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terça-feira, 22 de maio de 2012

Sobre Xuxa, a “repórter loira”, machismo, sexismo, Rede Globo e Band
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
A abertura da opinião às grandes massas, pela internet, é um feito a ser comemorado. Mas traz um problema embutido: o imenso, o gigantesco telhado-de-vidro dessa multidão, nem sempre repleta de boas intenções. Em outros casos elas existem (as boas intenções), porém as críticas são feitas de modo afoito. Sem que a multidão de intenautas pare e respire duas vezes antes de praticar um linchamento coletivo.
 
A consequência é que, em meio à vigilância necessária, a tomadas sensatas de posição, emerge boa parte do que a sociedade tem de pior: como o machismo, o sexismo, o analfabetismo político. E a própria violência. Muitas vezes inconsciente. O que deveria ser um fórum para defesa de direitos revela-se um campo minado, no limite de estimular (ou praticar) novas violações.
 
É como se fornecêssemos milhões de bumerangue à turba, sem informar a ela a curiosa peculiaridade do instrumento: ele volta.
 
Escrevo isso a propósito de Xuxa, vítima mais recente da enxurrada de atropelamentos, agressões, “pitis”, intolerância, maldades, inveja, despeito – e poderíamos enumerar aqui mais outros tantos itens. “Onde já se viu, essa moça que fez isto e aquilo reclamar que foi abusada?”
 
MACHISMO EXPLÍCITO
 
Muitas dessas críticas (até certo ponto válidas) afundam no machismo – e também na ignorância em relação a aspectos básicos do tema abuso sexual. Deveria ser elementar: uma pessoa que foi abusada não tem hora para denunciar. Mas não: decide-se que ela foi “oportunista”. Fico a pensar em que momento da vida Xuxa não seria acusada de oportunismo - e quando os nobres internautas permitiriam que ela expusesse seu drama.
 
Penso também no caso da repórter Mirella Cunha, da Band de Salvador, que humilhou sistematicamente, durante uma entrevista, um acusado de estupro. O rapaz contou ter sido espancado, mas isso foi ignorado: a preocupação da emissora era a de desprezar sua fala, sua presunção de inocência, sua dignidade. Postei aqui no sábado sobre o assunto: “Três vídeos exibem a ética paralela do jornalismo da Band”.
 
Vejamos novamente o vídeo, um exemplo do que de pior pode ser feito na televisão:



Horrível, não? Ocorre que Mirella está sendo reduzida, em posts na internet, à condição de “repórter loira”. Como se fosse a cor do cabelo (não acho que ela tenha sido racista), ou o seu gênero, o problema a ser ressaltado. Não teríamos aqui inveja e despeito novamente? E também um sutil desprezo em relação ao posto ocupado por uma mulher (bonita)? Não estaríamos atirando fora o bebê junto com a água da bacia? Os direitos dela ao defendermos o direito do acusado? (O que li de gente querendo bater na repórter não está no gibi.)

É claro que o comportamento de Mirella deve ser não só criticado, mas deplorado. Forçoso assinalar, porém, que ela não fez - e não faz - nada sozinha. Existe uma lógica pseudo-jornalística nesse tipo de “reportagem”, e nesse tipo de “jornalismo” do Brasil Urgente. As críticas devem mirar mais as estruturas, e não o repórter de plantão, a apresentadora de plantão. No caso desse jornalismo-cão, feito por dezenas de mãos, quem o patrocina? A Rede Bandeirantes – hoje reduzida ao nome Band.

(A Record e o SBT possuem programas similares. Mas, para efeito de raciocínio, fiquemos com a Band.)
 
A FIXAÇÃO NA GLOBO
 

Falemos então dessa emissora paulista: a Band. (E não baiana, diga-se de passagem.) E da emissora carioca: a Globo. A aversão de certa parcela da população pela Xuxa sobrepõe-se e confunde-se com a aversão geral e irrestrita de alguns intelectuais pela Globo. Este é um caso oposto ao do linchamento de indivíduos. Aqui os críticos sistemáticos se focam no todo, na emissora como um todo – caindo no problema oposto, o de desprezar o que é específico.
 

Tudo para dizer que a fúria contra a Globo tornou-se apriorística. Como se essa fosse a pior das emissoras brasileiras. E ela não é. (Sim, eu confesso.) E como se tudo que fosse feito no Jardim Botãnico fosse ruim, nocivo ao país, e maquiavelicamente planejado. (Como se a Globo fosse um equivalente eletrônico da revista Veja, esta sim um produto perfeito para teorias da conspiração.) Não é bem assim.
 

