Empresa ligada a prefeito no MT terá 350 mil hectares
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)*
Um dos slogans da Vanguarda Agro é: “Mais de 300 mil hectares sob gestão”. A edição de hoje do Valor Econômico conta que a empresa busca investidores, especialmente fundos de pensão estrangeiros, para aquisição de terras no Brasil. A meta é adquirir de 50 mil a 60 mil hectares de terras brutas – ainda não abertas para a agricultura. A empresa já teria 290 mil hectares de área plantada. Metade da área da Palestina.
O principal acionista individual da Vanguarda, com 20% das ações, é o prefeito de Lucas do Rio Verde (MT), o ex-deputado estadual Otaviano Pivetta (PDT). Ele é dono de uma fortuna de R$ 321 milhões, conforme a declaração entregue à Justiça Eleitoral em 2012. Em 2006, quando se elegeu para a Assembleia, ele declarou R$ 82 milhões. É um dos políticos mais ricos do Brasil.
Ele tem na empresa cerca de 1/3 de seus bens. Nada menos que R$ 96 milhões vêm de ações da Vanguarda. Outros R$ 104 milhões vêm de cotas da Vanguarda do Brasil, da Agropecuária Margarida e da Fazenda Terra Santa – independentes da Vanguarda Agro. Em 2008, ele disse à IstoÉ Dinheiro que pretendia somar 500 mil hectares e se tornar o maior produtor de grãos do Brasil.
A Agropecuária Margarida, em Nova Mutum (MT), recebeu verbas neste ano do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste, R$ 36 milhões, para aumentar a produção de suínos, de 5,5 mil para 22 mil cabeças.
Pivetta também declarou R$ 1,45 milhão em cotas da empresa Melhoramentos do Oeste da Bahia. Segundo o professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, ela teria o sétimo maior latifúndio do país, em Formosa do Rio Preto, a Fazenda Estrondo, com 121.411 hectares.
Essa companhia esteve na Lista Suja do Trabalho Escravo, mas foi excluída, em 9 de setembro de 2010, após concessão de liminar. “Na área da Companhia Melhoramentos do Oeste da Bahia (CMOB), que atua tradicionalmente com mineração na região, foram libertados 39 trabalhadores que catavam raízes para viabilizar a produção de soja, em outubro de 2005”, relatou a ONG Repórter Brasil. Nessa época Pivetta não era acionista.
Segundo a organização, a Fazenda Estrondo também já foi notificada e incluída no chamado "Livro Branco da Grilagem de Terras", documento divulgado em 1999 pelo governo federal, que tentava reverter ao patrimônio público dezenas de milhões de hectares de terras ocupadas irregularmente por particulares.
* o titular deste blog é também o
autor do livro "Partido da Terra - como os políticos conquistam o
território brasileiro" (Editora Contexto, 2012)
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Por uma Marcha dos Amarildos
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O
dia 12 de agosto marca os 30 anos do assassinato da líder sindical
Margarida Maria Alves, camponesa de Alagoa Grande, na Paraíba. O caso
gerou muita revolta na época. Entre os acusados estava Aguinaldo Velloso
Borges, político, coronel. Em 1962 ele já fora acusado de mandar matar
João Pedro Teixeira, o “Cabra Marcado para Morrer” do filme de Eduardo
Coutinho. Naquele ano um deputado estadual e quatro suplentes
renunciaram para que Borges assumisse o cargo na Assembleia e ganhasse
imunidade. Em 1990, ele morreu. Seu neto, homônimo, é o atual ministro
das Cidades.
Borges era bem relacionado, como mostro no livro “Partido da Terra – como os políticos conquistam o território brasileiro”.
Nove dias após o assassinato de Margarida, ele recebia o deputado Paulo
Maluf, então candidato à Presidência. Um jornal local descrevia o
usineiro como líder de um grupo de três deputados federais, cinco
deputados estaduais, 50 prefeitos. Controlava 27 representantes da
Paraíba no Colégio Eleitoral que definiria o próximo presidente. Maluf
perderia para Tancredo Neves.
Trinta anos depois, o neto de
Tancredo tenta a presidência da República, pelo PSDB. Sem despertar
maiores emoções. O Partido dos Trabalhadores chegou ao poder sem fazer
reforma agrária. A presidente Dilma Rousseff busca a reeleição com um
aliado polêmico: o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB).
A
sociedade brasileira – e fluminense – faz em coro uma pergunta simples
ao governador: “Onde está o Amarildo?”
