quinta-feira, 27 de setembro de 2012

“Terras de políticos são improdutivas”, aponta mestrado da USP

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

As propriedades rurais de deputados e senadores são majoritariamente grandes - e improdutivas. A constatação foi feita por Sandra Helena Gonçalves Costa, em mestrado defendido na última quinta-feira (dia 20 de setembro) na Universidade de São Paulo. Diante de uma base de dados do Incra, de 2003, ela aferiu que 41,47% do total de propriedade de políticos eram latifúndios improdutivos; e que as grandes propriedades produtivas representavam 29,17%.

Esses dados referem-se às declarações de bens entregues pelas pessoas físicas. Entre as empresas declaradas por políticos a porcentagem é ainda maior: 62,25% do total são grandes propriedades improdutivas, contra 25,26% de latifúndios produtivos. O nome da dissertação, apresentado no programa de pós-graduação em Geografia Humana da FFLCH-USP, é: “A questão agrária no Brasil e a bancada ruralista no Congresso Nacional”.

Sandra informou que Bahia, Mato Grosso e Piauí são os estados que lideram uma lista de 217 propriedades improdutivas de políticos. O professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira observou que, no cadastro do Incra, essas propriedades aparecem assinaladas com três pontinhos, entre parênteses. “É uma decisão corrupta do Incra, para evitar que os proprietários não consigam empréstimos bancários”, afirma. “Isso é ilegal, inconstitucional”.

GRILAGEM E CONTRADIÇÕES

Orientada por Oliveira, Sandra sustentou a tese de que os políticos são sujeitos ativos na dinâmica de expansão capitalista da agricultura. Organizam-se “no intuito de defender seus interesses de classe”. Suas propriedades estão associadas, em muitos casos, à grilagem. “Eles são ruralistas e são grileiros”, afirma Sandra. “Meu trabalho mostra isso”.

Além dos dados do Incra, a pesquisadora analisou também declarações à Justiça Eleitoral, entre 1998 e 2010, além de biografias dos congressistas, estudos acadêmicos e outros documentos oficiais (prefeituras, Câmaras Municipais). “Muitos dados parecem forjados, outros são escondidos”, observa. Ela considera que a existência dos latifúndios fere a dignidade humana e que o poder político “é uma perversidade”.

A pesquisadora identificou 364 políticos na bancada ruralista, nas últimas legislaturas. Apenas 118 declararam profissões diretamente relacionadas. “A lista vai continuar aumentando”, afirma. Sandra observa que os senadores José Sarney e Renan Calheiros só se reconheceram como ruralistas em 2010.

Ela defende mais transparência na divulgação dos dados sobre bens rurais de políticos. Considera que o Estado deixa os pesquisadores numa situação de “abandono”.

O CONTROLE DO TERRITÓRIO

Sandra ressaltou a relação próxima que os proprietários têm com a terra. “O poder político é dos proprietários de terra, na escala dos municípios”, afirma. “Não somente capital. Principalmente no interior, ser poderoso é ter terras, ser fazendeiro”.

A professora Valéria de Marcos, do Departamento de Geografia da USP, que também fez parte da banca examinadora, disse que o caráter rentista dessa classe política precisa ficar mais evidenciado. “É preciso dizer que estão vivendo disso”, afirmou. “E que terra é poder”. Valéria considera que não dá mais para falar do tema (bancada ruralista) sem fazer referência ao trabalho de Sandra, elogiada pela “coragem de colocar a mão nesse vespeiro”.

“O trabalho comprova que o Estado abriu mão do controle de seu território”, afirmou Carlos Alberto Feliciano, da Unesp de Presidente Prudente. “O livro é uma denúncia. Se o Estado quisesse fazer alguma coisa era só pegar a lista que eles próprios declararam e pronto: os assentados já teriam terras”.

Ariovaldo Umbelino de Oliveira afirmou que, daqui para a frente, os congressistas saberão que suas terras estarão expostas na Internet. Ele está em fase de conclusão de um Atlas da Terra, que mostra a dimensão do processo de grilagem, como formador do território brasileiro. Áreas declaradas ao Incra ultrapassam a área real dos municípios, por exemplo.