Este blog já criticou várias vezes a Globo. Por exemplo, na cobertura da desocupação do Pinheirinho, em janeiro, pelo Fantástico e pelo Jornal Nacional: “ “Cobertura do Pinheirnho é o debate Lula x Collor do século 21”. Ou em relação à Cracolândia: “Globo mostra limpeza na Cracolândia e legitima higienismo de Kassab”.  Por outro lado, também já elogiou a cobertura da reintegração pelo Bom Dia, Brasil. E algumas reportagens investigativas do próprio Fantástico.
 

No caso da Band é um tanto mais difícil garimpar algo decente: um Ricardo Boechat aqui, alguma outra coisa ali. Mas a emissora não é objeto da mesma obsessão de blogueiros, esquerdistas etc. Apesar das violações sistemáticas de direitos humanos, da exposição abjeta de suspeitos, e assim por diante. Rafinha Bastos era sempre “o Rafinha Bastos” - e não a Band. O Datena expõe diariamente seu horizonte tímido no telão – mas é mais fácil demonizar a “repórter loira”.
 

Está bem na hora de acabar com essa blindagem da Band. Não de poupar a Globo de críticas, mas de minimamente democratizá-las. Isto por um lado.
 

Por outro lado, passou da hora de nos vigiarmos em relação ao machismo. A postura da repórter Mirella Cunha deve ser deplorada. Mas ela tem chefes – loiros, morenos, cabeludos, barbados. Homens e mulheres.
 

Que o despreparo jornalístico de todos esses senhores e senhoras seja ressaltado. Mas, com eles, os interesses dos patrões – e dos anunciantes. Os mesmos que, nas últimas décadas, varreram o tema do abuso sexual para debaixo do tapete.
 

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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Piadinhas sobre Xuxa são o riso nervoso de uma sociedade doente
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
Penso, logo deploro. O projeto do ser humano de viver em sociedade revela-se diariamente algo mal resolvido. À desigualdade econômica (1 bilhão de pessoas passando fome, bilhões de pobres) soma-se a miséria cultural – e ética. Cinismo e ignorância caminham juntos na celebração de um gigantesco fracasso coletivo.
 
Faço estas reflexões amargas a propósito da reação de muitos desses seres humanos a uma entrevista da apresentadora Xuxa, veiculada neste domingo, no Fantástico. Ela contou ter sido abusada sexualmente quando criança, até os 13 anos. Por três homens.
 
A escória da humanidade, muito bem espalhada em terras brasileiras, logo se pôs a fazer piadinhas. Troças. Comentários jocosos. Irônicos. Debochados. Céticos.
 
A escória ri o seu riso nervoso. Não se trata de um riso saudável, libertador. Mas da própria expressão da barbárie perpetuada, do mencionado fracasso histórico (de um ponto de vista igualitário), de uma sociedade essencialmente doente. E culpada.
 
Deploro todos os males do capitalismo, sua essência espoliadora. Mas sigo longe de acreditar que a exploração do homem pelo homem seja uma exclusividade desse sistema econômico. Este é apenas uma consequência da incrível capacidade que os piores exemplares de nossa espécie têm para se perpetuar – seja em regime capitalista, feudal, escravocrata ou socialista.
 
Esses predadores dos próprios semelhantes espalham-se com o sorriso no rosto.
 
Cada pessoa que ri do drama de Xuxa é, ao mesmo tempo, o carrasco e o traficante de escravos, é Gengis Khan e Paulo Maluf, Adolf Hitler e o empresário boçal da próxima esquina, Stalin e o deputado patife, é o invasor, o espoliador, o assassino. E é também o estuprador - o homem que abusa.
 
Essas pessoas sabem disso. Sabem que são esse projeto falido. Não racionalmente, mas sabem. Por isso esse riso nervoso.
 
Esse riso de cumplicidade, de anuência, de quem não conseguiu salvar as próprias crianças, esse riso de derrota disfarçada de vitória. Esse escárnio de quem não acredita que algo possa mudar para melhor – esse riso que acusa a falta de utopia.
 
É pensando em todas essas bocas escancaradas, cheias de dentes, que invoco Raul Seixas. Ele também fez seu Aleph, o ponto de todos os pontos, consagrado na literatura pelo argentino Jorge Luis Borges. Está na música Gita: “Eu sou a luz das estrelas/eu sou a cor do luar..”
 