O pedreiro Amarildo Dias de
Souza desapareceu na Rocinha no dia 14 de julho, após ser levado, “para
averiguação”, para a sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).
Tinha 43 anos. Provavelmente foi assassinado. A sociedade quer saber não
apenas onde está Amarildo, mas que sejam investigados seus algozes. O
responsável (ao que tudo indica, o Estado), devidamente punido.
As
duas histórias têm cara de ditadura. No fim do regime militar,
Margarida foi vítima de um crime que continua a ocorrer, no campo, em
tempos democráticos. Com assinatura de fazendeiros, de políticos, e
proteção sistemática da Justiça. É por causa dessa violação sistemática
de direitos de trabalhadoras rurais que a Contag e outras entidades
sindicais organizam, a cada quatro anos, a Marcha das Margaridas.
Durante
dias as trabalhadoras rurais marcham do interior do Brasil até
Brasília. Por visibilidade. Para os milhões de Margaridas no Brasil. Em
2011 a Marcha das Margaridas teve como lema desenvolvimento sustentável
com justiça, autonomia, igualdade e liberdade.
Esta liberdade também se mostra ausente no mundo urbano – e masculino. No Rio, Amarildo era conhecido como “Boi”.
Forte, e na ausência do Estado, ele carregava as pessoas que precisavam
de socorro, em meio às escadas da favela, para que fossem atendidas com
urgência em um hospital. Era um herói – ainda não reconhecido.
As
lutas da cidade e do campo são uma só. Ou pelo menos deveriam ser. É
por isso que lanço aqui uma ideia singela: por que não se pensar em
fazer, de quatro em quatro anos, uma Marcha dos Amarildos? Não só pelos
desaparecidos e assassinados. Mas por todos os ameaçados, humilhados.
Em
2015 teremos novamente uma Marcha das Margaridas. Em pauta, os direitos
no campo. E em 2013? 2017? A Marcha dos Amarildos seria um ato-espelho,
uma homenagem a todos os heróis urbanos. E reivindicaria o direito à
cidade.
Marcha das Margaridas e Marcha dos Amarildos cobrariam
de nossos governantes o respeito aos direitos elementares dos
trabalhadores, dos cidadãos. A começar do direito à vida, à liberdade de
ir e vir – sem que uma polícia “pacificadora” violente seus direitos.
Esses
direitos rasgados diariamente compõem uma democracia pela metade. Nos
anos pares, como 2014, temos eleições. Com financiamento privado, compra
de votos, abuso do poder econômico. Mesmo assim políticos e jornalistas
deslumbrados (ou cínicos) descrevem os pleitos como uma “festa da
democracia”.
A democracia precisa ser cobrada nas ruas. Com a
mesma dignidade das mulheres camponesas. A Marcha das Margaridas precisa
se encontrar com a Marcha dos Amarildos.
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Ministro do TSE viu ‘malícia’ e irregularidades na Sinai ao cassar mandato de Sebastião Quintão
A
Sinai Agropecuária, que aparece na declaração de bens do deputado
federal Leonardo Quintão (PMDB-MG), relator do Código de Mineração, já
aparecia na declaração de bens do pai, o ex-prefeito de Ipatinga
Sebastião Quintão, também do PMDB. Ela foi o pivô das irregularidades
identificadas em 2010 pelo ministro Marcelo Ribeiro, do Tribunal Superior
Eleitoral, quando ele cassou o mandato do então prefeito. Veja aqui
trecho importante da decisão do ministro:
“Mérito.
Perquirição
do ilícito eleitoral próprio do art. 30-A. Objeto que não se confunde
com o abuso de poder econômico, com a rejeição das contas de campanha ou
com ilícitos fiscais. Tutela de lisura da campanha e da transparência
da arrecadação de recursos. Averiguação de comportamento malicioso dos
candidatos destinados a camuflar a realidade dos recursos de campanha.
Foco na conduta efetivamente adotada pelos réus, caracterizada por
sucessivas mudanças de discurso que evidenciam o esforço de ocultação
empreendido.
1 - Versão inaugural. R$2.073.350,00 declarados
como recursos próprios oriundos de venda de café (R$1.573.350,00) e de
empréstimo obtido junto à empresa Sinai (R$500.000,00).
