Relato dos Tenharim presos: “Somos inocentes. Estamos sem chuva, sem céu, sem nossos rituais. Isso é Justiça?”
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Cinco
indígenas da etnia Tenharim estão presos desde o dia 30 de janeiro, em
Porto Velho, acusados – num processo kafkiano – de assassinar três
pessoas em dezembro de 2013. O blog reproduz aqui depoimentos dos
acusados obtidos pela antropóloga Rebeca Campos Ferreira, do Ministério
Público Federal. Eles declaram inocência. E relatam não conseguir se
adaptar às condições do presídio: sem a comida tradicional deles, sem
rede, sem cocar, sem rituais. “Não tem quase sol, nem chuva, nem o céu”.
Um sexto indígena foi denunciado à Justiça em abril, o cacique Aurelio
Tenharim. “A justiça ouviu o povo branco e os poderosos, por isso que
prendeu a gente e deixa a gente aqui?”
Para entender mais o caso
– que envolve um apartheid contra os indígenas e a destruição da sede
da Funai, em dezembro, em Humaitá - leia este relato que fiz na Agência
Pública, após cinco dias em Humaitá (AM) e região: “A batalha de Humaitá”. E este artigo no blog: “O sonho do pajé, a conta de luz ou a galinha?”
Segue
o relato feito pela antropóloga, que inclui queixas sobre falta de
apoio jurídico da Funai e das organizações de apoio aos povos indígenas:
Em 22 de maio de 2014 eu, Rebeca Campos Ferreira, Perita em
Antropologia do Ministério Publico Federal, estive na Penitenciaria de
Médio Porte Pandinha, em Porto Velho – RO, com os indígenas Gilson
Tenharim, professor da aldeia Campinho-hũ, de 19 anos; Gilvan Tenharim,
irmão do anterior e, como ele, também professor da aldeia Campinho-hũ,
de 24 anos; Valdinar Tenharim, agente indígena de saneamento da aldeia
Campinho-hũ, de 30 anos; Domiceno Tenharim, professor e cacique da
aldeia Taboca, de 33 anos; e Simeão Tenharim, agente indígena de saúde
da aldeia Marmelos, de 36 anos. Na ocasião ouvi a narrativa que segue
transcrita, “um apelo” como chamaram os indígenas, para ser repassada
aos parentes, às autoridades e à sociedade brasileira. A narrativa a
seguir foi realizada por todos eles, simultaneamente.
(Os intertítulos e explicações não fazem parte do relato original de Rebeca.)
“Queremos registrar o que a gente passa aqui.
Tem
alimentação sim, mas não é da nossa cultura e a gente não está
acostumado com isso, e está fazendo mal pra gente, dá dor na barriga, dá
diarreia. A gente não tem gosto de comer, estamos acostumados com
outras coisas de comer, o que a gente comia sempre, de caça, de pesca, é
diferente. Estamos há três dias sem comer. Se comer vamos passar mal. É
melhor não comer. A gente queria pelo menos ter nossa alimentação da
cultura. A gente não consegue dormir assim.
Não podemos ter
rede. Nosso corpo não é acostumado com isso aqui. E não tem quase sol,
nem chuva, nem o céu. Isso atinge toda nossa cultura. A cultura que a
gente está acostumado e nossos parentes que estão lá. Nossos filhos,
nossas mulheres, nossos pais, e os mais velhos. E nós perdemos nosso
pai, que era cacique. [Ivan Tenharim, morto em dezembro após cair da
moto.] E nem pudemos fazer os rituais dele. Nem as outras cerimônias que
tem que fazer nessa época. O povo da aldeia está sem cacique agora.
Isso preocupa demais a gente.
Isso é fora da nossa cultura. E a
nossa cultura aqui a gente não tem liberdade de fazer. A gente não pode
ter cocar nem fazer nossos rituais. Nem dançar, pintar, nossa cultura,
nossas coisas. Isso vem pro nosso corpo também. Nosso corpo e nosso
espírito sofre, e do nosso povo lá, a gente se preocupa muito.
E
depois de tudo que já fizeram com nossos parentes desde 500 anos quando
os brancos chegaram. E tudo que eles passaram. E com a estrada também.
