quinta-feira, 2 de julho de 2015

Carta para a minha filha de 15 anos. (Sobre um país que se reduz.)

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

No seu próximo aniversário você fará 16 anos. Ainda outro dia - ontem mesmo, informam meus olhos angustiados - era uma criança. Poderá votar. E que país receberá? Um país mais seguro? Onde possa caminhar nas ruas sem que seu pai fique intranquilo? Um país mais maduro? Que enfrente seus problemas sem simplismo, em patamares civilizatórios? Mais alegre? Não. Um país com... redução da maioridade penal. Sua geração poderá ser presa, mais do que já é. Eis o legado da minha geração. Um país muito pior do que aquele entrevisto na Constituição. Para trás. Reduzido.

Escrevo enquanto ouço Mike Oldfield, aquele trecho do "Tubular Bells" que foi parar na trilha do Exorcista. O disco é de 1973. Estávamos na ditadura e o presidente chamava-se Médici. Eu era uma criança. Os jornalistas, naquela época, costumavam ser comunistas. Sonhavam com um país melhor, sem Médicis. Alguns morreram por isso. Outros se venderam. Alguns escrevem (ou editam, tanto faz) textos que dão aval a essa sanha vingativa, a essa lógica do extermínio. Às favas os escrúpulos. Os escrúpulos de consciência, a mínima percepção de que algo diferente teria de passar pela educação.

Não exorcizamos os nossos males, Helena. O país onde choravam Marias e Clarices não puniu quem tinha de ser punido; anistiou quem não devia. E agora os filhos cegos ou cínicos daqueles senhores de óculos sinistros pregam abertamente a barbárie. Eu e meus amigos (em boa parte jornalistas entristecidos) ajudamos as coisas chegarem a esse ponto, esse ponto que quase parece um ponto do não retorno. Onde teremos de engolir em seco e assistir ao culto ecumênico das serpentes. Os ovos já tiveram tempo de esquentar novamente. E os torturadores não precisam mais da ligação direta dos porões.

Você que decidiu (aos 10 anos) ser uma psicóloga terá muito trabalho. Atenderá a gerações com camadas de traumas; camadas ditatoriais e democráticas, semi ditatoriais, semi democráticas. Com conquistas aqui e ali, uma ou outra defesa mais sistemática de minorias, em meio a uma guerra civil. Mas gerações herdeiras de um gigantesco marasmo, de um pacto pela mediocridade, um acordo conivente com as mencionadas forças sinistras. Em um país que não reconhece nem os indígenas, que não distribuiu suas terras. Um país, com otimismo, pela metade. Talvez um país reduzido a seu dízimo.

"E hoje eu canto e choro... num show..." Cantava o mutante Arnaldo Baptista (você sabe o quanto ele é importante para mim) em 1974. O enlouquecido Arnaldo, o visionário Arnaldo, o Arnaldo que se agarra a mundos paralelos para poder enfrentar a realidade. E ele completava, lá naquela obra-prima, o "Loki": "Seria o maior barato tocar seu coração". Sim, Arnaldo, cê tá certo. Mas diz aí, para onde você vai? "Vivo a pensar pra frente. Quando não mais houver... cidaaaaaade".

Com mil de anos de idade lamentaremos estes tempos sombrios, Helena. Com 16 anos você olhará para mim e ainda saberá - sempre saberá - que não desisto. Mas sim, está sendo difícil processar essa dor (entre outras dores, esta dor específica), a dor de ver um projeto de país fugir por entre os dedos. A paisagem será o grito de Munch. Tocaremos nossos corações, aqueles de uma minoria perplexa, apenas eles.

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Como é ter uma filha. Criá-la. Amá-la. E ouvir os disparates do resto da humanidade.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Kátia Abreu, ministra? "Ah, eu já sabia". Será mesmo?

por ALCEU LUÍS CASTILHO
(@alceucastilho)

Uma das reações mais curiosas à virtual nomeação da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) ao Ministério da Agricultura é a do "já sabia". "Eu já sabia", "todo mundo sabia", e por aí vamos. É um cacoete. Politicamente irrelevante. Ou até mesmo nocivo. Vale para outros temas também. Pode ser apenas um penduricalho, algo que se fala antes do que interessa. Mas também a expressão de derrotismo: já se sabia, todos sabiam, olhem que eu avisei, hem, agora não reclamem. Congela-se no passado (e na cognição) a possibilidade de indignação e mudança.

