha ou otras cositas más. E não vamos nem falar dos comentários fascistas de leitores - neste reino da trollagem que se tornou a internet, nessa descida aos infernos que se tornou a leitura de comentários sobre qualquer assunto.
Por outro lado, os artigos – opinativos- sobre os conflitos na USP traziam uma maior pluralidade de pontos de vista. Às vezes, curiosamente, em um único artigo. Algumas das vozes que se levantaram em defesa (nem sempre geral e irrestrita) dos estudantes o fizeram em artigos da imprensa alternativa (como o jornal Brasil de Fato) – mas também em grandes jornais, como Estadão e Folha.
Ou seja, o formato jornalístico destinado a relatar a pluralidade de pontos de vista (as reportagens) tornou-se um imenso bloco monolítico – para não dizer um iceberg. Do outro lado, um formato (o dos artigos) que poderíamos supor mais preso aos interesses do autor revelou-se mais plural.
UM ESPECIAL LAMENTO
Como jornalista, lamentei e lamento a agressividade de parte dos estudantes contra os profissionais de imprensa. Mas sei que não são todos os estudantes que pensam e agem dessa forma.
Como estudante da USP, lamento a indiferença e o cinismo de boa parte dos profissionais da grande imprensa. E registro que, infelizmente, percebo como poucas as exceções.
Em especial, deploro a omissão – historicamente imperdoável – de que uma cidadã brasileira, uma jovem de 25 anos, foi torturada em plena Cidade Universitária, no prédio da reitoria, no centro do poder da maior universidade da América Latina – essa espoliada.
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
A revista Miséria (miseriahq.blogspot.com) repercutiu da seguinte forma a entrevista com Rosi, a estudante de Filosofia da USP torturada no dia 8 de novembro pela polícia, em plena reitoria: “Folha de São Paulo e Rede Globo omitem caso de estudante torturada por conta da ocupação da reitoria da USP”.
Esse é o título principal. A outra chamada do site igualmente foca o conflito na omissão da imprensa: “Jornalistas da Folha de São Paulo e da Rede Globo souberam que estudante tinha sido torturada por policiais, mas optaram em não divulgar isso em seus jornais”.
De fato, o relato que fiz a partir de duas entrevistas de Rosi contém esses dois casos: o da Folha e o da Rede Globo. No caso da emissora de TV, a estudante criticou um repórter que, segundo ela, ignorou a denúncia (ainda no calor dos acontecimentos, durante a reintegração de posse da reitoria) de que estava sofrendo violência dos policiais.
No caso da Folha, Rosi foi procurada por um repórter, dias após a prisão. A entrevista foi gravada. Mas o jornal não quis publicá-la, alegando “questões editoriais”. A transcrição dessa mesma entrevista, porém, motivou na segunda-feira um texto da agência Carta Maior (que não ouviu Rosi) e o texto neste blog (que fez outra entrevista com a estudante).
Ou seja: além de não publicar a reportagem, o jornal faz o entrevistado pensar que o texto vai ser publicado – enquanto isso, respeitando a exclusividade, a fonte não divulga a outros veículos. E o fato vai esfriando. Duas semanas depois, Rosi falaria no Masp, durante ato contra a PM, que a imprensa “podre” não tinha publicado sua denúncia.
“NÍVEL DE DESINFORMAÇÃO”
A revista de quadrinhos Miséria - que destacou essa face jornalística do episódio da tortura - é mantida por um coletivo do qual faz parte o jornalista e cartunista João da Silva. Ele também trabalha no jornal Atenção, da Fábrica Ocupada Flaskô. Seu ponto de vista, como mostra o destaque dado aos casos de imprensa, é o de quem não acredita na isenção dos grandes meios de comunicação.
Ele não é o único. Vale destacar
alguns comentários de amigos no Facebook. Maria Laura Conti Nunes
ironizou a “imparcialidade” da imprensa e recomendou a entrevista com Rosi
desta forma: “Leia e descubra
seu nível de desinformação sobre esse assunto.” Nanci Pittelkow resumiu
o texto de forma concisa: “O outro lado da história”. As duas são jornalistas.
O fato é que a grande imprensa vem fazendo jus a essa descrença (cada vez mais crescente).
No caso da USP, a relação hostil entre ela e o público estudantil ocorre desde
que, no fim de outubro, três estudantes da Geografia foram abordados por
policiais no estacionamento da faculdade – e detidos pela posse de uma pequena
quantidade de maconha.
O acordo entre estudantes e jornalistas tem sido raro - quase impossível.
É uma espécie de conflito USP-Mackenzie dos anos 2000. Nos últimos meses eu (jornalista-estudante) assisti a quase todas as assembleias
gerais dos estudantes da USP, participei de ato em frente da reitoria e assisti à movimentação em
torno das ocupações (da administração da Faculdade de Filosofia) e da reitoria. Do lado dos estudantes, paranoia. Do lado dos jornalistas, um certo complexo de superioridade.