2 - As
sacas de café. Valor inicial declarado de R$875.000,00. Aumento de
volume atribuído à limpeza do café. Versão inverossímel refutada pela
prova testemunhal requerida pelos próprios réus. Diferença de sacas
atribuída, pelas testemunhas, à colheita de 2008, quando a fazenda não
mais pertencia ao candidato, já que doada para integralizar o capital da
empresa Sinai Agropecuária S/A. Aparição de um "contrato de gestão de
sacas de café e mútuo financeiro" e um "acordo de reserva de propriedade
de safra futura" para justificar a alegada propriedade do café.
Documentos desprovidos de credibilidade, porquanto celebrados após a
detecção das irregularidades. Inconsistência das declarações.
3 -
Rastreamento dos recursos supostamente próprios depositados na conta de
campanha dos réus. Informação, pela Secretaria de Estado da Fazenda, de
que os compradores do café alegadamente pertencentes ao 1º réu
depositaram o pagamento na conta bancária da Sinai Agropecuária S/A.
Tentativa de respaldar a transação do suposto "contrato de gestão de
sacas de café e mútuo financeiro", por meio do qual seriam emprestados à
Sinai os valores obtidos com a venda do café. Hipótese que colidiu com a
versão de que R$1.350.000,00 depositados em dinheiro na conta de
campanha eram recursos próprios oriundos da venda do café, já que as
quantias teriam revertido à Sinai. Quebra de sigilo. Informação, pela
Receita Federal, de que a Sinai encontra-se inativa e não declarou bens
ou rendimentos a qualquer título em 2008. Informação, pelo Banco do
Brasil, de que vultosas quantias circularam pela conta bancária da
referida empresa inativa entre agosto e outubro de 2008. Descoberta de
que 27 saques no valor de R$ 50.000,00, feitos na conta da Sinai a mando
de Paola Lemos de Barros Quintão Campos (filha do 1º réu, diretora da
Sinai e atual titular do Cartório do 5º Oficio do Registro de Imóveis),
foram imediatamente depositados na conta de campanha de Sebastião
Quintão. A opção para realizar saques pulverizados para, em seguida,
realizar depósitos na conta do candidato denota evidente intenção de
ocultar a procedência dos recursos. Escamoteamento da origem dos
R$1.350.000,00 que, declarados como recursos próprios, provêm da conta
bancária da Sinai, empresa inativa que recebeu vultosas quantias de
terceiros e, por meio de subterfúgios, as repassou ao candidato.
4
- Suposto empréstimo junto à Sinai Agropecuária S/A, no valor de
R$500.000,00. Empresa cujo capital foi integralizado com bens de
Sebastião Quintão e cujas ações foram em seguida doadas para os filhos
deste. Sociedade Anônima alcunhada, pelo candidato, como "empresa
familiar". Objeto social adstrito a atividades relacionadas à exploração
agropecuária. Concessão de mútuo financeiro não prevista entre as
atividades a serem desenvolvidas pela empresa. Apresentação, pelos réus,
de extratos bancários da Sinai, no qual aparecem os saques pulverizados
de R$50.000,00, visando provar que o empréstimo realmente saiu da conta
bancária desta. Declaração de Rodrigo de Lemos Barros Quintão (filho do
candidato e sócio da Sinai) de que o dinheiro do empréstimo fora
entregue a seu pai em mãos. Versão totalmente desmentida pela posterior
descoberta do esquema de depósito imediato, na conta de campanha, das
quantias sacadas da conta da Sinai. Informações da Receita Federal.
Impossibilidade de que a Sinai, empresa inativa e sem rendimentos
declarados, emprestasse meio milhão de Reais ao candidato, por não haver
respaldo lícito para esta disponibilidade de recursos. Tentativa de
demonstrar a quitação do valor do empréstimo. Incongruências
inconciliáveis nas versões apresentadas por Sebastião Quintão e Rodrigo
Quintão. Conclusão pela inexistência do empréstimo.
5 - Recursos
de fonte desconhecida. Emprego de ardis destinados a ocultar a real
procedência de R$2.073.350,00 injetados na campanha dos réus, fonte de
recursos que ainda permanece desconhecida. Mesmo se encampada a tese que
a transferência de R$1.350.000,00 pela Sinais, independentemente da
existência de título jurídico, não ofende diretamente a legislação
eleitoral, o volume de recursos de origem desconhecida ainda perfaz
R$723.350,00.
