segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Kátia Abreu, ministra? "Ah, eu já sabia". Será mesmo?

por ALCEU LUÍS CASTILHO
(@alceucastilho)

Uma das reações mais curiosas à virtual nomeação da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) ao Ministério da Agricultura é a do "já sabia". "Eu já sabia", "todo mundo sabia", e por aí vamos. É um cacoete. Politicamente irrelevante. Ou até mesmo nocivo. Vale para outros temas também. Pode ser apenas um penduricalho, algo que se fala antes do que interessa. Mas também a expressão de derrotismo: já se sabia, todos sabiam, olhem que eu avisei, hem, agora não reclamem. Congela-se no passado (e na cognição) a possibilidade de indignação e mudança.

Que era uma vasta possibilidade, dissemos, escrevemos. Há anos. Só que agora é diferente. Kátia vazou (e Dilma não gosta disso, aliás) que será a ministra. Temos algo palpável. E de um simbolismo atroz. Em 1988, morria Chico Mendes. Foi de novo assassinado em 2012, com a aprovação do novo Código Florestal. Em 2014, enquanto Chico se dirige ao banheiro, em Xapuri, os policiais que deveriam protegê-lo jogando dominó na sala, ele é mais uma vez baleado e morto pela nomeação de Kátia Abreu. Que diz a ele: "Não adianta mais tentar reviver".

Chico Mendes não acredita, claro. Pois cresceu ouvindo que tudo era assim mesmo, que não adiantava lutar contra seringueiro, fazendeiro, pistoleiro. Que a polícia não ia fazer nada mesmo. Que política é assim mesmo. Que era loucura querer mudar tudo isso. Pretensão. Você tem filhos. E a cada convite ao embotamento ele dava aquele sorrisinho, como se dissesse: "Eu sei de tudo isso. Mas a questão é outra". (Ele e Martin Luther King e poucos tinham um sonho. E isso é tão bonito, deveria continuar sendo tomado como algo necessário.)

Leio também que se votou em Dilma já sabendo que o agronegócio (e seus tentáculos) era o calcanhar-de-Aquiles de um discurso à esquerda pela reeleição. Com esse fator, não colava. Neste caso eu discordo. Pois se sabia, mas não se sabia. A maior parte da esquerda enterrou sua cabeça de avestruz no pragmatismo e não quis (por medo do pior, nos melhores casos) reconhecer que se estava jogando a questão agrária para debaixo do tapete, a reforma agrária para o limbo, a vida de indígenas para o céu da indiferença.

O que exatamente já sabíamos? É uma questão filosófica. O que exatamente já sabíamos no momento de tomar uma decisão, ou de olhar para determinado fato? Que parte da realidade pinçamos, enfatizamos? Que aspecto iluminamos (ou não), com mais ou menos conveniência? Que pontos repetimos, que discursos sobre o que sabíamos nós expressamos, escrevemos, escanteamos?

Eu sei que 800 ministros da Agricultura patrocinaram um modelo insustentável de apropriação do território e dos recursos naturais. Sei quem manda. Sei quem domina. Sei e bem sei que com Kátia Abreu em um governo do PT teremos 800 ministros em quatro anos, teremos uma capitulação. E é por isso que não se pode sufocar o grito, asfixiar a revolta, naturalizar o escárnio, deslocar a percepção para um ponto político anterior.

E não, não serão o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o Incra e a Funai (estes, diariamente humilhados) que serão contraponto a esse modelo. Soa-me como montar uma salinha de chá para madames no canto de um imenso saloon. Ou como aqueles jovens de Brasília (narrou uma vez Cristovam Buarque) que, em uma lanchonete, jogavam algumas batatinhas ao chão, para que aquelas criaturas famintas as pegassem: crianças.

Eu não sabia de nada. Embora já soubesse. Estou sabendo hoje, ressignificando hoje, pois as batalhas (inclusive as da informação) se vivem diariamente. A cada segundo. Um instante, o mundo. Um instante, a ética. Eu sei que aquele canalha vai atirar aquela batatinha para a criança e vou tentar impedir que ela chegue ao seu destino - ao menos da forma que o canalha escolheu para distribuir seus bens.

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Um comentário:

Daniela Egger disse...

Caro Castilho, estava aqui lendo seu livro o partido da terra.
Parei uns segundos e fui para internet, e claro, entrei no seu blog me deparando com esta matéria da Kátia Abreu. Coincidências a parte, a leitura do seu livro é porque estou iniciando, faz um ano, um trabalho de pesquisa sobre a estrangeirização/mundialização (ainda um entrave metodológico para mim) da agricultura. Quero dizer, faço um trabalho onde me interessa entender as estratégias de aquisição de terras por estrangeiros no Brasil e a situação atual deste mercado e da renda desta terra. Um caso de soberania nacional em primeiro lugar e, um caso de muita expropriação e aumento da violência no campo em segundo, terceiro, quarto, quinto...lugares.
Ainda nas coincidências, a ministra em questão é do partido do TO. Bingo! Estou aqui, justamente, me debruçando nos dados sobre as titularidades e mercado de terras no estado. Números assustadores! Além de valores irrisórios pelo hectare. Terra barata. Como dizem lá em Pedro Anfonso (TO) “estamos falando da ultima fronteira agrícola do Brasil, mas com terra abundante”. Me pergunto: terra de quem?; e abundante para quem?
E, claro, novamente, violência e expropriação das terras...
Embora ela, a ministra em questão, diga que não existe mais latifúndio no Brasil, olhando estes documentos aqui esta difícil não me indignar! A quantidade de terras e, portanto de territórios, sob o controle e propriedade de latifundiários e, principalmente de latifundiários estrangeiros no país, pessoas jurídicas e físicas, é da ordem de centenas de milhares de hectares. E, o Tocantins, junto com Oeste Baiano, Sul do Piauí e do Maranhão constituem a região (MAPITOBA) onde o agronegócio mundializado esta nadando de braçada, organizado nas formas de monopólio da produção e, principalmente, da terra (território) de formas mais variadas! É latifúndio. E dos mais tradicionais. E, claro, contando com o Estado, que tem legislado progressivamente em favor deste processo coroado pelo agronegócio mundial... E tome novo código florestal, Amazônia legal e Kátia Abreu.
Estou, meu caro, em busca de dados. Daqui debaixo de centenas de documentos do Incra, Senado e etc...tentando entender os registros de terras por empresas e pessoas físicas estrangeiras no Brasil. Claro que isso é procurar agulha no palheiro, ou melhor, no mar de soja. Sem contar que tenho apenas dados declarados pelos proprietários. Imagina só os dados não declarados? A grilagem e todos esses sistemas de “aquisição” de terras!
Bom, não vou estender muito. A ideia é trocar informações. Não tenho outro contato além do blog. Então estou aqui em uma tentativa. Vendo sua pesquisa tão rigorosa, imagino que pode ter muitas dicas a me passar.
Ademais, aproveitando a matéria sobre a ministra que faz declarações tão graves...me parece que quando acabar minha pesquisa, os dados da concentração e da propriedade privada da terra em detrimento do aumento da expropriação das populações que tradicionalmente ocupam esses territórios e a violência sobre estes, serão ainda mais assustadores!
Para saber, sou geógrafa, vivo no Rio, essa pesquisa é para o doutoramento que chama “mundialização da agricultura e nó da terra no Brasil”.
Saudações cordiais,
Daniela Egger
(egger.daniela@gmail.com)