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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Em cartas, indígenas denunciam água barrenta no Xingu e discutem nova Funai

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Esta semana indígenas brasileiros escreveram duas cartas. Ambos com objetivos políticos muito bem definidos – mas não coincidentes. Está em disputa no Brasil a adesão ou não dos povos indígenas aos projetos de desenvolvimento – como as construções de hidrelétricas previstas no PAC (Plano de Aceleração do Crescimento).

Uma das cartas é do cacique José Carlos Arara ao Ministério Público Federal, assinada em Altamira na terça-feira, 17 de janeiro. Ela se insere em um contexto antidesenvolvimentista. Leia aqui a íntegra.

Ele requer providências “urgentes e imediatas para garantir a qualidade da água consumida pela aldeia”, diante das intervenções da Norte Energia no Rio Xingu, para a usina de Belo Monte. Eles utilizam a água do Xingu para beber e cozinhar.

A aldeia é a Terrã-Wangã, da etnia Arara. José Carlos Arara pede o envio de uma equipe para medir a qualidade da água e da construção de poços artesianos em sua aldeia e em mais duas: a Paquiçamba e a Muratu. “Nos preocupamos com nossos parentes Juruna, que também não possuem poços e utilizam a água do Xingu”, diz o cacique.

José Carlos Arara avisa:

- Caso não sejam tomadas providências pelos órgãos competentes, nós, as comunidades indígenas da Volta Grande do Xingu, iremos tomar as providências necessárias para garantir nossos direitos.

O Movimento Xingu Vivo divulgou nesta quarta-feira que movimentos sociais de Altamira, com o apoio de ativistas do OcupaSampa, barraram por uma hora a obra de barramento do Rio Xingu. Eles estenderam uma faixa de 40 metros que dizia: "Belo Monte: aqui tem crime do governo federal".


FUNAI NA MIRA

A outra carta é assinada por cinco indígenas, definidos pelo ex-presidente Mercio Gomes como “intelectuais indígenas”. Trata-se de uma “Proposta de Trabalho para a Próxima Direção da Funai”. Leia aqui, na íntegra. Foi publicada também na terça-feira no blog de Gomes e defende a inserção dos índios nos projetos brasileiros de desenvolvimento.

As cinco lideranças definem as mudanças de dezembro de 2009 na Funai como “surpreendentemente negativas”. Apontam o decreto 7.056, que reestruturou o órgão, como “imposto de cima para baixo, sem nenhuma consulta aos índios”.

Escrawen Sompré, Wilson Mattos da Silva, Azelene Kaingáng, Ubiratan de Souza Maia e Jeremias Xavante afirmam que o decreto “paralisou a Funai, o atendimento aos povos indígenas e fragilizou a segurança das terras indígenas”:

- Não é surpresa que tantas delas estejam invadidas por fazendeiros e posseiros de toda sorte, além de madeireiros e outros aproveitadores.

Os cinco signatários opõem-se a organizações indigenistas e ambientalistas contrárias às obras do PAC. Eles defendem o que chamam de “progresso brasileiro” – e afirmam que os povos indígenas “querem apenas ser parte no processo de desenvolvimento e não ficarem à margem como sempre estiveram”.

Um ponto-chave da posição dessas lideranças está na utilização das palavras “compensações e indenizações”, diante dos empreendimentos em territórios indígenas, como alternativa única para a miséria e pobreza que “deverão se aprofundar cada vez mais nas próximas décadas”.

Eles pedem finalização das demarcações em cursos, uma nova política de regularização territorial, reforço do orçamento para comunidades indígenas, reativação de unidades da Funai  (Recife, Curitiba, Altamira), mais acesso dos estudantes indígenas em universidades e convocação da 2ª Conferência Nacional de Política Indigenista.