Sandra dedicou parte de sua dissertação de mestrado às famílias de políticos ruralistas. Como os Caiado, em Goiás, ou os Rosado, no Rio Grande do Norte. Betinho Rosado ilustra um caso de diferença entre os dados do Incra e os do TSE: declarou 784,8 hectares em Mossoró, mas no Incra constam somente 554 hectares. “Quase nunca a área registrada coincide com a declarada”, afirma.

Uma exceção a essa tendência ocorre no Sul. “Mas os políticos vão buscar terras em outros estados”, diz Sandra. “CNA, Associação dos Criadores de Zebu e UDR são espaços de articulação desses parlamentares, para se apropriarem de terras em outros estados”.

PARTIDO DA TERRA 

Muitos dados apresentados coincidem com os do livro Partido da Terra (Alceu Luís Castilho, Editora Contexto, 2012), um levantamento a partir de quase 13 mil declarações de bens de prefeitos, vice-prefeitos, deputados estaduais, federais, senadores, governadores e vice-governadores, eleitos em 2008 e 2010.

Carlos Alberto Feliciano chegou a tirar o livro da mochila, durante sua arguição (sem saber que o repórter estava presente), e observou que jornalista e pesquisadora tinham chegado, por caminhos diferentes, a várias constatações em comum. Ele apontou diferença entre o viés acadêmico da pesquisadora e o que chamou de viés “mercadológico” do livro, segundo ele mais preocupado do que o trabalho acadêmico em “contar histórias”.

Jornalista e pesquisadora chegaram a conclusões idênticas sem terem se falado. E com metodologias diferentes. Sandra se estendeu mais no tempo, contabilizando dados de políticos do Congresso eleitos desde 1998. E analisou também os dados do Incra.

O trabalho que resultou no livro avançou em outras esferas de poder, ao analisar os bens de deputados estaduais, governadores, prefeitos e vice-prefeitos. A conclusão do autor é a de que existe, mais que uma bancada, um “sistema político ruralista” no Brasil.

A CONTINUIDADE

Uma das conclusões do mestrado de Sandra é a do surgimento de novos protagonistas entre os ruralistas. Ela observa que, após as mudanças do Código Florestal (chamado por ambientalistas de Código Ruralista), eles se dedicarão a atacar os territórios indígenas.

Ela também enumerou casos de conflitos de políticos com a classe camponesa: o de Benito Priante e Jader Barbalho, no Pará, mencionados no caso da irmã Dorothy Stang; e o do deputado federal Rubens Moreira Mendes Filho, em Rondônia, que, em documento oficial, chegou a perguntar ao Exército por que não tinha enviado forças armadas contra a Liga dos Camponeses Pobres.


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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Professor da USP vê diferença entre ruralistas: “produtores e especuladores”

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

O senador Blairo Maggi (PR-MT) costuma se dirigir à senadora Kátia Abreu (PSD-TO), durante discussões sobre Código Florestal, e dizer: “Você nunca produziu nada”. Em relação ao Código Florestal, ele afirma que ela não sabe do que está falando, exatamente por manter terras para gado, com fins especulativos. O relato é do professor Ricardo Ribeiro Rodrigues, da USP, para quem as diferenças entre os ruralistas são explícitas e assumidas.

Rodrigues faz parte do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz), do Departamento de Ciências Biológicas, em Piracicaba. Ele participou no sábado, em São Paulo, do Hackday Código Florestal, um evento que tomou o fim de semana, organizado por ativistas ambientais. Estes consideram que “o jogo não acabou” em relação ao Código, e organizam informações para pressionar os políticos a barrar mudanças que beneficiem os ruralistas.

O relato do professor da USP identifica pelo menos dois grupos entre os ruralistas do Congresso. Um deles, o dos produtores – que têm no senador Maggi um símbolo. Comumente descrito como “rei da soja”, ele planta mais de 200 mil hectares de grãos (soja, milho, algodão) no Mato Grosso, onde foi governador. Seu primo Eraí Maggi planta ainda mais – 300 mil hectares.

O outro grupo seria o dos pecuaristas. Rodrigues observa que 2/3 da área agricultável no Brasil (mais de 200 milhões de hectares) não estão com a agricultura, e sim com a pecuária. E que esta, assegura, não é produtiva, e sim especulativa. A relação entre a arroba do boi e o território ocupado, em boa parte dos casos, é deficitária. Isso significa que o gado é utilizado para outros fins – como a lavagem de dinheiro.