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quinta-feira, 10 de maio de 2012

O que é notícia? Mulher que não pagou pensão ou mobilização contra exploração sexual?
 
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
 
Alguns jornais de hoje dão na capa a notícia de que uma mulher grávida, com o filho prestes a nascer, foi presa por não pagar pensão “ao ex-marido”. A notícia não é exata: a pensão é para a filha. A condição de ex-marido não é a que importa, mas sim a de pai. Diariamente pais são presos por não pagar pensão. A medida pode ser questionada, claro – mas para ambos os sexos. De resto, trata-se de sensacionalismo.
 
Esse sensacionalismo fica mais evidente se pensarmos numa notícia que não foi dada. A de que, ontem, um encontro da Rede Nossas Crianças discutiu o enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. Foi tirado um documento a ser enviado para autoridades de 44 municípios onde a rede (que atente 61 mil crianças e adolescentes em 11 Estados) está presente.
 
(Esses dados foram divulgados pelo Correio Braziliense, com texto da Agência Brasil, mas foram ignorados pelos principais jornais.)
 
Estamos a oito dias do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantojuvenil. Se os jornais querem, de fato, discutir temas familiares, está aí uma ótima oportunidade. Não é o único, evidentemente. A violência contra a mulher deveria ser também um tema prioritário – e não apenas nas proximidades do dia 8 de março.
 
Mas é mais fácil explorar um caso (um único caso) de uma mulher presa por não pagar a pensão. E de forma distorcida – como se tratasse de um privilégio a um “ex-marido”, e não de uma negligência em relação à filha.
 
Enquanto isso, as crianças e adolescentes brasileiros seguem como as vítimas mais inocentes da violência estrutural de nosso país. Em São Paulo (e não nos grotões), informou ontem a psicóloga Maria Inês Rondello, 61% dos abusados são do sexo feminino e 39% do masculino.
 
Informa a Agência Brasil (da EBC, do governo federal) que, entre as meninas, 17% das vítimas têm até 5 anos, 45% de 6 a 10 anos. Mais da metade. Entre os meninos, pior ainda: 15% estão na faixa etária até 5 anos, 51% de 6 a 10 anos.
 
E quais os tipos de violência? Os dados da psicóloga mostram que 44% referem-se a abuso sexual; 2%, exploração sexual; 21% negligência (e nem estamos aqui falando de pensões não pagas); 20%, violência física e 13%, violência psicológica.
 
Barbárie, claro. Tudo sempre sob o silêncio eloquente da grande imprensa. Como serão esses brasileiros e brasileiras desde cedo violentados?
 
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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Eliane Brum, "Olhos Azuis", o Explorador Sexual e o Pauteiro Indiferente

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Com sua habitual elegância, a jornalista Eliane Brum escreveu esta semana – em sua coluna na revista Época – sobre um personagem sórdido, que ela apelidou de Olhos Azuis. Trata-se de um jornalista europeu (ela não o nomeia) que veio ao Brasil, em 2000, fazer uma reportagem sobre exploração sexual. Ela se dispôs a ajudá-lo, mas logo descobriu que ele, em vez de apurar os fatos, copiou uma reportagem escrita tempos antes por um jornalista do centro-oeste. Olhos Azuis era um farsante. Mas o texto foi publicado.

Eliane escreve sobre isso para falar do bem e do mal. Ela fez questão de encontrar Olhos Azuis (a quem também chama de "pior jornalista do mundo") para dizer o que pensava. Cínico, ele fez a ela uma proposta: que por um dia ele fizesse o bem, e que por um dia ela fizesse o mal. Isso a perturbou. Mas decidiu que faria ainda mais esforços para fazer o bem. Por exemplo, praticar um bom jornalismo (em seu caso, ótimo), ou não tratar com irresponsabilidade um tema sério como aquele – a exploração sexual.

Escrevo não para rebater o texto brilhante de Eliane Brum – que percorre de Goethe a Hannah Arendt e aqui ganha um resumo grosseiro. Mas para desenvolver um aspecto que, até por espaço (e pelo viés filosófico de seu artigo), ela não poderia esgotar. Quero falar da ausência do tema negligenciado por Olhos Azuis – a exploração sexual – nos principais jornais e revistas brasileiros.