[A Rodovia Transamazônica.] Mas naquele tempo não tinha lei. E hoje tem
lei pra nós índios. Somos tratados de forma esquisita. É tudo contra
índio. Mas a gente não é empecilho para o Governo, a gente é aliado para
um mundo melhor pra todo mundo. A gente não é contra branco. Somos
aliados, queremos um mundo melhor para todo mundo.
“Nós não somos seres humanos aqui”
A
gente está sentindo muito aqui. Estamos longe da terra, dos parentes, a
gente perdeu nosso cacique, sofremos tudo aquilo, do povo branco, da
polícia, estamos aqui presos, sem saber das coisas, com medo. Nós não
somos seres humanos aqui. Mas nós somos brasileiros também. A gente
enfraquece, a gente está magoado. Toda nossa família enfraquece. Nossa
terra enfraquece.
Nossa esperança é Deus agora, são vocês do
Ministério Público Federal, dos nossos parentes lá fora, de quem puder
ajudar a gente.
A gente não fez isso que falaram na televisão. A
gente não é aquilo que eles falaram. Por que fazem isso com nós
indígenas? A gente está em risco, aqui, e nossas famílias lá na nossa
terra. A gente não tem proteção. O governo não cumpre nossos direitos,
nem lá fora nem aqui dentro da cadeia. Estamos em risco. A gente
desgostou da vida.
E na aldeia, não podemos fazer os rituais da
morte do nosso cacique, a gente não pode fazer os rituais do novo
cacique, nosso povo está sem rumo, sem direção. Nem nossa festa vai ter
esse ano, ela acontece desde sempre do nosso povo. São os espíritos
nossos, somos nós todos que sofremos. Nem a cerimônia do nosso falecido
pai e cacique aconteceu, isso é ruim para o espírito. Pode vir coisa
ruim, coisa pior do que isso. A gente não tem liberdade. A gente está
sem vida. E a gente é inocente. Não somos o que eles disseram. Queremos
registrar essa mensagem para a sociedade.
“Perdemos o pai, o cacique e a vida”
Estamos
sem ritual, sem nossa cultura, sem cocar, sem nossa família e a terra
onde a gente nasceu, sem liberdade. A gente vive de cabeça baixa aqui.
Estamos sendo injustiçados. É assim que é a justiça dos brancos?
Perdemos
o pai, o cacique e a vida. Estamos presos. Estamos sendo injustiçados, a
gente não fez isso. Perdemos tudo aqui. É justiça isso? Tudo que
falaram da gente é mentira, a televisão, os brancos, mentiram e fizeram
isso com a gente. Tudo que a gente sofreu, nós e nosso povo, desde que
tudo isso começou, e quando a gente veio preso. Não deixaram a gente
voltar para casa, a gente nao sabia o que estava acontecendo. Mas
sabemos que eles fizeram coisa errada com a gente, enganaram, levaram
para fora da terra e prenderam, enganaram a gente e os irmãos. [Eles se
referem a um artifício utilizado no momento da prisão, quando foram
atraídos para fora das aldeias.]
Não sabemos direito nada ainda,
eles não passam informação, não falam nada. Nem FUNAI, nem os que
defendem a gente. Quem defende a gente? Como que é que funciona isso? A
gente não entende isso, porque não fizemos, e não entendemos o que vai
acontecer com a gente daqui pra frente. O que vai acontecer com a gente?
A gente sofreu muito naquela época e está sofrendo muito agora. O povo
nosso também. Hoje a aldeia está abandonada.
Nosso apelo é que
as pessoas tenham mais amor com o povo indígena. Que trate a gente de
forma civilizada. A gente pede para a FUNAI vir aqui, falar com a gente,
defender a gente, a gente quer saber quem abraçou nosso caso, quem está
pela gente.
“A Funai não está fazendo nada”
A
FUNAI não está fazendo nada, só o Domingues da FUNAI de Humaitá que vem
ver a gente, e os que sabem dessas leis lá de Brasília da FUNAI não. A
gente quer eles aqui pra falar com a gente. A gente não sabe o que está
acontecendo, estamos sentindo que ninguém está pela gente das
autoridades, só vocês [MPF] e nossos irmãos, nosso povo. A gente precisa
ter alguém que defenda a gente. E queremos a FUNAI para informar e
proteger.
A gente pede ao Dr. Julio [Araujo/ MPF-AM] e ao Dr.
Ricardo [Tavares], pro CIMI que pode ajudar a gente também com advogado.