ESTUDANTES X IMPRENSA
O conflito era evidente. No vão livre do prédio da História-Geografia, vi um amigo que trabalha na Band, Francisco Câmpera, revoltadíssimo – um estudante cuspira nele, do alto do prédio, sem se identificar. E ele acabara de chegar. Cuspiram só porque ele era jornalista – ou da Band. Em vários outros momentos alguns estudantes enfrentaram os profissionais de imprensa. Com ofensas verbais, tapa nos microfones e, até, briga corporal.
Do outro lado, igualmente pouca disposição ao diálogo. Um dia um estudante da FEA (a Faculdade de Economia, antro de conservadores na USP) chegou em frente da reitoria com um cartaz. O texto insinuava que os ocupantes só podiam estar ali, ser revolucionários, por causa do dinheiro “do papai”. Os cinegrafistas se divertiram – sentiram-se representados por aquele provocador isolado.
Quase desnecessário assinalar que a performance isolada do aluno da FEA ganhou muito mais mídia do que centenas de falas (sérias, representativas, discursos políticos legítimos) de estudantes de esquerda, nas assembleias ou fora dela. A Batalha da Cidade Universitária é notoriamente desigual.
O conflito era evidente. No vão livre do prédio da História-Geografia, vi um amigo que trabalha na Band, Francisco Câmpera, revoltadíssimo – um estudante cuspira nele, do alto do prédio, sem se identificar. E ele acabara de chegar. Cuspiram só porque ele era jornalista – ou da Band. Em vários outros momentos alguns estudantes enfrentaram os profissionais de imprensa. Com ofensas verbais, tapa nos microfones e, até, briga corporal.
Do outro lado, igualmente pouca disposição ao diálogo. Um dia um estudante da FEA (a Faculdade de Economia, antro de conservadores na USP) chegou em frente da reitoria com um cartaz. O texto insinuava que os ocupantes só podiam estar ali, ser revolucionários, por causa do dinheiro “do papai”. Os cinegrafistas se divertiram – sentiram-se representados por aquele provocador isolado.
Quase desnecessário assinalar que a performance isolada do aluno da FEA ganhou muito mais mídia do que centenas de falas (sérias, representativas, discursos políticos legítimos) de estudantes de esquerda, nas assembleias ou fora dela. A Batalha da Cidade Universitária é notoriamente desigual.
Nesse contexto, fatos de interesse dos estudantes (e de interesse público), como os cartazes colados por skinheads, foram sistematicamente ignorados. Folha e Globo só noticiaram os cartazes - intolerantes e ameaçadores - depois que a Polícia Civil passou a investigar o caso – mas omitiram que essa provocação ocorrera desde antes da reintegração de posse da reitoria (como eu expliquei à Folha).
E olhe que um desses cartazes trazia a imagem de Vladimir Herzog pendurado, com a seguinte legenda: "Suicídio é triste, né?" Na assinatura, uma letra repetida três vezes, compondo uma sigla muitíssimo conhecida nos anos de chumbo: "C.C.C." Uma referência, claro, ao Comando de Caça aos Comunistas.
UM ICEBERG DE NOTÍCIAS
Analisando a cobertura dos episódios na USP, percebi que as notícias e reportagens formam um bloco monolítico – uma visão demonizadora do movimento estudantil. Uma das táticas, como observa o professor Dennis de Oliveira (do Departamento de Jornalismo da ECA-USP), foi a de infantilizar os estudantes. Utilizando diminutivos e expressões pejorativas. Até gente rodada como Gilberto Dimenstein caiu nesse discurso.
Outra tática repetida, avalia Dennis, é a visão moralista – como se ninguém nas redações fumasse maconha ou otras cositas más. E não vamos nem falar dos comentários fascistas de leitores - neste reino da trollagem que se tornou a internet, nessa descida aos infernos que se tornou a leitura de comentários sobre qualquer assunto.
Por outro lado, os artigos – opinativos- sobre os conflitos na USP traziam uma maior pluralidade de pontos de vista. Às vezes, curiosamente, em um único artigo. Algumas das vozes que se levantaram em defesa (nem sempre geral e irrestrita) dos estudantes o fizeram em artigos da imprensa alternativa (como o jornal Brasil de Fato) – mas também em grandes jornais, como Estadão e Folha.
Ou seja, o formato jornalístico destinado a relatar a pluralidade de pontos de vista (as reportagens) tornou-se um imenso bloco monolítico – para não dizer um iceberg. Do outro lado, um formato (o dos artigos) que poderíamos supor mais preso aos interesses do autor revelou-se mais plural.
UM ESPECIAL LAMENTO
Como jornalista, lamentei e lamento a agressividade de parte dos estudantes contra os profissionais de imprensa. Mas sei que não são todos os estudantes que pensam e agem dessa forma.
Como estudante da USP, lamento a indiferença e o cinismo de boa parte dos profissionais da grande imprensa. E registro que, infelizmente, percebo como poucas as exceções.
Em especial, deploro a omissão – historicamente imperdoável – de que uma cidadã brasileira, uma jovem de 25 anos, foi torturada em plena Cidade Universitária, no prédio da reitoria, no centro do poder da maior universidade da América Latina – essa espoliada.
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Alceu Castilho, jornalista.
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