Pinheirinho, 22 de janeiro
“Moradores gritavam, horrorizados”, diz autor da foto que correu o mundo
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
A foto com duas mães correndo, bebês no colo, tornou-se um símbolo do que aconteceu no domingo, em São José dos Campos (SP). A imagem mostra fogo ao fundo, durante a reintegração de posse do terreno do especulador Naji Nahas. O autor da foto, Roosevelt Cássio, conta ao blog Outro Brasil como fez a imagem, divulgada pela agência Reuters.
Ele diz que já conhecia bem o Pinheirinho. Conta que chegou a morar lá, por quatro meses, para documentar o bairro. E que não foram moradores de lá que praticaram atos de vandalismo, como mostrou, em sua avaliação, uma imprensa “inflamada”.
Confira a entrevista:
Outro Brasil - Qual o contexto e local exato da foto? Você estava com outros fotógrafos e cinegrafistas, com policiais ao lado?
Roosevelt Cássio - Sim. Por volta de 6 horas do domingo a Tropa de Choque arrebentou o portão principal e entrou no acampamento. Eu e um cinegrafista da Vanguarda, filiada da Globo, entramos ao lado dos policiais. Sofremos uma certa retaliação, mas não chegamos a ser expulsos. Imediatamente começamos a fotografar os fatos: a tropa entrando e os moradores saindo gritando e correndo horrorizados com a presença ostensiva dos policiais. Algumas mulheres saíam correndo com seus filhos no colo, enquanto os policiais avançavam, batendo seus escudos e cassetetes, fazendo muito barulho.
Como foi o momento exato da foto, do clique? Deu tempo de calcular a composição, o registro da expressão das mães ou você trabalhou mais na base da intuição?
Acho que tem um pouco de tudo… Mas consegui manter a cabeça fria e controlar a adrenalina pra poder contar o que estava ocorrendo através das imagens.Trabalhei com a câmera sem ligar o motor drive, pois estava com pouca bateria. Fiz, em cinco minutos,cerca de 20 clicks. Acabei aproveitando quase todos. Mas essa foto, particularmente, tinha uma certa emoção e mostrava o que realmente estava acontecendo naquele momento. O fato de eu trabalhar com fotojornalismo há algum tempo me ajudou muito a ficar calmo nessa hora.
Você percebeu imediatamente que tinha feito uma imagem histórica?
Não, na hora não percebi, mas sabia que tinha feito uma foto muito boa. Só depois de algumas horas do envio da foto que o editor da agência (Reuters) me ligou, dizendo que ela estava correndo pelo mundo. E que era uma imagem forte!
Sente-se incomodado por ver sua imagem repercutida sem os créditos?
Sem dúvida isso me incomoda e acho que posso falar por outros colegas. O crédito é obrigatório por lei, mas aqui no Brasil, como outras coisas, essa lei também não funciona.
Inscreverá a foto em prêmios de Fotografia e de Fotojornalismo?
Ainda não sei, talvez. Ainda estou muito envolvido com essa cobertura e com o Pinheirinho.
O PINHEIRINHO
Você conhecia bem o local antes de fazer a foto?
Conheço bem o local, fiz um projeto fotográfico em 2004. Fiquei o ano todo documentando a vida daquela comunidade, e passei efetivamente morando com eles por quatro meses.
Tem alguma posição política definida em relação à ocupação do terreno? Seja partidária, seja a favor ou contra os moradores?
Essa realmente é uma pergunta relativa e muito difícil, e de acordo com meu envolvimento com aquela comunidade, prefiro não opinar, pois seria parcial da minha parte.
O que achou da reintegração de posse?
Foi muito difícil para ambos os lados, policiais e moradores. E até para os jornalistas: cheguei a ver alguns fortemente emocionados com os fatos. Mas sobretudo para os moradores, que realmente acreditavam que aquela área ia mesmo ser regularizada.
O que você viu, como fotógrafo, que considera não ter repercutido como deveria na imprensa?
Acho que, de um modo geral, houve uma certa "inflamação" da imprensa nessa cobertura que tomou proporção internacional, em relação ao fatos. Um exemplo claro foi que, ao meu ver, quem protestou, fez vandalismo e até atos de terrorismo não foram os moradores do Pinheirinho, e sim uma mistura de moradores vizinhos e outros elementos indignados com o acontecimento e a presença em massa da polícia.
O FOTÓGRAFO
Qual sua experiência profissional? Formação, quantos anos de trabalho, onde já trabalhou?
Sou formado em design, fiz dezenas de cursos de fotografia e até um curso de fotojornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo.Trabalho nessa área faz um 15 anos. Trabalhei por cinco anos na Folha de São Paulo e no jornal Vale Paraibano. Atualmente trabalho como free-lancer, fazendo trabalhos para diversos veículos e agência de notícias, entre elas Reuters e Associated Press.
Quais as fotos que mais repercutiram antes dessa?
Tive algumas fotos premiadas, mas a que mais repercutiu foi a classificada para o prêmio nacional Senai de Fotojornalismo. Uma foto feita para o caderno de indústria do Vale Paraibano, em uma matéria sobre reciclagem.
Como a foto repercutiu profissionalmente? Alguém já o procurou para outros trabalhos?
A repercussão foi bem positiva, mas devo continuar seguindo como freela mesmo. Estou também trabalhando com uma produtora de filmes, fazendo trabalho de direção de fotografia, e me toma muito tempo.
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jornalismo, geografia, literatura, cinema. Utopia, resistência. 'Indignem-se!' (Stéphane Hessel). 'Nem tudo é sórdido' (Ernesto Sabato - 1911-2011)
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
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Alceu Castilho, jornalista.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Cobertura da Globo no Pinheirinho é o debate Lula x Collor do século 21
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
É a manipulação jornalística do século. Seu protagonista, a Rede Globo. O tema, a Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. Vítimas: as 2 mil famílias despejadas pela polícia – mulheres, crianças e idosos na mira de balas (não somente de borracha), retiradas com violência de suas casas, atiradas em alojamentos sem infra-estrutura. Um arsenal de violações de direitos humanos, naturalizado pela principal emissora do país.
Cabe assinalar que não sou dos que costumam demonizar a priori a Rede Globo. Considero-a melhor que as demais emissoras – à exceção das educativas. Elogiei várias vezes, nos últimos meses, pelo Twitter, coberturas feitas pelo Fantástico, que tem sido um raro espaço (em toda a imprensa brasileira) para reportagens investigativas. Foi pelo repórter Eduardo Faustino que ficamos sabendo de esquema de fraude nas bombas de combustíveis, que vimos com detalhes a venda – ilegal - de terras do Incra.
Mais uma concessão à Globo? Não sou dos que consideram o Big Brother Brasil o último lixo da televisão brasileira. Vejo na reação anual contra ele uma indignação de verão, metonímica, cíclica, confortável, uma cortina de fumaça em relação a programas muito piores e mais nocivos; programas, em várias emissoras, que estimulam as violências, as mencionadas violações de direitos humanos etc.
Feitas as ressalvas, mostremos por que a Globo constrange a democracia com sua cobertura da reintegração de posse em São José dos Campos.
Primeiro foi o Fantástico. Um professor de Jornalismo em São Paulo, Francisco Bicudo, resumiu da seguinte forma a cobertura do programa dominical: “Pinheirinho = fábrica de traficantes”. De fato, a emissora elegeu como tema central a imagem de três barracos que seriam a “cracolândia” local. Os termos relacionados ao tráfico foram determinantes para se contar a história daquele povo – até então desconhecida pela maior parte da população brasileira. A edição servia para justificar a brutalidade estatal.
Não havia ali nem sombra da isenção proclamada pela emissora. E isso foi comprovado na manhã seguinte, no Bom Dia, Brasil. O jornal matutino fez uma cobertura digna da desocupação. Com as mesmas imagens e entrevistas exibidas pelo Fantástico, conseguiu mostrar o drama dos moradores. Sem criminalizá-los. A apresentadora Carla Vilhena chegou a fazer algo que quase ninguém na grande imprensa faz: questionou a utilização da palavra “invadida” para definir a área.