Alguém tem que defender a gente e dizer pra gente o que está
acontecendo. A gente agradece muito o Ministério Público Federal, de
Manaus e daqui de Porto Velho, Dra. Rebeca [Campos Ferreira/ MPF-RO], o
Dr. Filipe [Albernaz/ MPF-RO], por vocês terem vindo aqui ontem e hoje,
por vocês lutarem pela gente, por estar aqui ouvindo a gente. É como se
fosse nossos irmãos aqui, pra gente isso é muito bom.
Foi bom
ter visto nossos parentes ontem com vocês, agradecemos por ter trazidos
eles, por eles poderem entrar com vocês. A gente esta sentindo muita
falta da nossa família e da nossa terra. Quando eles vêm é bom, quando
vocês vêm é bom. É bom saber que alguém se preocupa com a gente.
“Estamos com muito medo”
Não
queremos ir pra Manaus. Não. Lá a gente vai ficar pior. Lá nossa
família não tem como ir ver a gente. Estamos preocupados, com medo. Com
muito medo.
E queremos um advogado. Queremos que alguém lute
pela gente lá fora. Pelos nossos direitos. É um vazio pra gente aqui.
Não sabemos o que fazer e o que acontece. A gente manda um recado para
os parentes também ajudarem a gente. Eles já ajudam muito nesse tempo
todo. Pra eles virem ver a gente quando é dia de vir. Isso é bom. A
gente pede para os parentes ficarem perto da gente, e que eles estejam
perto também dos advogados, da FUNAI, do Ministério Público, e de quem
vai ajudar a gente.
Pedimos pra ser informados do que acontece.
Pedimos pra não ir pra Manaus. E pra ajudarem a gente e protegerem e
lutarem pela gente. E para o advogado que acompanhou tudo, o Dr. Ricardo
[Tavares], pedimos pra ele vir aqui falar com a gente. Ele viu como foi
que fizeram com a gente. Não foi certo o que a polícia fez. Prenderam a
gente irregular, levaram para fora da terra indígena, não explicaram
nada, não trataram a gente como ser humano. Mentiram, enganaram, diziam
coisas pra gente. Pressionaram.
E para o Dr. Julio [Araujo/
MPF-AM] nos ajudar e ajudar nosso povo. E para o Ministério Público
daqui de Rondônia, Dr. Filipe, Dra. Rebeca, e de Manaus, continuem com a
gente, e o que a gente pede. E o CIMI se puder ajudar.
Não deixem a gente desprotegidos.
“Queremos defesa, quem lute pela gente”
A
gente não quer ir pra Manaus. Nossa vontade mesmo, a gente acredita em
Deus, é voltar pra nossa terra e fazer as cerimônias que tem que fazer
pelo nosso povo.
Pedimos para as lideranças nossas para auxiliar
também, em tudo, para as lideranças nossas estarem com a FUNAI, com
advogado, com juiz, com o Ministério Publico. A gente pede pra saber
como está nossa situação, quem está pela gente, e que a FUNAI esteja
pela gente também, e que o Ministério Público não deixe a gente.
O
procurador da FUNAI veio uma vez, mas parece que a FUNAI não está dando
atenção nem prioridade. Queremos defesa, queremos quem lute pela gente.
Estamos sem nada, sem família, sem terra, sem cultura, sem liberdade e
sem saber como é nossa situação.
Ainda bem que nossos parentes e
vocês [MPF] estão com a gente. A gente agradece os parentes nossos,
nossas lideranças, o Domingues da FUNAI, Dr. Rebeca (MPF-RO), Dr. Filipe
(MPF-RO), Dr. Julio (MPF-AM), Dr. Ricardo. Por favor, leva essas nossas
palavras pra eles.
“Não somos aquilo que passou na televisão”
A
gente está sentindo muito aqui, nosso corpo, nossa cultura, e nosso
povo, a gente está preocupado com o que vai ser dos rituais que não vão
ser feitos. Mas a gente acredita em Deus, que vai ser feito justiça pra
gente. Apelo nosso é pra parar com preconceito e discriminação, para ter
mais amor com os indígenas, e não acontecer mais o que aconteceu com a
gente com ninguém. Não fizemos aquilo e não somos aquilo que passou na
televisão.
Queremos ter nossos direitos, queremos saber como
está nosso caso, queremos ser defendidos e protegidos. Não queremos ir
pra Manaus. Queremos voltar pra nossa terra com nossa família, fazer os
rituais pro nosso povo que não pode mais ficar sem. Somos inocentes.
