sábado, 21 de janeiro de 2012

São Paulo, 458 anos
Aos 87 anos, Rodolfo Nanni busca recursos para filmar sua cidade

por ALCEU LUÍS CASTILHO (
@alceucastilho)


Em 1954, São Paulo fazia 400 anos. Rodolfo Nanni ganhava quatro prêmios pelo filme “O Saci” (1953), o primeiro filme brasileiro para crianças, a partir da obra de Monteiro Lobato. Em 2012, o cineasta tenta há três anos obter recursos para filmar sua cidade.


Ele está com 87 anos. É o diretor mais longevo do cinema brasileiro – à frente de Nelson Pereira dos Santos, que está com 83 anos. Dirigiu “O Drama das Secas” (1958), de repercussão internacional. Pede respeito.

Um respeito compatível com sua trajetória premiada.

O Saci” estreou no Festival Internacional do IV Centenário da Cidade de São Paulo e ganhou quatro prêmios.  O documentário “O Drama das Secas” e a ficção “Cordélia, Cordélia” (1971) também foram obras reconhecidas. Em 2008 ele filmou O Retorno”, revisitando a região do semi-árido documentada 50 anos antes.
Nos anos 70 fez vários documentários, quatro deles exatamente sobre São Paulo.

O PROJETO

O nome do atual projeto em homenagem à sua terra é “Cidade Ilimitada”. “A Cidade Ilimitada é São Paulo, ilimitada em todos os sentidos, sobretudo no grande contraste entre riqueza e pobreza”, conta Nanni ao blog Outro Brasil.

O roteiro conta a história de habitantes de diferentes classes sociais. “É, a rigor, um filme de denúncia, mas cheio de situações charmosas, mulheres bonitas, sexo, etc”, descreve o diretor.

Os personagens são um rico empreendedor, um operário, uma atriz, um jornalista e um outsider. A sinopse do filme adianta que os personagens vão se encontrando numa trama dramática, desembocando num final surpreendente.

- O que me obsessiona é a cidade como um todo. Há muitas tomadas de helicóptero. Bairros ricos, favelas, congestionamentos, favelas nas margens de estradas de primeiro mundo, como no rodoanel.

Filho de imigrantes italianos com alguns recursos, Nanni nasceu num casarão da Rua Oscar Freire, entre a Rebouças e a Artur de Azevedo. Ali ele conviveu com os modernistas Mário e Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia, que iam visitar outro morador da casa: o escultor Victor Brecheret, seu primo. Acharam pouco? Seus professores de pintura atendiam por Anita Malfatti e Cândido Portinari.

Com essa autoridade de quem viu a cidade crescer, Rodolfo Nanni faz críticas às atuais políticas da prefeitura e do governo estadual na região central:

- As ações na cracolândia me parecem malucas. Claro que tem que acabar, mas não assim. Trata-se de um caso de saúde pública, não de polícia. A polícia tem que ir atrás dos traficantes.

Diante da realidade da especulação imobiliária, ele lembra que um dos personagens principais do filme é o dono de uma grande firma de engenharia. “A questão social quase nunca é levada em conta no Brasil”, afirma o cineasta.

OS RECURSOS

Nanni não esconde as mágoas diante das dificuldades. “Eu tenho convicção de que é um belo roteiro, inclusive afirmado por pessoas que têm nível para entender e julgar”, diz ele. “Mas é incrível, já entrei três vezes no Fomento do Cinema Paulista e esse filme, essencialmente paulista, não ganha”.

O diretor não sabe o motivo. “O insondável mistério dos júris”, afirma. Ele considera os júris imprevisíveis – e muitas vezes absurdos:

- Um exemplo: no Fundo Setorial, quando seu projeto é escolhido e você tem que ir ao Rio para fazer aquilo que chamam de "defesa oral", você, na verdade, não pode defender (ele enfatiza essa impossibilidade), mas estar de acordo com as críticas e  sugestões dos pareceristas. Não é um absurdo? Que espécie de “defesa oral” é essa?

O próprio cineasta tenta obter os recursos para o filme.

- Para realizar "O Retorno" ganhei no edital do Fomento do Cinema Paulista e ainda o "Minc-Fiesp". O absurdo é que ganhei o fomento para fazer o filme no nordeste, mas não consigo ganhar para fazer o filme sobre São Paulo. É kafkiano.

Rodolfo Nanni desabafa:

- Parece que, no Brasil, o fato de ser “consagrado”, como você diz, conta contra. Ser um diretor histórico em nosso cinema não quer dizer nada. Sem me vangloriar (porque não há glória nisso), creio ser o diretor brasileiro mais antigo em atividade e realizei, há 60 anos, um filme que as crianças adoram até hoje.

Diante da idade e do currículo, ele acha que deveria não somente ser respeitado, mas ter facilidades para realizar seus filmes.

- Veja o Manoel de Oliveira, com 104 anos e continua filmando! A Secretária do Audiovisual, Ana Santana, me disse que iria conseguir uma forma de patrocinar filmes para os diretores históricos. Infelizmente, não tive mais notícias sobre isso.

O orçamento aprovado pela Ancine é de R$ 4,8 milhões. O diretor pretende pedir redimensionamento, para menos. Não é o único projeto para o qual não conseguiu obter recursos. Um deles é uma cinebiografia da pintora Tarsila do Amaral.

Nanni disse que não conhece nenhum sistema de captação pela internet, como o do coletivo Catarse.

LEIA MAIS:
“Drama das Secas” era projeto de Josué de Castro e Cesare Zavattini

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Um comentário:

Ana Lídia Oliveira disse...

E continuo na torcida sem fim por mais um belíssimo trabalho (ainda em projeto) que Rodolfo tem para compartilhar conosco.

Por acompanhar ainda mais de pertinho, sei do imenso valor de uma nova realização para um cineasta de referência, como o é Nanni.

Abraço e parabéns pelo texto.