Ele mencionou o caso de outro senador, Renan Calheiros (PMDB-AL), ex-presidente do Senado e apontado como favorito à sucessão do atual presidente, José Sarney (PMDB-AP).

Os dois são mencionados no livro “Partido da Terra” (Alceu Luís Castilho, Editora Contexto, 2012). O autor do livro – responsável por este blog – identifica a existência de um “sistema político ruralista” no Brasil, do qual a bancada ruralista seria uma de suas expressões. Essa idéia foi construída a partir da análise da declaração de bens de quase 13 mil poíticos brasileiros, eleitos em 2008 e 2010.

O debate no início do Hackday Código Florestal contou também com a participação de Sérgio Leitão, do Greenpeace, e de Raul do Valle, do Instituto Socioambiental (ISA). Leitão enfatizou outra diferença na bancada ruralista: aquela mais rígida (composta por 150 deputados que bancaram há alguns anos a eleição de Aldo Rebelo à presidência da Câmara), que atua sempre fechada, "pensa nisso 24 horas por dia", e uma mais maleável, que pode ser alvo dos ambientalistas em relação à mudança de voto.

Raul do Valle considera que, para além da posse de terras pelos políticos, ou doações de campanha por empresas agropecuárias, a bancada ruralista é composta por parlamentares que adotam um discurso ideológico hegemônico. Esse discurso é associado ao crescimento e à noção de que o Brasil ainda teria terras de sobra para agricultura e pecuária. Ele considera que é preciso deixar claro à sociedade as consequências dessa visão de mundo.

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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Políticos estão na nova Lista Suja do trabalho escravo
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
Pelo menos dois prefeitos, um ex-prefeito e a mulher de um deputado estadual estão na nova Lista Suja do trabalho escravo, divulgada na semana passada pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
 
O levantamento foi feito pelo blog a partir de cruzamento com a lista de políticos contida no livro “Partido da Terra” (Editora Contexto, 2012), no capítulo sobre trabalho escravo.
 
A mulher se chama Janete Riva. Ela chegou a ser candidata a vice-governadora do Mato Grosso, pelo PSDB, em 2002. É casada com José Riva (PP), presidente de honra da Asssembleia. Chegou a ser presa em 2010, durante a Operação Jurupari, que combatia o comércio e o transporte ilegais de madeira da Amazônia. Sua história está contada em outro capítulo do mesmo livro, “Amazônia despedaçada”.
 

Ela está na nova Lista Suja por conta de fiscalização feita na Fazenda Paineiras, em Juara (MT). A atividade ali, segundo o MTE, é a criação de gado bovino. Sete trabalhadores foram libertados. Em 2010 ela possuía mais de 7 mil hectares e 3,4 mil bovinos nessa fazenda. Segundo a ONG Repórter Brasil as vítimas pagavam pelas ferramentas de trabalho. E não eram fornecidas camas ou colchões.
 
A mesma ONG especializada em trabalho escravo informa que, em cada quatro ingressantes da Lista Suja, um é do Mato Grosso.

O município de Codó, no Maranhão, é mencionado várias vezes em denúncias de trabalho escravo envolvendo políticos. A nova Lista Suja (atualizada a cada seis meses) inclui o próprio prefeito, Zito Rolim, ou José Rolim Filho, eleito pelo PV.
 
Vinte e quatro trabalhadores foram libertados das fazendas São Raimundo e São José, em Peritoró (MA). A atividade econômica também é a criação de bovinos. O livro “Partido da Terra” informa que essas fazendas não foram informadas à Justiça Eleitoral. Ele declarou outra fazenda, de 968 hectares, em Itapecuru Mirim. Não registrou nenhuma cabeça de gado.
 
O estado com mais conflitos de terra no Brasil é o Pará. A nova Lista Suja mantém o nome de Francisco Medeiros Sobrinho. Ele está inelegível, mas já foi prefeito de Japi (eleito pelo PSDB), no Rio Grande do Norte. Mas as terras ficam em Palestina do Pará. A fiscalização do MTE libertou ali cinco trabalhadores. Que também trabalhavam com gado bovino, na fazenda Indiaçu.
 
O município de Japi é administrado por outro membro da família Medeiros – todos parentes do patriarca, o “coronel” Francisco Medeiros. Estas informações também constam do livro “Partido da Terra”.