Aqui cabe explicar que “invasão” e “ocupação” são palavras opostas para o mesmo fenômeno. Movimentos de sem-teto e sem-terra (e não somente eles) utilizam, em todo o mundo, esse recurso político. Chamam de “ocupação”. É um recurso considerado legítimo por muita gente que está longe de ser “bandida" – ou mesmo revolucionária. Alinhada aos proprietários de terra, a grande imprensa usa a palavra “invasão”. E somente ela. Por que não usa as duas? Porque não é isenta.
A MÁGICA DAS EDIÇÕES
Carla Vilhena e os editores do Bom Dia, Brasil mostraram que, na própria Rede Globo, não se enxerga um fato da mesma forma. É elementar no jornalismo. O matutino, aliás, enfatizou que se tratava de uma massa falida do especulador Naji Nahas - um personagem que o restante da imprensa está fazendo questão de esquecer no episódio. Nahas nunca pagou IPTU à prefeitura de São José dos Campos. Mas o telespectador não sabe disso. A escolha de determinados temas (e imagens, frases, palavras) chama-se “edição”.
Mas teria acontecido algo entre o Fantástico e o Bom Dia, Brasil? Nas redes sociais houve uma reação imediata contra a emissora. Deploramos imediatamente a abordagem sórdida do Fantástico – desumana, cínica, abjeta. E comemoramos uma abordagem mais serena durante a manhã. Algo ainda longe de questionar os excessos policiais e as escolhas da “justiça” brasileira (que não tem a mesma disposição para retirar empresas e famílias ricas de áreas “invadidas”).
A Rede Globo teria recuado? Optado por uma cobertura mais equilibrada - e humana - com medo de perder audiência? Que nada. À noite, viria ele – o Jornal Nacional.
Estamos a falar do programa que, em 1989, tornou-se uma referência negativa na televisão brasileira. A edição manipulada do último debate entre Lula e Collor, a poucos dias da eleição, foi admitida recentemente por um dos chefes do Jornalismo à época, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni:
Sim, o Jornal Nacional abandonou a teoria embutida na edição do Fantástico, aquela do Pinheirinho como um local de tráfico. Mas a trocou pela imagem dos vândalos. Imagens de pessoas furtando uma loja foram exibidas logo no início da edição. Ou seja: além de “invasores”, os moradores do Pinheirinho seriam “vândalos”. E, apesar dos esforços da equipe do Bom Dia Brasil, ninguém desmentiu a imagem anterior, a dos “traficantes”.
Ou seja: estamos diante de um verdadeiro e monumental estelionato jornalístico. Digno de ser estudado nas Faculdades de Comunicação. Com um agravante em relação ao debate entre Lula e Collor: naquela ocasião houve um exagero do bom desempenho de Collor no debate; e um exagero do mau desempenho (que existiu) de Lula, muito nervoso naquele dia. Em outras palavras: a Globo mais aumentou do que inventou.
O que está acontecendo esta semana, portanto, de São José dos Campos para o Brasil, é a construção calculada de uma imagem coletiva: em vez de milhares de famílias vítimas de casuísmo (judiciário) e violência (policial), aqueles brasileiros são apresentados como “invasores vândalos e traficantes”. Alguns jornalistas, particularmente desprovidos de ética e caráter, instalados em revistas de circulação nacional, já propagam com prazer repugnante essa distorção.
Desta forma, os meios de comunicação cumprem com eficácia seu papel de jagunços da desigualdade. Se a polícia (a mando do Executivo e do Judiciário) aperta seus gatilhos e humilha in loco, os latifundiários da comunicação e seus jornalistas amestrados atacam e agridem, de longe, famílias inteiras de brasileiros. É a Tropa de Choque Midiática, a aplicar rasteiras e pontapés virtuais na dignidade das vítimas. Suas armas são algumas palavras e alguns botões.
PS: a reportagem desta terça-feira do Bom Dia, Brasil, da mesma Rede Globo, é mais uma vez equilibrada. Expõe, sim, a posição da polícia e do governador. Mas põe ênfase no destino dos moradores - que são chamados de "ocupantes", não invasores. Carla Vilhena diz que muita coisa poderia ter sido feita, já que a ocupação data de 2004. Mas o programa não tem a mesma audiência do Fantástico e do Jornal Nacional.
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Sobre as ameaças e quilombolas e sem-teto - e sobre indiferença e imprensa
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por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
É a manipulação jornalística do século. Seu protagonista, a Rede Globo. O tema, a Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. Vítimas: as 2 mil famílias despejadas pela polícia – mulheres, crianças e idosos na mira de balas (não somente de borracha), retiradas com violência de suas casas, atiradas em alojamentos sem infra-estrutura. Um arsenal de violações de direitos humanos, naturalizado pela principal emissora do país.
Cabe assinalar que não sou dos que costumam demonizar a priori a Rede Globo. Considero-a melhor que as demais emissoras – à exceção das educativas. Elogiei várias vezes, nos últimos meses, pelo Twitter, coberturas feitas pelo Fantástico, que tem sido um raro espaço (em toda a imprensa brasileira) para reportagens investigativas. Foi pelo repórter Eduardo Faustino que ficamos sabendo de esquema de fraude nas bombas de combustíveis, que vimos com detalhes a venda – ilegal - de terras do Incra.
Mais uma concessão à Globo? Não sou dos que consideram o Big Brother Brasil o último lixo da televisão brasileira. Vejo na reação anual contra ele uma indignação de verão, metonímica, cíclica, confortável, uma cortina de fumaça em relação a programas muito piores e mais nocivos; programas, em várias emissoras, que estimulam as violências, as mencionadas violações de direitos humanos etc.
Feitas as ressalvas, mostremos por que a Globo constrange a democracia com sua cobertura da reintegração de posse em São José dos Campos.
Primeiro foi o Fantástico. Um professor de Jornalismo em São Paulo, Francisco Bicudo, resumiu da seguinte forma a cobertura do programa dominical: “Pinheirinho = fábrica de traficantes”. De fato, a emissora elegeu como tema central a imagem de três barracos que seriam a “cracolândia” local. Os termos relacionados ao tráfico foram determinantes para se contar a história daquele povo – até então desconhecida pela maior parte da população brasileira. A edição servia para justificar a brutalidade estatal.
Não havia ali nem sombra da isenção proclamada pela emissora. E isso foi comprovado na manhã seguinte, no Bom Dia, Brasil. O jornal matutino fez uma cobertura digna da desocupação. Com as mesmas imagens e entrevistas exibidas pelo Fantástico, conseguiu mostrar o drama dos moradores. Sem criminalizá-los. A apresentadora Carla Vilhena chegou a fazer algo que quase ninguém na grande imprensa faz: questionou a utilização da palavra “invadida” para definir a área.
Aqui cabe explicar que “invasão” e “ocupação” são palavras opostas para o mesmo fenômeno. Movimentos de sem-teto e sem-terra (e não somente eles) utilizam, em todo o mundo, esse recurso político. Chamam de “ocupação”. É um recurso considerado legítimo por muita gente que está longe de ser “bandida" – ou mesmo revolucionária. Alinhada aos proprietários de terra, a grande imprensa usa a palavra “invasão”. E somente ela. Por que não usa as duas? Porque não é isenta.
A MÁGICA DAS EDIÇÕES
Carla Vilhena e os editores do Bom Dia, Brasil mostraram que, na própria Rede Globo, não se enxerga um fato da mesma forma. É elementar no jornalismo. O matutino, aliás, enfatizou que se tratava de uma massa falida do especulador Naji Nahas - um personagem que o restante da imprensa está fazendo questão de esquecer no episódio. Nahas nunca pagou IPTU à prefeitura de São José dos Campos. Mas o telespectador não sabe disso. A escolha de determinados temas (e imagens, frases, palavras) chama-se “edição”.
Mas teria acontecido algo entre o Fantástico e o Bom Dia, Brasil? Nas redes sociais houve uma reação imediata contra a emissora. Deploramos imediatamente a abordagem sórdida do Fantástico – desumana, cínica, abjeta. E comemoramos uma abordagem mais serena durante a manhã. Algo ainda longe de questionar os excessos policiais e as escolhas da “justiça” brasileira (que não tem a mesma disposição para retirar empresas e famílias ricas de áreas “invadidas”).
A Rede Globo teria recuado? Optado por uma cobertura mais equilibrada - e humana - com medo de perder audiência? Que nada. À noite, viria ele – o Jornal Nacional.