Comprovação de fraude na arrecadação de recursos. A
conduta adotada, no sentido de deliberadamente camuflar a realidade da
campanha denota a má-fé que norteou a arrecadação dos recursos pelos
réus e denuncia a ilicitude perpetrada, independentemente da
identificação da origem real dos recursos. O art. 30-A da Lei das Eleicoes
não se limita a vedar formação de "caixa 2" , alcançando QUALQUER
PRÁTIVA INSIDIOSA DESTINADA A OCULTAR O REAL FINANCIAMENTO DA CAMPANHA.
As condutas praticadas pelos réus revelam-se mais pérfidas que o
malsinado "caixa 2" , porquanto mais audaciosas. Os candidatos mostraram
à Justiça Eleitoral os recursos ilicitamente injetados na campanha, mas
declararam-nos como próprios, a fim de conferir-lhes aparência de
legalidade. Para sustentar o engodo, exibiram um espetáculo leviano de
inverdades. Colocaram-se a salvo da acusação da formação de "caixa 2" ,
já que os recursos transitaram pela conta de campanha. Todavia, mesmo
sem utilizar "caixa 2" , lesaram profundamente o bem jurídico tutelado
pelo art. 30-A. Fato é que a Justiça Eleitoral não conhece a verdadeira
origem de mais de R$2.000.000,00 que aportaram na campanha dos
recorrentes. Mesmo na mais benevolente interpretação das provas, resta
desconhecida a procedência de montante que ultrapassa R$700.000,00. A
TRANSPARÊNCIA DA ARRECADAÇÃO FOI FERIDA DE MORTE, E TALVEZ JAMAIS SE
SAIBA A SERVIÇO DE QUAL NEFASTO INTERESSE. Por fim, as vultosas quantias
postas à margem da fiscalização plena da sociedade impedem a aplicação
do princípio da proporcionalidade.
Recurso a que se nega provimento, para manter a cassação dos diplomas dos representados”.
por Alceu Luís Castilho
LEIA MAIS:
Bens do relator do Código da Mineração aumentaram oito vezes em oito anos
Bens do relator do Código da Mineração aumentaram oito vezes em oito anos
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)*
O
relator do Código de Mineração na Câmara, o advogado e economista
Leonardo Quintão (PMDB-RJ), teve uma trajetória econômica bem-sucedida
desde 2002, quando foi eleito deputado estadual, até 2010, quando foi
reeleito deputado federal. Seus bens saltaram de R$ 314 mil para R$ 2,6
milhões. Um aumento de 828%.
Em 2002, quando disputou e ganhou
uma vaga na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, pelo PSB, ele tinha
R$ 314 mil. Declarou-se economista. O bem mais significativo era uma
loja, doada por Sebastião de Barros Quintão, seu pai, ex-prefeito de
Ipatinga, no valor de R$ 131 mil.
(O empresário e fazendeiro
Sebastião Quintão renunciou à candidatura a vice-prefeito de Ipatinga em
2012, após ter o pedido indeferido pela Justiça Eleitoral. Ele declarou
possuir R$ 1,7 milhão. Foi cassado duas vezes quando prefeito, acusado
de crime eleitoral. Em 2004 foi alvo de denúncias de trabalho escravo, e
teve de fechar um acordo com o Ministério Público do Trabalho. Dono de
cartório de registro de imóveis, ele já foi condenado por improbidade
administrativa e usava sempre um chapéu de fazendeiro.)
Mas
voltemos a Leonardo. Em 2006, quando foi eleito pela primeira vez para a
Câmara dos Deputados, já no PMDB, Leonardo Quintão declarou R$ 986 mil.
Ele tinha 31 anos e se definiu como advogado. Mais da metade desse
montante, R$ 557 mil, referia-se a um apartamento em Belo Horizonte.
Vejamos agora os bens de 2012, conforme a declaração entregue por
Quintão à Justiça Eleitoral. Note-se que aparece na declaração uma
empresa agropecuária, por R$ 588 mil. O primeiro item, truncado como
“Belo Horizonte”, deve se referir a algum imóvel urbano. Antes advogado
ou economista, ele informava agora ser deputado:
BENS – LEONARDO QUINTÃO (2012)
Belo Horizonte - R$ 875.000,00
Credito Com O Irmao Rodrigo Lemos De Barros Quintao - R$ 312.500,00
Sinai Agropecuaria S/A - R$ 588.000,00
Banco Bradesco - R$ 54.188,26
Caixa Economica Federal - R$ 3.073,93
Emprestimo Com Sebastiao De Barros Quintao - R$ 260.000,00
Pegeout 307 Sw Vendida Em 2009 - R$ 71.850,00
Kia Carens - R$ 67.500,00
Saldo Em Conta Corrente Cef - R$ 5.406,60
Emprestimo A Elijah - Administração E Participaçoes Ltda - R$ 400.000,00
Bradesco Poupança - Poliana Madalon Fraga Quintao - Esposa - R$ 321,68
Valor total dos bens declarados: R$ 2.637.840,47
A
Sinai Agropecuária já aparecia em uma declaração de bens do pai,
Sebastião Quintão. Em 2010, a empresa foi decisiva para o relator do
Tribunal Superior Eleitoral, ministro Marcelo Ribeiro, rejeitar as
contas do fazendeiro. Ele identificou sucessivas mudanças de versão, “que evidenciam o esforço de ocultação empreendido”.