Que era uma vasta possibilidade, dissemos, escrevemos. Há anos. Só que agora é diferente. Kátia vazou (e Dilma não gosta disso, aliás) que será a ministra. Temos algo palpável. E de um simbolismo atroz. Em 1988, morria Chico Mendes. Foi de novo assassinado em 2012, com a aprovação do novo Código Florestal. Em 2014, enquanto Chico se dirige ao banheiro, em Xapuri, os policiais que deveriam protegê-lo jogando dominó na sala, ele é mais uma vez baleado e morto pela nomeação de Kátia Abreu. Que diz a ele: "Não adianta mais tentar reviver".

Chico Mendes não acredita, claro. Pois cresceu ouvindo que tudo era assim mesmo, que não adiantava lutar contra seringueiro, fazendeiro, pistoleiro. Que a polícia não ia fazer nada mesmo. Que política é assim mesmo. Que era loucura querer mudar tudo isso. Pretensão. Você tem filhos. E a cada convite ao embotamento ele dava aquele sorrisinho, como se dissesse: "Eu sei de tudo isso. Mas a questão é outra". (Ele e Martin Luther King e poucos tinham um sonho. E isso é tão bonito, deveria continuar sendo tomado como algo necessário.)

Leio também que se votou em Dilma já sabendo que o agronegócio (e seus tentáculos) era o calcanhar-de-Aquiles de um discurso à esquerda pela reeleição. Com esse fator, não colava. Neste caso eu discordo. Pois se sabia, mas não se sabia. A maior parte da esquerda enterrou sua cabeça de avestruz no pragmatismo e não quis (por medo do pior, nos melhores casos) reconhecer que se estava jogando a questão agrária para debaixo do tapete, a reforma agrária para o limbo, a vida de indígenas para o céu da indiferença.

O que exatamente já sabíamos? É uma questão filosófica. O que exatamente já sabíamos no momento de tomar uma decisão, ou de olhar para determinado fato? Que parte da realidade pinçamos, enfatizamos? Que aspecto iluminamos (ou não), com mais ou menos conveniência? Que pontos repetimos, que discursos sobre o que sabíamos nós expressamos, escrevemos, escanteamos?

Eu sei que 800 ministros da Agricultura patrocinaram um modelo insustentável de apropriação do território e dos recursos naturais. Sei quem manda. Sei quem domina. Sei e bem sei que com Kátia Abreu em um governo do PT teremos 800 ministros em quatro anos, teremos uma capitulação. E é por isso que não se pode sufocar o grito, asfixiar a revolta, naturalizar o escárnio, deslocar a percepção para um ponto político anterior.

E não, não serão o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o Incra e a Funai (estes, diariamente humilhados) que serão contraponto a esse modelo. Soa-me como montar uma salinha de chá para madames no canto de um imenso saloon. Ou como aqueles jovens de Brasília (narrou uma vez Cristovam Buarque) que, em uma lanchonete, jogavam algumas batatinhas ao chão, para que aquelas criaturas famintas as pegassem: crianças.

Eu não sabia de nada. Embora já soubesse. Estou sabendo hoje, ressignificando hoje, pois as batalhas (inclusive as da informação) se vivem diariamente. A cada segundo. Um instante, o mundo. Um instante, a ética. Eu sei que aquele canalha vai atirar aquela batatinha para a criança e vou tentar impedir que ela chegue ao seu destino - ao menos da forma que o canalha escolheu para distribuir seus bens.

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domingo, 2 de novembro de 2014

O fascismo emergente não é apenas um espasmo exótico

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

A esquerda precisa admitir que é assustador o número de pessoas na rua nessas manifestações de extrema direita, a pedir intervenção militar e o impeachment de uma presidente reeleita há apenas uma semana. Assim como é assustador o número de pessoas que compartilham as fotos e as ideias desses fascistas. Não é apenas mais uma brincadeirinha de ignorantes, meus caros. Eles estão se levando a sério. E arrebatando incautos. A partir da soma das viúvas da ditadura com o sentimento antipetista mais radical, despolitizado e primário.

Os dilmistas mais empedernidos também precisam admitir que ajudaram a chocar esse ovo da serpente, ao radicalizarem contra Marina Silva, permitindo a ressurreição do tucanato - com o substrato de direita inerente à volta do Fla-Flu entre PT e PSDB. Isso significa fazer um mea culpa imediato, emergencial, e cobrar atitudes sensatas daqueles que foram eleitos. Vocês que se precipitaram tanto são também responsáveis por esse... por esse clima.