Estamos
sofrendo muito aqui com isso, e nosso povo lá fora. Acreditamos em Deus
e nos nossos parentes, nossas lideranças, nas autoridades que vão
ajudar a acabar com essa injustiça que nosso povo sofreu.
Viemos pra cá de madrugada, ninguém disse pra onde a gente ia. A gente tem medo.
Queremos
sair daqui. Não queremos ir pra Manaus. Queremos provar que não somos
aquilo e não fizemos aquilo. Queremos saber o que acontece, a gente não
entende.
“É o massacre dos espíritos nossos”
Tiraram
a gente da terra, prenderam a gente, não deixaram a gente se despedir. A
gente não sabia o que acontecia. Não podemos ficar aqui, nem sem saber
de nada, e nosso povo não pode ficar sem ritual, sem cerimônia. É o
massacre dos espíritos nossos. E tem que fazer cerimônia funeral do
cacique. Sem as festas desestrutura tudo, o povo inteiro, se a gente não
fizer, vai ser agora em julho, ficamos todos desprotegidos, o povo todo
fica desprotegido espiritualmente, e vêm coisas ruins, não pode
interromper porque isso é desde o começo do nosso povo, e nunca ficou
sem fazer. Fica tudo desnorteado, nossa cultura e nosso povo. Sem
direção, a gente aqui e nosso povo inteiro lá. A comunidade inteira
perde.
E a angústia nossa aumentou com essa história da gente ir
pra Manaus. E fica ainda mais longe, a gente sabe que lá não tem como
ver os parentes. Não podemos ficar sem ver nossos parentes. A gente não
come mais, é muita preocupação, não tem como acostumar nosso corpo e
nosso espírito. A gente aqui não pode cantar, nao pode pintar, não pode
dançar, não é vida pra gente isso aqui. Não conseguimos dormir aqui. Não
pode ter rede, não acostumamos deitar aqui.
A gente nunca
passou por isso, nem de ficar sem ritual, nem nosso povo. Nem de ficar
fora da aldeia. Nem de ficar preso. É preconceito com indígena. A
justiça ouviu o povo branco e os poderosos, por isso que prendeu a gente
e deixa a gente aqui? A justiça tem que seguir a lei. E a gente é ser
humano.
Nosso apelo é esse. Para a sociedade ver que não somos
aquilo que passou, somos inocentes, estamos sofrendo muito aqui. A gente
só quer voltar para nossa terra e nossa família. Queremos que as
autoridades escutem a gente, entendam isso. E a gente agradece todos
nossos parentes que nunca saíram do nosso lado e todo mundo que está
lutando pela gente. Mas não deixem a gente desprotegidos, nem ir pra
Manaus, nem aqui como a gente está”.
TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
jornalismo, geografia, literatura, cinema. Utopia, resistência. 'Indignem-se!' (Stéphane Hessel). 'Nem tudo é sórdido' (Ernesto Sabato - 1911-2011)
Mostrando postagens com marcador #tenharim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #tenharim. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 3 de junho de 2014
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Caso Tenharim: o sonho do pajé, a conta de luz ou a galinha?
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
No momento em que cinco Tenharim estão presos em Porto Velho (em condições degradantes), suspeitos de ter matado três pessoas na Rodovia Transamazônica, no sul do Amazonas, vale refletir um pouco sobre um aspecto fundamental na investigação de qualquer crime: os motivos.
Em entrevista ao site Amazônia Real, o advogado dos familiares dos desaparecidos - também advogado de madeireiros - diz o seguinte:
- Tem no inquérito a questão levantada por um pajé de outra etnia. Ele sonhou que foi um carro preto que atropelou o cacique Ivan Tenharim. Os filhos do Ivan Tenharim participaram diretamente da cena do crime. Consta no inquérito também uma insatisfação dos índios com o técnico da Eletrobrás, o Aldeney Salvador. Ele vinha cobrando a conta de energia aos índios, que pagavam a conta da energia. Os índios tinham alguma reserva contra esse rapaz, o Aldeney. Os índios o conheciam muito bem, chegaram a jogar bola com ele em algumas ocasião.
Então vamos lá. De volta a história do pajé. Como não tem pajé entre os Tenharim, agora decidiram que o pajé é de outra etnia.