Estamos a falar do programa que, em 1989, tornou-se uma referência negativa na televisão brasileira. A edição manipulada do último debate entre Lula e Collor, a poucos dias da eleição, foi admitida recentemente por um dos chefes do Jornalismo à época, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni:
Sim, o Jornal Nacional abandonou a teoria embutida na edição do Fantástico, aquela do Pinheirinho como um local de tráfico. Mas a trocou pela imagem dos vândalos. Imagens de pessoas furtando uma loja foram exibidas logo no início da edição. Ou seja: além de “invasores”, os moradores do Pinheirinho seriam “vândalos”. E, apesar dos esforços da equipe do Bom Dia Brasil, ninguém desmentiu a imagem anterior, a dos “traficantes”.
Ou seja: estamos diante de um verdadeiro e monumental estelionato jornalístico. Digno de ser estudado nas Faculdades de Comunicação. Com um agravante em relação ao debate entre Lula e Collor: naquela ocasião houve um exagero do bom desempenho de Collor no debate; e um exagero do mau desempenho (que existiu) de Lula, muito nervoso naquele dia. Em outras palavras: a Globo mais aumentou do que inventou.
O que está acontecendo esta semana, portanto, de São José dos Campos para o Brasil, é a construção calculada de uma imagem coletiva: em vez de milhares de famílias vítimas de casuísmo (judiciário) e violência (policial), aqueles brasileiros são apresentados como “invasores vândalos e traficantes”. Alguns jornalistas, particularmente desprovidos de ética e caráter, instalados em revistas de circulação nacional, já propagam com prazer repugnante essa distorção.
Desta forma, os meios de comunicação cumprem com eficácia seu papel de jagunços da desigualdade. Se a polícia (a mando do Executivo e do Judiciário) aperta seus gatilhos e humilha in loco, os latifundiários da comunicação e seus jornalistas amestrados atacam e agridem, de longe, famílias inteiras de brasileiros. É a Tropa de Choque Midiática, a aplicar rasteiras e pontapés virtuais na dignidade das vítimas. Suas armas são algumas palavras e alguns botões.
PS: a reportagem desta terça-feira do Bom Dia, Brasil, da mesma Rede Globo, é mais uma vez equilibrada. Expõe, sim, a posição da polícia e do governador. Mas põe ênfase no destino dos moradores - que são chamados de "ocupantes", não invasores. Carla Vilhena diz que muita coisa poderia ter sido feita, já que a ocupação data de 2004. Mas o programa não tem a mesma audiência do Fantástico e do Jornal Nacional.
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Alceu Castilho, jornalista.
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Pinheirinho, Brasil: onde foi que enterraram nossos escrúpulos?
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
A grande imagem do domingo – e do ano - é a das mães com criança no colo, o fogo na Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos, ao fundo. Que tipo de sociedade patrocina cenas como essa? E que tipo de ser humano acorda para trabalhar, numa segunda-feira, e consegue apoiar essa e outras demonstrações de barbárie?
Empresto o título deste artigo do jornalista Aluizio Palmar, autor de um livro chamado: “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?” Ele fez uma via crucis por Brasil e Argentina em busca de corpos de amigos mortos pelos regimes militares. Tratava-se de uma necessidade civilizatória – a busca de Palmar não era só por corpos. Era por um sentido da existência, pelo resgate de ideais compartilhados, mas esquecidos.
Algo no Brasil está sendo enterrado com velocidade atroz - e não estamos nos dando conta da dificuldade de futuro resgate. A palavra “escrúpulos” foi consagrada pelo ex-ministro Jarbas Passarinho durante aquele mesmo regime militar. Diante de alguma dificuldade, raciocinava ele, “às favas os escrúpulos de consciência”. Quase 50 anos depois, a frase segue inquietantemente atual. É gritada, falada, murmurada. Sua incidência e sua abrangência colocam em xeque a possibilidade de convivência - cordial - neste país.
Não falo apenas dos governantes que patrocinam a violência institucional contra milhões de brasileiros. Não somente do cinismo de cúpula, dessa farsa que pode ser resumida pelo calote sistemático do pagamento de precatórios. Um governo que não paga suas dívidas judiciais está desrespeitando a lei, certo? Mas o discurso legalista dos poderosos é casual, de conveniência: o próprio governo age ao arrepio de decisões judiciais - sem que alguém possa acionar a Tropa de Choque contra o governador.
Eu falo não somente desses farsantes de ocasião, dos mentirosos de colarinho branco e alto coturno, mas do cidadão comum. De classe média. Alta. Baixa. De seres humanos que escarnecem da agonia de seus semelhantes. Falo daqueles cidadãos que conseguem fazer piada com a tragédia alheia – a falta de moradia, de terra, de emprego. Dos policiais da Tropa de Choque, em São José dos Campos, que riem enquanto atiram granadas e balas de borracha contra populações indefesas.
Refiro-me, portanto, a gente muito próxima de nós. Que, como os soldados que bancaram e bancam regimes fascistas pelo mundo, tomaria, se tivesse oportunidade, as mesmíssimas decisões que Geraldo Alckmin ou o juiz cínico de plantão; que se comporta de maneira semelhante (acumuladora, inescrupulosa) à do capitalista Naji Nahas; que, com balas de borracha e gás lacrimogêneo à disposição, não hesitaria em agredir outros brasileiros que nasceram sob o signo da miséria.
Estou a pensar nos milhões de seres humanos (que podem ser nossos tios e colegas de trabalho) que apoiam as maiores e menores agressões diárias à democracia. E que se regozijam com isso – achando-se o máximo. Que patrocinam (com a imensa arrogância dos analfabetos da cidadania) os abusos policiais em manifestações de estudantes e professores; que não se importam que haja tortura, e tortura em larga escala – muito tempo depois do fim oficial do regime militar.
PONTAPÉS EM CRIANÇAS
Vejo cada uma dessas pessoas – muito mais do que metaforicamente - dando socos e pontapés naquelas mulheres de São José dos Campos; derrubando-as ao chão, humilhando-as. Com o país e o mundo pegando fogo, em volta. Vejo cada uma dessas pessoas atirando aquelas crianças em algum galpão enlameado. Escarnecendo do sofrimento delas, enviando-as para a fogueira, alimentando o fogo com sua violência e seu cinismo.
Não se trata, portanto, de apenas demonizar este ou aquele partido, este ou aquele governador. Que seja feita a dose diária de repúdio a cada um desses senhores, desses senhores-de-engenho, desses capatazes, desses verdugos – torturadores, assassinos, genocidas. Mas sem maiores ilusões de que o partido alternativo ou o governador alternativo sejam tão diferentes assim.
Algumas supostas exceções são apenas aparentes: quando obtêm chances reais de chegar ao poder, fazem pacto com todos os demais - todos os que praticam ou patrocinam a violência diária contra milhões de espoliados, contra as centenas de Ocupações Pinheirinho espalhadas pelo mundo. Sobram algumas exceções de fato, autenticamente indignadas – mas quase sem chances eleitorais.
Essas chances são diminutas exatamente porque existe bem pertinho de nós uma legião de seres humanos sem escrúpulos, prontos a apoiar toda sorte de violência contra seus semelhantes. São eles que beijam virtualmente a mão dos Nahas e dos Calheiros, dos Maluf e dos Sarney, dos répteis (com todo respeito aos répteis) que infestam o Judiciário, o Legislativo e o Executivo.
São esses brasileiros muito próximos de nós que alimentam esse inesgotável saco de maldades. Tomam cervejinha conosco. Cantam parabéns aos nossos filhos nas festas de aniversário. Nas redes sociais, são nossos “amigos”. Nos portais (naqueles fóruns que vêm se consagrando como o grande esgoto do pensamento), postam comentários homofóbicos, racistas, higienistas – ou no mínimo indiferentes.
Esses brasileiros são pessoas violentas. Agridem sem-teto. Agridem sem-terra. Batem em estudantes, em moradores de rua, em indígenas, em dependentes de crack. E não se dão conta disso. Não é com a mão deles que se exerce o controle das massas. Existe o que alguém já chamou de “violência da calma”. Uma violência-cúmplice, uma violência que não deixa marcas no próprio corpo – ou na própria consciência.