LEIA MAIS:
Carta de José Carlos Arara ao Ministério Público Federal
Carta de lideranças indígenas à “nova direção da Funai”
Discurso de cacique americano tornou-se referência literária

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Carta de José Carlos Arara ao Ministério Público Federal

Esta carta foi escrita no dia 17 de janeiro por José Carlos Arara, da etnia Arara, cacique da aldeia Terrã-Wangã, e subscrita por pelo menos mais três indígenas. Ele pede providências urgentes para garantir a qualidade da água consumida por seu povo:


"A comunidade indígena da Aldeia Terrã-Wangã, da etnia Arara, Terra Indígena Arara da Volta Grande do Xingu, solicita providências em relação às intervenções que a Norte Energia iniciou, em janeiro deste ano, no Rio Xingu, com a construção das ensecadeiras, jogando terra e cascalho no rio. A comunidade indígena está preocupada com a qualidade da água do Rio Xingu, pois não possuímos poço, e utilizamos a água do Xingu para beber e cozinhar. A água já está barrenta e os indígenas já estão ingerindo essa água. As medidas que deveriam ter sido adotadas antes da construção da barragem não foram tomadas, pois o programa básico ambiental (Programa Médio Xingu) ainda não foi aprovado, e não começou a ser implementado. Diante disso, a comunidade indígena Arara da Volta Grande do Xingu requer providências urgentes e imediatas para garantir a qualidade da água e da construção de poços artesianos, tanto na nossa aldeia, como nas aldeias Paquiçamba e Muratu (Terra Indígena Paquiçamba), que também estão localizadas na Volta Grande do Xingu, pois nos preocupamos com nossos parentes Juruna, que também não possuem poços e utilizam a água do Xingu. Caso não sejam tomadas providências pelos órgãos competentes, nós, as comunidades indígenas da Volta Grande do Xingu, iremos tomar as providências necessárias para garantir nosso direitos".

José Carlos Arara, cacique da Aldeia Terrã-Wangã
Luiz Claudio Arara
Josildo Mendes Arara
Adalton Ferreira Arara

LEIA MAIS:
Carta de lideranças indígenas à “nova direção da Funai”
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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

500 anos depois
A violação sistemática dos direitos indígenas


Ontem publiquei um resumo das violências praticadas contra povos indígenas: mortes, espancamentos, ameaças. Mas outras notícias publicadas ao longo do ano pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) ajudam a entender como os direitos dos índios são sistematicamente violados no Brasil – oferecendo condições estruturais àquelas violências mais explícitas.

Algumas histórias tratam da disputa pelo território – e de despejos de populações indígenas:Na Bahia, indígenas Pataxó Hã-Hã-Hãe podem ser despejados a qualquer momento (07/01)
Entidades repudiam proposta de retirada Xavante de terra tradicional pela segunda vez (30/05)
Povo Xavante declara guerra contra segunda expulsão da Terra Indígena Marãiwatséde (08/08)
Fazendeiros destroem aldeia e expulsam índios Guarani Kaiowá em MS (07/09)
Despejo paira sobre Laranjeira Nhanderu mais uma vez (22/09)
Grilagem e invasões avançam sobre Território Indígena Karitiana (11/10)

Essa disputa pelo território – vale sempre observar - é uma disputa econômica:
Construção da usina de Belo Monte ameaça indígenas isolados (18/03)
Indígenas denunciam invasões de madeireiros no Maranhão (03/10)
O garimpo volta a ameaçar o Povo Yanomami (14/10)

Outras notícias mostram a questão ambiental. A questão agrária é econômica, mas também ambiental:
Rio Peruaçu e povo Xakriabá ameaçados (08/02)
Soja pirata na Terra Indígena Maraiwatsede (04/03)

Estas notícias mostram a exploração do trabalho indígena. Alguns ainda são escravizados:
Indígenas são explorados em condições degradantes (02/03)
Indígenas de Roraima publicam manifesto contra tráfico de pessoas no Estado (17/03)

Outros links do Cimi sintetizam as violações de direito e as condições socioeconômicas das populações indígenas:
Dia do Índio: MPF/RO denuncia 110 violações de direitos dos índios (20/04)
Maior proporção de miseráveis está entre população indígena (11/05)
Povo Kaingang bloqueia nove rodovias no RS por melhorias na saúde indígena (09/08)