O Ricardo Mendonça, jornalista da Folha, observou no Twitter que o PSDB precisa ser rápido e se distanciar dessa corja de golpistas. Em respeito à sua história. Mas não é o que parece estar acontecendo. Em Brasília havia um carro de som de um deputado do PSDB, Izalci. Os tucanos começaram a abrigar a bancada da bala. E alimentam o pseudonoticiário de revistas inescrupulosas, como IstoÉ e Veja. Buliram com a credibilidade.

Onde estão os democratas? Por que estão tão calados? Em São Paulo, o deputado eleito Eduardo Bolsonaro (PSC), eleito com os votos de Marco Feliciano, discursou e falou que, caso seu pai fosse candidato, teria "fuzilado" Dilma Rousseff. Ora, é preciso haver reação imediata. Processo nele. E em qualquer liderança que coloque em risco a democracia. Em caso de incitação ao crime, mais do que isso.

SILÊNCIO E HISTÓRIA

Será mesmo o silêncio a a melhor estratégia? A história da humanidade é a história de ditaduras e teocracias, de democracias extremamente imperfeitas e apenas eventuais. Na América Latina, em história recente, tivemos golpe em Honduras, no Paraguai (apoiado por nossa mídia estúpida), quase tivemos na Venezuela (comemorado por essa mesma imprensa venal). E a história do Brasil não é a mais abonadora a respeito.

Por que, então, agirmos como avestruzes, como se não estivesse acontecendo nada? O que exatamente garantiria um estado permanente de democracia em nosso país, além de nossos vastos e bem intencionados desejos? Nossas "honradas e sólidas" instituições? Mas quais, exatamente? Essa Justiça e esse Congresso de decisões casuísticas, de indignações oportunistas, movidas pelas pautas da mencionada imprensa golpista?



Vale lembrar que, durante os protestos de 2013 em São Paulo, sindicalistas, sem-terra e outros manifestantes ficaram acuados em plena Avenida Paulista por uma horda de fascistas. Estes saíram quebrando bandeiras vermelhas, ou que não fossem do Brasil. Houve ameaças e agressões. Os manifestantes de esquerda ficaram isolados, fizeram um cordão. Por incrível que pareça, black blocs foram os responsáveis por não ter havido uma tragédia - ao protegerem os movimentos institucionalizados. Pouca gente percebeu os sinais. E as eleições acabaram colocando mais lenha na fogueira.

REPENSANDO A AGENDA

Sou crítico de políticas apenas reativas. Acho que a esquerda se moveu demais, nos últimos tempos, em torno de Felicianos e quetais, ajudando a promovê-los, e com dificuldades imensas de emplacar os próprios temas, as próprias reivindicações. Da mesma forma que considero um erro se mover apenas em função do que os ruralistas aprontam no Congresso, de forma a se conquistar apenas (quando muito) a retirada de bodes na sala. Correndo atrás do prejuízo.

Sim, acho que deveríamos estar promovendo as discussões de longo prazo (vítimas de sucessivas tentativas de assassinato durante esse último debate eleitoral emburrecedor). Como a questão agrária, o modelo de consumo, o modelo de mobilidade urbana, de ocupação do território, as causas primeiras da violência. A questão ambiental, mãe da crise hídrica. Não deveríamos esquecer dos indígenas, de todos os povos tradicionais que seguem sendo vítimas desse modelo econômico suicida.

Mas este é um momento de admitir que falhamos em tudo isso. Erramos. Fracassamos. (Lembro-me aqui da ideia do "pacto entre derrotados", do Ernesto Sabato.) E, portanto, precisamos, ainda que em paralelo com as discussões listadas acima, colocar de vez em pauta essa explosão de obscurantismo, esses lobões e lobófilos lombrosianos, esses discursos do ódio, essa defesa abjeta da tortura, do golpe, da morte, a morte do sistema, a morte como sistema.


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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Leilão da Resistência elege governador do MS e dez deputados

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho) *

Lembram-se do Leilão da Resistência, no Mato Grosso do Sul, no fim do ano passado? Destinado a arrecadar verbas para os ruralistas, contra a demarcação de terras indígenas.

O que aconteceu com os políticos que dele participaram?