Esses brasileiros violentos e cúmplices acreditam firmemente que os patifes anteriormente citados são a causa de todos os males. Ou, muito pior que isso: que quem resiste a todas essas ignonímias é quem seja o problema de fato; os inconformados é que são os culpados pela ausência evidente de civilização. Por essa visão torpe e míope do mundo e dos processos históricos, são eles – os ativistas, os resistentes – que devem ser eliminados. E, portanto, ridicularizados. Agredidos.
Para disfarçar a sanha de violência, que se inverta o ônus. Que se definam os resistentes como “estudantada”, que se apontem os resistentes como “traficantes”, ou maconheiros – ameaças a “gente de bem”. Que se rebaixe quem vai contra a corrente ao mesmo nível – subterrâneo – de consciência embotada. Afinal, porque não dizer, os meios de comunicação de massa são a mais completa tradução desse reino dos cúmplices.
A foto das mães em São José dos Campos significa muita coisa. Não enxerguemos nela somente motivo para indignação coletiva – porque esta, a rigor, contra todas as aparências, não existe. Nem mesmo a indignação de classe existe, infelizmente, queridos amigos revolucionários – pois as lutas desse curioso espécime (o ser humano) são várias, não somente uma. A violência do sistema econômico é apenas uma das expressões da barbárie.
Essa foto das mães em fuga (com os mencionados país e mundo pegando fogo ao fundo) significa um grito contido. Por um lado, mostra a relativa impotência dos resistentes. Por outro, a força (não se sabe bem vinda de onde) que nos leva a manter alguma esperança. Por fim, esconde um amplo contexto de violência latente. A trilha sonora dessa imagem é sórdida – o coro de brasileiros que, diariamente, sob risinhos, piadinhas e comentariozinhos, ateiam fogo à democracia.
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A criança que não sorria
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por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
A grande imagem do domingo – e do ano - é a das mães com criança no colo, o fogo na Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos, ao fundo. Que tipo de sociedade patrocina cenas como essa? E que tipo de ser humano acorda para trabalhar, numa segunda-feira, e consegue apoiar essa e outras demonstrações de barbárie?
Empresto o título deste artigo do jornalista Aluizio Palmar, autor de um livro chamado: “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?” Ele fez uma via crucis por Brasil e Argentina em busca de corpos de amigos mortos pelos regimes militares. Tratava-se de uma necessidade civilizatória – a busca de Palmar não era só por corpos. Era por um sentido da existência, pelo resgate de ideais compartilhados, mas esquecidos.
Algo no Brasil está sendo enterrado com velocidade atroz - e não estamos nos dando conta da dificuldade de futuro resgate. A palavra “escrúpulos” foi consagrada pelo ex-ministro Jarbas Passarinho durante aquele mesmo regime militar. Diante de alguma dificuldade, raciocinava ele, “às favas os escrúpulos de consciência”. Quase 50 anos depois, a frase segue inquietantemente atual. É gritada, falada, murmurada. Sua incidência e sua abrangência colocam em xeque a possibilidade de convivência - cordial - neste país.
Não falo apenas dos governantes que patrocinam a violência institucional contra milhões de brasileiros. Não somente do cinismo de cúpula, dessa farsa que pode ser resumida pelo calote sistemático do pagamento de precatórios. Um governo que não paga suas dívidas judiciais está desrespeitando a lei, certo? Mas o discurso legalista dos poderosos é casual, de conveniência: o próprio governo age ao arrepio de decisões judiciais - sem que alguém possa acionar a Tropa de Choque contra o governador.
Eu falo não somente desses farsantes de ocasião, dos mentirosos de colarinho branco e alto coturno, mas do cidadão comum. De classe média. Alta. Baixa. De seres humanos que escarnecem da agonia de seus semelhantes. Falo daqueles cidadãos que conseguem fazer piada com a tragédia alheia – a falta de moradia, de terra, de emprego. Dos policiais da Tropa de Choque, em São José dos Campos, que riem enquanto atiram granadas e balas de borracha contra populações indefesas.
Refiro-me, portanto, a gente muito próxima de nós. Que, como os soldados que bancaram e bancam regimes fascistas pelo mundo, tomaria, se tivesse oportunidade, as mesmíssimas decisões que Geraldo Alckmin ou o juiz cínico de plantão; que se comporta de maneira semelhante (acumuladora, inescrupulosa) à do capitalista Naji Nahas; que, com balas de borracha e gás lacrimogêneo à disposição, não hesitaria em agredir outros brasileiros que nasceram sob o signo da miséria.
Estou a pensar nos milhões de seres humanos (que podem ser nossos tios e colegas de trabalho) que apoiam as maiores e menores agressões diárias à democracia. E que se regozijam com isso – achando-se o máximo. Que patrocinam (com a imensa arrogância dos analfabetos da cidadania) os abusos policiais em manifestações de estudantes e professores; que não se importam que haja tortura, e tortura em larga escala – muito tempo depois do fim oficial do regime militar.
PONTAPÉS EM CRIANÇAS
Vejo cada uma dessas pessoas – muito mais do que metaforicamente - dando socos e pontapés naquelas mulheres de São José dos Campos; derrubando-as ao chão, humilhando-as. Com o país e o mundo pegando fogo, em volta. Vejo cada uma dessas pessoas atirando aquelas crianças em algum galpão enlameado. Escarnecendo do sofrimento delas, enviando-as para a fogueira, alimentando o fogo com sua violência e seu cinismo.
Não se trata, portanto, de apenas demonizar este ou aquele partido, este ou aquele governador. Que seja feita a dose diária de repúdio a cada um desses senhores, desses senhores-de-engenho, desses capatazes, desses verdugos – torturadores, assassinos, genocidas. Mas sem maiores ilusões de que o partido alternativo ou o governador alternativo sejam tão diferentes assim.
Algumas supostas exceções são apenas aparentes: quando obtêm chances reais de chegar ao poder, fazem pacto com todos os demais - todos os que praticam ou patrocinam a violência diária contra milhões de espoliados, contra as centenas de Ocupações Pinheirinho espalhadas pelo mundo. Sobram algumas exceções de fato, autenticamente indignadas – mas quase sem chances eleitorais.
Essas chances são diminutas exatamente porque existe bem pertinho de nós uma legião de seres humanos sem escrúpulos, prontos a apoiar toda sorte de violência contra seus semelhantes. São eles que beijam virtualmente a mão dos Nahas e dos Calheiros, dos Maluf e dos Sarney, dos répteis (com todo respeito aos répteis) que infestam o Judiciário, o Legislativo e o Executivo.
São esses brasileiros muito próximos de nós que alimentam esse inesgotável saco de maldades. Tomam cervejinha conosco. Cantam parabéns aos nossos filhos nas festas de aniversário. Nas redes sociais, são nossos “amigos”. Nos portais (naqueles fóruns que vêm se consagrando como o grande esgoto do pensamento), postam comentários homofóbicos, racistas, higienistas – ou no mínimo indiferentes.
Esses brasileiros são pessoas violentas. Agridem sem-teto. Agridem sem-terra. Batem em estudantes, em moradores de rua, em indígenas, em dependentes de crack. E não se dão conta disso. Não é com a mão deles que se exerce o controle das massas. Existe o que alguém já chamou de “violência da calma”. Uma violência-cúmplice, uma violência que não deixa marcas no próprio corpo – ou na própria consciência.
Esses brasileiros violentos e cúmplices acreditam firmemente que os patifes anteriormente citados são a causa de todos os males. Ou, muito pior que isso: que quem resiste a todas essas ignonímias é quem seja o problema de fato; os inconformados é que são os culpados pela ausência evidente de civilização. Por essa visão torpe e míope do mundo e dos processos históricos, são eles – os ativistas, os resistentes – que devem ser eliminados. E, portanto, ridicularizados. Agredidos.
Para disfarçar a sanha de violência, que se inverta o ônus. Que se definam os resistentes como “estudantada”, que se apontem os resistentes como “traficantes”, ou maconheiros – ameaças a “gente de bem”. Que se rebaixe quem vai contra a corrente ao mesmo nível – subterrâneo – de consciência embotada. Afinal, porque não dizer, os meios de comunicação de massa são a mais completa tradução desse reino dos cúmplices.
A foto das mães em São José dos Campos significa muita coisa. Não enxerguemos nela somente motivo para indignação coletiva – porque esta, a rigor, contra todas as aparências, não existe. Nem mesmo a indignação de classe existe, infelizmente, queridos amigos revolucionários – pois as lutas desse curioso espécime (o ser humano) são várias, não somente uma. A violência do sistema econômico é apenas uma das expressões da barbárie.