Em meio à disputa política, porém, governos adotam uma solução tradicional: a repressão policial.
Neste momento, Polícia Militar cerca indígenas e apoiadores no Santuário dos Pajés (03/11)
Cerca de 200 policiais mascarados desalojam comunidade Tabajara na Paraíba (30/11)

Algumas lideranças são simplesmente presas:
Prisão de mais uma liderança Tupinambá de Olivença (04/02)
Nota sobre a prisão de lideranças indígenas do Povo Terena da Terra Indígena Buriti, MS (30/08)

Deixo para segunda-feira o desfecho desta série. Quanto investiu o governo Dilma em 2011? E qual o papel da imprensa na perpetuação dessas violências?

Feliz 2012 a todos.

Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

LEIA MAIS:
Como foi a matança de indígenas em 2011
Governo só gastou 33% dos recursos para proteção de indígenas, diz o Cimi


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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A batalha (virtual) de Belo Monte – parte IV

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Adio o último post da série (uma tentativa de conclusão) para notícias extraordinárias. É que o tema Belo Monte tornou-se, nos últimos dias, onipresente na internet. É uma espécie de “jornal instantâneo”, paralelo aos demais fatos – e praticamente concorrendo com as notícias do Código Florestal, em temperatura alta. Virou quase um trabalho de Sísifo tentar dar conta do que está sendo divulgado nas redes sociais.

A notícia mais interessante, nesta quarta-feira, foi a divulgação do vídeo feito por jovens da Amazônia contrários à usina. É uma resposta ao vídeo feito pelos estudantes de Engenharia da Unicamp, “Tempestade em Copo D’Água” – que, por sua vez, rebatia aquele feito pelos atores globais (como vimos na parte II da série).

O que há de tão especial na realização desse vídeo? No Twitter, a jornalista @verenaglass comemorou: “Grandioso!”. Outras reações foram vibrantes, superlativas. Como se todos os contrários à usina tivessemos feito um gol.

De fato. É que, em todos os relatos que citei até agora, tratavam-se de pessoas de fora daquela região. Claro, o conceito de “região” estará sempre em disputa na Geografia, e Belém ainda não é Altamira, mas só a diversidade étnica (negros e indígenas, além de brancos) protagonizarem o vídeo já justificaria sua elaboração. É o mundo dos “igarapés”, e não dos “rios” - um abismo em relação à cultura do Sul Maravilha.

Não que o apoio dos ativistas do Sul não seja bem-vindo. A articulação para se viabilizar o filme “Belo Monte – Anúncio de uma Guerra”, como vimos na parte IV, ilustra perfeitamente as possibilidades (internacionais) de divulgação do que está acontecendo no Pará.

É o Pará o Estado da matança de camponeses. Do trabalho escravo. Do desmatamento. Do gado substituindo a floresta em São Félix do Xingu. É ao Pará (Estado que pode em breve ser dividido em três) que o “jornal instantâneo de Belo Monte”  deve voltar suas atenções, neste instante.

Até por um motivo muito simples: como o jornalista e blogueiro Altino Machado insiste em seu blog (hoje pendurado no portal Terra), a grande mídia não mantém correspondentes na Amazônia. À exceção de Altino (em Rio Branco) e de Lúcio Flávio Pinto (em Belém), são poucas as vozes locais capazes de reverberar o que dizem as populações locais – e olhem que Altino faz questão de dizer que entende de Acre, não de Amazônia...

O Brasil não é coberto pela grande imprensa. A velha piada de que “o Acre não existe” poderia valer para a Amazônia inteira - se pensarmos em termos midiáticos. Aquela paranoia em relação à retirada da Amazônia do mapa do Brasil pelos americanos ilustra à perfeição o que acontece: esse seria o mapa do País conforme  visto pelos seus principais meios de comunicação – sem a Amazônia.

Por isso comemoramos o chute certeiro dos estudantes de Belém. Não porque o vídeo traga grandes novidades, ou tenha altíssimo nível técnico - é até mais discursivo que informativo. Mas por ampliar o leque de vozes; por lembrar mais visivelmente que Altamira existe, Belo Monte existe, os povos da Amazônia existem e gritam que não querem a usina. E a opinião pública quer saber disso, sim – à revelia do olhar imposto por quem detém o poder.