Finalmente, a nova Lista Suja apresenta o nome de Vicente Pereira de Souza Neto, o Vicentão. O agricultor é prefeito de Toledo, em Minas Gerais. Os fiscais libertaram 21 trabalhadores da Fazenda Santana, em Vianópolis (GO).
 
Vicentão não declarou essa fazenda à Justiça Eleitoral, em 2008. Nem qualquer terra em Goiás. Somente 298 hectares em Toledo. Os trabalhadores libertados tinham saído de Colinas, no Maranhão. Na fazenda do prefeito, colhiam batatas.
 

A ONG Repórter Brasil informa o nome de mais duas pessoas ligadas ao mundo político entre os ingressantes na Lista Suja, além de Janete Riva: o engenheiro René Pompêo de Pina, ex-secretário de infra-estrutura do Estado de Goiás (e presidente do conselho da Celg Distribuição S/A), filiado ao PSDB, e o de Emanoel Gomes Bezerra Junior, sobrinho do deputado federal Carlos Bezerra (PMDB-MT).
 

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um cantor indígena, a feira literária das elites e a nossa “barbárie cultural”
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
A expressão “barbárie cultural” está em um texto na parede da Casa do Núcleo, um espaço alternativo (local de shows e cursos, sede de uma gravadora e produtora) localizado no bairro de Alto de Pinheiros, em São Paulo. Refere-se à perda irreparável que é ignorarmos culturas de outros países e povos, diante do massacre ao qual somos diariamente submetidos pela indústria do entretenimento – com viés, claro, estadunidense e europeu.

Lembrei-me da “barbárie cultural” ao ver vídeos com músicas de Wakay, um índio Funi-ô alagoano radicado em Salvador. Ele canta em yathe, seu idioma materno, e em português. A apresentação de seu trabalho fala de ritmos marcados pelos pés (como nas danças indígenas) e da presença de sons de pássaros e água corrente. Considera-se na missão de espalhar as tradições dos primeiros habitantes das terras brasileiras.


Pode-se até não gostar das músicas. Ou do autor. Mas é preciso reconhecer que faz circular um conjunto diferente de imagens, de conceitos, de olhares, em relação ao que estamos acostumados. Só a divulgação do texto em idioma indígena já valeria a experiência. O Brasil tem hoje cerca de 180 idiomas, além do português. Eles representam séculos de tradição, de riqueza cultural. Mas muitos estão em extinção. Os demais seguem desconhecidos, enquanto aprendemos inglês, espanhol e alemão.

O cientista social Emir Sader escreveu este mês um texto sobre a Flip, a Feira Literária Internacional de Paraty, que vai ao encontro dessa ideia de barbárie cultural. Está no blog da Boitempo Editorial. Ele critica a elitização do evento, que, para ele, tanto poderia ser realizado em Ibiza, em Cannes ou no Havaí: “Parece que se joga justamente com o exclusivismo, com o gasto enorme que se pode fazer, para dizer: 'Eu estive na Flip, em Paraty'.”

Sader menciona uma ausência específica na Flip: a de representantes da literatura e do ensaísmo latino-americanos, que tiveram “pouca ou nenhuma presença” no evento, no início de julho. De fato, basta passar os olhos na relação dos debatedores para observar a ausência dos vizinhos. E olhem que se trata de uma das literaturas mais ricas do planeta.

Não por coincidência, o criador do Núcleo Contemporâneo, onde fica a Casa do Núcleo, investe na coleta de CDs e informações sobre música da América Latina. É o músico Benjamin Taubkin, membro do Fórum Europeu de Música do Mundo. Ele considera a música desse continente (por conta da diversidade de estilos e culturas) uma das mais inspiradoras e vivas do planeta.

A cultura dos povos indígenas está para a cultura brasileira assim como a cultura produzida na América Latina: distante, desconhecida. Lutar contra a barbárie, no Brasil, significa lutar contra o desconhecimento monumental relativo às mais de 200 nações indígenas distribuídas por nosso território. E implica disposição para conhecer mais seus idiomas, suas danças, sua musicalidade.

Os indígenas estão se movimentando, a duras penas. Temos neste texto apenas um exemplo, com Wakay. Mas o vídeo tem pouquíssimos acessos no YouTube. Outros estão fazendo ou aprendendo a fazer filmes – um cinema com outro olhar, outra luz, que ainda não chega em nossos aparelhos hollywoodianos.