Mas raciocinemos. Você é um Tenharim. Mensalmente, seus parentes arrecadam (segundo seus detratores) R$ 35 mil de pedágio na Transamazônica. Morre um cacique. Um pajé de outra etnia diz que sonhou com um carro preto. Treze dias após o cacique morrer, você para um carro preto, degola o motorista e atira nos dois passageiros. (O povo de Humaitá e região se revolta e o seu povo fica sem o pedágio.)
Mas não. Não foi por isso. Não foi por causa do sonho. Diz o próprio advogado que os índios tinham alguma reserva contra o motorista. Porque ele cobrava a conta de energia dos índios. (Francamente: o gerente da Eletrobrás é quem cobrava a conta?) Jogavam bola com ele. Um dia, ele passa com o carro e é degolado. Está com duas pessoas e...
Claro. Temos de aguardar as investigações da Polícia Federal. Mas que elas sejam sérias. Pois as duas versões, isoladamente, são implausíveis. A julgar pelo que o advogado diz, na linha do discurso racista consagrado na região, ora os indígenas são espertalhões frios e calculistas, ora são panacas completos. E impulsivos.
Mas é pior que isso: juntas, essas duas versões são absolutamente incompatíveis. Esse conjunto eletro-onírico desafia as leis elementares da lógica. Ou uma coisa ou outra, pois não?
Um sonho de um pajé (de outra etnia) se une à súbita vontade de não pagar conta de luz... o cara que cobraria a conta de luz passa no carro preto imaginado pelo pajé... e, claro, você vai lá e destrói a suposta galinha dos ovos de ouro: a grana do pedágio.
Decidam-se! Os Tenharim matariam (ou mataram) os três desaparecidos por quais motivos? (Polícia Federal, Ministério Público, juízes, respondam.)
Mas decidam sem subestimar a nossa inteligência.
LEIA MAIS:
PF faz nota sobre prisão de cinco Tenharim. O que está nas entrelinhas?
A Batalha de Humaitá
"Matar um índio para pegar uma índia"
TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
No momento em que cinco Tenharim estão presos em Porto Velho (em condições degradantes), suspeitos de ter matado três pessoas na Rodovia Transamazônica, no sul do Amazonas, vale refletir um pouco sobre um aspecto fundamental na investigação de qualquer crime: os motivos.
Em entrevista ao site Amazônia Real, o advogado dos familiares dos desaparecidos - também advogado de madeireiros - diz o seguinte:
- Tem no inquérito a questão levantada por um pajé de outra etnia. Ele sonhou que foi um carro preto que atropelou o cacique Ivan Tenharim. Os filhos do Ivan Tenharim participaram diretamente da cena do crime. Consta no inquérito também uma insatisfação dos índios com o técnico da Eletrobrás, o Aldeney Salvador. Ele vinha cobrando a conta de energia aos índios, que pagavam a conta da energia. Os índios tinham alguma reserva contra esse rapaz, o Aldeney. Os índios o conheciam muito bem, chegaram a jogar bola com ele em algumas ocasião.
Então vamos lá. De volta a história do pajé. Como não tem pajé entre os Tenharim, agora decidiram que o pajé é de outra etnia.
Mas raciocinemos. Você é um Tenharim. Mensalmente, seus parentes arrecadam (segundo seus detratores) R$ 35 mil de pedágio na Transamazônica. Morre um cacique. Um pajé de outra etnia diz que sonhou com um carro preto. Treze dias após o cacique morrer, você para um carro preto, degola o motorista e atira nos dois passageiros. (O povo de Humaitá e região se revolta e o seu povo fica sem o pedágio.)
Mas não. Não foi por isso. Não foi por causa do sonho. Diz o próprio advogado que os índios tinham alguma reserva contra o motorista. Porque ele cobrava a conta de energia dos índios. (Francamente: o gerente da Eletrobrás é quem cobrava a conta?) Jogavam bola com ele. Um dia, ele passa com o carro e é degolado. Está com duas pessoas e...
Claro. Temos de aguardar as investigações da Polícia Federal. Mas que elas sejam sérias. Pois as duas versões, isoladamente, são implausíveis. A julgar pelo que o advogado diz, na linha do discurso racista consagrado na região, ora os indígenas são espertalhões frios e calculistas, ora são panacas completos. E impulsivos.