***

E a velocidade está mesmo altíssima em relação a Belo Monte na internet. Ainda ontem começou a ser divulgado outro vídeo em resposta aos engenheiros da Unicamp, chamado “O Belo Monstro e o Belo Castelo”, feito por Gabriel de Barcelos. É muito bem feito. Dá voz às comunidades e lembra que pelo menos um ativista contra a usina – Ademir Federicci, o Dema – foi assassinado, em 2001. Vale reservar 15 minutos para vê-lo:




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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A batalha (virtual) de Belo Monte – parte III

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Em meio ao debate quase binário na internet sobre a usina de Belo Monte, e aos vídeos de propaganda a favor ou contra o projeto, conforme mostramos na parte I e na parte II, um caso específico chama a atenção: o projeto “BeloMonte- anúncio de uma Guerra", da companhia Cinedelia. Em poucos dias as cenas de divulgação de um filme ainda irrealizado motivaram rapidamente uma mobilização. Motivo? A finalização do filme – contrário a Belo Monte - estava ameaçada. Por falta de dinheiro.

Os produtores resolveram fazer a coleta pela própria internet. O resultado, na manhã desta quarta-feira, era o seguinte: por meio de doações de 3.005 pessoas, o valor de R$ 114.000 para a fase final da obra já tinha sido ultrapassado, a 15 dias do fim da campanha de arrecadação. Essas 3 mil pessoas doaram R$ 121.763, suficiente também para a disponibilização do filme - pela internet.

A arrecadação continua, pois esse dinheiro não é suficiente para levar o filme às salas de cinema “do Brasil e do mundo”, segundo os organizadores. “Portanto, quanto mais dinheiro conseguimos juntar, maiores as chances de o filme ter impacto real na sociedade”.

A opção política dos produtores é clara: “Escolhemos o financiamento coletivo, pois, mais do que um filme, queremos fazer disso um ato político da sociedade, uma luta pelo acesso à informação e pelo direito de participar das decisões do país”, afirmou Digo Castello, que coordena a arrecadação.

É exatamente por esse motivo que destaco este caso em post específico. Pois é disso que se trata – de direito à informação. E não de qualquer conjunto arremedado de informações chinfrins (para utilizar o adjetivo preferido de Graciliano Ramos), mas de informações substanciosas, capazes de promover um debate mais encorpado - nacional e internacional - sobre o assunto.

As imagens iniciais do filme sugerem essa qualidade. O diretor André D’Elia gravou 120 horas de película, com 87 entrevistas feitas em três expedições ao Xingu. Documentou cinco protestos. O triângulo São Paulo-Brasília-Altamira foi o escolhido para as gravações: poder econômico, poder político e a população a ser atingida.

UM BRINDE À CULTURA

Até escrevermos este texto, 986 pessoas tinham doado R$ 10,00 cada. O nome delas vai aparecer nos créditos do filme. Outras 910 pessoas doaram R$ 30,00 – terão o nome nos créditos e acesso antecipado à obra – na ocasião do lançamento, na própria internet.
 As 187 pessoas que doaram R$ 80,00 cada terão tudo isso mais um acesso a fotos exclusivas feitas por André D’Elia no Xingu. Outros 117 apoiadores terão ainda direito a um vídeo exclusivo sobre os índios do Xingu.

Doze pessoas decidiram ainda ganhar um pôster – e doaram R$ 500,00 cada. Outras oito doaram mais de R$ 1.200,00, e levarão uma obra de arte produzida pelos grafiteiros Crânio e Mundano, com temática da floresta. Somente as duas últimas opções, de R$ 5.000 e R$ 15.000, não motivaram doações.