Entre os brancos ditos civilizados (inclusive os que se consideram ilustradíssimos), a barbárie cultural é uma doença contagiosa, uma praga que nos confina em pontos cada vez mais isolados de nosso território possível.

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terça-feira, 10 de julho de 2012

Fantástico celebra superação “da natureza”, mas ignora planeta econômico
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
O repórter Clayton Conservani, do Fantástico, obteve uma especialização “radical”. Ele sai pelo mundo "desafiando" a natureza. No domingo o programa dedicou mais de meia hora à sua suposta façanha de correr por centenas de quilômetros no Saara. Ele chegou a chamar de “herói” um colega que, como ele, conseguiu atingir o objetivo.
 
A mensagem embutida é que cabe ao homem superar as dificuldades "da natureza". Há que se seguir em frente, apesar dos pés em carne viva. É preciso se sacrificar no Saara “em nome da filha”, do outro lado do oceano, porque ele “treinou” e é um marido sensível e dedicado.
 
O mesmo programa falava (em poucos segundos) de mais de cem mortos por inundação na Rússia. O programa poderia ter informado que nem sempre se pode desafiar a natureza. Mas foi tudo muito rapidinho, pois era preciso falar das peripécias do repórter no Saara. Ficamos sabendo que o governo russo abriu uma investigação. E só.
 
Na Baía de Guanabara, pescadores brasileiros estão sendo mortos apenas por insistirem em ir ao mar. Para trabalhar. Estão contrariando interesses econômicos. Nada de recompensa por desafiarem a natureza numa atividade ancestral. Dois deles foram amarrados ao barco, no fim de junho. Morreram afogados. Nos três últimos anos mais dois foram assassinados. Outros, ameaçados.
 
Por que a Globo não manda Conservani pescar na Guanabara? E por que a emissora não reserva alguns minutos para defender a vida de pescadores?
 
O presidente da Associação de Homens e Mulheres do Mar (Ahomar), Alexandre Anderson, fez um depoimento emocionado, no fim de junho. Por conta dos amigos mortos, e das ameaças que o motivam a desistir de ir ao mar. Ele também falou dos filhos – e dos filhos de colegas ameaçados. Em nome dos filhos (e da vida), pensa que já não poderá mais pescar em seu território. Quer desistir.
 
A mesma televisão que, com câmeras indiscretas, invade o rosto de celebridades para mostrar suas lágrimas (por qualquer apelo emocional barato) não mostra o depoimento emocionado de Anderson, em fala na OAB do Rio. O depoimento tem larga importância econômica. Cultural. Política. Literária. Social. É um documento que valoriza o ser humano, em meio à adversidade. É um depoimento fantástico.
 
No entanto, os telespectadores são obrigados a assistir ao pé de Clayton Conservani em carne viva. Condoem-se de suas dificuldades no deserto, compartilham de sua necessidade de “superação”.
 
E os mortos na Guanabara? Não treinaram o suficiente? Não são “heróis”? E o adolescente de 15 anos que foi morto há alguns dias, também no Rio, morto e empalado, com os olhos arrancados, apenas por ser homossexual, ele não estava apto a enfrentar “a natureza”? Quantos segundos esse ser humano recebeu de nossa atenção?
 
Estamos em julho. Não é época de inundação no Brasil. E sim na Rússia. Em janeiro os jornais falarão burocraticamente dos “desastres” causados pela chuva – e não pela ocupação irresponsável dos solos urbanos. Não seremos informados que, por motivos econômicos, pela imposição do sistema, milhões de seres humanos são obrigados a morar precariamente em encostas, em locais de risco.
 
Mas, vejam só, lá vem a perigosíssima tempestade de areia no Saara. Clayton Conservani vai enfrentá-la e nos redimir dos pecados.
 
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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Os homens e o mar: depoimento emocionado de pescador resume a história do Brasil
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
Tem de ser visto. E divulgado. O depoimento do pescador Alexandre Anderson, em ato na OAB no fim de junho, tem um valor histórico que ainda não foi percebido pela sociedade brasileira – nem mesmo por seus resquícios de esquerda.
 
Se Ernest Hemingway consagrou a história de “O Velho e o Mar”, temos na matança de pescadores na Baía de Guanabara a síntese – literária e histórica – de um país violento.
 