LEIA MAIS: Ministro do TSE viu ‘malícia’ e irregularidades na Sinai ao cassar mandato de Sebastião Quintão
* o titular deste blog é também o
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território brasileiro" (Editora Contexto, 2012)
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Globo afirma catolicismo acrítico como seu nicho de mercado
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Os
apresentadores da Globo sorriem o tempo todo ao falar do papa. Aquele
sorriso condescendente, como se todos concordassem com a santidade do
líder religioso. É uma simpatia incondicional, acrítica. Adesão,
teatralizada, e não jornalismo. Difícil definir qual deles é o mais
subserviente. Sandra Annenberg, no jornal Hoje, até balança a cabeça de
tanto sorrir. Nada de tão diferente nos demais programas. Apresentadores
e repórteres consideram-se enviados especiais ao paraíso. Um deles
imaginou-se, no mesmo jornal vespertino, em pleno Vaticano.
“Parece a Praça São Pedro!” – deslumbrava-se.
Não é só pelo
tempo da cobertura, portanto, que a Globo afirma os católicos – ainda
maioria no Brasil - como seu nicho principal de mercado. Pois é disso
que se trata. De uma estratégia com matriz comercial, de olho nos
números, de olho na tomada das outras emissoras por programas
evangélicos. Isto para não falar da Record, da Igreja Universal. (A
Band joga para os dois públicos. Um repórter dessa emissora chegou a
pedir bênção, no avião que trouxe o pontífice para o Brasil, de uma
maneira reverente ao extremo. Um comportamento de fiel especialmente
fanático, não de um repórter.)
Não se trata de pacto com
qualquer catolicismo. Este tem suas contradições. O catolicismo
progressista - aquele que defende índios e camponeses, por exemplo –
fica de fora desse script. A emissora não está enviando repórteres para
celebrar os padres e bispos que defendem os excluídos, os moradores de
rua. Não falará dos padres que foram assassinados por se posicionarem
firmemente em relação aos conflitos no campo. Não teremos Comissão
Pastoral da Terra e Conselho Indigenista Missionário no noticiário.
Esse
pseudojornalismo em plena afirmação - um jornalismo de hóstia - tenderá
a migrar para o restante do noticiário. A partir do momento que a Globo assuma com mais ênfase os
valores desse setor do catolicismo. De um papa simpático, que coloca os
pobres em pauta (o que tem seu mérito), mas sem vilões, sem opressores.
Pobres sem uma história econômica por trás, um sistema produtivo que os
prevê, que deles se utiliza para enriquecer uma minoria. “Pobres”,
inclusive, com esse termo apenas. E não “trabalhadores”, camponeses,
protagonistas.
Ou seja, esse jornalismo tenderá a ser ainda mais
alienado e com horror a conflitos. Veremos um acirramento da
tradicional varrida desses conflitos para debaixo do tapete. A violência
policial seguirá não sendo tomada como deveria ser: como uma ação do
Estado para preservar a propriedade privada e seus pactos com as elites
econômicas. A violência social (reduzida à violência nas favelas, nas
comunidades) não será discutida à luz da história da desigualdade. Os violentos seguirão retratados como se fossem uma espécie de demônios.
Isso
vale para a cobertura dos protestos de rua. "Vândalos e
baderneiros" encaixam-se nessa narrativa desconectada da história, como
se os manifestantes mais revoltados fossem uma expressão diabólica. (Leia aqui: "As elites vândalas, a imprensa baderneira e os policiais bandidos".) Como é possível
compatibilizar uma cobertura sorridente do papa com a crítica à foto do
pontífice com policiais do Bope?
Essa lógica vale também para a cobertura de questão
agrária, da questão indígena, da questão ambiental. A marcha inexorável dos
bonzinhos peitará os políticos proprietários de terra, os desmatadores na Amazônia, os correntões que
arrastam árvores, as grilagens, as ameaças sistemáticas a sem-terra?