Essa foto das mães em fuga (com os mencionados país e mundo pegando fogo ao fundo) significa um grito contido. Por um lado, mostra a relativa impotência dos resistentes. Por outro, a força (não se sabe bem vinda de onde) que nos leva a manter alguma esperança. Por fim, esconde um amplo contexto de violência latente. A trilha sonora dessa imagem é sórdida – o coro de brasileiros que, diariamente, sob risinhos, piadinhas e comentariozinhos, ateiam fogo à democracia.
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domingo, 22 de janeiro de 2012
Líder do MTST é um dos presos – e espancados – em São José dos Campos
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Um dos coordenadores nacionais do MTST, Guilherme Boulos, foi preso por volta das 16h30, neste domingo, durante a operação policial de reintegração de posse na Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. Levou chutes, pontapés, cotoveladas e golpes de cassetete, antes de ser detido pela Guarda Civil Metropolitana.
As informações oficiais, durante a tarde, davam conta de 15 pessoas presas. Não havia informações sobre lideranças. Boulos foi o porta-voz do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) durante ato no dia 8 de dezembro, em São Paulo. Era ele quem coordenava as falas, no vão livre do Masp e no carro de som, na Avenida Paulista.
Naquele dia os trabalhadores informaram sobre a iminência do que chamaram de “conflito do século” em São José dos Campos. Leia aqui o relato do que eles previram sobre a reintegração de posse. Os sem-teto fizeram, dias depois, uma reunião com o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, responsável pela interlocução do governo Dilma com movimentos sociais. Não houve solução para o caso.
Boulos foi também um dos representantes dos manifestantes (MTST, Must, MST e Fábrica Ocupada Flaskô, entre outros) em reunião com uma representante do governo federal, no gabinete localizado na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta. Leia aqui o relato do que aconteceu naquele dia, quando os manifestantes ocuparam o prédio do Banco do Brasil – que cede ao governo federal um andar para seu escritório em São Paulo.
Os moradores da Ocupação Pinheirinho organizam-se no Must (Movimento Urbano dos Sem-Teto). Durante esse ato no Masp e na Paulista estavam em peso – eram centenas de pessoas, somente do Must. Somaram-se aos militantes do MTST, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), da Fábrica Ocupada Flaskô e a apoiadores do movimento – como estudantes em greve da USP.
As fontes que relataram ao blog Outro Brasil a prisão e espancamento de Boulos descreveram também um “bairro sitiado” em São José dos Campos: o Campo dos Alemães. Segundo esses trabalhadores, os policiais estão agredindo as pessoas “a torto e a direitos”. Crianças, mulheres e idosos estão sendo agredidas com bombas de gás e balas de borracha. Um adolescente foi perseguido e espancado.
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por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
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As informações oficiais, durante a tarde, davam conta de 15 pessoas presas. Não havia informações sobre lideranças. Boulos foi o porta-voz do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) durante ato no dia 8 de dezembro, em São Paulo. Era ele quem coordenava as falas, no vão livre do Masp e no carro de som, na Avenida Paulista.
Naquele dia os trabalhadores informaram sobre a iminência do que chamaram de “conflito do século” em São José dos Campos. Leia aqui o relato do que eles previram sobre a reintegração de posse. Os sem-teto fizeram, dias depois, uma reunião com o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, responsável pela interlocução do governo Dilma com movimentos sociais. Não houve solução para o caso.
Boulos foi também um dos representantes dos manifestantes (MTST, Must, MST e Fábrica Ocupada Flaskô, entre outros) em reunião com uma representante do governo federal, no gabinete localizado na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta. Leia aqui o relato do que aconteceu naquele dia, quando os manifestantes ocuparam o prédio do Banco do Brasil – que cede ao governo federal um andar para seu escritório em São Paulo.
Os moradores da Ocupação Pinheirinho organizam-se no Must (Movimento Urbano dos Sem-Teto). Durante esse ato no Masp e na Paulista estavam em peso – eram centenas de pessoas, somente do Must. Somaram-se aos militantes do MTST, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), da Fábrica Ocupada Flaskô e a apoiadores do movimento – como estudantes em greve da USP.
As fontes que relataram ao blog Outro Brasil a prisão e espancamento de Boulos descreveram também um “bairro sitiado” em São José dos Campos: o Campo dos Alemães. Segundo esses trabalhadores, os policiais estão agredindo as pessoas “a torto e a direitos”. Crianças, mulheres e idosos estão sendo agredidas com bombas de gás e balas de borracha. Um adolescente foi perseguido e espancado.
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terça-feira, 17 de janeiro de 2012
“Transmissão solidária” sugere novo modelo de comunicação popular
Os moradores da Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos, organizaram nos últimos dias um blog (o Solidariedade Pinheirinho) e um perfil no Twitter chamados de “cobertura solidária”. Na manhã desta terça-feira, diante da decisão da Justiça Federal que suspendeu a reintegração de posse, as principais informações sobre a festa dos moradores foram transmitidas por rádio.
A “transmissão solidária” registrou a comemoração dos moradores, que tomaram faixas de uma avenida região. As pessoas dançavam forró, subiam em árvores e agitavam bandeiras. “Hoje é feriado no Pinheirinho, é feriado em São José dos Campos”, disse o locutor. “Aqueles que jogavam panfleto contra a ocupação perderam”.
Ele se refere aos panfletos jogados por helicóptero, ontem, pela Polícia Militar. “Ao invés de uma desocupação truculenta, o que temos aqui é uma grande vitória”, afirmou o porta-voz. “Graças à decisão de uma juíza federal que leva em conta vidas humanas”.
O locutor agradeceu os emails e tweets de solidariedade “de todo o Brasil”. "O Twitter bombou durante a vigília", assinalou o líder sindical Mancha. Foram quase 800 seguidores em um dia. A transmissão em rádio chegou a ser definida na internet como "30 minutos de emoção".
Outro diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do município, Herbert Claros da Silva, rebateu as acusações de que os moradores do Pinheirinho tinham queimado um ônibus durante a noite. “Quem queimou o ônibus foi a polícia”, disse. “Pessoas que estavam no ônibus contaram que o cabelo de quem queimou era curtinho, cabelo de militar”.
Uma das informações passadas pela “transmissão solidária” foi a de que a gleba da Ocupação Pinheirinho estaria avaliada em R$ 200 milhões – e que a especulação imobiliária seria o motivo da decisão de desocupar o terreno, pertencente a uma empresa do investidor Naji Nahas.
Ao fundo da locução ouvem-se o rumor da festa dos moradores, cornetas. “O povo quer paz”, declarou o deputado estadual Adriano Diogo (PT). “Quer trabalhar, viver, criar seus filhos. Iam fazer um arregaço, uma carnificina, um banho de sangue. Para quê? Olha o povo aí, pacífico”.
Diante do silêncio da mídia tradicional, o que está surgindo no Brasil é um novo modelo de comunicação relativo às demandas populares. Ele passa hoje pela mobilização nas redes sociais, à margem do que sai na grande imprensa. A “transmissão solidária”, ligada aos moradores e ao Sindicato dos Metalúrgicos, com tempo real pelo Twitter, dá algumas pistas do que pode vir por aí.
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
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A “transmissão solidária” registrou a comemoração dos moradores, que tomaram faixas de uma avenida região. As pessoas dançavam forró, subiam em árvores e agitavam bandeiras. “Hoje é feriado no Pinheirinho, é feriado em São José dos Campos”, disse o locutor. “Aqueles que jogavam panfleto contra a ocupação perderam”.
Ele se refere aos panfletos jogados por helicóptero, ontem, pela Polícia Militar. “Ao invés de uma desocupação truculenta, o que temos aqui é uma grande vitória”, afirmou o porta-voz. “Graças à decisão de uma juíza federal que leva em conta vidas humanas”.
O locutor agradeceu os emails e tweets de solidariedade “de todo o Brasil”. "O Twitter bombou durante a vigília", assinalou o líder sindical Mancha. Foram quase 800 seguidores em um dia. A transmissão em rádio chegou a ser definida na internet como "30 minutos de emoção".