Olhos Azuis é um patife, evidentemente. Mas há, nessa tragédia brasileira, personagens mais próximos do nosso dia-a-dia. A começar da própria figura do Explorador Sexual – candidato a aparecer no topo de qualquer lista de Grandes Canalhas da Humanidade. Aqui nem estamos falando ainda do Abusador Sexual, este ainda mais onipresente. Na sociedade e no jornalismo, esses personagens só podem atuar a partir da omissão do Estado (e das polícias) e de uma legião de indiferentes.

Não estou falando de algo sem base acadêmica. Especialistas nos temas (exploração e abuso sexual), como a assistente social Eva Faleiros, professora aposentada da Universidade de Brasília, dizem que esse tipo de ignonímia ocorre a partir de um certo Pacto do Silêncio. Não se tratam somente de pessoas próximas, de familiares, por exemplo, a ignorar algum caso de violência sexual. Mas de grupos inteiros, até municípios inteiros.

Na melhor das hipóteses, esse Pacto do Silêncio ocorre por conta de medo de represálias físicas. Nas piores hipóteses, por conveniência social, profissional, financeira etc.

O PACTO JORNALÍSTICO

E onde entra o jornalismo nisso tudo? Ora, a mídia contribui diariamente para esse Pacto do Silêncio. Não se trata de sabotar uma reportagem pautada, como fez Olhos Azuis. Mas sabotar a própria pauta, ignorá-la. Isso ocorre por decisão (ou omissão) do Pauteiro – o Pauteiro Indiferente. Por decisão irrevogável do editor – o Editor Cúmplice. Por inexistência de interesse de repórteres – os Repórteres Distraídos.

Escrevo esses apelidos por conta de Olhos Azuis, personagem real flagrado por Eliane Brum, mas pensando também na literatura de Roberto Arlt. O argentino é autor da obra-prima “Os Sete Loucos” (1929), onde cria personagens como O Astrólogo e O Rufião Melancólico. Autor de obras preciosas sobre submundo, como os brasileiros Plínio Marcos e João Antônio, Arlt (também jornalista) bem poderia ter escrito algo sobre alguém como Olhos Azuis – ou sobre o Pauteiro Indiferente.

As abordagens da imprensa em relação à exploração sexual são eventuais, e não sistemáticas. E por isso - em meio às honrosas exceções - escondem uma certa hipocrisia social. Em 2006 escrevi sobre isso, no site da Agência Repórter Social:


- Jornalistas e leitores retomam por instantes um certo peso na consciência coletiva e os aliviam em seguida, enquanto as raízes do problema não são efetivamente expostas ou debatidas. Um círculo vicioso explica essa discrição dos meios de comunicação: se uma das raízes sociais do problema é o tal “pacto do silêncio”, os sussurros da mídia são a sua mais completa tradução.

O que é pior? A reportagem copiada de Olhos Azuis ou a omissão cotidiana de jornalistas brasileiros?

Onde está o “mal”? Antes de mais nada na exploração sexual, claro - mas e os signatários do Pacto do Silêncio, quem são eles?

Seriam os leitores? Eles não deveriam também pressionar os editores por não varrer a sordidez do País para debaixo do tapete?

Não que apenas o cidadão comum deva ser responsabilizado. Que se discuta política - em escala. Por isso falo também nesse artigo do papel dos governos:

- Os orçamentos para preservação de direitos fundamentais são pífios. Aos sussurros da mídia correspondem as migalhas do setor público. A começar do governo federal. Não podemos pensar que seja um mérito enorme ou suficiente ele ter criado há poucos anos um Disque Denúncia. Não fez nada mais que a obrigação. O que acontece é que esse tipo de tema não está na grande agenda nacional.

Vale registrar que, entre 2005 e 2010, foram registrados 25.175 casos de exploração sexual de crianças e adolescentes, segundo o Disque 100. As capitais que mais denunciaram casos foram Salvador, Rio de Janeiro, Fortaleza, São Paulo e Natal.

Se esses números não fazem parte da grande agenda nacional é também porque o jornalismo define determinadas prioridades. Só há um Pacto do Silêncio na mídia porque há uma Pauta Barulhenta (a pauta econômica):

- A obsessão por crescimento e temas econômicos esmaga estruturalmente a noção de que, antes do PIB, dos juros ou qualquer indicador econômico, temos a obrigação de oferecer o mínimo de dignidade às nossas crianças. Essa dívida nem começou a ser paga e tem juros monstruosos. Primeiro as crianças precisam de condições normais para se desenvolver. Sem serem molestadas, estupradas, vendidas. Depois a gente discute o País.


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