Mas é pior que isso: juntas, essas duas versões são absolutamente incompatíveis. Esse conjunto eletro-onírico desafia as leis elementares da lógica. Ou uma coisa ou outra, pois não?
Um sonho de um pajé (de outra etnia) se une à súbita vontade de não pagar conta de luz... o cara que cobraria a conta de luz passa no carro preto imaginado pelo pajé... e, claro, você vai lá e destrói a suposta galinha dos ovos de ouro: a grana do pedágio.
Decidam-se! Os Tenharim matariam (ou mataram) os três desaparecidos por quais motivos? (Polícia Federal, Ministério Público, juízes, respondam.)
Mas decidam sem subestimar a nossa inteligência.
LEIA MAIS:
PF faz nota sobre prisão de cinco Tenharim. O que está nas entrelinhas?
A Batalha de Humaitá
"Matar um índio para pegar uma índia"
TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
PF faz nota sobre prisão de cinco Tenharim. O que está nas entrelinhas?
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Vejamos, na íntegra, a nota da Polícia Federal sobre a prisão de cinco Tenharim, no sul do Amazonas. E depois, embaixo, tentemos ver o que está em suas entrelinhas. Vale observar que essa nota é o que temos para analisar – pois a PF informa que não dará entrevista coletiva.
Primeiro, a nota completa:
“A Polícia Federal em Rondônia, juntamente com a Força Nacional de Segurança Pública, Polícia Rodoviária Federal e o Exército Brasileiro, deflagraram a Operação Humaitá na data de 30/01, com o objetivo dar cumprimento a 5 mandados de prisão temporária de indígenas da etnia Tenharim, que habitam território localizado entre os quilômetros 100 e 150 da BR- 230.
As prisões foram expedidas pela Justiça Federal do Estado do Amazonas em razão de possível envolvimento dos índios na morte de três pessoas que desapareceram ao atravessarem uma das aldeias localizadas na rodovia Transamazônica.
O crime teve grande repercussão nacional e internacional no final do dezembro de 2013 e provocou manifestações da comunidade não-indígena contra os silvícolas, culminando com a destruição de carros e instalações da FUNAI em Humaitá/AM.
A Polícia Federal instaurou inquéritos policiais para apurar o desaparecimento e destruição do patrimônio público (FUNAI).
As conclusões da investigação apontam para a ocorrência de homicídio praticado pelos presos dentro de uma das aldeias e posterior ocultação dos cadáveres. Os corpos ainda não foram localizados.
Durante os trabalhos da Força Tarefa foram percorridos aproximadamente 270 hectares, delimitados pela investigação, e encontrados, no interior da terra indígena, peças do veículo ocupado pelos desaparecidos.
Na investigação, foram ouvidas diversas testemunhas, entre indígenas e não-indígenas, realizada perícia técnica nas peças encontradas, além da utilização de cães farejadores para localização de cadáveres e equipamentos modernos de rastreamento de peças metálicas escondidas.
Os trabalhos de polícia judiciária prosseguem até a apresentação do relatório final do inquérito policial”.
Agora, a nota comentada:
A Polícia Federal em Rondônia, juntamente com a Força Nacional de Segurança Pública, Polícia Rodoviária Federal e o Exército Brasileiro, deflagraram a Operação Humaitá na data de 30/01, com o objetivo dar cumprimento a 5 mandados de prisão temporária de indígenas da etnia Tenharim, que habitam território localizado entre os quilômetros 100 e 150 da BR- 230.
Primeiro, nota-se que a Operação Humaitá foi realizada em Manicoré. E que se trata de uma prisão temporária. E não preventiva. Se é temporária, costuma ser decretada por cinco dias, prorrogáveis por mais cinco. Se o crime investigado for hediondo (como tráfico, tortura e terrorismo), o prazo será de 30 dias, prorrogáveis, em caso de extrema e comprovada necessidade.
As prisões foram expedidas pela Justiça Federal do Estado do Amazonas em razão de possível envolvimento dos índios na morte de três pessoas que desapareceram ao atravessarem uma das aldeias localizadas na rodovia Transamazônica.
Ou seja, os Tenharim estão sendo acusados de crime hediondo a partir do possível envolvimento na “morte” de três pessoas. Mas elas não desapareceram ao atravessarem uma das aldeias. Elas desapareceram entre Humaitá (km 0) e o km 180. A maior parte desse trajeto não fica em Terra Indígena. No km 150 sai uma estrada conhecida pela periculosidade, a Rodovia do Estanho. Por que a investigação voltou-se apenas contra os Tenharim? Teremos a prisão temporária de não-índios?