Outro diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do município, Herbert Claros da Silva, rebateu as acusações de que os moradores do Pinheirinho tinham queimado um ônibus durante a noite. “Quem queimou o ônibus foi a polícia”, disse. “Pessoas que estavam no ônibus contaram que o cabelo de quem queimou era curtinho, cabelo de militar”.
Uma das informações passadas pela “transmissão solidária” foi a de que a gleba da Ocupação Pinheirinho estaria avaliada em R$ 200 milhões – e que a especulação imobiliária seria o motivo da decisão de desocupar o terreno, pertencente a uma empresa do investidor Naji Nahas.
Ao fundo da locução ouvem-se o rumor da festa dos moradores, cornetas. “O povo quer paz”, declarou o deputado estadual Adriano Diogo (PT). “Quer trabalhar, viver, criar seus filhos. Iam fazer um arregaço, uma carnificina, um banho de sangue. Para quê? Olha o povo aí, pacífico”.
Diante do silêncio da mídia tradicional, o que está surgindo no Brasil é um novo modelo de comunicação relativo às demandas populares. Ele passa hoje pela mobilização nas redes sociais, à margem do que sai na grande imprensa. A “transmissão solidária”, ligada aos moradores e ao Sindicato dos Metalúrgicos, com tempo real pelo Twitter, dá algumas pistas do que pode vir por aí.
Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
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Mídia ignora madrugada histórica em São José dos Campos
por ALCEU LUÍS CASTILHO(@alceucastilho)
Quase 10 mil brasileiros passaram a noite sob absoluta tensão: a PM ocupou as ruas ao redor da Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. A entrada de 1.800 policiais da Tropa de Choque - com cavalaria e canil - era iminente. Os moradores estavam armados para o que chamaram de “conflito do século” e prometiam resistir: com capacetes, escudos e armamentos improvisados. Com “sangue pelo sangue”.
Um ônibus foi incendiado por volta da meia-noite. A culpa, atribuída aos sem-teto – que, por sua vez, culparam a própria polícia. Dezenas de milhares de pessoas acompanhavam pelas redes sociais (Twitter e Facebook à frente), apreensivas, o desfecho da situação. Os moradores estavam acuados.
Mas a maior parte da mídia brasileira ignorou solenemente todo esse quadro. Toda a descrição acima esteve fora dos principais portais durante a noite e madrugada – mais preocupados com o navio italiano naufragado.
O episódio mostra o naufrágio da mídia tradicional brasileira. Ela foi capaz de subestimar um dos grandes conflitos do século - impedido apenas nos últimos minutos possíveis por uma liminar emitida pela Justiça Federal. Assim como ignorou a festa de rua dos moradores, após a decisão.
Por muitíssimo pouco o Brasil não amanheceu o dia 17 de janeiro com 2 mil famílias (mais de 4 mil mulheres, quase 3 mil crianças) agredidas por uma polícia que não tem poupado ninguém nos últimos tempos – dos dependentes de crack e moradores de rua da Cracolândia a estudantes em greve da USP.
É hora do país refletir sobre a concessão dos meios de comunicação eletrônicos. E dos jornalistas refletirem definitivamente sobre sua função atual na sociedade. Como é possível jornais e jornalistas ignorarem a principal notícia do ano?
No máximo alguns veículos (Rede Globo, SBT, G1) divulgaram durante a madrugada a notícia do ônibus queimado. E de forma acrítica, aliás, pois o incêndio foi para lá de esquisito – com direito a vizinhos afirmarem que fora mesmo uma armação da polícia. (Veja aqui a versão dos moradores, conforme uma rádio do próprio movimento.)
A imagem da “justiça cega” – principalmente aos interesses populares – ainda tem muita força no imaginário popular. Nesta noite, ao menos por alguns dias, o Brasil foi salvo de um banho de sangue por uma decisão judicial – tardia, mas de efeitos extraordinários.
Há muito o que se discutir. Que nesta trégua dada aos moradores do Pinheirinho os políticos e a sociedade civil organizada discutam agora o direito à moradia, a desigualdade, as violências policiais, a prioridade dada aos especuladores em detrimento de populações inteiras. (Basta assinalar que a rádio dos moradores diz que a gleba estaria avaliada em R$ 200 milhões e seria utilizada para um condomínio de luxo.)
Mas que o país coloque também em pauta a existência e os efeitos de uma imprensa cega.
PS: Este texto foi postado inicialmente às 6h46. Pela manhã os portais começaram a postar notícias sobre o tema - atenuando a distração observada na cobertura em tempo real. Segue link para a matéria do Estadão; outro para a do G1; aqui a do Terra; após as 11 horas saiu a do UOL.
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Quase 10 mil brasileiros passaram a noite sob absoluta tensão: a PM ocupou as ruas ao redor da Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. A entrada de 1.800 policiais da Tropa de Choque - com cavalaria e canil - era iminente. Os moradores estavam armados para o que chamaram de “conflito do século” e prometiam resistir: com capacetes, escudos e armamentos improvisados. Com “sangue pelo sangue”.
Um ônibus foi incendiado por volta da meia-noite. A culpa, atribuída aos sem-teto – que, por sua vez, culparam a própria polícia. Dezenas de milhares de pessoas acompanhavam pelas redes sociais (Twitter e Facebook à frente), apreensivas, o desfecho da situação. Os moradores estavam acuados.
Mas a maior parte da mídia brasileira ignorou solenemente todo esse quadro. Toda a descrição acima esteve fora dos principais portais durante a noite e madrugada – mais preocupados com o navio italiano naufragado.
O episódio mostra o naufrágio da mídia tradicional brasileira. Ela foi capaz de subestimar um dos grandes conflitos do século - impedido apenas nos últimos minutos possíveis por uma liminar emitida pela Justiça Federal. Assim como ignorou a festa de rua dos moradores, após a decisão.
Por muitíssimo pouco o Brasil não amanheceu o dia 17 de janeiro com 2 mil famílias (mais de 4 mil mulheres, quase 3 mil crianças) agredidas por uma polícia que não tem poupado ninguém nos últimos tempos – dos dependentes de crack e moradores de rua da Cracolândia a estudantes em greve da USP.
É hora do país refletir sobre a concessão dos meios de comunicação eletrônicos. E dos jornalistas refletirem definitivamente sobre sua função atual na sociedade. Como é possível jornais e jornalistas ignorarem a principal notícia do ano?
No máximo alguns veículos (Rede Globo, SBT, G1) divulgaram durante a madrugada a notícia do ônibus queimado. E de forma acrítica, aliás, pois o incêndio foi para lá de esquisito – com direito a vizinhos afirmarem que fora mesmo uma armação da polícia. (Veja aqui a versão dos moradores, conforme uma rádio do próprio movimento.)
A imagem da “justiça cega” – principalmente aos interesses populares – ainda tem muita força no imaginário popular. Nesta noite, ao menos por alguns dias, o Brasil foi salvo de um banho de sangue por uma decisão judicial – tardia, mas de efeitos extraordinários.
Há muito o que se discutir. Que nesta trégua dada aos moradores do Pinheirinho os políticos e a sociedade civil organizada discutam agora o direito à moradia, a desigualdade, as violências policiais, a prioridade dada aos especuladores em detrimento de populações inteiras. (Basta assinalar que a rádio dos moradores diz que a gleba estaria avaliada em R$ 200 milhões e seria utilizada para um condomínio de luxo.)
Mas que o país coloque também em pauta a existência e os efeitos de uma imprensa cega.
PS: Este texto foi postado inicialmente às 6h46. Pela manhã os portais começaram a postar notícias sobre o tema - atenuando a distração observada na cobertura em tempo real. Segue link para a matéria do Estadão; outro para a do G1; aqui a do Terra; após as 11 horas saiu a do UOL.
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sábado, 14 de janeiro de 2012
“Milagre em Milão”: fábula de Vittorio De Sica sobre desocupação de sem-teto segue atual
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Em tempos de iminente desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), um filme do italiano Vittorio de Sica ajuda a pensar – 60 anos depois - em alguns aspectos de uma reintegração de posse. E da oposição entre a classe trabalhadora (os sem-teto) e a burguesia. Quem vence essa disputa?
Economicamente não há final feliz: no final de “Milagre em Milão” (1951) o terreno é revertido para o proprietário. Mas os comunistas De Sica e Zavattini (o roteirista principal) não viam o mundo apenas com lentes econômicas. O que eles sugerem ali, além de uma utopia, é uma caracterização da burguesia a partir do ridículo.