Um deles foi eleito governador: Reinaldo Azambuja (PSDB).

Vejamos este texto: "Entre as personalidades que mais aparecem na mídia local que, possuem cargo público, e com certeza estarão disputando as urnas, estavam presentes Carlos Marun, Nelsinho Trad, Thereza Cristina Corrêa da Costa, Fábio Trad, Luiz Henrique Mandetta, Reinaldo Azambuja, Mara Caseiro, Márcio Fernandes, Jerson Domingos, Junior Mochi, Zé Teixeira, Márcio Monteiro". http://www.diariocg.com.br/noticias-ler/leilao-da-resistencia-teve-de-luxo-a-politico-interesseiro/21223

E agora vejamos os deputados federais eleitos no MS, com os votos de cada um:

Zeca (PT): 160.556
Carlos Marun (PMDB): 91.816
Geraldo Rezende (PMDB): 87.546
Tereza Cristina (PSB): 75.149
Vander Loubet (PT): 69.504
Luiz Henrique Mandetta (DEM): 57.374
Marcio Monteiro (PSDB): 56.441
Dagoberto Nogueira (PDT): 54.813

Marun, Thereza, Mandetta e Monteiro foram eleitos para a Câmara.

Junior Mochi (PMDB), Mara Caseiro (PTdoB), Márcio Fernandes (PSDB) e Zé Teixeira (DEM) foram eleitos para a Assembleia. A família Trad também elegeu Marquinhos Trad (PMDB) deputado estadual. Jerson Domingos não concorreu à reeleição. Mas elegeu aquele que gostará de ver como seu sucessor na presidência da AL-MS, Mauricio Picarelli (PMDB).


 * autor do livro Partido da Terra – como os políticos conquistam o território brasileiro (Editora Contexto, 2012)

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

27 favoritos para o Senado possuem R$ 480 milhões

por ALCEU LUÍS CASTILHO
(@alceucastilho) *

Quase meio bilhão de reais. Mais precisamente, R$ 480.936.788,76. Esse é o total de bens declarados pelos 27 candidatos que lideram as pesquisas ao Senado. Na média, R$ 17,8 milhões cada um. Dois terços deles são milionários.

É bem verdade que um dos candidatos puxa a média bem para cima. É o tucano Tasso Jereissati, empresário, ex-governador do Ceará, que tenta voltar ao Senado. Ele declarou à Justiça Eleitoral, sozinho, R$ 389 milhões. Sem ele, a média seria de R$ 3,37 milhões.

Vejamos o total de bens desses 27 políticos, conforme declarado por eles mesmos ao Tribunal Superior Eleitoral:

– Tasso Jereissati (PSDB-CE). R$ 389.019,698,60
– Fernando Collor (PTB-AL). R$ 20.308.319,48
– Acir Gurgacz (PDT-RO). R$ 10.913.706,83
– José Maranhão (PMDB-PB). R$ 8.830.629,26
– Wellington Fagundes (PR-MT). R$ 8.666.604,04
– Ronaldo Caiado (DEM-GO). R$ 7.232.461,92
– Geddel Vieira Lima (PMDB-BA). R$ 5.971.124,61
– Kátia Abreu (PMDB-TO). R$ 4.131.891,79
– Wilson Martins (PSB-PI). R$ 3.093.163,14
– Álvaro Dias (PSDB-PR). R$ 2.912.001,70
– Reguffe (PDT-DF). R$ 2.793.650,22
– Maria do Carmo (DEM-SE). R$ 2.434.303,97
– Lasier Martins (PDT-RS). R$ 1.999.326,91
– Omar Aziz (PSD-AM). R$ 1.650.485,60
– Simone Tebet (PMDB-MT). R$ 1.575.566,39
– José Serra (PSDB-SP). R$ 1.553.822,22
– Romário (PSB-RJ). R$ 1.311.189,82
– Anchieta (PSDB-RR). R$ 1.157.437,41
– João Paulo (PT-PE). R$ 999.244,47
– Rose de Freitas (PMDB-ES). R$ 988.566,00
– Paulo Bornhausen (PSB-SC). R$ 677.972,59
– Antonio Anastasia (PSDB-MG). R$ 562.000,00
– Fátima Bezerra (PT-RN). R$ 558.000,00
– Gladson Cameli (PP-AC). R$ 514.392,07
– Gilvam Borges (PMDB-AP). R$ 408.400,00
– Gastão Vieira (PMDB-MA). R$ 405.037,96
– Paulo Rocha (PT-PA). R$ 267.791,76

A lista dos líderes nas pesquisas foi elaborada a partir de levantamento feito pelo jornalista Fernando Rodrigues, no UOL, que por sua vez se baseou nas últimas pesquisas eleitorais. Confira aqui a disputa para o Senado nos 26 Estados e no Distrito Federal, com a intenção de voto dos principais candidatos.