O diretor André D’Elia define o filme como “sério e investigativo, sem medo”. “Somos totalmente independentes, não temos rabo preso com ninguém”, afirma, no vídeo de divulgação. A realidade das comunidades indígenas e os problemas sociais decorrentes do projeto são abordados. “Altamira não pode ser transformada num cabaré da usina”, diz um dos moradores. Pelas imagens, eles ganham cara, voz, coração - deixam de ser apenas estatísticas.

Estamos aqui diante de um fenômeno que pode se tornar uma tendência. Assim como muitos brasileiros têm-se reunido para contratar diretamente shows de seus artistas preferidos, outros optaram, neste caso (seguindo a lógica do coletivo Catarse), por apoiar um filme com uma determinada temática – e uma causa. A opção é ao mesmo tempo cultural e política, portanto. O impacto disso transcenderá, em muitíssimas milhas, as fronteiras de Altamira.

No próximo post tentarei fazer uma reflexão sobre esse “debate virtual” em torno de Belo Monte – a partir destas três postagens iniciais. E o quanto ele aponta determinadas dificuldades (e tendências) no debate político brasileiro.O caminho ainda é longo para podermos definir todo o processo como, efetivamente, "democracia".

LEIA MAIS:

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A batalha (virtual) de Belo Monte – parte II

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Na parte I apresentamos a batalha sobre a construção da usina de Belo Monte como virtual. Enumeramos argumentos exaustivos publicados em sites e blogs, focados na conquista racional do leitor. Falemos agora dos vídeos. Eles são um exemplo interessante da diversidade dos métodos virtuais de persuasão. E, nos últimos meses, colocaram-se no centro dos debates.

Eles vão de aparição de “artistas globais” ao aval de “professores universitários”. Ou de estudantes – alçados a uma autoridade que não lhes é dada pela opinião pública em outros contextos, como os conflitos na USP. Invocam algum tipo de autoridade, portanto. Mas, em algum momento, a maioria apela para a emoção, por utilização de recursos teatrais ou cinematográficos.

-> o vídeo dos artistas globais, o Gota D’Água mais 10, teve mais de 1,3 milhão de acessos no YouTube. “A Usina de Belo Monte vai alagar... inundar... destruir... 640 quilômetros quadrados de Floresta Amazônica”, diz dramaticamente um dos atores. Por esse apelo emocional, compara-se o vídeo com a participação de artistas nos vídeos “Lula Lá”, um clássico da campanha eleitoral de 1989 - “Brilha uma Estrela, Lula Lá...”, “Sem medo ser feliz” etc. Em 2011, é a sucessora de Lula quem banca – assim como o ex-presidente – a construção de usina.

A reação ao vídeo dos globais motivou a produção de outros vídeos, como forma de contra-ataque. Alguns casos estabeleceram-se apenas como curiosos; outros propuseram-se a entrar pesado na batalha de informações sobre a usina.

-> um dos vídeos, com mais de 70 mil acessos, traz (durante 13 minutos) uma mão e uma caneta, ambas apontando números sobre a usina. O tom é professoral, mas na linha “técnica”. O autor do vídeo, que se identifica apenas como Magrão, logo no início diz que “não é um ator global”, mas vai mostrar “alguns números”.  "Algns Números sobre Belo Monte" traz o argumento da prancheta.
  Não se fala de índios.

-> o mais conhecido até agora talvez seja o vídeo “Tempestade em Copo D’Água”, produzido por alunos de Engenharia Civil da Unicamp. Ele investe na paródia – pela imitação (tosca, é bem verdade) da gestualidade e da alternância dos atores globais. O discurso é nacionalista e contra os banqueiros. O professor Sebastião de Amorim diz que há muita desinformação circulando sobre o projeto. E encerra sua participação balançando os braços, com os punhos fechados – feito um político das antigas. O vídeo já teve mais de 400 mil visitas.

-> a própria ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, atreveu-se a elogiar um vídeo humorístico, protagonizado pelo pop star oportunista Rafinha Bastos, onde ele satiriza os atores globais. Bastos é o tipo da figura que passaria ao largo de outras pastas do governo, como a Secretaria de Direitos Humanos – por seu estilo de humor apelativo e grosseiro. Difícil imaginar ministros anteriores, como Marina Silva ou mesmo Carlos Minc, dando aval a personagens desse naipe. O vídeo chamado “Movimento Gota de Bosta” – com um vocabulário igualmente de quinta categoria - já tem quase 1 milhão de visitas.