- Quem são eles? – pergunta o novo dono do terreno, senhor Mobbi.
- Pobres – responde o antigo dono.
- O que fazem?
O filme quase se chamou “Os pobres atrapalham”. Mas foi vetado - os italianos estavam preocupados com a imagem do país no exterior. O filme é baseado no livro “Totó, o Bom”, do próprio Cesare Zavattini.
A desumanidade do dono do terreno, o senhor Mobbi, está diretamente associada a sequências patéticas. Do outro lado, em clima surreal, Totó e sua turma desconstroem as ações policiais com humor e dignidade – os jatos d’água, as bombas de fumaça, as ordens. Nada ali pode afetar a dignidade dos sem-teto.
Não se trata apenas de uma resistência por meio de porretes e barricadas – que, em determinado momento, também acontecem. Vittorio de Sica busca na poesia – e na união dos trabalhadores – a possibilidade de superação daquela violência.
Em meio à fleuma dos sem-teto, são os patrões e seus mandantes que se sentem acuados. “Essa gente não merece piedade”, diz Mobbi, titubeante. “Todos sentimos frio, somos todos iguais”, afirma, em outro momento, obviamente sem convencer. “Todos temos cinco dedos nas mãos”.
Quem quiser pensar no cinema de Vittorio de Sica deve abandonar os estereótipos sobre realismo. Ou melhor, abandonar mesmo a idéia de que seus filmes sejam propriamente realistas. Sim, “Ladrões de Bicicleta” (1948) é um dos clássicos do movimento que se chamou neorealismo – e mudou o cinema e o mundo, no pós-guerra.
Ao lado do roteirista Cesare Zavattini, De Sica criou obras de profundo romantismo. Ainda que com atores amadores e locações na própria cidade, características do neorealismo. O homem que estava por trás desses atores e cenários era um homem romântico.
Em uma das cenas de “Milagre em Milão” os sem-teto, com frio, buscam um lugar ao sol no terreno ocupado, ao lado de uma ferrovia. Mas literalmente um lugar ao sol. Logo me veio a lembrança de um vídeo gravado em apoio à Ocupação Pinheirinho, onde um militante lê uma poesia de cordel:
Esse cordel remete a Glauber Rocha, à disputa de classes nos sertões. A “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Em meio à possibilidade de massacre, trata-se também de uma estética que está sendo proposta por De Sica (e por Glauber) – ou contraproposta à dominação linear, cinzenta. O céu se destaca ao fundo.
É para o céu que Totó e os demais sem-teto rumam no fim do filme – na sequência que inspirou Steven Spielberg a fazer a famosa cena de “E.T.”
Trata-se, assumidamente, de uma proposta de fuga, de um contraponto que não seja apenas um confronto físico, contra os tanques e escavadeiras. Mas um confronto de visões de mundo. Vale assinalar que o filme, na época, não agradou nem os comunistas durões nem os conservadores.
Nas nuvens, sobrevoando Milão, os sem-teto estão felizes. Sabem que venceram a batalha pela dignidade. O letreiro do fim do filme repropõe a esperança:
- Em direção a um sonho onde “bom dia” queira dizer verdadeiramente “bom dia”.
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por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
Em tempos de iminente desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), um filme do italiano Vittorio de Sica ajuda a pensar – 60 anos depois - em alguns aspectos de uma reintegração de posse. E da oposição entre a classe trabalhadora (os sem-teto) e a burguesia. Quem vence essa disputa?
Economicamente não há final feliz: no final de “Milagre em Milão” (1951) o terreno é revertido para o proprietário. Mas os comunistas De Sica e Zavattini (o roteirista principal) não viam o mundo apenas com lentes econômicas. O que eles sugerem ali, além de uma utopia, é uma caracterização da burguesia a partir do ridículo.
- Quem são eles? – pergunta o novo dono do terreno, senhor Mobbi.
- Pobres – responde o antigo dono.
- O que fazem?
O filme quase se chamou “Os pobres atrapalham”. Mas foi vetado - os italianos estavam preocupados com a imagem do país no exterior. O filme é baseado no livro “Totó, o Bom”, do próprio Cesare Zavattini.
A desumanidade do dono do terreno, o senhor Mobbi, está diretamente associada a sequências patéticas. Do outro lado, em clima surreal, Totó e sua turma desconstroem as ações policiais com humor e dignidade – os jatos d’água, as bombas de fumaça, as ordens. Nada ali pode afetar a dignidade dos sem-teto.
Não se trata apenas de uma resistência por meio de porretes e barricadas – que, em determinado momento, também acontecem. Vittorio de Sica busca na poesia – e na união dos trabalhadores – a possibilidade de superação daquela violência.
Em meio à fleuma dos sem-teto, são os patrões e seus mandantes que se sentem acuados. “Essa gente não merece piedade”, diz Mobbi, titubeante. “Todos sentimos frio, somos todos iguais”, afirma, em outro momento, obviamente sem convencer. “Todos temos cinco dedos nas mãos”.
Quem quiser pensar no cinema de Vittorio de Sica deve abandonar os estereótipos sobre realismo. Ou melhor, abandonar mesmo a idéia de que seus filmes sejam propriamente realistas. Sim, “Ladrões de Bicicleta” (1948) é um dos clássicos do movimento que se chamou neorealismo – e mudou o cinema e o mundo, no pós-guerra.
Ao lado do roteirista Cesare Zavattini, De Sica criou obras de profundo romantismo. Ainda que com atores amadores e locações na própria cidade, características do neorealismo. O homem que estava por trás desses atores e cenários era um homem romântico.
Em uma das cenas de “Milagre em Milão” os sem-teto, com frio, buscam um lugar ao sol no terreno ocupado, ao lado de uma ferrovia. Mas literalmente um lugar ao sol. Logo me veio a lembrança de um vídeo gravado em apoio à Ocupação Pinheirinho, onde um militante lê uma poesia de cordel:
Esse cordel remete a Glauber Rocha, à disputa de classes nos sertões. A “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Em meio à possibilidade de massacre, trata-se também de uma estética que está sendo proposta por De Sica (e por Glauber) – ou contraproposta à dominação linear, cinzenta. O céu se destaca ao fundo.
É para o céu que Totó e os demais sem-teto rumam no fim do filme – na sequência que inspirou Steven Spielberg a fazer a famosa cena de “E.T.”
Trata-se, assumidamente, de uma proposta de fuga, de um contraponto que não seja apenas um confronto físico, contra os tanques e escavadeiras. Mas um confronto de visões de mundo. Vale assinalar que o filme, na época, não agradou nem os comunistas durões nem os conservadores.
Nas nuvens, sobrevoando Milão, os sem-teto estão felizes. Sabem que venceram a batalha pela dignidade. O letreiro do fim do filme repropõe a esperança:
- Em direção a um sonho onde “bom dia” queira dizer verdadeiramente “bom dia”.
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Sem-teto relatam intimidação policial na Ocupação Pinheirinho, a “maior do Brasil”
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) aguarda com apreensão – a qualquer momento - uma megaoperação de desocupação do terreno ocupado por 2 mil famílias em São José dos Campos.
Nesta quarta-feira o MTST publicou um manifesto onde relata um processo de “intimidação” por parte da polícia, iniciado na quinta-feira, dia 5 de janeiro. Segundo o movimento, os moradores da Comunidade do Pinheirinho foram surpreendidos pelos policiais por volta das 5h30:
- Uma mega operação policial foi implementada, deixando a todos perplexos. Com a justificativa de que buscavam apreender drogas, armamentos e possíveis foragidos da justiça, a polícia impõe o pânico na comunidade.
A Ocupação Pinheirinho é considerada a maior ocupação organizada de sem-teto do País. Em entrevista ao blog, em dezembro, o porta-voz Valdir Martins disse que haverá resistência e previu o “conflito do século” no município paulista.
O MTST diz que os moradores vivem um clima de pânico desde que uma juíza determinou a reintegração de posse à massa falida da Selecta. A empresa pertence ao megaespeculador Imobiliário, Naji Nahas. Ela tem somente um credor: a prefeitura de São José dos Campos.