UM SENADO RURALISTA

A lista tem empresários e donos de vastas extensões de terra. As ações de Tasso Jereissati em uma só empresa, a Jereissati Participações, somam quase R$ 73 milhões. A família é dona da rede de shoppings Iguatemi.

A maior parte desses favoritos na corrida ao Senado é defensora do agronegócio. Somente o senador Acir Gurgacz (PDT-RO), candidato à reeleição, registrou a propriedade de mais de 31 mil hectares de terra. O ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), quase 8 mil hectares. O líder ruralista Ronaldo Caiado (DEM-GO) registrou 3.539 cabeças de gado. (A pecuarista Kátia Abreu, do PMDB de Tocantins, nenhuma.)

Quatro entre esses 27 políticos têm também concessão de meios de comunicação. O senador Fernando Collor (PTB-AL) possui duas rádios e uma televisão. O deputado federal Wellington Fagundes (PR-MT), uma televisão – com empresa inativa. O ex-governadores José Maranhão (PMDB-PB) e Wilson Martins (PSB-PI), uma rádio cada. Isso sem contar os parentes: o pai de Acir Gurgacz, Assis, seu atual suplente (que tem um patrimônio de R$ 86 milhões e não concorre à reeleição porque foi considerado ficha-suja), é dono de televisão.

Nem sempre os candidatos ostentam riqueza. Gurgacz registrou um Rolex Daytona Herren-Chronograph no valor de R$ 22 mil. Ele e Maranhão declararam a propriedade de aeronaves, por R$ 520 mil e R$ 120 mil. Collor declarou mais de R$ 2 milhões em apenas seis carros: R$ 133 mi (Kia Carnival), R$ 180 mil (Toyota Land Cruiser), R$ 323 mil (Citroen), R$ 343 mil (Mercedes), R$ 556 mil (Ferrari Scaglietti) e R$ 714 mil (BMW).

* autor do livro Partido da Terra – como os políticos conquistam o território brasileiro (Editora Contexto, 2012)


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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Execução de camelô é símbolo da institucionalização midiática da barbárie

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

Estou impressionado com o silêncio em relação à execução de um camelô, ontem, durante mais uma ação tresloucada da polícia paulista. Ele se chamava Carlos Augusto Muniz Braga. Tinha 30 anos.

Os jornais paulistas deram o tema de forma discretíssima. Com chamadas telegráficas de capa. Muito aquém da importância do episódio, que gerou sucessivas barricadas em protestos de comerciantes contra a polícia.

E que teve um homem morto. Sim, um homem que trabalhava no comércio informal. E que não deveria levar o rótulo de "pirata". Piratas são os grandes contrabandistas. Não aquele que vende algo para sobreviver. Não o Carlos.

Evidente que, se a decisão do poder público (com prioridade questionável) é combater a pirataria, enfrentar camelôs constitui o método menos eficiente possível. Retirar mercadorias que serão repostas significa enxugar gelo. Com a violência contra trabalhadores como consequência.

Não fosse covarde, a polícia (a Secretaria de Segurança Pública, o governador) estaria investigando, no mínimo, os grandes depósitos de mercadorias. Antes deles, a rota do contrabando. E os contrabandistas de colarinho branco. Vários deles, bem conhecidos.

Somente uma sociedade muito ingênua - ou com má-fé - pode achar que esse tipo de operação pode acabar com o crime organizado. Se falamos de enxugar gelo podemos também falar do mito de Sísifo - aquele que tinha de empurrar uma pedra até o topo da montanha, de onde ela rolava de volta.

Jornalistas costumam ser bons propagandistas de tarefas de Sísifo - intermináveis. Ao não buscarem os problemas estruturais do país (e do mundo), ao vigiarem apenas erupções, consequências, e não os grandes temas geradores de desigualdade e violência.