Em pleno Rio de Janeiro, jovens pescadores como Almir e João estão sendo sistematicamente mortos por lutarem por seus direitos. “Nós só queremos ficar no mar”, diz Anderson no vídeo. Chorando. “Por que nos perseguem?”
 
O depoimento resume uma história de espoliações. E de assassinatos. De um país ainda majoritariamente litorâneo – e que faz vistas grossas para os 500 anos de pilhagem. De pirataria. Sintetiza ainda o grito possível dos excluídos – entre lágrimas.
 
Anderson representa a Associação de Homens e Mulheres do Mar (Ahomar). Aqui ele fala emocionado sobre o assassinato dos companheiros Almir Nogueira do Amorim (40 anos) e João Luiz Telles Penetra (45 anos), o Pituca. Diz que sabe quem são os mandantes – e que eles também estão dentro do governo estadual, do governo municipal.
 
A fala do pescador foi feita apenas seis dias após os homicídios, no dia 23 de junho – enquanto o mundo olhava para a Rio+20. Dias antes, no dia 18, Almir e Pituca estavam em uma mesa na Cúpula dos Povos. Enquanto a ministra do Meio Ambiente atacava não empresários ou latifundiários, mas ambientalistas.
 
Seguem o vídeo, divulgado pela Anistia Internacional (que move uma ação urgente em defesa dos pescadores), e a transcrição, feita pelo blog:


“Vocês são homens do mar, então vão morrer no mar”

“Quando a gente enterra um companheiro vai um pedaço de nós ali dentro. A gente está enterrando gente, nossa alma está ali dentro também. Até a nossa alma de luta nos tiram. Falei outro dia num discurso: 'Podem acabar com nossa vida, mas nossa alma de luta não. E estão levando nossa alma de luta sim, gente'.

O mais triste disso tudo é você ver os companheiros mortos. O mais triste disso tudo é que ninguém faz nada. Só vocês. Mas parece que é muito pouco. Parece que quem deveria fazer, sabendo que deveria fazer, não faz.

Nós sepultamos o Almirzinho. Eu vi todo aquele caixão lacrado, pesado de água. Não um pescador, não um de nós ali dentro. Eu vi o nosso sonho ali dentro, junto. Eu vi nossa luta dentro de um Pituca, em Paquetá. Ele foi enterrado com uma foto segurando um peixe, gente. Jesus buscou um pescador para acompanhá-lo.

Por que nos perseguem? Nós só queremos ficar no mar.

Nós sabemos que foi um aviso. Nós temos certeza que foi um aviso. Hoje a Baía de Guanabara está em luto. Os Homens do Mar estão em luto. Uma coisa que eu não vi, desde que fundamos os Homens do Mar: estamos com medo. Não vimos isso, nem com a morte do Paulo [Santos Souza, em 2009], nem com o assassinato do Márcio [Amaro, em 2010].

Hoje temos medo. Medo porque estamos sendo mortos, amarrados no próprio barco. Medo porque eles foram mortos, respirando a água do seu próprio mar. Dando um sinal: 'Vocês são homens do mar? Então vão morrer no mar!”. Eles fizeram isso com o Paulo? Não, mataram na frente da família. Fizeram com o Márcio? Mataram na frente da família. Agora não: 'Vocês são homens do mar, vão morrer no mar”, esse é o recado que estamos recebendo. 'Continua, que vocês vão todos ser mortos'.

Eu não sei o papel daqui pra frente. Meus companheiros estão calados. A Baía de Guanabara está calada. Os barcos não saíram pro mar, desde segunda-feira. Os barcos estão na areia da praia. A tristeza está nos nossos olhos. Na nossa família. E a gente olha pra um lado, olha pro outro, e (…) não é como antigamente.

Não foi uma morte, gente. Isso é uma crueldade. Eles amarraram nosso companheiro, deixaram ele se afogar lentamente. Até as 11 da manhã de domingo achamos que estavam desaparecidos. Toda uma comunidade, ninguém imaginou que eles seriam assassinados.

Eles estavam justamente no caminho daquele maldito pier do Comperj [o maior complexo petroquímico do Rio]. Eles foram mortos na água que drena o [Rio] Guaxindiba, que é alvo da nossa luta, de preservar aquele meio ambiente. Nós fazemos parte do meio ambiente. Quando eu falei que nós, pescadores, somos parte da Baía de Guanabara, isso é verdade, mas a gente não quer morrer respirando a água da Baía de Guanabara.