- É no mínimo estranha a decisão da juíza, já que a legalização da comunidade e a transformação do local em um bairro estavam encaminhadas e bem avançadas junto aos órgãos competentes, afinal cerca de duas mil famílias moram ali já há oito anos – afirma o MTST em seu site.
Os sem-teto exigem do governo Geraldo Alckmin que não autorize a desocupação, para evitar uma tragédia.
O PSTU também divulgou nota alertando para a iminência da desocupação. “Prefeitura do PSDB prepara banho de sangue em São José dos Campos”, noticia o partido trotskista. “É a crônica de uma tragédia anunciada, cujo resultado será contado em número de mortos”, veicula o PSTU.
Valdir Martins, o Marrom, disse em dezembro ao blog Outro Brasil que se houver desocupação “vai ter sangue por sangue". Ele contou que o nível de organização dos sem-teto é similar ao de um soviet. “Não tem condição de retroceder. Estamos muito preparados para reagir. E o governo sabe disso”.
LEIA MAIS:
Sem-teto temem o “conflito do século” em São José dos Campos
A madame na calçada e os sem-teto na Paulista
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Outro Brasil
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) aguarda com apreensão – a qualquer momento - uma megaoperação de desocupação do terreno ocupado por 2 mil famílias em São José dos Campos.
Nesta quarta-feira o MTST publicou um manifesto onde relata um processo de “intimidação” por parte da polícia, iniciado na quinta-feira, dia 5 de janeiro. Segundo o movimento, os moradores da Comunidade do Pinheirinho foram surpreendidos pelos policiais por volta das 5h30:
- Uma mega operação policial foi implementada, deixando a todos perplexos. Com a justificativa de que buscavam apreender drogas, armamentos e possíveis foragidos da justiça, a polícia impõe o pânico na comunidade.
A Ocupação Pinheirinho é considerada a maior ocupação organizada de sem-teto do País. Em entrevista ao blog, em dezembro, o porta-voz Valdir Martins disse que haverá resistência e previu o “conflito do século” no município paulista.
O MTST diz que os moradores vivem um clima de pânico desde que uma juíza determinou a reintegração de posse à massa falida da Selecta. A empresa pertence ao megaespeculador Imobiliário, Naji Nahas. Ela tem somente um credor: a prefeitura de São José dos Campos.
- É no mínimo estranha a decisão da juíza, já que a legalização da comunidade e a transformação do local em um bairro estavam encaminhadas e bem avançadas junto aos órgãos competentes, afinal cerca de duas mil famílias moram ali já há oito anos – afirma o MTST em seu site.
Os sem-teto exigem do governo Geraldo Alckmin que não autorize a desocupação, para evitar uma tragédia.
O PSTU também divulgou nota alertando para a iminência da desocupação. “Prefeitura do PSDB prepara banho de sangue em São José dos Campos”, noticia o partido trotskista. “É a crônica de uma tragédia anunciada, cujo resultado será contado em número de mortos”, veicula o PSTU.
Valdir Martins, o Marrom, disse em dezembro ao blog Outro Brasil que se houver desocupação “vai ter sangue por sangue". Ele contou que o nível de organização dos sem-teto é similar ao de um soviet. “Não tem condição de retroceder. Estamos muito preparados para reagir. E o governo sabe disso”.
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Sem-teto temem "conflito do século” em São José dos Campos
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)
A cidade da aeronáutica tem em seu chão uma bomba-relógio social.
Duas mil famílias de sem-teto correm o risco de serem despejadas, em São José
dos Campos (SP), naquela que é a maior ocupação urbana – organizada - da
América Latina. A Justiça decidiu em julho pela reintegração de posse. Mas o
movimento dos sem-teto, disciplinado, promete enfrentamento: “Agora é fogo no
pavio! Sangue por sangue”.
A frase acima foi uma entre as escritas em faixas e cartazes
do Movimento Urbano dos Sem Teto (Must), durante ato na Avenida Paulista, na
semana passada. Vejamos outras elas, para sentir a temperatura: “Ocupar,
construir, resistir. Legalizar na marra ou na lei”. Ou então: “Trabalhadores de
ambos os lados vão morrer”. Os líderes
falam em “enfrentamento do século”.
As 9 mil pessoas da Ocupação Pinheirinho estão desde 2004 no
local. Já foram construídas casas de alvenaria, em uma área de 100 hectares. O
terreno pertence à Selecta, empresa do investidor Naji Nahas – famoso por ter
quebrado a Bolsa dos Valores do Rio, em 1989. Em 2008 ele foi
preso pela Polícia Federal durante a operação Satigraaha, acusado de crimes
contra o sistema financeiro. A Selecta está falida. Seu único credor, o
município de São José – pois nunca pagou IPTU.
Este blog conversou com o porta-voz do Must, Valdir Martins –
conhecido como Marrom. Ele explicou que a radicalização parte da juíza que
decidiu, em julho, pela reintegração de posse. Ela quer o terreno desocupado
até o fim de dezembro. Por ora os sem-teto estão abertos à negociação. Mas não
existe a chance deles aceitarem pacificamente a desocupação. No local vivem
2.600 crianças.
“Movimento é muito
organizado, quase um soviet”, diz Marrom. Eles têm reunião de lideranças todas as
segunda-feiras. Às terças ocorrem as reuniões de grupos. Sábado é dia de assembléia
– com a participação de 4 mil pessoas. “Se tiver desocupação vai ter sangue por
sangue", afirma o porta-voz. “Não tem condição de retroceder. Estamos muito
preparados para reagir. E o governo sabe disso”.
O PROTESTO NA PAULISTA
Centenas de pessoas da Ocupação Pinheirinho estavam no vão livre
do Masp, no dia 8 de dezembro. O ato foi reaizado pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores
Sem Teto), pelo MST (regional Campinas) e pelos trabalhadores da Fábrica
Ocupada Flaskô. Todos seguiram em passeata pela Avenida Paulista (para o
desespero dos motoristas) até a Rua Augusta, onde ocuparam o prédio do Banco do
Brasil – no terceiro andar funciona o escritório do governo federal em São
Paulo.
Durante o trajeto, mais palavras de ordem: “Ou é na lei...
ou na marra!” A cena tinha seu toque surreal, diante de uma instalação de Natal
da prefeitura paulistana. Abaixo de um Papai Noel gigante, símbolos do Banco do
Brasil e da Rede Globo – em uma cidade que se recusou a ter outdoors.
Exatamente no prédio do Banco do Brasil os movimentos
sociais reuniram-se com a chefe de gabinete do escritório regional do governo,
Rosemary Nóvoa de Noronha. Ela ligou para Brasília e obteve uma audiência com o
ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República. Ela foi marcada para a próxima segunda-feira, dia 19 de dezembro.
Carvalho é o ministro encarregado da interlocução com
movimentos sociais. Durante o governo Lula essa função cabia ao ministro Luiz
Dulci. As lideranças de movimentos prezam essa interlocução – embora critiquem
a ausência de políticas públicas de moradia e de assentamentos no campo. A ministra Maria do Rosário Nunes, da
Secretaria de Direitos Humanos, também estará presente.
OS SEM TETO E A POLÍCIA
Enquanto os manifestantes esperavam a reunião com Rosemary,
no terceiro andar do prédio do BB (cedido pelo banco ao governo federal), eles
gritavam palavras de ordem e cantavam. “Se matarem um daqui/ Não há o que temer”,
diz uma das músicas de protesto. “Aqueles que mandam matar/ também podem morrer”.
A polícia é citada como “contratada para matar trabalhador”.
São Paulo teve um conflito com mortes entre sem-teto e
polícia, no dia 20 de maio de 1997, no governo Mario Covas. Durante a
reintegração de posse na Fazenda da Juta, na zona leste (em Sapopemba), os sem
teto reagiram com paus e pedras. Três deles foram mortos pelos policiais – que reagiram
com balas. Segue o relato da DHNet, a Rede de Direitos Humanos e Cultura:
- Uma das vítimas
foi morta por uma única bala na nuca, sugerindo execução sumária. Outro
sem-teto foi morto com tiros no peito, enquanto o policial afirmou ter atirado
em defesa própria depois de ter sido derrubado ao chão. No entanto, segundo o
relatório do médico legista, a vítima fora alvo de dois tiros que atravessaram
o peito em linha reta.
LEIA MAIS:
Publicado por
Alceu Castilho, jornalista.
en
10:49
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