O crime teve grande repercussão nacional e internacional no final do dezembro de 2013 e provocou manifestações da comunidade não-indígena contra os silvícolas, culminando com a destruição de carros e instalações da FUNAI em Humaitá/AM.
Silvícolas? Silvícolas, Polícia Federal? E mais: não foram apenas destruídos carros e instalações da Funai. Foram destruídos carros, motos, barcos e instalações da Funai, da Sesai (da Funasa, portanto), postos de pedágio e casas na Terra Indígena, na Transamazônica, em Humaitá e Manicoré. Dezenas de crimes, portanto. Alguns desses crimes foram fotografados e televisionados. O que, isto sim, motivou a tal repercussão internacional.
A Polícia Federal instaurou inquéritos policiais para apurar o desaparecimento e destruição do patrimônio público (FUNAI).
A Polícia Federal vai prender os não-índios (inclusive comerciantes e fazendeiros) que teriam incitado a população de Humaitá, Apuí e Manicoré a queimar bens públicos e indígenas? Vai prender aqueles que ameaçam os Tenharim de morte caso eles pisem em uma das cidades? Informação: os Tenharim dão nome e sobrenome para várias dessas pessoas. Eu mesmo entrevistei pessoas que pregaram a discriminação. Repito: só indígenas serão presos?
As conclusões da investigação apontam para a ocorrência de homicídio praticado pelos presos dentro de uma das aldeias e posterior ocultação dos cadáveres. Os corpos ainda não foram localizados.
Se as conclusões são tão fortes assim, poderia ter sido decretada a prisão preventiva, não? Ah: mas essa só com provas materiais. Ocorre que o delegado narrou detalhes sobre um assassinato com degola, segundo o Portal Terra. Com um relato muito parecido com os boatos que tomaram a cidade, na virada do ano. Um assunto para advogados criminalistas – mas desde que a Polícia Federal informe melhor (quem sabe numa entrevista coletiva) sobre os indícios. Eles não são apenas testemunhais? Cadê os cadáveres?
Durante os trabalhos da Força Tarefa foram percorridos aproximadamente 270 hectares, delimitados pela investigação, e encontrados, no interior da terra indígena, peças do veículo ocupado pelos desaparecidos.
Se percorreu 270 hectares, não procurou os cadáveres fora da TI Indígena. Por quê? Mas sejamos justos: a PF informa, ao menos, entre tantas deduções, que se trata do carro dos desaparecidos. Vale observar que ele foi encontrado no fim da TI Tenharim – no fim da TI Tenharim, quase na Rodovia do Estanho. A PF garante que ele tenha sido colocado lá pelos próprios Tenharim?
Na investigação, foram ouvidas diversas testemunhas, entre indígenas e não-indígenas, realizada perícia técnica nas peças encontradas, além da utilização de cães farejadores para localização de cadáveres e equipamentos modernos de rastreamento de peças metálicas escondidas.
Esses cães farejadores só começaram a trabalhar no dia 2 de janeiro. Mais de 15 dias após o desaparecimento. Eu estava em uma das casas dos parentes quando foram buscar as roupas dos desaparecidos. Por que tanta demora? E, de novo: os cães trabalharam também em terras que não fossem indígenas? O objetivo é encontrar os corpos ou não? Por último, e não menos importante: onde está o Ministério Público?
Os trabalhos de polícia judiciária prosseguem até a apresentação do relatório final do inquérito policial.
A sociedade brasileira espera, mesmo, que os trabalhos prossigam. Não somente aqueles relativos aos três desaparecidos, mas a todos os crimes cometidos na região. Contra indígenas e não-indígenas. Sem que o conjunto desses trabalhos ajude a criminalizar um povo específico - em nome do suposto crime cometido por alguns de seus membros. Que tudo o que aconteceu em Humaitá e região - tudo - seja esclarecido. E não apenas aquilo que tenha conveniência midiática.
LEIA MAIS:
A Batalha de Humaitá
"Matar um índio para pegar uma índia"
TWITTER:
@blogOutroBrasil
NO FACEBOOK:
Outro Brasil
Assinar:
Postagens (Atom)