(Práticas, aliás, de muito coronel que vai à missa e comunga toda
semana.)
O nicho de mercado redefinido pela Globo é católico,
sim. Mas vai ao encontro do nicho anterior: o do pacto dos meios de comunicação tradicionais com as elites
brasileiras. E não apenas as elites mais civilizadas, ou com algum
sentimento de culpa. Essas elites podem ser, eventualmente, cordiais. O que não as torna menos violentas e
promotoras da desigualdade. Sem que a imprensa atente a essa face bem nascida da violência.
Esse pacto já foi feito em tempos de
democracia e de ditadura. Agora se afirma nesta nossa nova
democracia-ditadura, esta democracia pela metade, esta democracia que naturaliza os policiais sem identificação,
as prisões sem provas, as detenções com acusações vazias, as
manifestações controladas, o direito de ir e vir às favas, os
governadores jagunços e uma justiça distraída.
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Ensaio sobre coxinhas

O termo "coxinha" é despolitizado. Ele ameniza a sordidez. Existem policiais violentos, existem políticos que promovem a barbárie, governadores cruéis, existe gente cúmplice, indiferente, canalha. Existem jornalistas cínicos, médicos desumanos, advogados sem ética. Existem elites monstruosas, existem fazendeiros (ou netos de empresários) que escarnecem dos mais pobres, existem oligarcas sem escrúpulos, existem grileiros, desmatadores, ladrões de colarinho branco, existem racistas, homofóbicos. Em todas essas situações está lá, de forma explícita ou latente, a violência. A violência de 513 anos, a violência do sistema econômico, a opção - na maior parte dos casos, consciente - pela espoliação, pela discriminação, pela perpetuação da desigualdade. Nada disso é traduzido pela palavra "coxinha". O conezinho de frango não sintetiza os inimigos. Estes são os canalhas, aqueles que patrocinam a repressão, que envenenam a nossa comida, aqueles que defendem a tortura e a execução de jovens negros. Escravocratas, violadores de direitos, atropeladores da saúde, assassinos da educação, pulhas de diversos quilates. Desalimentemos as imprecisões de linguagem, portanto. Não há modismo linguístico que sintetize a gigantesca soma de violências praticadas no Brasil por vermes, por gente que exclui, que acende diariamente o fogo da exclusão. Aos agressores, os termos exatos. Eles não são um quitute. Os coniventes, também não. Que seja denominada a cada covarde a sua pequenez específica, a sua transbordante falta de glória. Patifes: vocês têm vários nomes.
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Com desenho de Eduardo Simch
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Entrevista sobre Carlo Giuliani ajuda a entender junho de 2013, Brasil
O jornalista italiano Carlo Gubitosa lançou um livro em 2004 sobre a morte de Carlo Giuliani e os conflitos em Gênova, durante reunião do G-8, em 20 de julho de 2001. Há exatamente 12 anos o manifestante italiano era morto por um policial. Levou um tiro. Eu entrevistei Gubitosa para a Agência Repórter Social, logo após o lançamento do livro. Ao reler a entrevista, agora, fiquei impressionado com a atualidade do relato e das considerações do jornalista, tendo em vista o contexto dos protestos brasileiros, em junho de 2013. Está lá a discussão sobre a violência da polícia, sua militarização, estão lá os black bloc e as divergências de estratégias entre os manifestantes, está lá a lógica econômica excludente.Segue o texto como foi publicado em 2004:
por ALCEU LUÍS CASTILHO (Agência Repórter Social)
Em sua obra "Nome per Nome", lançada na Itália, Gubitosa detalha acontecimentos da reunião do G-8, que gerou um mártir e se tornou um evento-símbolo dos movimentos mundiais por outra globalização
Em julho de 2001, o G-8, grupo de países mais ricos e poderosos do mundo, reuniu-se em Gênova, na Itália, para sua reunião de cúpula, em perímetro fechado para manifestações de protesto. Alguns ativistas invadiram o local reservado e entraram em confronto com a polícia. O estudante Carlo Giuliani morreu – atingido pelo policial Mario Plastanica - e virou símbolo de resistência entre os movimentos mundiais por outra globalização. O jornalista italiano Carlo Gubitosa acompanhou tudo de perto e decidiu escrever um livro – lançado em julho na Itália - contando passo a passo, praça por praça, nome por nome, o que aconteceu naquela semana em seu país. Para os italianos, o episódio tem a mesma importância que o 11 de setembro de 2001 para os norte-americanos. Em entrevista ao Repórter Social, Gubitosa alerta sobre o papel da mídia no acirramento dos confrontos e cobra posturas pacíficas dos ativistas.