-> a melhor dessas respostas, segundo o jornalista Paulo Moreira Leite (da revista Época), é um vídeo produzido por estudantes da UnB, "Verifique os fatos", onde respondem a cada questão feita pelos globais. Leite diz que deu “muita risada” vendo o vídeo . Mas os estudantes em Brasília (com melhor dom para a paródia do que os campineiros) também investem na guerra de números, onde buscam legitimar o discurso de defesa da usina. Publicado no dia 29, em uma semana ele já estava com 66 mil visitas no YouTube.

-> de volta ao lado contrário a Belo Monte, vale destacar o vídeo do ISA (Instituto Socioambiental), “Xingu – a Luta dos Povos pelo Rio”. Dirigido por Beto Ricardo e André Villas Bôas (coordenador do programa Xingu, do ISA), o documento, como sugere o título, foca no ponto de vista dos indígenas – e das batalhas que travam em Altamira desde 1989. Uma música dramática pontua o filme. A qualidade técnica do vídeo é muito superior à dos que defendem a usina - pois estes têm surgido de forma improvisada, como resposta às propagandas contrárias ao projeto.

-> como em alguns filmes a favor da usina, há vídeos que investem na argumentação racional.
 Esta semana ganhou muitas menções de internautas a reprodução de uma entrevista com o professor Osvaldo Sevá, no programa Ação Nacional, da TV Século 21.

O fato é que o recurso dos vídeos vem se mostrando mais eficaz, em termos de audiência, do que os artigos exaustivos sobre o mesmo tema. Em poucos dias, na última semana, o acesso a quase todos esses vídeos disparou – em alguns casos, exponencialmente.

Isso tem acontecido com outros temas de debate público pelo Brasil e pelo mundo. Talvez seja inevitável que a disputa política em nossa época ganhe esse contorno audiovisual. Isso tem várias implicações – uma delas, financeira. Vídeos bem feitos custam mais dinheiro que manter um site.

Não à toa, no próximo tópico discutiremos um vídeo específico. É uma divulgação preliminar do filme “Belo Monte – Anúncio de uma Guerra”, ainda não finalizado. Nesse caso, pelo que se vê nas imagens iniciais, a qualidade está garantida. Mas os diretores tiveram de passar o chapéu – também virtual – para viabilizar o filme.

LEIA MAIS:

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A batalha (virtual) de Belo Monte – parte I

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

O que faz alguém definir sua opinião – ou mudar de ideia - sobre Belo Monte? Razão ou emoção? E por que o espaço virtual tornou-se o espaço por excelência da discussão sobre a usina?

A arena de debates na internet está posta. São vídeos com celebridades, estudantes ou autoridades acadêmicas, listas de “verdades e mentiras”, ou de “50 razões contra Belo Monte”, e assim por diante. As redes sociais trazem opiniões veementes sobre o tema, como se fosse um clássico entre Palmeiras x Corinthians. Um Fla x Flu.

Vamos ver aqui alguns exemplos dessa batalha virtual. E discutir a eficácia – ou ao menos a popularidade – de cada tipo de abordagem. Posto abaixo os links e os endereços do Twitter de cada um dos debatores.

"PENSO, PORTANTO ARGUMENTO"

Classifiquemos um primeiro tipo de debate como racional. Ou aquele dos “argumentos exaustivos”. A linha adotada não é aquela da isenção, dos “prós e contras”, da tentativa de equilíbrio entre opiniões contrárias – recurso mais típico da grande imprensa.

Aqui, cada articulista assume explicitamente um lado e adota a estratégia de vencer o leitor com uma demonstração racional da inviabilidade (ou a viabilidade, necessidade) da usina. Mas há nuances nessa história. Vejamos:

-> o professor de literatura Idelber Avelar (@iavelar), da revista Forum, faz um grande esforço de síntese em uma “bibliografia comentada”, em 50 itens. A posição dele é contrária à construção da usina. A tal ponto que ele chama o resumo de “50 leituras sobre o ecocídio de Belo Monte”. Em meio às argumentações, a metáfora do “ecocídio” associa a palavra homicídio à devastação da floresta.