Está muito triste pra gente. Muito triste. Eu não estou mais dormindo. Eu disse esta semana em reunião na Ahomar que, se tiver de morrer mais alguém, que morra eu, que seja um bom preço. Vão acabar com a Ahomar, gente, vão acabar com o grupo. Éramos onze, nós somos oito. Somos oito, estão matando o grupo da Ahomar, estão nos matando.

Eu não quero acreditar que seja uma coisa particular. Eu queria acreditar que fosse alguma coisa individual, um problema individual. Mas não está indo para esse lado. Eu vi lágrima nos olhos do curraleiro [há rivalidade entre pescadores artesanais e curraleiros], quando eu perguntei ontem: 'Vocês viram alguma coisa?'. 'Alexandre, nós não matamos o companheiro, Alexandre”. Eu falei: 'Eu sei disso'. 'Estão botando a culpa na gente, esses malditos desses jornais. Única coisa que a gente viu foi aquele navio maldito, que passa sem nome, sem placa, sem identidade, quase afundando nossos barcos' .

Eu peço que as autoridades investiguem. E investiguem muito. Isso serviu de recado para alguém. Já recebemos o recado. A gente não vai mais para o mar, não. Eles conseguiram o que queriam, nos tiraram da água. Tiraram os homens do mar da sua casa.

Há alguns anos atrás nós falávamos, eu mesmo usei o mar para proteção. Quando dava alguma coisa de ruim na nossa praia a gente corria pro mar. Hoje a gente tem como correr pro mar, onde a gente vai correr? Hoje só tem o caminho do cemitério pra gente.

Peço às autoridades deste país que investiguem a morte do Pituca e do Almirzinho. Que investiguem a morte de Paulo, que investiguem a morte de Márcio. Vão encontrar que tudo tem uma grande relação. Desde que nós começamos a fazer a parte da campanha contra o uso industrial do Guaxindiba começamos a receber muita ameaça. Nesse mesmo momento o DPO [Destacamento de Policiamento Ostensivo] da Praia de Mauá fechou, 35 mil pessoas ficaram sem policiamento. O único DPO da Praia de Mauá. Nesse mesmo momento começamos a ser perseguidos.

Numa dessas perseguições a viatura que estava comigo, perseguida, atirou contra os malfeitores que vinham, não identificados. Nessa mesma época os diretores começaram a falar que estavam sendo visitados por homens armados.

Nós sabemos quem são. Sabemos de onde está vindo. São pessoas que ganham muito dinheiro com todo esse processo de industrialização da Baía de Guanabara. São pessoas que trabalham na segurança, fornecendo água, transporte aquaviário, transporte terrestre para esses empreendimentos. São pessoas que estão dentro do governo do estado. São pessoas que estão dentro do governo municipal. São pessoas que estão dentro da segurança pública local.

Nós estamos alertando. 'Vai morrer mais gente, está muito difícil'. Eu aviso ao programa [aponta para alguém], está muito difícil. Apareceu um barco, tem dois meses, todo perfurado de balas. O pescador ficou quatro dias na porta da delegacia local e não conseguiu fazer um R.O. [Registro de Ocorrência] No final o cara falou: 'Vou te prender. Vai embora daqui'. Ficou um bicho. O barco está lá todo perfurado.

Nós temos histórico de barcos todos perfurados de bala, à noite. Nós escutamos estampidos de tiros. Antigamente a gente escutava barulho à noite, sabe do quê? Da última barca de Paquetá, quando ia para o Rio de Janeiro. Hoje a gente escuta estampido de tiro de fuzil, de pistola.

O pescador está sendo expulso. Agora vem o jornal e diz que não tem relação, que o pescador é que está matando pescador. Onde, gente? Falaram isso do Paulo, no começo: 'É conflito de pesca'. Daqui a pouco vão botar a culpa neles, que eles é que se amarraram e se suicidaram. Cada um amarrou o outro.

Eu estive com os curraleiros de Magé, curraleiro que tinha mais dinheiro está com a casa trincada. O que conseguiu ganhar algum dinheiro o cara tem um Chevette 94. Eles estão chorando, chorando de indignação. Eu estive com o pessoal de Paquetá, eles não querem nem falar. Pessoal só faz assim, aponta na direção dos terminais, aqueles malditos terminais. Aponta na direção da Ahomar.