Não por coincidência, dois jornalistas do SporTV foram particularmente cínicos e insensíveis com o goleiro Aranha, ontem, durante jogo do Santos com o Grêmio. Para não dizer coniventes com o racismo dos torcedores. Como se fosse ele o algoz, e não a vítima. (Olho para a foto de Carlos, por sinal, e vejo que ele era negro.)

No caso dos editores dos jornais, eternamente distraídos no que se refere aos direitos humanos, fico pensando no critério utilizado para minimizar a notícia da execução de um trabalhador, seguida de uma batalha urbana. Penso que alguns trabalharam comigo, com alguns eu já terei até compartilhado alguma mesa de bar.

Em que momento se naturaliza a barbárie? Mais especificamente, a barbárie institucionalizada, que depende do aval dos meios de comunicação? Em que momento um jornalista considera - no mínimo por sua passividade - que Carlos deveria ser morto?

Notem que não estou falando, aqui, da imprensa sensacionalista. Esta, por ironia da história, tem-se demonstrado mais atenta ao caso. Não tem cacoete de ir atrás da contextualização, de uma discussão mais elaborada, mas ao menos esboçou algum luto, alguma exclamação.

A grande imprensa parece estar sedada. Conformada. Um fotógrafo perdeu o olho por essa mesma polícia paulista, em 2013, e achamos que não é com a gente. Um vendedor de DVDs foi executado. E fazemos de conta que é ele o pirata.

Retirem as vendas, senhores. A injustiça somos nós.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

PT, PSOL E PCdoB concentram 46% das candidaturas indígenas

por ALCEU LUÍS CASTILHO 
(@alceucastilho)

Entre as 84 candidaturas indígenas registradas no Tribunal Superior Eleitoral, conforme a declaração feita pelos próprios candidatos, 16 disputam pelo PT. Em seguida vêm o PSOL, com 12 candidatos, e o PC do B, com 11. Juntas, essas 39 candidaturas representam 46% do total.

Quase dois terços das candidaturas é para vagas nas Assembleias Legislativas (53) ou Câmara Distrital (2). Outros 25 indígenas disputam vagas na Câmara. Cinco deles visam o Senado, dois destes na suplência. A Bahia tem um candidato a vice-governador, Ronaldo Santos (PSOL).

A lista de candidaturas nas eleições de 2014 foi compilada por Ricardo Verdum e pode ser vista aqui: https://www.academia.edu/8170557/Candidatos_Indigenas_nas_Eleicoes_de_2014 (A lista tem um nome repetido. Sete candidaturas ainda são consideradas inaptas.)

A região Norte tem o maior número de candidatos: 30 entre os 84. Em seguida vem o Nordeste, com 20 candidaturas indígenas. Sudeste e Centro-Oeste empatam, com 15 candidatos. A região Sul tem apenas quatro.

Vejam o ranking por partido:
PT – 16
PSOL – 12
PCdoB – 11
PHS – 7
PSTU – 5
PPL – 4
PV , PSDB– 3
DEM, PP, PSC, PDT, PTdoB, PPS, PROS, PRP - 2
PR, PEN, PMDB, PSL, PTB, PRB, PRTB – 1

É possível notar a maior incidência em partidos de esquerda, como PSTU, PPL e o próprio PSOL, em relação à média nacional. Uma surpresa é o PHS – que, só no Piauí, está lançando três candidatos que se declararam indígenas.

Quatro Estados não apresentaram candidaturas indígenas: Sergipe, Paraíba, Maranhão e Santa Catarina. O Maranhão tem vários conflitos de terra envolvendo povos indígenas.

O Amazonas e a Bahia, sozinhos, apresentaram nove candidatos cada um. Em seguida vêm São Paulo, com oito, Mato Grosso do Sul, com sete, Roraima, com seis candidatos, e o Pará, com cinco.

O Mato Grosso do Sul concentra grande população indígena. Das sete candidaturas, seis são de partidos à esquerda. A mais conhecida delas é do Cacique Ládio Veron, para a Câmara, pelo PSOL. Roraima, outro estado com maior quantidade proporcional de população indígena, tem uma dobradinha do PCdoB para deputado estadual e federal.

Vejam o ranking por UF:
AM, BA- 9
SP – 8
MS – 7
PA, RR – 6
PI - 4
AC, AP, CE, ES, GO, MT, PE, PI, RJ – 3
DF, PR, RO, RS – 2
AL, TO, RN – 1

Oito entre os 84 candidatos apresentam-se, no próprio nome de campanha, como professores.


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