-> uma leitora contestou a unilateralidade do artigo de Avelar. E remeteu ao Blog do Alê
, uma tentativa de desmontar o que considera “inverdades” sobre o tema. Porto diz no título: "Eu não assino petições contra Belo Monte". E faz campanha no Twitter (@aleportoblog) contra isso – divulgando o endereço do próprio artigo. Ele considera os argumentos contrários à usina "protelatórios", que constituem uma "tática de guerrilha" contra o projeto.

Essa oposição entre “mentiras” e “verdades” é uma das marcas do debate na internet.

-> no Correio da Cidadania, o professor Oswaldo Sevá (@oswaldoseva) enumerou em seis itens o que seria um “Belo Monte de mentiras”. O segundo item desdobra-se em cinco subitens – igualmente desconstrutivos. “Trinta anos de manobras estranhas, omissão de informações cruciais e algumas mentiras grossas”, resume o acadêmico, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.

-> no blog de Luis Nassif, o articulista Fábio Bittencourt questiona os acadêmicos contrários a Belo Monte.  E elabora um “dossiê a favor”. Como ele associa a campanha contra Belo Monte às esquerdas, o articulista chega a invocar Lênin (!) para defender a construção da usina.

-> o jornal digital Brasil 247 também respondeu ao vídeo dos artistas globais sobre Belo Monte na linha de expor “mentiras”. Seriam “quatro mentiras fundamentais”, diz a publicação. O vídeo é desqualificado como um "teatro".

-> a página do Instituto Socioambiental - contrário à usina - traz um belo histórico de Belo Monte e de notícias que saíram sobre o projeto, desde 1997. Em 2003, por exemplo, o jornalista Washington Novaes avisava que "cautela e caldo de galinha" não fazem mal a ninguém.

Novaes lembra, nesse artigo publicado originalmente no Estadão, que o antigo nome da usina era de Kararaô. Mas foi posto de lado "depois que, em 1989, para protestar contra a sua construção, a índia caiapó Tuíra encostou um facão no pescoço de um diretor da Eletronorte".

PARA ALÉM DOS ARGUMENTOS

Vale observar que, em meio a esse debate, há muitos articulistas que fazem afirmações na linha do “porque sim”, ou do “porque não” – sem maiores preocupações com a fundamentação técnica. Ou política. Ou com a história. Da região, do Brasil, da nossa política energética.

Uma dessas posições mais apaixonadas vem do jornalista Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada. Para ele, toda a campanha contra a usina vem do que ele chama de PIG – Partido da Imprensa Golpista. É uma espécie de paranoia, segundo a qual quase toda crítica aos governos petistas seria "golpista".

Mas bastaria citar o apoio da revista Veja (um símbolo da direita brasileira) ao projeto para desmontar a tese de Amorim - um governista empedernido - e mostrar que o debate é mais complicado. Curioso é que ele diz que Belo Monte vai sair, “queira o PIG ou não”. Só falta bater o pezinho.

Não pretendo aqui esgotar as listas de argumentos. Os leitores estão convidados a sugerir, nos comentários, outras tentativas de síntese – contra e a favor de Belo Monte. Mas insisto na necessidade de exposição de artigos que tragam de fato argumentos, fatos, dados – e não apenas defesas apriorísticas.

Falarei especificamente dos vídeos mais tarde, ainda hoje. Eles são o assunto do próximo post. Tornaram-se centrais no debate, com mais visibilidade que os artigos. Nesses vídeos, artistas globais, acadêmicos e anônimos disputam também com emoção (e recursos teatrais ou cinematográficos) a opinião pública.

É como se saíssemos da sisudez dos jornais impressos (ou da academia) e entrássemos diretamente no Fla x Flu.


LEIA MAIS:
A batalha (virtual) de Belo Monte - parte II


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