Repórter Social – O que mudou depois daqueles sete dias em Gênova, na Itália e no mundo?
Carlo Gubitosa – Na Itália mudou tudo, no mundo nada. Na Itália mudou tudo porque milhões de jovens perceberam que a democracia não é um presente que recebemos de nossos pais, mas uma coisa preciosa a ser cuidado todos os dias pelos nossos filhos, que não pode ser abandonada a si mesma, mas requer a participação e a atenção de todos. As violências cometidas pela polícia revelaram que a polícia na Itália não era mais uma “polícia de Estado”, isto é, gestada pelo Estado e pelos cidadãos, mas está lentamente transformando-se em um grupo de “guardas armados” sem relação de confiança e de colaboração com os cidadãos, instrumentalizados e usados pelos políticos e pelos poderosos para promover a paz em suas festas e reuniões. Por este ponto de vista muitas coisas mudaram, alguns sindicatos de policiais entenderam que a ação das associações e dos movimentos sociais não é um risco para a segurança, mas uma riqueza para a construção conjunta de uma colaboração entre as partes mais saudáveis do país. Em 2002 alguns policiais se encontraram com os garotos espancados em Gênova na escola Diaz, e este encontro foi muito bonito, porque não foi um encontro entre “inimigos”, mas entre pessoas que sofreram diversos tipos de violência. Os garotos tinham sofrido a violência do Estado e os policiais honestos tinham sofrido a violência dos poderosos, que os transformaram em cães de guarda do G8, constrangendo-os a turnos massacrantes e criando um cenário de confronto que poderia ter sido evitado.
Repórter Social – Por que decidiu escrever o livro?
Gubitosa – Porque estava em Gênova e fiquei profundamente impressionado com toda a violência que vi. Trabalhar por dois anos numa investigação sobre os fatos de Gênova foi uma forma de automedicação que me ajudou a superar o trauma daqueles dias com uma busca constante da verdade, mesmo quando esta verdade era incômoda ou repulsiva. No meu livro, na verdade, não se condena somente a violência física, mas também aquela verbal, sobretudo quando quem a utiliza são os grupos que se manisfestaram em Gênova. Refiro-me à “declaração de guerra” dos “Tute Bianche” (Macacões Brancos) italianos, que pretendia ser somente um modo de atrair a atenção e gritar em voz alta a própria contrariedade em relação às injustiças e desigualdades, mas se transformou numa perigosa “arma midiática” que contribuiu para elevar o nível de confronto durante as manifestações.
Repórter Social – Que coisas acontecem nos protestos por outra globalização que os jornais não publicam?
Carlo Gubitosa – Nas manifestações de protestos os jornais dão voz somente à violência, criando uma espiral onde vence quem levanta mais a voz e leva as mensagens mais “fortes” e “sensacionais”. É por isso que, do ponto de vista da mídia, quem venceu em Gênova foram os Black Bloc (anarquistas radicais), que se tornaram o grupo organizado mais visível e conhecido. Aquilo que é necessário interromper é a espiral crescente que alimenta a violência da praça com a violência midiática. Os jornais oferecem aos jovens uma mensagem escondida: “se quebrarem a vitrine conseguirão a primeira página, se falarem de conteúdo sério, infelizmente não serão notícia”. É por isso que o movimento dos Black Bloc cresceu e se desenvolveu nos EUA a partir da Europa, porque é exatamente nos Estados Unidos que a política-espetáculo atingiu sua máxima expressão. O que persiste ignorado e coberto por um véu de silêncio são as importantes reflexões científicas e culturais realizadas por todos os grupos, associações, ONGs e os especialistas que estão estudando os problemas das biotecnologias, da distribuição injusta dos recursos do planeta, da necessidade de encontrar uma alternativa à energia do petróleo, dos riscos ambientais associados ao nosso modelo de desenvolvimento. Este ano na Europa muitas pessoas morreram por causa do calor, e se fala de milhares de vítimas. Muitos acreditam que este calor tenha sido um fenômeno natural e inevitável, outros pensam que o superaquecimento do planeta não seja natural, mas sim devido à estupidez humana na gestão da única terra que possuímos.