Essa luta deu muita morte gente, vamos parar. Nessa luta não estamos lutando com o Golias, não. Estamos lutando com o próprio capeta, meu irmão. Não estão lutando com Golias. Golias, Davi ganhou. A gente não ganha mais essa luta não.

Estou muito triste. Estou achando que vou largar tudo. Não quero mais ver companheiros mortos. Não quero enterrar mais ninguém dos Homens do Mar. Não quero. Vou fazer um trato. Se isso não der um encaminhamento, eu vou largar a luta, vou largar o grupo. Estou cansado de enterrar, estou cansado de avisar: 'Estão matando, gente. Estão perseguindo, estão na minha porta'. Estou cansado de ver meu muro cheio de buraco de bala, estou cansado de ver barco de pescador cheio de buraco de bala, estou cansado de ver mulher de pescador dizer: 'Meu filho, você vai morrer'.

Eu não posso ver mais meus filhos. Os companheiros que estão do meu lado não estão mais aguentando também. Será que neste país aqui a gente está vivendo um estado democrático, gente? Isso é pior que a ditadura. Está aqui do lado. Está tudo acontecendo aqui do lado.

Não tem jeito. Eu não ia falar sobre isso. Mas não estou conseguindo. Quem matou Paulo, quem matou Márcio, quem matou o João, que é o Pituca, quem matou o Almirzinho, eu queria dar o recado: 'Para. Para que a gente vai embora'.” (Alexandre Anderson, presidente da Associação de Homens e Mulheres do Mar)
 

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sábado, 7 de julho de 2012

Cachorro faz xixi na foto do Kassab. Mas a imagem não representa a realidade
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
A foto de J. Duran Machfee mostra um cachorro fazendo xixi em uma foto gigante do prefeito Gilberto Kassab, em pleno Minhocão, em si um símbolo da degradação paulistana. Por que ela não representa a realidade?
 
Sim, o cachorro lá esteve, no insinuante Elevado Costa e Silva, e por ali batizou o cartaz com a imagem do prefeito. A foto está sendo reproduzida com júbilo nas redes sociais. Todos comemoram o gesto involuntário do cão como um grande feito.
 
E, no entanto, o prefeito dorme diariamente o sono tranquilo dos injustos. O higienista Kassab, um prefeito que já chamou (aos berros) um cidadão de “vagabundo”, não enfrenta reação popular. De gênero nenhum – nem violenta, nem humorística, nem desorganizada. A indignação não se manifesta.


Ou seja: essa imagem da agência Futura Press esconde uma passividade geral. Está varrendo a política municipal de exclusões sistemáticas para debaixo do tapete. Quando vemos a foto, rimos o nosso riso distante e achamos (não racionalmente, mas achamos) que algo está sendo feito contra esse político retrógrado, autoritário, esse soldado das elites. Como diria René Magritte*, "isto não é um protesto".
 

(*O pintor surrealista belga questionou a fronteira entre realidade e representação ao pintar um cachimbo e legendá-lo: "Isto não é um cachimbo".)

Uma das decisões recentes dessa triste prefeitura foi a de proibir a distribuição de sopa no centro da cidade. Antes tinha, agora não tem. Alguém teve uma ideia genial: fazer, nesta quinta-feira, um sopão em frente da “casa do Kassab”, ou seja, diante da própria prefeitura, ao lado do Viaduto do Chá. Ótimo! Uma excelente oportunidade da massa ir lá e dar seu recado, seu grito!

Segundo os próprios organizadores, compareceram cerca de 200 pessoas. Em 10 milhões de paulistanos, 200 heróis se dispuseram a fazer o Sopão do Prefeito Diferenciado, ele que está fechando saraus nas periferias, ele que promoveu de modo sórdido a limpeza da cracolândia (ou seja, a violência sistemática contra humanos que moram na rua), ele que faz uma gestão pública às avessas – contra o cidadão.

Duzentas pessoas. Duzentos paulistanos corajosos e criativos. Indignadíssimos, exercendo corretamente sua cidadania no Largo do Patriarca. Eles são um exemplo. De resto, se não há aplausos em relação a esse político lamentável (e sua política do escárnio), há, sim, muita distração, muita timidez. Muita indignação ligada no automático. E a imagem do cachorro revolucionário esconde esse silêncio.
 

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