Repórter Social – Os Fóruns Sociais, como os de Porto Alegre e Mumbai, são uma alternativa suficiente aos movimentos sociais?
Gubitosa – É importante reunir as pessoas de todo o mundo, mas é igualmente importante que nestes encontros elas aprendam a se reunir e organizarem-se também sozinhas, sem “Fóruns Sociais” ou eventos excepcionais, criando pequenos grupos em cada cidade e em cada quarteirão. Aldo Capitini, que levou a cultura da não-violência ao meu país e é conhecido como o “Gandhi italiano”, sustentava a necessidade de substituir o capitalismo, o militarismo, o socialismo e o comunismo por uma nova forma de “poder de baixo” que ele chamava de “omnicracia” (o poder de todos). Para a realização de uma sociedade baseada na omnicracia é necessário que todos os dias cada cidadão seja uma parte ativa do território em que vive, e não somente um espectador dos grandes eventos mundiais. Portanto acho que há necessidade de eventos “globais”, mas eles não são suficientes para mudar as coisas se não criam poderes “locais” e distribuídos que tenham condições de representar uma verdadeira alternativa ao poder centralizado e violento que se exprime nas formas mais diversas, mesmo no interior dos movimentos quando não se escutam as vozes de todos, mas somente dos poucos que tomam as decisões.
Repórter Social – A polícia no resto do mundo é muito diferente da italiana?
Gubitosa – Por sorte não tenho experiência direta com a polícia do resto do mundo, mas posso dizer que a polícia italiana está cumprindo um processo de involução autoritária. Em 1981 a polícia foi desmilitarizada e transformada em um órgão civil, graças também à colaboração entre policiais e sindicatos, realizada com a mediação dos partidos católicos e da esquerda. Isto levou à criação de uma polícia onde os policiais tinham mais direitos e se sentiam mais próximos dos cidadãos que defendiam. Nos anos 90, com o governo de Massimo D’Alema ocorreu o fenômeno contrário: os carabinieri foram transformados numa corporação militar, e por fim treinaram o novo exército afegão nascido após a guerra. Isto distanciou os carabinieri dos cidadãos, e de fato no meu livro são pouquíssimos os carabinieri que falam e contam suas experiências, porque são levados a respeitar o segredo militar. Hoje estamos no auge desta involução, que distancia a polícia dos cidadãos e a transforma num aparato militar, onde não se aplica o diálogo e a prevenção, para evitar os crimes antes que aconteçam, mas se exercita uma forte repressão contra todas as formas de discordância.
Repórter Social – Existe mesmo democracia no Ocidente?
Gubitosa – Acho que ainda existe, mas infelizmente uma geração viciada que não conheceu a ditadura não percebeu ainda que a democracia é consquistada todos os dias. O que acontece é exatamente o oposto: as pessoas não vão mais votar, há desinteresse pela política, quem se engaja nas associações é rotulado como um idealista, um sonhador pouco concreto ou um subversivo.
Repórter Social – Quais são os grandes erros daqueles que não aceitam a ordem atual?
Gubitosa – O maior erro é a falta de coragem em rejeitar todas as formas de violência, não apenas as militares e policiais, mas também as violências verbais e aquelas da política onde se decide quem tem mais poder e não quem tem as melhores idéias. Um movimento verdadeiramente revolucionário deveria seguir o exemplo dos maiores resultados da luta não violenta: penso na libertação da África do Sul por Mandela, na luta de Martin Luther King contra a segregação, no empenho anticolonial de Gandhi e no fato que hoje temos um continente pacífico, a Europa, onde há apenas 50 anos europeus assassinavam outros europeus durante a guerra. Esses exemplos demonstram que é possível criar um continente pacífico, e portanto podemos esperar um mundo pacífico, e, sem utilizar a violência, mesmo a verbal, se pode verdadeiramente mudar o mundo. A revolução de verdade é aquela da não-violência de Gandhi, mas nos movimentos sociais nem todos escolheram esse caminho.
Repórter Social - Como a imprensa européia publica as notícias sobre os movimentos brasileiros, como o MST?
Gubitosa – Estas realidades são praticamente ignoradas, com algumas exceções. Além do sítio onde colaboro, www.peacelink.it, os fatos da América Latina são relatados de maneira séria também por agências como a "Redattore Sociale" (www.redattoresociale.it) e a "Misna" (www.misna.org). Mas os grandes diários e televisões ignoram sistematicamente o trabalho de quem retratar a América Latina de outra perspectiva.
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